27 julho, 2015

Leitura: O Árabe do Futuro - Ser Jovem no Médio Oriente (1978-1984)

Vencedor do prémio «Fauve d’or» para melhor álbum na edição deste ano do Festival de Angouleme, a recente edição em português de O Árabe do Futuro, pela Teorema, foi uma completa surpresa. Quando demos por ela, já se encontrava nos escaparates das livrarias. Confesso que quando recebi o livro, passei uma vista de olhos pelas primeiras páginas e não me senti cativado. Culpei um desenho demasiado simples, algo caricaturesco. Quando voltei a pegar, pude confirmar que um livro de BD não vive só do desenho. E a força de O Árabe do Futuro está, sem dúvida, no seu argumento. É uma obra subtil, mas sobretudo corajosa.

Trata-se de uma novela gráfica, género que já ganhou o seu espaço entre os leitores portugueses. De cariz autobiográfico, o autor, Riad Sattouf, um “árabe de cabelos louros”, filho de pai sírio e mãe francesa, relata um período da sua infância, no início da década de 80, quando o seu pai recebe um convite para leccionar numa universidade em Tripoli. É a partir deste momento, que nós, os leitores, embarcamos numa viagem pelas vivências e realidades de um mundo árabe, primeiro na Líbia de Kaddafi e depois na Síria de Hafez al-Assad, onde os níveis de civilização se afastam (e muito) do padrão europeu.

Neste volume, revela-se a integração. Vindos de França, o dia-a-dia de Sattouf e da família nestes países, onde imperavam regimes militares autoritários, é uma realidade desconcertante, difícil de perceber, mas que contado a partir da perspectiva do olhar inocente de criança, reveste-se de uma lógica simples deliciosamente humorística mas que simultâneamente esconde uma critica corrosiva, ou não se socorresse o autor, muitas vezes de pensamentos e pequenas legendas, ou mesmo a figura do seu pai, homem de fé, sonhador e crente no pan-arabismo e no desígnio da nação árabe, mas que guarda um forte desejo capitalista, para ilustrar o absurdo. Percebemos a forte ironia do título da obra, quando observamos que é neste estranho mundo, desprovido de valores básicos e assente num estado de completa falência social, que o jovem Sattouf se prepara para entrar na escola e assim cumprir com o desejo do seu pai de se tornar o árabe do futuro.

Anunciada como uma trilogia, este primeiro volume O Árabe do Futuro – Ser Jovem no Médio Oriente (1978-1984) é uma banda desenhada surpreendente e que se lê num fôlego. Num ano já marcado por boas edições, esta bela surpresa vem confirmar a tendência e elevar a fasquia. Recomendo. Sabendo que segundo volume foi já editado em França, aguarda-se agora pela continuação... em português.

O Árabe do Futuro - Ser Jovem no Médio Oriente (1978-1984)
de Riad Sattouf
Cores, capa mole, 160 páginas
Teorema, 1ª edição de Julho de 2015

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