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quarta-feira, 31 de dezembro de 2025

O ESTADO DA ARTE EM 2025

Análise do Mercado Editorial Nacional de Banda Desenhada

Introdução

Prestes a fechar 2025, é impossível não olhar para trás e reconhecer que foi um ano marcante para o mercado editorial português de banda desenhada. O grande acontecimento, sem margem para qualquer dúvida, foi o lançamento, em Outubro último, da 41º aventura de Asterix e Obelix, que trouxe finalmente os irredutíveis gauleses até terras lusitanas, e os próprios autores, Jean-Yves Ferri e Didier Conrad, a Lisboa. A editora ASA preparou uma tiragem inicial impressionante de 80.000 exemplares que não chegou para as encomendas. Em quatro dias vendeu mais de 30.000, e dois meses depois, Asterix na Lusitânia vai na sua quarta edição, com mais de 150.000 álbuns vendidos. É um dos maiores, senão mesmo o maior, sucesso editorial de sempre no campo da BD, e indiscutivelmente o livro mais vendido do ano em Portugal.

Outra nota que vale a penas destacar foi o forte crescimento da edição de manga, que pela primeira vez superou a BD franco-belga em número de edições. Por uma questão de simplificação, junto manga, manhwa e manhua sob a designação genérica “manga” para identificar as obras oriundas de mercados asiáticos. A diferença foi pequena (+1%), mas simbolicamente importante. Com efeito a edição de manga representou 39% da oferta total registada, muito alavancada no excelente desempenho da editora Devir, que teve em 2025 um ano verdadeiramente histórico, acompanhada pelo forte crescimento da oferta por parte das editoras Distrito Manga e Editorial Presença. Mas já volto a este assunto. 

Agora vamos aos números!

O MERCADO

Para 2025, a expectativa era saber como reagiria o nosso mercado editorial depois de um 2024 considerado como o melhor de sempre. O resultado? Surpreendentemente estável. Foram contabilizados 382 lançamentos de livros/obras de BD (ver Anuário), no formato físico (e contagem pelo ISBN). É verdade que representa uma pequena quebra de 1% face ao ano anterior, e interrompe assim um ciclo de quatro anos consecutivos de crescimento, mas mesmo assim faz de 2025, o segundo melhor ano de sempre.


Da análise que podemos dizer que temos um mercado que se mantém concorrencial, onde encontramos um top-10 de editoras que garante 73% da oferta total, que se encontra dividido de forma equilibrada entre editoras independentes, que representaram 44% da oferta, as chancelas dos grupos editoriais, como a Penguin, Leya, Porto Editora e Presença, responsáveis por cerca de 29%. A restante oferta foi assegurada  por pequenas editoras ou chancelas com 10 ou menos livros editados. 

Por mercados de origem, foi a confirmação da tendência dos últimos anos, com a edição de manga (39%) a superar os números da bd europeia (38%), excluindo aqui Portugal. Assim, em 2025 o mercado nacional surge bipartido, com o manga e a BD franco-belga, juntos a somarem 77% dos lançamentos, e a confirmarem estas duas “línguas gráficas” como eixo central da oferta

A BD portuguesa surge na terceira posição, com 49 lançamentos (13% da oferta), com uma concentração de novos títulos sobretudo a partir de Abril, e com picos nos meses ligados à realização dos festivais nacionais de banda desenhada. Um número em linha com o referencial dado pela média dos três últimos anos (50 títulos). Relativamente à BD norte-americana, apesar dos números relativamente baixos, mantém a sua regularidade com uma oferta próxima dos 10%.

No que toca a categorias, de destacar a publicação de banda desenhada destinada ao público infanto-juvenil, que continua como uma das apostas mais fortes no nosso mercado, com 15% da oferta concentrada sobretudo nas chancelas dos grupos editoriais. Pela negativa, géneros como western (1%), super-heróis (2%) ou ficção-cientifica (7%) continuam a não merecer uma grande atenção por parte das nossas editoras. 

No calendário editorial, observa-se um forte alinhamento dos lançamentos com os meses de realização dos festivais nacionais de BD. O ano iniciou-se de uma forma moderada, e concentrou-se sobretudo a partir de Abril e foi em crescendo até ao pico verificado em Junho (45 lançamentos), beneficiando da realização dos festivais de Coimbra BD (Abril), Maia BD (Maio) e Beja BD (Junho). Segue-se uma quebra normal típica dos meses do Verão, e depois novo pico em Outubro (49), desta coincidente com a realização do Amadora BD. Dezembro voltou a fixar-se como o mês mais fraco (11) justificado pelo elevado numero de lançamentos que se verificam nos dois períodos que antecedem, e que concentraram quase 25% da oferta anual. 


Em 2025, o cabaz completo, composto por todos os 382 lançamentos de BD, apresentou um custo total de € 6.640,71 com o preço médio de um livro de BD a fixar-se em € 17,38. Valores em linha com os verificados no ano anterior, o que pressupõe uma estabilização de preços. Em termos de preço de capa, o livro mais barato contabilizado foi uma edição da livraria/editora Sétima Dimensão (Madeira) por € 5,00 e no extremo oposto, encontramos como a edição mais cara, o segundo volume do integral Fábulas das Terras Perdidas da editora Arte de Autor com o preço de € 49,00. Assinala-se que o valor de venda mais praticado, mais uma vez, foi de € 9,99, novamente ditado pela editora Devir e pelas suas edições de manga.


AS EDITORAS

Em 2025, tivemos cinco dezenas de editora/chancelas activas no mercado português. Contabilizam-se aqui todas aquelas que editaram pelo menos uma obra de banda desenhada, com ISBN atribuído. Conforme já referido no top-10 observa-se uma distribuição equilibrada entre editoras independentes e chancelas integrantes de grupos editoriais. Volto a referir que não existe informação disponível acerca de tiragens e valores de vendas, pelo que o “peso” da cada editoras é aqui definido em função do número de novos lançamentos de cada uma face ao total do mercado. 

Sem surpresa, no topo das editoras nacionais, e pelo quinto ano consecutivo, encontramos a DEVIR. A novidade é dada pelo forte crescimento da sua oferta (+42%), que totalizou 91 novos títulos (dos quais 83 de manga). Um número que constitui um marco histórico para a editora, num ano em que reforçou o seu catálogo com BD de origem franco-belga e novos títulos americanos. Nos seus títulos mais vendidos encontramos as séries One Piece e Dragon Ball. Sozinha, a editora representa 24% da oferta total. 

Na segunda posição, encontra-se a editora ASA, pertencente ao grupo Leya. Também sem surpresas, uma vez que repete o lugar do ano passado. Cabe-lhe uma quota, em termos de lançamentos, de 10%. Apesar da quebra no número de lançamentos em relação a 2024, fica como a editora que mais vendeu em 2025, graças ao seu Asterix na Lusitânia

A fechar o pódio de 2025, temos duas editoras em ex-aequo: a DISTRITO MANGA (grupo Penguin) e a LEVOIR com 25 lançamentos cada. A primeira apresentou a maior taxa de crescimento entre todas, com um aumento de 67% da oferta. Com um catálogo assente na edição de manga, encontramos os títulos Blue Lock e o primeiro volume de Sailor Moon como os seus mais vendidos do ano. Segue-se a Levoir, que apesar da sua forte quebra (-40%), manteve uma aposta regular em novelas gráficas que lhe garantem a terceira posição neste pódio. 

O top-10 completo é dado pelo quadro seguinte: 

De mencionar a queda das editoras Gradiva e G.Floy. A primeira foi integrada no catálogo da editora Guerra e Paz, sendo por enquanto uma incógnita o futuro do seu catálogo de BD. A segunda vai mantendo, por enquanto, uma presença residual em Portugal. 

Observando numa óptica de grupos editoriais, temos a Penguin Livros a dominar com 53 lançamentos, resultado da actividade das suas sete chancelas que editaram banda desenhada; na segunda posição, encontramos a Leya, com cinco chancelas e 47 lançamentos; e na terceira posição a Porto Editora, com três chancelas e 27 lançamentos, e a fechar este top, a Editorial Presença, com três chancelas e 25 lançamentos. 

 

OS CANAIS DE DISTRIBUIÇÃO

Sem valores torna-se difícil estabelecer com rigor qual o principal canal de distribuição da banda desenhada em Portugal, mas atendendo aos hábitos de consumos dos portugueses, pode-se adivinhar que as livrarias físicas, tanto das grandes cadeias de distribuição ou independentes, continuam a ser o principal ponto de venda de BD em Portugal. No entanto, cresce o peso das vendas diretas online e das vendas em eventos, um modelo que apresenta a grande vantagem financeira de eliminar os intermediários na cadeia editor-leitor. 

OS FESTIVAIS DE BD

Todos os principais festivais nacionais de BD realizaram-se em 2025, à exceção da Comic Con, que foi adiada para 2026. Uma oferta complementada com outros pequenos eventos, mostras e mercados, que foram acontecendo pouco por todo o pais, incluindo os Açores (Ponta Delgada). Continuamos, no entanto, com uma grande concentração de festivais no segundo trimestre do ano (Coimbra, Maia e Beja), e depois um hiato até finais de Outubro quando acontece o Amadora BD. A sobreposição de datas prevista para 2026 (Coimbra BD e Comic Con no mesmo fim de semana), a realização do Maia BD praticamente colado ao Beja BD e as vantagens do mês de Setembro para o Amadora BD, mostra que talvez seja tempo de repensar o calendário nacional para uma melhor promoção da banda desenhada em Portugal.

OS CANAIS DE DIVULGAÇÃO

As redes sociais continuam a ser o canal privilegiados de divulgação das novidades por uma grande parte das editoras, quer seja através das contas próprias e/ou por intermédio de divulgadores com quem uma grande maioria destas mantém uma colaboração activa. Uma das formas de medir o alcance ou eficácia da divulgação será pelo número de visitantes. Socorro-me outra vez de números.

Tomando este espaço de divulgação como exemplo, porque tenho os dados, posso afirmar que no que toca à procura por informação sobre BD, o ano que agora termina foi verdadeiramente extraordinário. A verdade é que, sem grande espalhafato nem fogo-de-artificio, o blogue NOTAS BEDÉFILAS quebrou a barreira dos 2 milhões de visitantes algures em Julho, e, desde então, já acrescentou mais 244.000 e fecha o ano de 2025 com mais de 400.000 visitas (uma taxa de crescimento de quase 58% face ao ano anterior), o que dá uma média superior a 33.000 visitantes por mês. O melhor resultado de sempre. Confesso que não é o que me move, mas fico naturalmente satisfeito com estes números, e sobretudo agradecido pelo interesse no trabalho de divulgação aqui feito. 

E porque está tudo ligado, o grupo BANDA DESENHADA PORTUGAL (facebook), de partilha de toda a informação relacionada com o universo de banda desenhada alcançou os 10.000 membros, sendo um dos maiores espaços portugueses virtuais dedicados à BD. Assim, uma das conclusões que podemos retirar destes números, é que reflectem bem a vitalidade do nosso mercado: mais oferta, mais informação, mais leitores.

O DIA NACIONAL DA BD PORTUGUESA 

Quanto ao celebrado Dia da Banda Desenhada Portuguesa, passou, mais uma vez, completamente despercebido, sem quaisquer iniciativas de destaque por parte das editoras, e um silêncio absoluto na comunicação social. A própria Sociedade das Belas-Artes, cuja data de reconhecimento da BD como uma das artes superiores, que tanto entusiasmo histérico despoletou por essas redes sociais fora, nem uma referência teve, um pouco à semelhança do que (nada) faz pela divulgação da Banda Desenhada em Portugal ao longo do ano. Talvez a partir de 2026, a data ganhe alguma relevância dado que o governo criou o Prémio Nacional de Banda Desenhada com um valor monetário de 30 mil euros, e a Ministra da Cultura prometeu que a divulgação anual dos nomes dos premiados será feita precisamente no dia 18 de Outubro. Pronto, na falta de melhor temos o anúncio. 


Conclusão

Fechamos assim 2025 com o retrato de um mercado de BD equilibrado, que se mostra estável, com uma oferta diversificada, dos 7 aos 77 anos, e para o qual se observa que existe um público interessado que procura manter-se informado e que acompanha e alimenta a dinâmica editorial. E a certeza de que a BD continua como um sector vivo. Agora há espaço para os vários agentes intervenientes pensarem melhor acerca da sua promoção e visibilidade. Para 2026, pode-se dizer que logo em Janeiro vamos começar em grande. Talvez seja o prenúncio de mais um excelente ano. Boas leituras!

 

quinta-feira, 4 de setembro de 2025

O mercado editorial nacional nos oito primeiros meses de 2025

Entrados agora no último quadrimestre do ano, e antes que comecem a chegar as novidades de Setembro, aproveito para fazer aqui uma mini-análise do comportamento editorial nos primeiros oito meses. 
 
O mercado editorial de banda desenhada em Portugal iniciou 2025 num ritmo moderado somando 18 títulos em Janeiro - uma ligeira quebra face ao verificado em 2024. Foi um discreto início que rapidamente foi  deixado para trás a partir de Março (33 lançamentos) com um crescimento contínuo, culminando no mês de Junho, que ultrapassou as quatro dezenas de lançamentos - números a superarem os verificados no ano anterior. Talvez como consequência deste pico de actividade antes do Verão, observou-se uma forte contração em Julho (apenas 22 lançamentos) com o ritmo a desacelerar ainda mais em Agosto (19).
 

Ao todo, encontram-se contabilizados 235 lançamentos entre Janeiro e Agosto, valor que traduz um crescimento de 1% quando comparado com igual período do ano passado. Embora possa parecer um aumento modesto, importa aqui recordar que 2024 foi um ano excepcional, absolutamente “fora de série”. O facto de 2025, até ao momento, ainda conseguir superar este desempenho recorde, é um bom indicador da actual vitalidade do nosso mercado.
 
Por origem, as edições de origem europeia (Portugal excluído) enfrentam uma forte concorrência oriental, e estes dois mercados dividem a oferta com 40% para cada lado. A produção nacional, que regista 22 novidades, regista uma quebra de 42% face a 2024.
 
A editora Devir, sem surpresas, responsável por 27% da oferta, continua a dominar. Em finais de Agosto acumulava um total de 64 lançamentos. Tantos quantos os efetuados ao longo de todo o ano de 2024. E esta forte dinâmica promete não se ficar por aqui, pois prepara mais três dezenas de novidades para este último quadrimestre. Se tudo correr como previsto irá fechar o ano com praticamente uma centena de lançamentos. É obra!
 
Em termos de valores, o preço médio de um livro fixou-se nos € 17,22 ainda que o preço mediano se situe nos € 15,00. O preço de venda mais praticado actualmente é de € 9,99.
 

sexta-feira, 4 de julho de 2025

1º Semestre de 2025: o que dizem os números?

Em 2025 estamos acima das nuvens. A edição de banda desenhada em Portugal continua a crescer, com números que poderíamos eventualmente pensar não ser possíveis. Mas a verdade é que são, e o primeiro semestre do ano continua a confirmar o bom momento do nosso mercado editorial. Estamos no terceiro ano de crescimento consecutivo. Foram contabilizados um total de 189 lançamentos, um aumento de 8% relativamente a igual período do ano passado. A média mensal de lançamentos foi de 31,6 o que equivale dizer que por cada um dos dias do semestre foi editado um livro para o mercado. Mesmo considerando que algumas das habituais editoras estejam abaixo do seu ritmo de edição, e é verdade que existem algumas, o espaço desta nas livrarias tende logo a ser ocupado por outras. Mas vamos aos números:

  • TOTAL de lançamentos no 1º semestre de 2025: 189 (incluindo variantes e reedições com novo ISBN)
  • TOTAL de editoras activas durante o 1º semestre de 2005: 31 (com pelo menos um livro de BD editado)
  • TOP 3 das editoras mais activas temos a DEVIR (49 lançamentos), a ASA (26 lançamentos) e a LEVOIR (13 lançamentos). A oferta conjunta destas três editoras totaliza 46% da oferta total. Uma ressalva aqui para o grupo editorial Penguin que, considerando o conjunto das chancelas, tem um total de 22 lançamentos de banda desenhada.
  • Por origem, temos a BD europeia (excluindo Portugal) a ser responsável por 40% da oferta, seguida pelo o manga que assegura um total de 37%. A BD portuguesa soma 11%.  
  • A BD infanto-juvenil continua com uma forte oferta (17% do total) nos escaparates das livrarias nacionais, a confirmar uma tendência que já se observava no ano passado.
  • O preço médio de um livro de BD situou-se nos € 17,81.
  • Junho mantêm-se como o mês mais forte do 1º semestre (com 39 lançamentos), beneficiando do efeito conjugado do Festival da Maia, do Festival de Beja e da Feira do Livro de Lisboa. 


 

 

terça-feira, 13 de maio de 2025

Balanço do 1º Quadrimestre

Na análise do mercado de Banda Desenhada em Portugal no 1º quadrimestre de 2025, os números revelam que este continua a atravessar um período de crescimento sólido, a demonstrar um forte dinamismo na oferta, dando seguimento à tendência já observada nos últimos anos.

Foi contabilizado o lançamento de 111 novidades, o que representa um aumento de 12% face a igual período do ano anterior. É um crescimento num setor que já vinha de um ano excecional, em 2024, considerado como um dos melhores de sempre para a BD em Portugal. Não obstante algumas editoras darem sinais de retração ou até de saída do mercado(!), mas outras mantêm uma aposta forte, destacando-se aqui, com naturalidade, a Devir e a ASA, que consolidam a sua posição como líderes do sector. Recordo que já em 2024 foram responsáveis por cerca de 30% da oferta total de novos títulos. Neste primeiro quadrimestre, o manga foi o segmento dominante em número de publicações (não há números de vendas). O preço médio de um livro de BD situou-se nos € 16,88.

A expectativa para o resto de 2025 é de continuidade deste ciclo positivo, sem sinais de abrandamento, e atendendo ao sinais já dados por algumas editoras, com potencial para novos recordes de publicação.


terça-feira, 7 de janeiro de 2025

O ESTADO DA ARTE EM 2024

 

Análise do Mercado Editorial Nacional de Banda Desenhada em 2024

Introdução 

O mercado nacional de banda desenhada (BD), desde sempre considerado de nicho, tem apresentado, nos últimos anos, taxas de crescimento bastante significativas, quer pela crescente popularidade de manga entre os novos leitores, quer pela proliferação de romances gráficos que abrangem desde clássicos internacionais até criações originais de autores nacionais. Tal envolvido um número crescente de editoras, que veem na BD um interessante segmento capaz de diversificar a oferta do seu catálogo e atrair novos públicos. A BD continua assim a conquistar um espaço significativo na cultura literária.

O presente contributo pretende dar uma visão do mercado editorial nacional em 2024, destacando as maiores editoras, os géneros mais populares, observando a evolução dos números e as principais tendências do mercado. É importante ressalvar desde já ressalvar que uma análise mais precisa exigiria dados específicos, mas não existe, ou não está disponível, informação compilada e consistente acerca das tiragens, das vendas e consequente quotas de mercado das nossas editoras. Esperamos pelo dia que estes números sejam conhecidos no nosso país.

Por conseguinte, a análise far-se-á com recurso a informação complementar que foi possível recolher e tratar, conseguindo-se assim o suficiente para aferir sobre o Estado da Arte em Portugal.

Centrando-se esta análise no mercado editorial português, e tendo como foco a edição de BD em Portugal por parte de editoras nacionais, as publicações independentes de autores e as revistas amadoras distribuídas em mercados alternativos (fanzines) não foram aqui consideradas por serem de difícil inventariação, bem como as simples reimpressões, as edições estrangeiras ou em língua estrangeira ainda que com distribuição em Portugal. Ficaram igualmente de fora desta análise, todas as publicações relacionadas com a banda desenhada, e aqui inclui-se estudos, ensaios, entrevistas, enciclopédias, etc.

Fazendo um enquadramento, o segmento da BD faz parte de um mercado livreiro maior, que em Portugal, a Associação Portuguesa de Editores e Livreiros (APEL), relativamente a 2023, avaliava em 187 milhões de euros. A BD será responsável por uma parcela modesta deste montante. Em mercados europeus estima-se que as vendas se situem entre 5% a 10% do total do mercado editorial, dependendo do país e da popularidade da BD. Em Portugal, atendendo à reduzida dimensão do nosso mercado, será seguro dizer que uma percentagem conservadora apontará para um valor não superior a 5%. 

Visão geral do mercado português de BD em 2024

Em 2024, o mercado editorial nacional de banda desenhada consolidou-se como um segmento dinâmico e diversificado, refletindo o crescente interesse por esta arte em Portugal. Na verdade, atravessamos um novo período dourado, e isso encontra-se reflectido nos números aqui apresentados, de nº de editoras/chancelas, de novos lançamentos e de procura por informação relacionada. Este bom momento também se estende à BD portuguesa, que apresentou níveis de produção como não se via há alguns anos.

Os Lançamentos

Em 2024, foi registado o melhor resultado de sempre em termos de nº de novos lançamentos de livros de BD, no formato físico, em Portugal. Foram contabilizadas 385 novidades, na contagem pelo ISBN (a listagem completa está disponível AQUI), o que se traduz numa taxa de crescimento de 9% face a 2023, período no qual já se tinha verificado um excelente resultado. Observa-se que se trata do terceiro ano consecutivo de crescimento da oferta de banda desenhada no nosso mercado. 

Numa tentativa de segmentação, pode-se dizer que por origem, o peso da banda desenhada estrangeira continua dominante no mercado português. Mantêm-se a influência do mercado francófono, mas acompanhado agora pelo mercado asiático, que tem revelado crescentes taxas de crescimento.

Assim, com uma taxa de 43% o mercado europeu de banda desenhada mantém-se assim como o principal fornecedor de histórias para as nossas editoras. A este valor soma-se ainda 16% referentes à edição de obras portuguesas, que teve em 2024 um dos seus melhores anos, com um total de 60 novos lançamentos. Depois da queda verificada no ano passado, temos agora a recuperação. Contam-se mais de duas dezenas de editoras nacionais a apostar na BD portuguesa, e este ano com destaque para a Levoir com a sua colecção Clássicos da Literatura Portuguesa em Banda Desenhada. Sem surpresas, na segunda posição, encontramos o mercado asiático, o qual já é responsável por 28% da oferta. Incluem-se aqui as histórias oriundas do Japão, China, Coreia. Em queda livre, está o mercado norte-americano que garante apenas 10% da oferta. O fim da colecção Clássica Marvel da Atlântico Press e a desistência da Levoir do selo editorial da DC Comics são a causa responsável. 

No ano de 2024, destaca-se a consolidação de algumas tendências no mercado de BD nacional.

Entre elas, observa-se a enorme popularização do mangá, o que levou sete das dez maiores chancelas editoriais a apostarem neste género. Outra tendência relevante foi o aumento na edição de adaptações literárias, especialmente em formato de novela gráfica. 

Paralelamente, verificou-se um número significativo das reedições (9%) e aqui considera-se mais do que uma simples reimpressão, ou seja, uma alteração substancial da obra que tenha originado a atribuição de um novo ISBN.

Adicionalmente, houve um forte incremento na publicação de banda desenhada destinada ao público infanto-juvenil. Um segmento em franco crescimento, que representou cerca de 14% da oferta total do ano, com os grupos Porto Editora e Penguin Livros a serem responsáveis por mais de 50% das novidades lançadas no período.

Relativamente à ordenação de cada título existe uma grande dificuldade de enquadramento devido sobretudo à inexistência de um sistema comummente aceite e à enorme variedade de géneros que se podem encontrar, dependendo então a sua classificação de diferentes critérios e abordagens. Não obstante, verifica-se que as obras de acção/aventura continuam no topo de preferências, seguido das temáticas históricas e das biografias gráficas. Em queda livre encontram-se os westerns e as aventuras de super-heróis.

Em termos de distribuição, a disponibilização dos títulos ao longo do ano apresentou extremos históricos. Embora a média mensal tenha sido de aproximadamente 32 novidades, a sua distribuição revelou-se irregular, oscilando entre um mínimo de 4 lançamentos em Dezembro e um pico de 72 novos títulos em Outubro, tradicionalmente o mês mais forte no nosso mercado editorial. De realçar que o último quadrimestre concentrou mesmo assim o maior volume de lançamentos, reforçando a tendência de intensificação das novidades editoriais nesse período do ano. 

  


Em 2024, o cabaz completo, composto por todos as novidades de BD editadas em Portugal, apresentou um custo total de € 6.652,30, com o preço médio de um livro de BD a fixar-se em € 17,28. Em termos de preço de capa, a edição mais barata que encontramos foi a reedição de A Loja da editora Polvo por € 8,90. No extremo oposto, como a mais cara, tivemos a edição integral de BRZRKR da editora G.Floy, com o preço de € 50,00. Assinala-se que o valor de venda mais praticado foi de € 9,99, correspondente ao preço de referência praticado pela editora Devir nas suas edições de manga.


As Editoras

Em termos de editoras (ou chancelas) de BD activas em Portugal tivemos um novo máximo, que passou as cinco dezenas, totalizando as 56. Contabilizam-se aqui todas aquelas que tenham pelo menos editado, em 2024, uma obra de banda desenhada, com ISBN atribuído. Observa-se que é um número que tem vindo a crescer paulatinamente desde 2020. 

Conforme referido inicialmente não existe informação disponível acerca dos valores de vendas e de tiragens, pelo que aqui a  “quota de mercado” das editoras será definida em função do número de novos lançamentos de cada uma face ao total do mercado.

No topo das editoras nacionais encontramos (de novo) a DEVIR. Se em 2023 já tinha alcançado excelentes números, em 2024 bateu todas as marcas. Em número de novidades, foram contabilizados 64 novos lançamentos, correspondente a 17% da oferta nacional de banda desenhada. É a principal responsável pela enorme oferta de manga que temos actualmente, o que lhe confere pelo quarto ano consecutivo o título da editora mais activa do mercado. E promete não ficar por aqui, porque para 2025 já anunciou o estender o seu catálogo ao franco-belga e a aquisição dos direitos de publicação da americana DC Comics

A segunda posição vai para a ASA. Com 54 lançamentos assume uma quota de 14%. A editora tem estado bastante dinâmica desde a sua reestruturação, e apostou na abertura do seu catálogo de BD a novos leitores, apostando em várias frentes, desde títulos de origem franco-belga, ao pisca de olho ao público adolescente com as colecções de manfras e à edição títulos dedicados a um público infantil. O resultado é um crescimento da sua oferta em 35% face ao registado no ano anterior. 

No terceiro lugar deste pódio está a LEVOIR. Registou um excelente ano com 42 lançamentos o que lhe confere uma quota de 11%. Destaca-se a sua aposta em coleções, com o lançamento da oitava série de novelas gráficas em parceria com o jornal Público e uma colecção dedicada à adaptação de clássicos da literatura portuguesa para BD, com a assinatura de autores nacionais. A aposta falhada nos títulos da DC Comics é agora compensada com um virar de página a oriente. O novo ano deve trazer novidades sobre esta matéria. 

A análise dos dados confirma a manutenção de um mercado concorrencial, com as dez principais chancelas a concentrarem em si cerca de 71% da oferta nacional, um percentual em linha com o observado no ano anterior.

De realçar que entre estas, apenas quatro se encontram exclusivamente dedicadas à edição de banda desenhada. As demais podem-se considerar com um perfil mais generalista, integradas em grupos editoriais, onde a BD é editada em conjunto com outras categorias de livros. Adicionalmente, a restante oferta encontra-se distribuída por um grande número de pequenas e médias editoras/chancelas, cujo catálogo de banda desenhada é reduzido.

Gostava de chamar aqui a atenção para o caso especial que constitui a Penguin Livros, a sucursal portuguesa do grupo internacional Penguin Random House. 

Apresenta um total de 24 chancelas editoriais, cada uma direcionada para um género em particular ou um determinado público-alvo. No entanto observa-se que oito delas (a saber, a Iguana, Distrito Manga, Booksmile, Nuvem de Letras, Cavalo de Ferro, Elsinore, Fábula e Objectiva) editaram, pelo menos, uma obra de banda desenhada em 2024. 

Na listagem acima das maiores editoras, encontramos a Distrito Manga num 7º lugar com um total de 15 lançamentos, que faz desta chancela o principal selo da Penguin na edição de BD em Portugal. Mas considerássemos o total do grupo, verificávamos que o seu somatório totaliza 42 edições de BD, um resultado que conferia à Penguin Livros um 4º lugar na classificação das maiores editoras, com uma oferta de 11%. 

 

Os eventos e festivais de BD

Os apoios públicos, em especial das câmaras municipais, têm-se revelado como pilares fundamentais na organização de eventos que promovem a 9ª arte e estimulam a criação de novos públicos. Como resultado, o panorama nacional de festivais de banda desenhada apresenta-se cada vez mais diversificado, com uma oferta geograficamente complementar que fortalece a presença da BD em vários pontos do país.

Em 2024, realizaram-se dois eventos no norte do país (a 10ª edição da Comic Con e o 2º Maia BD), um no centro (o 8º Coimbra BD), um no Alentejo (18ª edição do Festival Internacional de BD de Beja) e os restantes a sul (a 2ª edição do LouriBD na Lourinhã, a 5ª edição do IlustraBD no Barreiro e o 35º Amadora BD). Apesar de não dispor dos números oficiais de visitantes de cada evento, quer-se querer que tenham tido uma boa participação de acordo com as expectativas de cada organização, até porque os apoios mantiveram-se e começaram a ser reveladas as datas das edições de 2025.

Os Canais de Distribuição

O recente estudo da empresa da GfK para a APEL sobre Hábitos de Compra e Leitura de Livros revelou a preferência pelas lojas físicas, em particular as livrarias, como o principal ponto de venda de livros em Portugal. 

No segmento da BD, esta dependência das livrarias físicas torna-se ainda mais evidente quando se observa o quase desaparecimento da presença de banda desenhada noutros canais, nomeadamente as bancas de jornais. Este canal de distribuição restringe-se agora às coleções distribuídas em parceria com jornais. Em 2024, destacaram-se duas colaborações com o jornal Público: a oitava série de Novelas Gráficas da editora Levoir, publicada entre Julho e Novembro, e a coleção Tanguy & Laverdure da editora ASA, disponível entre Agosto e Outubro.

Observa-se, no entanto, novas estratégias de adaptação ao mercado, procurando as editoras novos meios de alcançar um público leitor de banda desenhada, e aqui destacaria uma aposta nas chamadas vendas diretas. Apesar de não se dispor de números de vendas, facilmente se percebe que canais editor-leitor apresentam a enorme vantagem económica de eliminação dos custos de intermediação. 

Assim, a aposta passa por canais próprios. Através das lojas online existentes nos sítios da internet da grande maioria das editoras, mas sobretudo pela presença destas nos principais festivais nacionais de BD. E daí observar-se cada vez mais o coincidir de novos lançamentos com a realização destes eventos, e o melhor exemplo disso é dado pelo festival Amadora BD, que se realiza na segunda quinzena de Outubro, que faz concentrar sempre neste mês o maior número de novidades do ano. 

Os Canais de Divulgação

Em Portugal, os principais canais de divulgação a um público vasto passam essencialmente por blogues e fóruns dedicados na plataforma Facebook. Em 2024, se na blogosfera nacional o número de canais divulgadores não sofreu grande variação, rondando a meia dezena de blogues dedicados, em termos de visitantes a coisa muda de figura.

Tomo aqui o exemplo do blogue NOTAS BEDÉFILASporque disponho dos números – que recebeu ao longo de 2024, mais de 250.000 visitantes (mais concretamente 253.248), uma média superior a 20.000 visitas mensais, o que constitui taxa de crescimento de 15% relativamente a 2023. E esta procura de informação verifica-se igualmente no fórum BANDA DESENHADA PORTUGAL, que passou dos poucos mais de 6.000 membros em finais de 2023 para os quase 9.400 membros em finais de 2024. Uma taxa de adesão superior a 50%. Não se pode dissociar este crescente interesse na procura de informação relacionada com o excelente momento que a BD atravessa em Portugal, e que se observa em todas suas várias vertentes.

 
ESTATÍSTICAS DO GRUPO BANDA DESENHADA PORTUGAL EM 2024


 

O Dia Nacional da BD Portuguesa

O ano de 2024 ficará marcado pela oficialização do dia 18 de outubro como o Dia Nacional da Banda Desenhada Portuguesa. A proposta apresentada pelo partido parlamentar Livre e aprovada pela Assembleia da República, não está associada a qualquer efeméride significativa relacionada com a banda desenhada, resultando sim de um processo unilateral, sem consulta ou discussão prévia com a comunidade bedéfila. Embora a iniciativa merecesse maior cuidado e envolvimento, este dia, ainda que imperfeito, passa a integrar o calendário cultural nacional.

Conclusão

A avaliar por 2024, a banda desenhada em Portugal atravessa um momento notável de vitalidade e crescimento. O nosso mercado editorial tem demonstrado resiliência e capacidade de adaptação, com uma oferta cada vez mais diversificada que atende a um público amplo e variado. Os números extraordinários deste ano, em todas as suas vertentes, revelam que a oferta tem conseguido atrair novos leitores, e fomentar um interesse renovado, impulsionando assim o aumento de chancelas editoriais e consequentemente o número de novos lançamentos. Embora não sejam conhecidos dados concretos de vendas, a aposta continuada das nossas editoras é sempre um bom indicador que o mercado está bem, é promissor e que se recomenda.

Para 2025, o cenário é de certa forma imprevisível. O volume de edições cresceu significativamente nos últimos três anos (+23%), e os números de 2024 devem marcar o limite que o nosso mercado comporta. Estabilizar talvez seja necessário ou aposta passar agora por mais qualidade e menos quantidade. Daqui a um ano nova avaliação. Até lá, que não nos faltem boas leituras!