11 dezembro, 2008

Impostos na BD

Reconhecido o papel e a importância da Banda Desenhada como uma linguagem universal acessível a todas as idades, torna-se normal a sua utilização para os fins mais diversos. Dos vários exemplos que poderia citar, vou aqui de falar da iniciativa promovida pelo Estado, através Direcção-Geral dos Impostos (DGCI), com o “Programa de Educação Fiscal”. No sentido de promover junto das novas gerações, uma cultura de responsabilidades individuais e sociais para uma melhor cidadania, este “programa” tem vindo a desenvolver diversas acções junto das escolas e, tendo em conta o público-alvo, a banda desenhada têm sido um dos “veículos” utilizados.

Tratando-se da DGCI o tema, claro está, são os Impostos. Sobre esta temática, já anteriormente José Carlos Fernandes tinha escrito (e desenhado) o álbum de BD “Os Pesadelos Fiscais de Porfirio Zap” (aqui mencionado), mas desta outra obra intitulada “Era uma vez no planeta do respeito por todos” da autoria de Luís Ferrão (texto) e Bruno Bengala (desenho), só agora tive conhecimento.

Num curto resumo, a história passada num ambiente de ficção-cientifica, como todas as histórias, começa por Era uma vez… um planeta onde todos os seus habitantes (os contribuintes) eram felizes(!) porque pagavam impostos (bem todos não, porque acho que o rei… bem adiante), que vivia sobre ameaça dos terríveis “inkumpridores” (os que não pagavam impostos) da galáxia Fraude. Um belo dia, os “inkumpridores” atacaram e começaram contaminar todos os contribuintes com o terrível vírus Aldrabix transformando-os assim em “inkumpridores”. Como resultado os cofres do Rei(no?) ficaram vazios. Foi chamado o Príncipe bom e honrado (o ajudante fiscal do Rei) do clã dos “gente de bem” que rapidamente reuniu um poderoso exército – os honestos – e travou a mais terrível das guerras, saindo vencedores no final da contenda, porque afinal os bons ganham sempre. A coisa acaba em grande algazarra, com todos os contribuintes a celebrarem o facto de voltarem a pagar impostos outra vez!!!

Não desvalorizando a meritória iniciativa da DGCI, até porque concordo que a cidadania começa nos bancos da escola, não posso no entanto deixar de criticar a fórmula utilizada no conteúdo.

Na essência, atendendo ao público-alvo a que se destina – infanto-juvenil, esta acção de sensibilização falha redondamente. Primeiro porque tem uma abordagem negativa. Falha a apresentação de um Estado social, a questão central do “porquê do pagamento de impostos”, reduzida a umas meras linhas de texto, é substituída pelo destaque que se dá à “guerra” entre honestos e “inkumpridores”. Não querendo aqui falar da questão do erro ortográfico da palavra “incumpridores”, realço que as metáforas utilizadas são completamente desajustadas – a luta entre o “bem e o mal”??? O Estado é o Rei??? Pergunto ainda quem são os “bons” quando vemos que perante a visão dos cofres vazios, a opção do soberano seria aumentar os impostos sobre os contribuintes - é que no tempo do Robin dos Bosques, um rei assim era considerado um tirano!!!

Em resumo, um argumento básico, redutor, mal desenvolvido e desajustado face aos objectivos a que se propõe e ainda complementado com uma arte sofrível. Mais, se este livro é um exemplo da forma como o Estado esbanja o dinheiro dos meus impostos, isso dá-me já vontade de ser contagiado pelo vírus aldrabix!

A minha nota:

Edição: Direcção-Geral dos Impostos (DGCI), Julho de 2007


Uma vez que se trata de uma publicação de distribuição gratuita, paga com o dinheiro de todos nós (os contribuintes), publico aqui na íntegra a história (leitura da esquerda para a direita, de cima para baixo), para que cada leitor possa melhor avaliar sobre a forma como o Estado gasta o dinheiro dos nossos impostos (clicar nas imagens para aumentar).















2 comentários:

refemdabd disse...

Meu Deus! Vergonhoso.

Aqui se encontra mais uma prova de que o Estado considera que todos (mesmo as criancinhas) são estúpidos e incapazes de compreender a existência e o propósito deste dever cívico. Aqui se encontra mais uma prova que o Estado, ao invés de nós contribuintes, não sabe para que servem, de facto, os impostos. O Estado é o "Rei"!!!!! Para que é que existe o feriado do 5 de Outubro? Para a malta fazer gazeta, claro. Que o Estado actua, na maioria das vezes, de maneira prepotente e absolutista é sabido e sentido por todos nós. Que o primeiro-ministro se dá a ares de Reizinho iluminado e absolutista, também. Deve ser por isso.

Os miúdos sabem o que é a República...nem que seja por já terem visto a "Star Wars".

Quem paga é Bom e quem não paga é Mau. E quem não paga dentro de um prazo útil e razoável?! Não é bom e nem é mau...é uma merda! Tipo, o Estado. Faz o que eu te digo e não o que eu faço. Dá cá o guito dos impostos do dinheiro que ainda não recebeste de nós, vá...vamos embora, senão...

Aqui está mais uma prova da cáfila de incompetentes que se outorgam como "pessoas de bem". Que assinam o livrinho de ponto e piram-se; ou que, eventualmente, pedem para assinar por eles e nem os pés lá puseram. É que têm família...coitados...estão longe e precisam de ir a casa vê-los...sabe: foram obrigados a estar ali, ao tacho...é uma maçada.

Também é incrível como o Estado se desvincula de muitas obrigações próprias de um Estado de bem, e, quando o tema é "venha vindo o guito, que é bom", tem que se ensinar as criancinhas o sentido de civismo.

ORA F***-SE!

verbal disse...

Epá refém, esse comentário é quase um manifesto anti-Estado!!! ehehehe

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