Tic...tac... Faltam ainda dois meses para que as portas se abram à 37ª edição do Amadora BD, o evento que encerra a temporada dos grandes festivais de banda desenhada em Portugal. Os preparativos já estão em curso, e algumas novidades justificam fazer aqui este breve prelúdio.
O Espaço
Não é difícil perceber que será mais um ano onde a Câmara responsável continua em modo poupança relativamente aquele que eles próprios anunciam como "um dos eventos da 9.ª arte mais participados em Portugal". Nenhuma melhoria significativa, entenda-se nenhum investimento de relevo ao nível logístico do evento. O núcleo central ameaça perpetuar-se nas limitadas instalações do denominado Parque da Liberdade, na Damaia.
Para a festa junta-se a já tradicional tenda, que aloja a zona comercial do evento, e a insistência em mais dois locais descentralizados, na Bedeteca da Amadora e na Galeria Municipal Artur Bual, cuja localização e horários, sobretudo ao fim-de-semana, não constituem qualquer mais-valia para o festival, sobretudo para os visitantes que chegam de fora.
Não queria passar por excessivamente amargo, mas a verdade resiste a fantasias. Falta ali um espaço a sério para receber autores, para conversas e apresentações. Seria impossível, por exemplo, acolher nomes de calibre como Didier Conrad ou Fabcaro, autores que encheram uma sala de cinema com mais de trezentos lugares no Corte Inglês em Outubro do ano passado. A realidade, essa triste companheira do evento, é que o maior festival nacional de banda desenhada continua reduzido a um barraco e uma tenda!
As Exposições
Agora, pela informação já divulgada sabe-se que a edição deste ano será, mais uma vez, uma espécie de festa de aniversário colectivo, com vários aniversariantes. Uns mais populares, outros nem por isso.
Promete-se celebrar os 80 anos de Lucky Luke (dizem que com originais de Morris que valem sempre a visita); outros 80 da dupla Blake & Mortimer, com destaque para o trabalho do desenhador Peter Van Dongen; mais os 65 anos do Quarteto Fantástico, que traz a Portugal o argumentista Ryan North e o ilustrador Iban Coello; os 40 anos de Dylan Dog e os 25 anos do Menino Triste de João Mascarenhas.
Encontrou-se espaço para uma retrospetiva de Guy Delisle e exposições de autores como Josep Homs (desenhador da saga de fantasia Shi editada pela Ala dos Livros), Mansoureh Kamari (da obra As linhas que traçam o meu corpo, edição da Arte de Autor), Thomas Gilbert (da obra As Raparigas de Salém, edição da Arte de Autor), e Patrícia Costa com as suas Crónicas de Enerelis. Todos estes autores são convidados do festival.
Podemos questionar algumas das escolhas, mas a lógica seguida de autor com exposição e livro editado é claramente vencedora.
Os Prémios
As novidades principais na edição deste ano, centram-se nos Prémios de Banda Desenhada da Amadora (PBDA) promovidos pelo Festival. O novo regulamento introduz desde logo algumas alterações. Umas bem feitas, outras nem por isso.
Começa por manter um júri composto apenas por três elementos, o que já se sabe é manifestamente curto. Para a sua composição, deixou-se cair, e bem, a figura do “representante indicado pelo Clube Português de Banda Desenhada”, um clube muito discreto com uma presença nas redes sociais bastante irregular para não dizer praticamente sem actividade. É substituido agora pelo “Autor(a) vencedor(a) no ano anterior, na categoria de Melhor Obra de Banda Desenhada de Autor Português”, o que não melhora. Continuamos mal. E porquê? Obriga-se um autor a exercer função de jurado sem garantir que esse mesmo autor seja, assumidamente muitos não o são, um ávido leitor de banda desenhada. Fica com um peso que não pediu, com a responsabilidade de escolher entre as várias centenas de obras publicadas em Portugal munido apenas de boa-vontade e gostos pessoais. Não será certamente o que se pretende.
Passamos à categoria de Melhor Obra de Banda Desenhada de autor português. Continua cheia de lacunas. Falta as menções a "obra original" e “editada originalmente em Portugal”. Não se querem reedições e devia-se acautelar situações que diria de absurdas como por exemplo a verificada no recém-criado Prémio Nacional de Banda Desenhada do Ministério da Cultura em que a Obra do Ano vencedora é… uma obra brasileira!!!! Depois não se tornou aqui condição que apenas elegíveis obras cuja história tenha no mínimo trinta páginas em banda desenhada. Mais uma vez acautelar o óbvio: há uma grande diferença entre um livro com uma história de trinta paginas e um livro com três histórias de dez páginas cada. Se o objectivo é credibilizar a obra portuguesa, é preciso não confundir a "estrada da beira com a beira da estrada".
Agora, infelizmente, o regulamento, manteve a categoria de Melhor Edição Portuguesa, quando se podia ter aproveitado para destacar quem faz livros: o editor/editora. Premeia-se autores, premeia-se obras e esquecem-se desta verdade de La Palice: sem editor, não há livro. Mais que se justificava um ‘Melhor Editora Nacional’ muito mais do que se considerar “a qualidade, o rigor e a nobreza dos materiais utilizados na edição física, eventuais conteúdos adicionais à obra…” Quem é que escreve estas coisas?? Não obstante, a organização dos PBDA decidiu aqui, relativamente à obra vencedora desta categoria, premiar a respectiva editora com o compromisso por parte do município em adquirir 100 exemplares desta edição. Resta saber se a edição for assim tão boa como se espera, se haverá 100 exemplares ainda disponíveis!
Agora a parte boa e de aplaudir. Os reforços. O valor pecuniário a atribuir à ‘Melhor Obra’ duplicou e vale agora €10.000. E pela primeira vez, é atribuído um prémio pecuniário de €3.000 ao ‘Autor Revelação’. É um incentivo excelente à produção nacional. Nota máxima aqui.
A Inútil tenda
Outra novidade será a existência pela primeira vez, de um Artist Alley, (continuo sem perceber a necessidade do uso destes estrangeirismos bacocos), um espaço dedicado a autores e criadores independentes com projetos ligados à cultura pop, banda desenhada, ilustração e animação. Funcionará naquela tenda adjacente destinada ao chamado 'gaming'. É a melhor forma que descobriram para darem alguma utilidade aquele triste espaço!
A 37º edição do Amadora BD acontece entre 15 e 25 de Outubro.
Os Autores
Quanto aos autores estrangeiros convidados desta edição, entre estreantes e repetentes, encontramos bons nomes. Quero acreditar que a lista encontra-se ainda bastante incompleta, até porque apostaria na presença, por exemplo, de um autor italiano do Dylan Dog, a acreditar na forte aposta que a editora A Seita tem feito nas histórias deste personagem. E também há um autor que tem um livro sobre o ginseng que está na calha. Mas para por agora retemos os seguintes nomes:
Romain Renard (Rever Comanche), Josep Homs (O Diabo e a Coral, Shi), Peter Van Dongen (Blake e Mortimer), Mansoureh Kamari (As Linhas que Traçam o Meu Corpo), Guy Delisle (O Guia do mau pai, Crónicas de Jerusalém, Crónicas da Birmânia, entre outras), Thomas Gilbert (As Raparigas de Salém), Sydney Gusmão (Domingos [com lançamento no festival]), Ryan North e Iban Coello (que assinou algumas capas do título Amazing Spider-Man).


5 comentários:
Excelente análise
O Artist Alley está presente em todos os festivais pelo mundo fora, permite valorizar o trabalho dos artistas e acaba com a vergonha de ter os autores a fazer malabarismo com o seu material no cubículo que lhes é atribuído. Era ridículo que o espaço da BD fosse para as editoras pôrem cartazes e posters gigantes, sem espaço nem respeito por mais ninguém, a Kingpin o ano passado enfiou um banner gigante a tapar a fila para os autógrafos e ninguém teve sequer coragem de levantar a voz ao dono. Já se tinha escrito aqui o quanto os artistas ficavam estupefactos com aquela distribuição e com a forma como eram tratados. A criação do Artist Alley é com certeza uma resposta a isso. Quanto o espaço em si, sim é uma vergonha ainda estarmos em barracões. Fica a pergunta por que razão não há nunca investimento das editoras? Os convidados são pagos a cem por cento pelo erário público para os privados ganharem dinheiro. Basta ver que em Agosto e Setembro já ninguém edita livros para conseguirem ter 20 livros fresquinhos a sair livres de impostos na Amadora. Por que não retribuirem um pouco à sociedade?
Caro Isaltino, eu estou familiarizado com o conceito do "Artist Alley". Agora numa país com uma língua tão rica, acho ridículo o festival socorrer-se de um estrangeirismo para designar o espaço dos artistas autores. Agora considero que é uma excelente solução para tapar a aberração que foi de trazer o dito "gaming" para um festival dedicado 100% à banda desenhada. Estou à vontade com isto porque desde da primeira hora que achei a ideia completamente parva!
Quanto à edição dos livros, por acaso nestes meses de Verão até temos tido um boa produção, embora não comparável ao restantes meses do ano. Mas sim existe um política comercial das editoras de aproveitarem o palco do festival para os últimos lançamentos do ano.
É preciso perceber que existe um grande impacto económico positivo para as editoras quando se evita a intermediação das livrarias. No festival vende-se directamente do produtor ao consumidor!
Nuno, o mais ridículo na área de de videojogos (assim como no CoimbraBD) é que quase não existem jogos de personages de BD (acho que existe um ou dois nas arcades) é tipo haverem vários pcs e consolas num estádio de futebol e não haver nenhum jogo de futebol. Nos últimos anos têm sido lançados vários jogos de personages de BDs que estão atualmente a ser editadas em Portugal, tanto comics americanos como franco belgas como mangá.
Essa área está ao ano após ano deslocada do evento. Bastava por exemplo uma consola/pc com um jogo de uma personagem de BD ter lá um papel com as capas de alguns volumes e a dizer "as BDs estão à venda na banca X e Y, estás à vontade para ir lá folhear o livro", ou outra coisa qualquer para ligar essa área ao resto do evento. Mas a área de videojogos nos eventos de BD em Portugal são sempre um desapontamento para os fãs dos dois mundos.
Caro Anónimo, eu sempre achei esta tenda um aposta falhada num evento como o Amadora BD. Muito me ri quando lia por aí que que o gaming era um chamariz que ia atrair novos públicos ao festival e com isso possivelmente a bd ganhar novos leitores. Nota-se! Lembro-me de ter entrado no dito espaço no ano passado, e estavam lá mais moscas que jogadores! Alias toda área de videojogos era de uma pobreza constrangedora. De outros eventos só conheço a da Comic Con Portugal e também considero-a muito fraquinha. Acho difícil juntar-se os dois mundos.
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