No rescaldo de três dias na Feira, começo pelo mais evidente: a nova casa da COMIC CON PORTUGAL (CCPT) serve o seu propósito. O Europarque tem espaço largos, bons auditórios e uma zona de restauração que não colapsa à primeira enchente. Para um evento desta dimensão, não é preciso mais. Os dois primeiros dias, quinta e sexta, diz-me a experiência que são os melhores para visitar o evento. A confirmar isto, no sábado, logo de manhã, a fila para entrar estendia-se ao longo da estrada. Mais experiência, quem vai pela banda desenhada, sai de lá sempre bem-servido.
Na edição deste ano, os astros alinharam-se de forma generosa. Dois dos argumentistas mais falados da atualidade, responsáveis por uma das mais faladas revoluções no universo da DC, marcaram presença em Portugal. Juntou-se-lhe um dos melhores desenhadores americanos, e tivemos um alinhamento perfeito de estrelas. A qualidade presente no evento foi tão boa que a ausência de Frank Miller passou de desilusão a um simples lamento. Daniel Henriques, autor português que já trabalhou com Miller, revelou em conversa que o autor americano não estava em condições de fazer a viagem, e que se sente agora em divida para com o festival. Pode ser que a próxima edição em 2028 traga surpresas.
John Romita Jr., Scott Snyder e Jason Aaron ocuparam o espaço e concentraram a atenção toda. Nas conversas, nas entrevistas, nas longas filas para autógrafos, e sempre com uma disponibilidade e simpatia que surpreenderam. Confesso que vinha preparado para um certo distanciamento, aquele gelo habitual que, por vezes, marca a presença de autores americanos no Amadora BD. Aqui, não houve nada disso, antes pelo contrário. Talvez o problema esteja na escolha que fazem dos convidados. Sugeria talvez mais atualidade e menos nostalgia.
Sendo o Homem-Aranha das minhas personagens preferidas, só a presença do enorme Romita já justificava a viagem. O resto foi bónus. Jason Aaron é só argumentista, entre muita coisa boa, do magnifico Southern Bastards, e para quem anda mergulhado na brutalidade de Absolute Batman, recomendo visualização da entrevista a Scott Snyder que publiquei aqui. A Devir que já anunciou a edição do primeiro volume, mas ficando-se pelo anúncio, perdeu aqui na Comic Con um comboio para o qual tinha bilhete.
Como é hábito, também a banda desenhada europeia marcou igualmente presença. Dos franceses, destaco Jérôme Lereculey, desenhador de As 5 Terras, disponível e generoso nos desenhos autografados que fez. Espero que regresse a Portugal. Bastien Vivès é só um dos actuais desenhadores do Corto Maltese no século XXI. Do lado espanhol, Victor Pinel (Peças) e Alicia Jaraba (Longe) confirmaram talento, enquanto Miguelanxo Prado já dispensa apresentações, afinal é, por direito próprio, “prata da casa”.
Nos portugueses, que também picaram o ponto. Finalmente consegui uma It-Girl do André Lima Araújo, tive uma óptima conversa com o Daniel Henriques e claro, visitei a muito talentosa Rita Alfaiate, das minhas autoras preferidas.
Para o fim, fica sempre a mesma pergunta: como é que se mede o sucesso de um festival de banda desenhada em Portugal?
Se for pelos convidados, a CCPT está nos píncaros. Se for pela afluência, a julgar pelos três dias que lá estive, a CCPT é certamente um dos eventos mais populares. Pessoalmente, saí com a certeza de ter vivido uma histórica edição. Ou não tivesse tido o privilégio de conhecer pessoalmente John Romita Jr.







Este texto devia começar com o aparte que se foi ao evento com tudo pago… ajuda a contextualizar os leitores e a explicar o medo de se criticar. O John Romita estava escandalizado como era possível um evento tão mal organizado já ter onze anos… O Scott Snyder estava incrédulo por estar numa estufa sem ar condicionado a dar autógrafos… Mais dois autores que só daqui a 10 anos aceitam voltar a Portugal. Isto é que devia levar a reflexão da comunidade, não é “os bolinhos eram muito bons e até demos as mãos a dada altura”.
ResponderEliminarGostei da T-shirt Star Wars! 😉
ResponderEliminarT-Shirt para uso em festivais :)
EliminarCaro Anónimo, permita-me um breve aparte, não por necessidade, mas por desapontamento. Para um leitor tão assíduo deste blogue, ainda não percebeu que não faço favores. É, aliás, uma forma de estar que me tem rendido o curioso privilégio de ter alguns boicotes por parte de algumas editoras aqui do nosso retângulo à beira-mar plantado. Mas siga porque é para o lado que durmo melhor!
ResponderEliminarQuanto à sua suspeita, lamento desiludi-lo: não disponho desse estatuto de “tudo pago”. As despesas de gasolina (560 km de ida e volta, para quem aprecia números concretos), portagens, hotel, refeições, deslocações e compras, durante os três dias em Santa Maria da Feira, saíram integralmente do meu bolso. Assim sendo, não devo qualquer favor à organização, o que me garante o livre exercício de opinião.
E quando há críticas a fazer, faço-as aqui quando as acho devidas, e no que toca particularmente à Comic Con, até tenho historial… basta ler o que já escrevi no passado e que se encontra devidamente arquivado neste mesmo espaço, para quem tiver curiosidade (ou memória curta).
Já quanto às alegadas queixas dos autores, confesso que as desconheço por completo. “Mal-organizado”? Fico intrigado. Terão existido falhas? Admito que sim. Normal numa primeira edição num novo espaço, que por sinal é excelente. Mas, na qualidade de visitante e leitor de banda desenhada, a minha experiência foi gratificante. Dou por bem empregue o dinheiro que gastei.
Interação com autores? Brutal. Conversas? Fantásticas. Descontentamento? Nem uma gota. Disponibilidade e simpatia, sobretudo por parte dos convidados americanos, a um nível que raramente observei por parte dos americanos (como aliás escrevi). Bastaria ter estado presente no Meet & Greet com John Romita para perceber que qualquer “escândalo” terá ficado, com toda a probabilidade, retido à porta.
E no fim, é isso que interessa: a experiência do visitante. E nessa matéria, entre portugueses, espanhóis e demais pessoal com quem falei, não encontrei um único insatisfeito. As reflexões que sugere, deixo-as, com todo o gosto, para quem organiza, que terão certamente informação que me escapa.
Da minha parte, por aqui, continuarei a fazer o que sempre fiz: opinar livremente sobre o que observo e sobre o que me apetece.
Caro Anónimo,
ResponderEliminarPor princípio, não participo em conversas estéreis. Só as oiço. E também não falo do que não sei. Prefiro estar calado.
Não basta afirmar algo para que esse algo seja verdade. Caso contrário, passamos a lidar só com o Chega e com o Trump.
Dito isto, fui à Comic Con, moderei quatro painéis (John Romita Jr. Jason Aaron, Bastien Vivès e Jérôme Lereculey) e tive uma entrevista privada com Scott Snyder. Ninguém me pago a deslocação, alojamento ou refeições. Privei com Romita Jr (muito expansivo e extremamente simpático), com Aaron (muito simpático, mas tímido) e com Lereculey (muito simpático, tal como a mulher). Nenhum deles parecia entediado, desiludido ou desagradado. Aliás, tanto o Romita como o Lereculey expressaram a vontade de voltar. No sábado, só o Romita despachou 250 dos seus desenhos e esgotou os posters que tinha trazido, também para levar para a Cidade do Cabo, onde já deve estar.
Quanto à organização, a única crítica relevante a apontar é não terem colocado caixas multibanco no recinto. De resto, as sessões de autógrafos correram ordeiramente, os painéis (de BD) estiveram muito concorridos, inclusive com pessoas em pé. E a zona de restauro (ao ar livre, mas com coberturas) tinha estabelecimentos variados.
Quanto à BD, o alinhamento (com Miller ou sem ele) foi incontestavelmente de luxo, dificilmente repetível e para vários gostos (não para todos pois isso é impossível).
Já agora, caro Anónimo, foi à Comic Con deste ano?
Aproveito para desejar-lhe boas leituras e… bons festivais.
Caro Francisco Casto
ResponderEliminarSou fã das suas críticas literárias neste blog, mas este seu comentário, na parte em que chama por aspetos políticos numa "discussão" sobre condições de um festival literário, é dececionante.
O resto da sua resposta é mais que suficiente para mostrar que a opinião antes partilhada pela outra pessoa talvez não seja a mais correta e informada.
Quanto aos visados na parte politica, talvez o Francisco seja daquele grupo de pessoas de esquerda que sofre de esquerdopatia, entendendo que todas as opiniões são válidas em democracia desde que sejam concordantes com as suas.
Democracia é aceitar que existam outras opiniões e que uma vezes são eleitas para o poder as vozes com que concordamos e outras vezes não, mas felizmente sabemos que haverá alturas em que, por voto, as vozes no poder podem mudar.
Espero por mais das suas críticas literárias, onde, claramente, o melhor de si está sempre presente.
Pronto, se os caríssimos gostaram de entrevistar os autores é sinónimo que eles gostaram do evento? Excelente raciocínio esse de facto. Eu não preciso que acreditem em mim, tudo o que levanto é com o objetivo do evento ser melhor e ter melhores autores em 2028, o que por este caminho não vai acontecer. Acho engraçado que se levante a suspeita que eu nem sequer estive no evento só porque não tenho um vídeo no YouTube a entrevistar o Scott Snyder. Pelos vistos o caríssimo acha que o público alvo do evento são os YouTubers. Fica registado. Este evento tem vindo a deteriorar-se de edição em edição e não é com a mentalidade “ele até sorriu” que se resolve problema algum. Em 2024, a Comic Con tentou estabelecer uma colaboração com a Scott’s Colectables, que representa dezenas de artistas internacionais, e eles trouxeram o Frank Cho e o Ryan Ottley. Foi um desastre, eles odiaram toda a experiência e juraram que nunca mais. Isto invalida que o evento tenha grande parte dos artistas americanos mais relevantes do momento. Este ano, o Romita estava chocado por ninguém saber que ele ia ter uma banca no evento, achava impossível este evento ter mais de dez anos… Se querem acreditar que Portugal é campeão do mundo e eles adoraram estar ao sol sem água, não vos vou tentar convencer do contrário. Só digo que não é assim que os autores vêm a Portugal. Quantos autores internacionais retornam a Portugal no espaço de 10 anos? Acham que é porque gostam tanto da experiência que não querem estragar a memória? Lol. Mas espero que estejamos cá todos para vermos quem tem razão. O Romita este ano vai pela terceira vez à CCXP no Brasil em seis anos. Vocês dizem que ele volta e que o Miller vem em 2028. Eu digo-vos já que nada disso vai acontecer. O tempo o dirá. Este não é um problema só da Comic Con, podíamos falar da experiência do Guarnido no AmadoraBD, que exigiu voltar para casa mais cedo, o homem ainda tem calafrios com Portugal… Mas pronto, o nosso peixe é o melhor do mundo não é?
ResponderEliminarQuem não vem de certeza e Gerry Conway e Sam Keith rip,
ResponderEliminarCaro Anónimo,
ResponderEliminarEm primeiro lugar, agradeço-lhe ler as minhas "críticas literárias" com atenção e gosto.
Mas devo dizer-lhe que não me leu bem em diversos aspectos da réplica que lhe dei.
Não chamei por aspectos políticos numa "discussão" sobre condições de um festival literário. Simplesmente frisei a postura semelhante de dois actores que têm postura semelhante quando querem convencer. E, caro Anónimo, também a sua réplica demonstra bem o que acabo de dizer pois, tal como eu não posso deduzir a sua cor política, também o meu caro não pode. Poder pode, e fê-lo, mas errou. Não faço parte do "grupo de pessoas de esquerda que sofre de esquerdopatia". Felizmente que utiliza o termo "talvez" nessa sua afirmação. Mas, lá está, é uma afirmação atirada para o arassem substância nem qualquer veracidade.
Quanto à pluralidade de opiniões, não posso estar mais de acordo. Mas opiniões não são necessariamente factos, e foi isso que tentei expressar.
E sim, gostei de entrevistar todos os autores (algo que nem sempre acontece). Tive sorte e as escolhas da Comic Con foram boas. Mas não me tome por tão básico, que me renda a sorrisos e elogios. São coisas que não me cegam. Se a Comic Con tem muito para melhorar? Tem! Mas não é isso que transforma o evento deste ano num fiasco, porque, em relação à BD, não o foi. Aliás, os editores portugueses de BD deviam ter todos ido ao evento, para melhor perceberem o tipo de público que ocorre às centenas a determinado tipo de autores.
Por fim, em relação a ter um vídeo no YouTube em que entrevisto o Scott Snyder, não fui eu que o fiz nem o publiquei. E também não acho que o público alvo do evento sejam Youtubers. Como poderá constatar facilmente, não me encontra em alguma rede social e, actualmente, a única exposição a que me sujeito é a da assinatura nos meus textos e a proporcionada pelas entrevistas que vou fazendo.
Quanto à Comic Con e a outros festivais de BD, estamos em sintonia. Ambos queremos que sejam cada vez melhores.
Espero ter esclarecido algumas das dúvidas suscitadas pelas suas afirmações.
Caro Francisco Castro
EliminarObrigada pela elegância da resposta, que creio estar à altura do que leio da sua parte na generalidade deste blog, que adoro.
O Anónimo das 10:25 de ontem.
Caro Anónimo, queria recordar que o seu primeiro comentário referia um alegado “medo de se criticar” porque supostamente teria ido à Comic Con a expensas da organização. Ainda bem que sobre este assunto estamos esclarecidos. Ninguém daqui foi com “tudo pago” e a experiência foi desfrutada apenas do ponto de vista do comum visitante. E é justamente nesta qualidade que posso avaliar o evento. E posso dizer sem problemas que gostei bastante. E como já afirmei várias vezes, quem vai pela banda-desenhada, fica bem-servido. Quem vai pelo cinema e/ou televisão aí já manifesto algumas reservas, mas cada um terá as suas expectativas.
ResponderEliminarAgora não disponho de qualquer informação relativo a um mal-estar dos autores, que pelos visto só afecta os americanos, dado que relativamente aos franceses, espanhóis e portugueses não houve qualquer referência.
Relativamente à questão da banca do Romita, concedo que houve falha na comunicação por parte da organização, mas falamos aqui de uma situação que foi prontamente resolvida. O Romita desde 5ª feira que tinha a sua banca montada, com cartazes, e em sítio central. No que concerne à entrevista com o Scott Snyder, houve uma oportunidade com tempo limitado a 5 minutos. Pensamos que seria bastante interessante abordar o universo Absolute Batman, atendendo que é dos títulos que vindo a liderar os tops de vendas no mercado americano. Forma de registar a entrevista? Vídeo. Vê quem tiver interesse, quem não tiver siga em frente!
Agora sobre ao “bastidores” do evento. Não disponho das informações que refere relativamente à insatisfação de Frank Cho ou Ryan Ottley, e o mesmo se passa com qualquer queixa este ano. Posso aceitar que uma coisa ou outra não tenha corrido bem, mas custa-me a acreditar que sejam de uma gravidade que ponha em causa convites futuros. Basta ver olhar para folha de presenças das onze edições da Comic Con para facilmente se concluir que há muito bom trabalho feito em termos de autores. E podemos falar aqui tanto do mercado americano como do mercado franco-belga. Não subscrevo a ideia de que o evento não consiga trazer “artistas americanos mais relevantes do momento”, senão como foi possível reunir em Santa Maira da Feira, e na mesma sala, o trio Romita-Snyder-Aaron?
Pergunta quantos autores internacionais retornam a Portugal no espaço de 10 anos? Se falarmos de autores europeus, temos vários; se falarmos de nomes americanos, pergunto se se se justifica a repetição? Somos um mercado de 10 milhões, onde seremos cerca de cinco mil leitores regulares de banda desenhada (e estou a ser generoso). Vale a pena virem sempre os mesmos americanos? Claro que gostaria de contar com a presença de novo do Romita, mas se acredito que vá acontecer? Não. Porque simplesmente não se justifica. Há outros nomes “novos” a conhecer. E qualquer comparação com o mercado brasileiro é irrealista e desproporcionada.
Agora uma coisa é certa, não encontramos, e muito provavelmente não vamos encontrar em mais nenhum outro evento em Portugal, os nomes que encontramos na Comic Con. E só por isso, devemos querer bem a este evento. E, portanto, aqui tendemos a concordar, queremos um evento melhor e ter os melhores autores em 2028.