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terça-feira, 27 de outubro de 2026

Entre tendas fez-se mais um Amadora BD!

Feito. Não tenho memória de ter passado tantas horas num festival como aconteceu nesta edição do Amadora BD. Mas já lá vou. Primeiro, a avaliação geral: excelente. Arrisco uma analogia com o mundo dos vinhos e decreto que o 37.º Amadora BD foi um “ano Barca Velha”. Das exposições aos autores, das conversas aos autógrafos, dos lançamentos às novidades, tudo esteve à altura e em bom. E até o estado do tempo tão incerto nesta altura, ajudou à festa, não chovendo. Endereço desde já os parabéns à Catarina e à sua equipa pelo trabalho magnífico. E uma palavra especial para quem presta apoio nas sessões de autógrafos, e que foi com quem mais contactei. Simpatia e disponibilidade totais. Verifico que a equipa se tem mantido constante nos últimos anos, e também seja o esse o segredo do bom trabalho que realizam.
 
Claro que nem tudo foi correu sobre rodas, mas nada significativo que não possa ser trabalhado e melhorado em futuras edições. Mas já lá chego, até porque no meio das tantas conversas que fui tendo, soube que, entre promessas e tendas, a Câmara Municipal vai finalmente avançar com o tão desejado investimento nas infraestruturas naquele que é o maior evento cultural do município (não sei se isto era segredo!). Um novo edifício estará já a ser estudado para aquele espaço. Espero que a ideia não seja só o de trocar uma tenda por quatro paredes e um telhado. É preciso mais que isso: mais área de exposição, melhor zona comercial, um verdadeiro espaço para conversas e apresentações sem ruído de fundo, e uma digna zona de autógrafos. Esta última sobretudo mais espaçosa e melhor iluminada. Basta dizer que no Domingo os autores estiveram a trabalhar à meia-luz e num espaço exíguo. E também não fica nada bem “despachar” um autor para dar lugar a outro. Os atrasos acontecem, seja porque o autor gosta de conversar com quem o lê, seja porque um desenho leva o seu tempo. Tem de existir lugares extras para estas circunstâncias. E até a zona de circulação em redor merece atenção, para evitar que se transforme numa zona de atabalhoamento colectivo. Portanto há aqui muito a melhorar.
 
A principal novidade no festival foi a utilização de uma nova tenda, de tamanho maior, para a zona comercial. Fala-se num desperdício de 100 mil porque na prática apenas permitiu disponibilizar mais lugares sentados na zona de apresentações. Não dei conta que tivessem sido preenchidos na sua totalidade alguma vez. A falta, nesta área, de um painel informativo com a chamada para as sessões de autógrafos que decorriam em paralelo no lado oposto, leva a que muita gente mesmo com interesse em assistir, não o possa fazer justamente por falta de informação do que se passa no outro lado. Parece uma questão de pormenor, mas faz toda a diferença. O novo espaço também me pareceu óptimo mas para os dias frios de inverno. Agora se serviu para reforçar a ideia que o festival precisa mesmo de novas infraestruturas, então pode-se dizer que foi um bom investimento.
 
E se já falei aqui de desperdício, então nem preciso de dizer mais nada sobre a tenda dita “do gaming”. Continuo sem perceber o seu propósito. Parece que este ano também albergava um artist alley… mas esqueçam lá isso. 
 
Agora, a edição deste ano veio revelar, pela primeira vez, o lado mais perverso do sistema de senhas para autógrafos que vigora no festival há já alguns anos. É verdade que existiu um alinhamento de factores que contribuiu para que tal acontecesse: a presença de um elevado número de muito bons autores, a sua concentração num único fim-de-semana e a distribuição de um número reduzido de senhas (entre 15 a 20 por autor). E o que sucedeu, perante uma elevada procura para tão reduzida oferta, foi que as filas para as senhas de autógrafos começaram-se a formar às 06:00(!) da manhã de Sábado e repetiu de novo no Domingo. Recordo que as portas do festival só abriam às 10:00. É fácil perceber que qualquer pessoa que integrasse a fila depois das 08:00 (duas horas antes da abertura do festival) simplesmente não conseguiria obter qualquer senha para os autores principais. Oficialmente atingimos aqui o ponto da insanidade, e contra mim falo porque fui um dos insanos (resultando daqui o meu elevado número de horas acumuladas de festival). E sinceramente não queria que fosse este o caminho para futuras edições.
 
Não há sistemas perfeitos, e cada um tem a liberdade de dispor do seu tempo da forma que melhor achar, mas pode-se sobretudo evitar aqui que se caia numa loucura colectiva. O sistema de senhas é talvez o preferível entre todos os sistemas, e serve bem aquela regra universal do primeiro a chegar primeiro a servir-se. Funciona assim em quase todo o lado. Agora compreendo a frustração de um qualquer visitante que não tenha a possibilidade de chegar de madrugada ao evento.
 
E alternativas? Uma das formas de tentar garantir que mais visitantes tivessem oportunidade, sugeria por exemplo que cada pessoa na fila e na sua vez, pudesse levantar no máximo três ou quatro senhas escolhendo entre os vários autores disponíveis, ao invés do “sem limite” que funciona actualmente. Em compensação cada senha garantia no máximo dois livros autografados. Em alternativa a este sistema, ou mesmo em cumulativamente, o festival abria dois momentos distintos de sessões de autógrafos: um no período da manhã e outro da tarde, com a distribuição das senhas a fazer-se exclusivamente no início de cada período. Não resolve todos os problemas, mas permitiria uma melhor distribuição por um maior número de interessados, e talvez dispensássemos a hora do galo. Fica a sugestão!
 
Agora madrugadas à parte, e por ter conseguido estar com todos os autores que pretendia, não me posso queixar. A colheita (continuando com a analogia) foi das melhores dos últimos anos. Já tinha conhecido o Craig Thompson em Beja em 2009, o Peter Van Dongen em Beja em 2019 e o Joseph Homs na Comic Con em 2022, portanto as surpresas foram para outros. Nesta edição, pessoalmente destaco o italiano Bruno Brindisi. Esta malta da casa Bonelli é talento puro. Cosa Vuoi? perguntava ele. E logo de seguida a pagina em branco enchia-se de traços fantásticos. O seu, agora meu, "Blueberry" encheu-me as medidas! Fiquei igualmente bem impressionado com o Andrea Artusi (O caso Vargas) e com Alexis Nesme (El Diablo), e entre outros juntei um “obrigatório” Lucky Luke da Joana Afonso e mais um “boneco” da Rita Alfaiate. Custou-me levantar muito cedo, mas pela minha colecção de desenhos originais valeu o esforço, não o posso negar. De coração cheio com estes autores! 
 
Uma palavra final para o público. Não tenho números de visitantes mas a sensação que já vi este festival mais bem composto. Esta alteração no calendário, a colocar o evento a realizar-se talvez no período mais critico do mês em termos financeiros não me parece nada uma boa ideia.
 
E está feito. Temos um festival que tem qualidade mas que ainda procura um espaço. Esperemos que se concretizem as obras, para que próximo ano o festival consiga cumprir o sonho de trocar a tenda por uma casa!

 

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