sexta-feira, 27 de março de 2026

Regresso às livrarias do clássico distópico de Margaret Atwood

Tem sido uma prática de algumas das nossas editoras generalistas aproveitarem um título da literatura contemporânea integrante do seu catálogo para lhe darem nova vida através da edição da sua adaptação para novela gráfica. Ainda recentemente a Gradiva fez isso com O Nome da Rosa, de Umberto Eco ou a Relógio D’Água com a saga Duna de Frank Herbert. 

Um dos títulos mais emblemáticos da editora BERTRAND, o clássico A HISTÓRIA DE UMA SERVA, de Margaret Atwood, uma distopia feroz sobre poder, género e controlo, que se tornou um fenómeno global e inspirou uma célebre série televisiva, é mais um exemplo que conhece aqui a sua versão em banda desenhada. É o regresso às livrarias numa nova edição com a chancela da Bertrand, depois de a anterior, publicada em 2020, se ter esgotado. O aterrador universo da República de Gileade volta assim a ser revisitado numa versão visualmente impactante, ilustrada por Renée Nault. 

A HISTÓRIA DE UMA SERVA Defred é uma Serva na República de Gileade, onde o trabalho, a leitura e a formação de amizades estão vedados às mulheres. Está ao serviço do Comandante e da sua mulher e, na nova ordem social, tem um único propósito: uma vez por mês, tem de se deitar de costas e rezar para que o Comandante a engravide, porque, numa era de nascimentos em declínio, Defred e as outras Servas são valorizadas apenas se forem férteis. Mas Defred lembra-se dos anos antes de Gileade, em que era uma mulher independente, com um emprego, uma família e um nome seu. Agora, as suas memórias e a sua vontade são atos de rebelião.

Ficha técnica:
A História de Uma Serva - Novela Gráfica
Adaptação de Renée Nault
Capa mole, dimensões 158 x 236, cores, 240 páginas.
ISBN: 9789722550369
PVP: € 20,90
Editor: BERTRAND EDITORA 
 

 
 

quinta-feira, 26 de março de 2026

Au revoir, Herman! Et à bientôt!


1938-2026

Há momentos em que a nossa estrutura é abalada e sentimos ter sido arrancado, visceralmente, um pedaço da nossa vida.


É isso que sinto com a partida de Hermann que, incansável, trabalhou até aos derradeiros momentos e conseguiu terminar Cartagena, a sua obra final a ser publicada em Abril e que desejo seja publicada muito rapidamente em Portugal.


Criador belga de Banda Desenhada, Hermann Huppen ofereceu-nos séries incontornáveis como Bernard Prince, Comanche, As Torres de Bois-Maury e Jeremiah, para citar apenas as minhas favoritas. E uma infinidade de álbuns isolados nos quais abordou os temas e géneros mais díspares.


Mais do que fazer parte do “meu” mundo da banda desenhada, Hermann fez (e faz) parte do meu crescimento desde a infância. Nesse sentido, escrevi há poucas semanas no texto acerca do álbum Revoir Comanche o seguinte:


Lembro-me bem da primeira vez que Red Dust e Comanche entraram em minha casa. Tinha apenas oito anos de idade e estava habituado a conviver com o Tintin, o Spirou, o Mickey e o Tio Patinhas, a Mónica e, bem mais raramente, com o Homem-Aranha, o Batman e o Super-Homem. Foi pois com estranheza e algum desconforto que li aquele primeiro volume publicado em Portugal em 1976 (na verdade, o sexto da série). Fúria Rebelde tinha na capa um índio extremamente agressivo que parecia estar a atacar o leitor. Os desenhos do interior mostravam-me personagens de feições rudes, todos eles abrutalhados, feios, para a percepção estética de uma criança.

Apesar disso, o facto é que nos oito anos que se seguiram devorei todos os álbuns de Comanche publicados em português. E, logo a seguir, aqueles inéditos no nosso País e só disponíveis em francês (Os Xerifes e O Deserto Sem Luz). Por fim, em 1998, quando não sonhava haver ainda algo para ler de Comanche de Greg e Hermann, saiu Le Prisonnier, colectânea de 5 histórias curtas publicados na revista Tintin entre 1972 e 1982. Foi o final de uma belíssima aventura no mundo da Banda Desenhada.”

 

Se as histórias e a estética de Comanche revelaram-se na minha infância, As Torres de Bois-Maury preencheram toda a minha adolescência e começo da idade adulta. Tal como em Jeremiah, Hermann é aqui senhor absoluto da criação. Uma longa narrativa que corre durante 10 álbuns (o primeiro ciclo), conta a história de um cavaleiro medieval, Aymar de Bois-Maury, desapossado das suas terras, e de como vai tentar reconquistá-las. A reconstituição dos ambientes, costumes e práticas medievais é primorosa e as histórias são enriquecedoras e excitantes.


Já a série Jeremiah, que corre num mundo pós-apocalíptico, e que conta com 42 álbuns, acompanhou-me de 1979 a 2025 (data de publicação do último álbum).


Capaz de publicar uma média de 2 álbuns por ano, Hermann acompanhou-me por isso ao longo dos últimos 50 anos (caramba!!!). Cada novo livro foi sempre para mim um acontecimento ansiosamente aguardado, mesmo quando a mão do mestre por vezes claudicava. Mas não foi essa razão para o deixar de apreciar (e muito!).


Nestas circunstâncias utilizam-se muitas vezes chavões. “É o fim de um ciclo”, “fecha-se uma página…”, blá, blá, blá! Para mim fechou-se uma luz que me alumiava, pelo menos, duas vezes ao ano. Um pouco da minha alma que foi coberta pela sombra.


Felizmente, posso rever Hermann na sua obra monumental de mais de 120 livros e reconhecer aqui que o mundo da Nona Arte lhe deve infindáveis favores. Mestre da cor directa, manipulador inteligente dos silêncios, a sua obra é um primor do realismo que se destaca na minha modesta biblioteca.


Lamento apenas que em Portugal nunca se tenha publicado o integral d’As Torres do Bois-Maury lançado em 2013 pela Glénat numa luxuosa edição de que vos deixo a capa mais à frente.

 

E aproveito para partilhar convosco os breves momentos em que me cruzei com o mestre.

 

Adeus, Hermann! Até breve, numa das muitas páginas dos seus livros!

 


(Capa da edição integral do primeiro ciclo de Les Tours de Bois-Maury e Dedicatória no primeiro volume integral de Bernard Prince. Beja, 2010)

 

(Dedicatória no livro Itinéraires de Bois-Maury. Beja, 2010 e dedicatória no 14.º volume de Bois-Maury. Beja, 2010)

 

Por Francisco Lyon de Castro

 

quarta-feira, 25 de março de 2026

Lançamento CASA DAS LETRAS: O Sétimo Homem e Outros Contos

A editora CASA DAS LETRAS (Grupo Leya) acaba de marcar presença na edição deste ano de banda desenhada com o lançamento da novela gráfica O SÉTIMO HOMEM E OUTROS CONTOS. Trata-se da adaptação de nove contos do escritor japonês Haruki Murakami, que recria um cenário poético e barroco, situado precisamente na fronteira, tão cara ao romancista nipónico, onde o quotidiano se funde com o fantástico. 

As nove narrativas ilustradas que compõem esta recolha de contos foram inicialmente publicadas no Japão, sob o olhar atento e cúmplice de Haruki Murakami, e resultam de "mais de dez anos dedicados a sonhar, esperar e desenvolver este trabalho". 

O SÉTIMO HOMEM E OUTROS CONTOS
Um sapo gigante decide salvar Tóquio de um terramoto com a ajuda de um funcionário público, a uma jovem camareira de 20 anos é dada a oportunidade de alcançar o seu maior sonho. Um homem desaparece entre o 24.º e o 26.º andar de um prédio. Uma mulher mergulha na leitura e torna-se incapaz de dormir durante dias e noites a fio. No dia do seu vigésimo aniversário, alguém propõe a uma modesta e solitária empregada de restaurante a realização de um único desejo... 
 
Ficha técnica:
O Sétimo Homem e outros Contos
Adaptação de Jean-Christophe Deveney e desenho e cor de PMGL
Capa mole, dimensões 165 x 233, cores, 424 páginas.
ISBN: 9789895817276
PVP: € 31,90
Editor CASA DAS LETRAS
 

terça-feira, 24 de março de 2026

Novo álbum para um novo ciclo de Murena

Provavelmente uma das coleções com as capas mais bonitas do mercado, MURENA acaba de receber um novo álbum. Chegou às livrarias nacionais o décimo terceiro volume capitulo da magnífica saga criada por Jean Dufaux e Philippe Delaby. Com o início de um novo (e provavelmente último ciclo), o argumento permanece nas mãos seguras de Dufaux, enquanto o desenho passa agora para o traço de Jérémy. 

Para quem ainda não descobriu o que está a perder, Murena mergulha na Roma Imperial do século I d.C. Nero ascende ao poder após o assassinato do imperador Cláudio, e a narrativa, sustentada por um contexto historicamente rigoroso e por um elenco que combina figuras reais com personagens ficcionais, constrói uma trama intensa recheadas de intrigas palacianas, violência e jogos de poder. 

AS NERÓNIA é o álbum que abre o Ciclo da Amizade e tem a chancela da editora ASA.

CÍCERO De Officiis (Sobre os Deveres), II.
Na verdade, L. Crassus, ainda bastante jovem, não derivou a sua reputação de ninguém além de si mesmo. Ele adquiriu um título muito elevado através de uma famosa e ilustre ACUSAÇÃO. Numa idade em que geralmente se é elogiado pelas suas realizações, L. Crassus mostrou que já era bem-sucedido na CORTE, quando poderia ter sido mais meritório exercer a advocacia em casa.
 
Ficha técnica:
Murena - Capítulo Décimo Terceiro: As Neronia
De Jean Dufaux e Jérémy
Capa dura, dimensões 228 x 296, cores, 64 páginas.
ISBN: 9789892367835
PVP: € 17,90
Edições ASA 

segunda-feira, 23 de março de 2026

Hermann Huppen (1938-2026)

Hermann deixou-nos! Há autores que nos marcam profundamente, e o Hermann é, sem dúvida, um deles. Acompanha-me desde a juventude, como aqueles contadores de histórias que gostamos de ouvir e a quem regressamos sempre para uma nova história.

Hermann foi um verdadeiro desenhador de mundos. Levou-nos da Antiguidade à Idade Média, do Oeste selvagem ao cenário pós-apocalíptico, sempre com a mestria de quem sabe que a aventura vive tanto nas belíssimas paisagens como nas magnificas personagens. Dentro da sua vasta obra, Comanche e Bernard Prince permanecem, para mim, referências incontornáveis. Somos uns privilegiados por ter parte da sua criação publicada entre nós. Ainda há poucos dias terminei a leitura do seu mais recente álbum editado por cá, o duplo Old Pa Anderson + Redenção.

E, hoje inevitavelmente, voltei a recordar o privilégio de o ter conhecido pessoalmente, em 2010, durante o Festival de Banda Desenhada de Beja. Guardo a imagem vivida de o ver descer as escadas da residencial Bejense, com uma garrafa de tinto na mão e o ar mais feliz do mundo. Foi de uma simpatia e disponibilidade cinco estrelas. Um mestre, dentro e fora das páginas. Doente, desenhou até ao fim, com a mesma paixão com que começou, do primeiro Bernard Prince ao último Jeremiah. Fica como exemplo de dedicação, de amor à banda desenhada. Imortalizou-se na sua obra, e que obra magnífica!

Obrigado, Hermann. E um grande bem-haja por todas as histórias que nos contastes.