11 janeiro, 2008

"Habituais leitores" vs. "Efémeros leitores"

Na sequência de um comentário colocado por um (fiel) leitor deste blogue, que se identificou como "el gordo", no post que antecede este, acerca da nova colecção do jornal PublicoGrandes Autores de BD – resolvi entrar aqui numa troca de ideias, sobre velhos leitores e novos leitores, que reflecte o estado de coisas da bd em Portugal.

Começo por citar um comentário recente de um responsável das edições Afrontamento, acerca do lançamento dos volumes 3 e 4 da colecção "Peanuts – Obra Completa", que tem um preço de capa de € 23 cada álbum, a referir que estavam bastante satisfeitos com a saída dos primeiros dois volumes, porque "tinham conseguido vender cerca de 2.000 exemplares"!!!

Sendo certo que em Portugal, o sucesso de vendas de um novo álbum de bd ronda os 1.500 exemplares, convenhamos que é para e por causa dos “habituais leitores” que ainda se publica banda desenhada em Portugal. Porquê? Porque são estes os únicos que estão predispostos e porque podem pagar as novidades com preços de capa num intervalo de valores que vai dos €15 aos €30. Também por causa disso, são os "habituais leitores" que esperam e desesperam por novidades e tem as suas prateleiras cheias de colecções de bd incompletas.

Quanto à iniciativa do jornal Público, para uma colecção que não traz nada de novo, não tenho pejo em afirmar que se destina apenas a escoar parte dos stocks da ASA, até porque não há garantias que esta editora, detentora da maioria dos direitos de publicação para Portugal das melhores séries de bd franco-belga, venha a publicar, a título de exemplo, os restante álbuns inéditos da colecção "Thorgal". E não havendo garantias que se completa a colecção qual é a lógica de um novo leitor em inicia-la? Mas, por outro lado, também não me parece que isto seja motivo de preocupação para os "efémeros leitores" a quem a colecção do Público realmente se destina, porque a sua leitura esgota-se aqui, com a vantagem de pagar o preço de um álbum duplo por metade do preço que eu, “habitual leitor”, paguei apenas por um único. A cavalo dado...!

Tudo para concluir que a bd em Portugal é cara porque não há leitores velhos suficientes; e não há leitores novos suficientes porque a bd em Portugal é cara. E por causa deste "pau de dois-bicos" dificilmente se aumentará a base de leitores de bd, até porque a mentalidade dos principais editores portugueses não está virada para a resolução deste grave problema. Preferem antes um retorno rápido do seu investimento à custa (da carteira) dos "habituais leitores", os tais 1.500! Posteriormente, a política de "saldos", "promoções leve 3 pague 2" destina-se mais a despachar "encalhados" do que a conquistar potenciais novos leitores. É por este motivo que esta iniciativa Publico/ASA, por muito louvável que seja em termos de divulgação e distribuição de bd a baixo custo, não deixa de ter um reverso bastante funesto, porque se os "habituais leitores" deixassem de comprar as novidades a "preços de ouro" e esperassem pelo "período de saldos", temo bem que as consequências que daí adviriam seriam provavelmente o fim da banda desenhada em Portugal. É pelo menos esta a minha convicção!

Aceita-se o contraditório!

8 comentários:

Anónimo disse...

"a bd em Portugal é cara porque não há leitores velhos suficientes; e não há leitores novos suficientes porque a bd em Portugal é cara"

E alguma editora nacional ou estrangeira activa ou inativa publicita realmente alguma coisa,as iniciativas com jornais não contam.
Não me parece. Eles so compram os direitos e limitam-se a enviar essas bds para as livrarias ou bancas,muitas vezes sem que os leitores saibam de nada como no caso da Elektra da BDmania,de preferencia no formato mais luxuoso possivel apenas para ganharem mais uns $$$$.
1a-regra de qualquer negocio bem sucedido para ganhar $$$$,é preciso gastar $$$$$.
So para concluir nenhuma editora trabalha em prol do mercado e da criação dos novos leitores.

Grimlock

El Gordo disse...

Contraditório:
Antes de mais, obrigado por aceitar esta saudável troca de ideias. É uma mais valia para quem escreve, para quem comenta e para quem lê qualquer blog.
Gostaria de começar por dizer que quando falei em leitores "habituais" e "efémeros" não me referia apenas àqueles que lêem bd franco-belga. Acredito mesmo que a maioria dos leitores habituais em Portugal são aqueles que, talvez os mais jovens, não têm capacidade financeira para ter uma colecção desse tipo mas que todos os meses compram os comics e as mangas, apesar de, sempre que vão a uma fnac ou mesmo nas lojas especializadas, sentirem curiosidade em saber o que se passa na bd feita na europa. É nesse sentido que as edições promovidas pelos jornais incentivam novos leitores. Mesmo que sejam exemplares "escoados" que nunca irão dar continuidade, acho que é óbvio que a intenção é para que quem leia um número de um "Thorgal", de um "Titeuf" ou de um "Âromm", fique com curiosidade e com coragem para comprar os restantes álbuns da colecção ao preço normal. Antes assim do que nunca haver uma oportunidade destas. E acho que é assumido que é também uma forma de promover o nome do jornal, da editora e dos artistas escolhidos. Mas isso aconteceria se fosse bd, se fossem perfumes ou galos de barcelos. Enquanto leitor, fã e criador de bd, apenas acho que se deve louvar estas iniciativas pela mais valia que têm para o consumidor de bd, independentemente das vantagens para o jornal ou para a editora (que terão de ter, certamente!).
Em relação ao número de edições que referiu acerca dos Peanuts, acredito que tenha sido considerado um sucesso a venda de 2000 exemplares daquela edição. Não só porque eram edições de grande peso (no sentido metafórico e literal) mas porque eram álbuns de histórias publicadas isoladamente e que se revelavam como uma oportunidade única de serem compradas em formato condensado. Acredito também que a maioria desses álbuns tenham sido comprados por adultos, não só porque são do tempo em que o Chalie Brown atngiu o seu pico de popularidade, mas porque, como disse, os jovens não revelam muita capacidade financeira para se atirarem para esses vôos, excepto claro, aqueles que já estão habituados a comprar álbuns de bd acima dos 10 euros.
De qualquer forma, o sucesso de vendas de um tipo de literatura ainda considerada secundária e que, como quase tudo em Portugal, não tem sustentação cultural nem económica, é para mim uma incógnita. E talvez o seja para as editoras também. Daí a necessidade de haver cada vez mais leitores ou, no mínimo, pessoas interessadas, nem que seja pela publicidade que se faz a estas iniciativas, porque "águas paradas não movem moinhos".
Mais uma vez, obrigado.
Um abraço.

El Gordo disse...

PS: Depois de reler a minha resposta, até parece que sou funcionário do Público ou da Asa. Longe disso! Sou apenas um apaixonado pela BD que se regozija pelo simples facto de se fazer alguma coisa por este meio de comunicação cultural que tanto admiro.

verbal disse...

Boas

Também eu sou um apaixonado pela bd em geral e pela franco-belga em particular. E a minha “critica” não se destina à iniciativa do jornal Público, até porque a considero salutar no que respeita à divulgação da bd franco-belga em Portugal, nem que seja pelo preço proposto. Critico sim, a politica, neste caso da Editora ASA, porque nunca a vi a tomar uma iniciativa semelhante relativamente a novos álbuns. Começa sempre por lançar novidades a preços estupidamente altos para garantir “à cabeça” o retorno do investimento e passado algum tempo depois promove então a “época de saldos” para escoar as sobras. Ou seja, verificamos que não existe qualquer intenção ou objectivo em fomentar a leitura de bd e cativar novas gerações, mas sim apenas exclusivamente o lucro, o que convenhamos não fica bem aquela que é actualmente “só“ a principal editora de bd em Portugal. Fica aqui o desafio, porque não começar a lançar as novidades logo ao preço de € 6,90?

Conheço bem a argumentação que as empresas comercias tem como objectivo primeiro o lucro, mas também considero que tal não é incompatível com um espírito altruísta e de trabalho em prol da sociedade, que penso que todas as empresas deviam adoptar. Até porque se a sociedade, neste caso os leitores de bd, por exemplo decidissem boicotar os produtos da ASA, onde é que eles iam buscar o seu lucro?

Portugal já sofre de um problema crónico (quantitativo) no que respeita às edições de bd, e eu pergunto se não há espaço para um revista mensal do género do saudoso “Mundo de Aventuras” ou equivalente? Depois temos um problema agudo pela falta de leitores/coleccionadores de bd, e a politica das nossas editoras (preços altos, séries descontinuadas, colecções incompletas) não vai no sentido de combater este deficit e finalmente a pouca ou escassa divulgação e promoção de bd ou é mal feita (aqui dou o exemplo do FIBDA) ou é feita sempre com segundas intenções (promoções nos jornais).

Em resumo, considero mesmo que o panorama bedéfilo português é mesmo o de uma “água-choca” que é por vezes salpicada por algumas iniciativas (quase que considero audazes), cujas ondas rapidamente se diluem, voltando as águas à sua (irritante) normalidade!

Um abraço

El Gordo disse...

Concluo que temos visões sintomaticamente distintas sobre este assunto. É impensável uma editora vender produtos novos por metade do preço. Assim nunca iria conseguir vender os produtos ao preço real quando deixassem de ser novos. Daí se chamarem "saldos". Também não se compra roupa nova por metade do preço. O preço também é representativo da novidade.
Em relação ao panorama nacional, acho que já esteve bem mais negro do que está. O aparecimento de lojas como a fnac vieram dar um novo destaque à bd enquanto bem de consumo cultural e nunca houve tantos artistas portugueses a criar bd, tanto em Portugal como no estrangeiro.
De qualquer forma, tenho apenas a dizer que se não fosse através de iniciativas do Público não teria todos os volumes do Corto Maltese e do Tintim, exactamente pelos preços que se praticam no mercado. Desta feita, já adquiri o primeiro ("Thorgal") e deparei-me não com um mas com dois volumes ("O Filho das Estrelas" e "Alinoë" - vol. 7 e 8 da série) pelo preço de 6,90€. Para além disso, esta iniciativa tem também o apoio da Bedeteca, essa sim, escondida atrás do sol posto, mas que se esforça por promover a bd em Portugal e que merece o apoio de todos aqueles que gostam deste meio.
Abraço!

Anónimo disse...

"Portugal já sofre de um problema crónico (quantitativo) no que respeita às edições de bd, e eu pergunto se não há espaço para um revista mensal do género do saudoso “Mundo de Aventuras” ou equivalente? Depois temos um problema agudo pela falta de leitores/coleccionadores de bd, e a politica das nossas editoras (preços altos, séries descontinuadas, colecções incompletas) não vai no sentido de combater este deficit e finalmente a pouca ou escassa divulgação e promoção de bd ou é mal feita (aqui dou o exemplo do FIBDA) ou é feita sempre com segundas intenções (promoções nos jornais)."

Extamente o meu ponto de vista,mas para os fas ferrenhos o que importa é o Luxo da coleção,o resto são "PEQUENOS" detalhes.................... :(

Grimlock

verbal disse...

Boas

Claramente desejamos o melhor para a nossa BD, mas pensamos a realidade de forma diferente. Relativamente aos “saldos” gostava de lembrar, a título de exemplo, que nas colecções do “Público” foi possível lançar novidades por metade do preço, concretamente na colecção “Spirou”, onde foram publicados vários álbuns inéditos em Portugal sem que isso tivesse implicado um preço de venda superior ao da restante colecção. Afinal foi possível comprar “roupa nova” a metade do preço!

Quanto ao panorama nacional, mantenho a minha posição. Autores nacionais não há assim tantos a publicarem, e basta ler as opiniões de José Carlos Fernandes (no BDJ) sobre o assunto. Quanto às prateleiras das FNAC’s, elas estão cheias de BD... estrangeira!!!

Mas tudo bem, até porque também vou aproveitar os “saldos” para comprar dois ou três álbuns que na altura achei que não valiam o preço, até porque os que realmente me interessam há muito que os tenho na minha prateleira!

Um abraço

El Gordo disse...

Bom jogo.
Venha o próximo debate!

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