12 março, 2006

Breve reflexão sobre a politica editorial da Devir!

O seguinte texto reflecte uma opinião pessoal de um leitor e coleccionador de banda desenhada, que assenta os seus pressupostos, na observação do mercado (não disponho de números) e da leitura que faço do que é escrito em publicações, fóruns de discussão e sites da Internet sobre o assunto.

O recente anúncio semi-oficial (não se encontra nada no site oficial da Devir) que José de Freitas (da Devir) fez no BDJornal de Fevereiro de 2006, relativamente ao cancelamento das edições regulares da Marvel não me surpreendeu. Afinal este desfecho já era esperado. A “evolução” estava em marcha: primeiro os atrasos, depois os adiamentos até que finalmente chegaram os cancelamentos.

Aparentemente, os cerca de mil leitores/compradores mensais não eram suficientes para a viabilização dos títulos. Diz José de Freitas que precisavam de mais de 3000!!!! No entanto, refere (e passo a citar) que “existem alguns títulos com vendas regulares e constantes, que apesar de não atingirem grandes números não representam no entanto grande risco. A maioria dos títulos da Marvel entra nessa categoria”. Pergunta: então porquê o cancelamento?

Curiosamente o anúncio dos cancelamentos coincide com os lançamentos do mês de Janeiro/Fevereiro, onde títulos como “Talismã”, “Freaks”, “Inumanos” ou “30 dias de noite” que me parecem destinados a um público-alvo bastante restrito. Pergunta: será que cada uma destas histórias venderá os 2000 e tal exemplares necessários para justificar a sua publicação?

A Devir propõe agora trocar as várias revistas regulares por um “volume mensal de 120 a 144 páginas”. Pergunto se um volume-um peronagem ou um volume-vários personagens? Eu coleccionador confesso dos títulos do “Homem-Aranha” não me agrada nada fazer uma colecção que não seja inteiramente dedicada a este personagem. Muito provavelmente, a minha relação de coleccionador das revistas da Devir morreu com o n.º 34 do Homem-Aranha!

De registar, que pelo meio, um grupo de leitores da Devir revolveu fazer uma contra-evolução, ou melhor, uma (r)evolução. Apesar de pessoalmente não concordar com o modelo proposto (flip), não posso deixar de aplaudir esta iniciativa, que apesar de aparentemente condenada ao fracasso, não deixou de exprimir o descontentamento dos leitores com as recentes politicas editoriais da Devir.

A Devir que durante alguns anos se mostrou como uma das mais dinâmicas produtoras de banda desenhada em Portugal, começa agora a dar os primeiros sinais de fraqueza. Na minha opinião, algumas situações contribuíram para o actual estado de coisas, senão vejamos:

- A Devir nos últimos anos dedicou-se a “inundar” o mercado de títulos, sendo que muitos deles foram histórias únicas, sem continuidade, de personagens e autores pouco conhecidos. Provavelmente muitos destes títulos não atingiram o limiar da sobrevivência. A aposta em super-herois conhecidos do grande público de forma a consolidar a sua base de leitores foi preterida por apostas no desconhecido. O resultado está à vista. Agora fala-se em “canibalização de títulos”!!!

- a Devir nunca seguiu a mesma linha na publicação de histórias nas revistas regulares. A título de exemplo, a revista “Homem-Aranha” nunca seguiu uma linha de continuidade. Ora publicava histórias da “Marvel Kinghts” ora da “Spectacular Spider-Man” ora da “Amazing Spider-Man”. Obviamente que histórias soltas não fidelizam leitores!!!

- a Devir descuidou um aspecto importante em qualquer publicação desta natureza: a falta de publicidade no interior das revistas. Confesso que nunca percebi porque numa revista com 50 páginas, não existia publicidade. A mim não me chocava nada, ter algumas páginas de publicidade inseridas no meio da revista, aliás, a exemplo do que fazem as editoras americanas, tanto a Marvel como a DC, nos seus títulos, se isso ajudasse a suportar os custos de publicação e manter viável a revista.

- a Devir nunca apostou em produtos complementares como incentivo à compra. Por exemplo, a criação de uma colecção de bonecos, cuja entrega acompanharia a revista, tal como se passa agora em França com a colecção “Marvel Super Heroes Figurine Collection”.

- a Devir lamenta-se que em 2006 não há filmes para potenciar as vendas de bd. Sugestão: e que tal aproveitar a estreia nas salas de cinema de “Uma História de Violência” e de “V de Vingança” para publicar as bandas desenhadas com o mesmo nome, que apesar de serem clássicos da banda desenhada, continuam incrivelmente continuam inéditos em Portugal?

E já agora, José Carlos Fernandes um dos autores portugueses que mais vende, afirma em entrevista, que o volume 6 da "Pior Banda do Mundo" (pronto há dois anos) será provavelmente lançado em Outubro deste ano. Se as coisas estão más, porquê Outubro e não em Junho, aproveitando a realização das Feiras do Livro de Lisboa e do Porto, que tem sempre uma ampla divulgação nos meios de comunicação social? E porque não aproveitar as feiras e o novo livro, para a reedição do esgotadíssimo volume 2 “O Museu Nacional do Acessório e do Irrelevante”?

Muito sinceramente, espero que a Devir continue por muitos e muitos anos a publicar bd no mercado português. Mas depois disto, não sei que caminho vai tomar, só sei que que eu não iria por aí, porque a continuar assim, respondo já ao apelo de José de Freitas para comprar banda desenhada, com uma pergunta: qual banda desenhada?

4 comentários:

Tiago Cardoso disse...

A revolução no mundo da banda desenhada já está a tomar forma.
Um pequeno exemplo disso é:

http://www.mainada.net/comics

Site revolucionario que democratiza a publicação de tiras de banda desenhada.
Qualquer pessoa pode entrar e criar a sua tira.
Estas são julgadas por todo o mundo.
As pessoas podem entreter-se a ver as tiras dos outros.

celtic-warrior disse...

Acho que não se trata de canibalização, mas sim de canabilização (?):D
Concordo contigo. A Devir preciso de mais planeamento nos títulos que lança. Talvez ficaremos na mesma ou ainda pior :S

Só sei é que a Panini já chegou ao FIBDA...

Ferrão disse...

Todas as situações que apontas para o insucesso da Devir são, a meu ver, muito acertadas. É verdade que a falta de coerência e de publicidade numa revista periódica parece impensável.
O lançamento de personagens de 3ª também é muito duvidoso.
Quanto aos filmes estou completamente de acordo, porque não publicar estas 2 BD de sucesso e aproveitar a boleia dos filmes?
Mas como tu espero que a Devir se mantenha por muito tempo, até porque têm lançado algumas coisas muito interessantes.

Anónimo disse...

Eu concordo com muito do que foi escrito no post,tenho o mesmo problema com o homem-aranha,entre outros,mas ja que falaram na (r)evolução eu acrescento que segundo o blog mundo fantasma a devir planeia editar uma revista de 72 paginas com duas capas ou seja flip magazine para completar as historias de x-men e ultimate homem-aranha.

Abracos
Grimlock

P.S:Eu temo o pior com esse novo formato e da ultima vez que fizeram isso os comics duraram 4 numeros.

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