sexta-feira, 12 de junho de 2026

O último dia do Mercenário

Ainda no início deste mês, na nota de divulgação do lançamento do penúltimo álbum da colecção, referia que o álbum final (o 14º) seria certamente editado no segundo semestre deste ano.

Bem, surpresa das surpresas, e a viagem final do MERCENÁRIO já está disponível em álbum no stand da editora na Feira do Livro de Lisboa. A editora ALA DOS LIVROS fez a antecipação do seu lançamento e fica assim concluída no primeiro semestre e integralmente editada em Portugal na sua versão definitiva, uma das obras-primas da fantasia medieval em banda desenhada. 

Agora um pequeno esclarecimento, este álbum que fecha a história, e ao contrário dos anteriores, não é em banda desenhada. O autor, Vicente Segrelles, conta a história de O ÚLTIMO DIA em prosa, à qual acrescenta 24 ilustrações a página inteira. Ficaremos a saber assim o que aconteceu ao pérfido Claust, qual será o fim do País das Nuvens Permanentes e o que acontecerá aos nossos amigos do Mosteiro da Cratera. 

Como suplemento, em homenagem à origem desta banda desenhada, este álbum inclui ainda uma história curta de dez páginas com o título A Evidência

Conforme referido, disponível na feira do Livro e chegará às livrarias durante a próxima semana. 

Ficha técnica:
O MERCENÁRIO – vol. 14: O último dia
Argumento e desenho de Vicente Segrelles
Cartonado, 235 x 310 mm, 64 páginas.
ISBN: 978-989-9108-91-2
PVP: € 23,90
Editor ALA DOS LIVROS 

quinta-feira, 11 de junho de 2026

Fim das operações secretas CoBrA

Chega, por agora, ao fim a saga ficcionada do grupo de operações secretas CoBrA, com a publicação do álbum COBRA: PORTO, que fecha a trilogia pensada por Marco Calhorda, numa edição da ALA DOS LIVROS.

A acção tem agora lugar em território nacional, mais de uma década depois do assalto a Conacri, operação relatada na história anterior que foi repartida por dois volumes (ver aqui e aqui). No início dos anos '80, uma onda de acções terroristas varre o nosso país, fundamentadas por uma luta ideológica pelo poder que levou ao surgimento de organizações revolucionárias saídas das forças militares em convulsão. COBRA: PORTO tem como contexto os anos mais activos das FP-25, entidade responsável por mais de 20 mortos e dezenas de feridos, o maior número de vítimas mortais entre todas as organizações terroristas em Portugal. 

COBRA: PORTO
Com o fim do regime, da guerra colonial e a morte de Jorge Jardim em 1982, no Gabão, Afonso Costa e Ivone Reis, elementos essenciais na história do CoBrA e ainda no activo, envolvem-se nas investigações que a Polícia Judiciária leva a cabo para desmantelar as Forças Populares 25 de Abril (FP-25). Enquanto procuram o seu lugar num mundo em rápida mudança, este será um brutal acto de vingança; o derradeiro acerto de contas com a memória. 

Álbum já disponível no stand da editora presente na Feira do Livro de Lisboa e em livrarias a partir de 16 de Junho.

Ficha técnica:
CoBrA: Porto 
Argumento de Marco Calhorda e desenho de Paulo Montes
Cartonado, 210 x 270mm, p/b, 88 páginas. 
ISBN: 978-989-9108-94-3
PVP: € 21,90
Edição ALA DOS LIVROS 
 

terça-feira, 9 de junho de 2026

Beja BD: Boa Mesa, Boa Conversa!

Acerca do passado fim-de-semana. A fotografia aqui ao lado é propositada. Em Beja, a banda desenhada é, oficialmente, o motivo da visita. Mas existe todo um programa não-oficial do Beja BD, feito de tertúlias espontâneas e encontros à mesa que se prolongam mais do que o planeado. De tal forma, que logo na sexta, ao jantar o díptico boa-mesa e boa-conversa levou a que perdesse a abertura do festival. Desculpa, Paulo! É esse lado que cativa em Beja e que o distingue dos demais festivais portugueses. Há um sentimento genuíno de informalidade que em outros festivais porventura não se encontra ou não conseguem ter. Noutra refeição tive o prazer de me sentar ao lado de uma simpática malta de Torres Vedras: os editores do fanzine Impulso, um dos mais antigos em publicação em Portugal. Celebrou 50 anos em 2023. Na verdade, de fanzine pouco tem, porque cada revista é um autêntico manancial de banda desenhada e de informação sobre banda desenhada. Se quiserem conhecer mais cliquem aqui.
 
É isto Beja, ir é como experimentar novos sabores.

Esta 21ª edição do Beja BD apresentava, aparentemente, o cartaz menos apelativo dos últimos anos. Nomes como Thomas Ott, Benjamin Bachelier, Philippe Girard ou Lucas Iohanathan acredito que pouco digam a uma grande maioria dos leitores, e isso acabou por se reflectir também na afluência. Mas como em tudo, só perde quem não vai.

E quem ficou em casa perdeu Thomas Ott. E isso foi uma perda genuína. O autor de O Número 73304-23-4153-6-96-8 e, mais recentemente, de A Floresta, foi a grande figura desta edição. Um artista de talento singular, que desafia a arte com um x-ato num cartão preto. O que sai dali tem uma precisão de um relojoeiro e o resultado é só magnífico. Pensar que os livros dele são feitos assim é qualquer coisa de extraordinário. Não admira que a oferta portuguesa disponível no mercado do livro, e que se encontrava complementada com edições espanholas, tenha rapidamente esgotado.

Gostei de conhecer Diniz Conefrey, um autor de uma grande sensibilidade. Tive o prazer de apresentar uma conversa com ele, e de assinar o texto para a revista Splaft! Trouxe o seu último livro, A Estância do Sino Coberto, ao qual foi dedicada uma bela exposição. E por falar em exposições, os originais expostos de Benjamin Bachelier eram magníficos, os pequenos quadros de Ott extraordinários, e o trabalho de Beatriz Brajal, vencedora do prémio Geraldes Lino, muito interessante. Também aqui falhou a editora portuguesa no envio de livros da autora para venda. Faltou conhecer as meninas do colectivo espanhol Aventureras Gráficas, que infelizmente cancelaram a sua vinda.


Nos concertos desenhados, uma imagem de marca do Beja BD, o cartaz deste contou com um nível artístico elevado. Para além do Ott, participaram os autores Nuno Saraiva e o Vasco Colombo, este último, que também não tinha lá livros, a ilustrar o som dos Club Makumba, o projecto artístico de Tó Tripps. Foi assim a edição deste ano.

Feita de pequenos mas saborosos apontamentos. 

Agora há uma questão que fica no ar depois desta edição, e que não é fácil de ignorar.

O festival encontra-se agora numa posição ingrata no calendário. De um lado, o Maia BD veio dar às gentes do Norte o seu próprio evento, e do outro lado a Feira do Livro de Lisboa, que a cada ano apresenta mais banda desenhada no seu programa. Para quem está ali no meio, em pleno Alentejo profundo, o cenário não se mostra propriamente favorável. Senti esse esvaziamento. Não de forma dramática, mas sente-se. Percebe-se que não haverá muito mais espaço para crescer. A geografia não ajuda e o calendário conspira. O novo museu de banda desenhada pode trazer uma nova dinâmica, um novo argumento, uma razão adicional válida para a visita. Não sei se há a pressão dos números, a ansiedade de crescer, mas confesso o meu egoísmo. Beja é um pequeno grande festival. Erguido com paixão, ano após ano. Espero genuinamente que nunca perca a sua essência. Que se mantenha assim, como um pequeno grande, feito de encontros e descobertas. Aquele lugar onde sempre voltamos todos os anos para um fim-de-semana com amigos e para comer, beber e respirar banda desenhada.

PS A primeira imagem foi de um saboroso arroz de cabidela no restaurante Tem Avondo.


 

domingo, 7 de junho de 2026

A biografia gráfica de Dostoiévski

Não sei se alguém deu por isso mas na passada sexta foi distribuída pelas bancas nacionais o segundo volume da colecção Novela Gráfica IX da editora LEVOIR, que nos apresenta mais uma obra dedicada a Fiódor Dostoiévski. 

Dostoiévski: O Sol Negro é uma biografia gráfica que mergulha na vida intensa, contraditória e atormentada do escritor russo, que revela revela o homem por detrás do génio e os conflitos interiores que deram origem a algumas das obras mais marcantes da literatura moderna.

Epiléptico, jogador inveterado, endividado, amante frustrado, rebelde e ex-presidiário, a sua relação com a sociedade da época é complexa. Dostoiévski abomina o capitalismo e questiona-se sobre a religião: «A questão principal é precisamente aquela com que sofri, consciente ou inconscientemente, toda a minha vida: a existência de Deus».

A narrativa documentada e séria de Chantal Van den Heuvel, o desenho detalhado e preciso de Henrik Rehr, fazem-nos sentir o sofrimento interior, os dilemas e as dúvidas do escritor. Da falsa execução em 1849 ao exílio na Sibéria, passando pelas dívidas, pela epilepsia, pelos amores turbulentos e pela obsessão pelo jogo, esta novela gráfica acompanha os momentos decisivos que moldaram a mente e a obra do escritor russo. Entre sofrimento, fé, culpa e criação literária.

Ficha técnica:
Dostoiévski: O Sol Negro
Colecção Novela Gráfica IX – volume 2
De Chantal Van den Heuvel e Henrik Rehr
Capa dura, 195x270, cores, 136 páginas.
PVP: € 16,90
Edição LEVOIR
 

sexta-feira, 5 de junho de 2026

Começa o XXI Festival de BD de Beja

É hoje. O calendário marca peregrinação. Começa a 21ª edição do Festival Internacional de Banda Desenhada de Beja, vulgo Beja BD, evento o qual sentimos que fazemos parte, e como tal já se entranhou nas nossas vivências. A programação deste fim-de-semana promete a já habitual trilogia de conversas com autores, lançamentos de livros e sessões de autógrafos. Paralelamente há oficinas e concertos desenhados e pela primeira vez, o Interstício – Mercado da Autoedição, onde vamos poder encontrar pequenos editores como Bolo de Arroz | Erva Daninha | Gorila Sentado | Goteira | Magma Bruta | Massacre | Opuntia Books | Palpable Press | Zé Burnay.

Olhando agora para a lista de autores convidados, a verdade é que não teremos a presença daqueles nomes estrangeiros capazes de arrastar multidões, e assim sendo os destaques maiores irão talvez para o suíço THOMAS OTT, autor do qual já vimos por cá publicadas obras como O Número 73304-23-4153-6-96-8 (Levoir, 2019) e mais recentemente A Floresta (Levoir, 2025) e para o canadiano PHILIPPE GIRARD, autor de O Príncipe dos Pássaros de Alto Voo (Asa, 2026). Há é a oportunidade para os colectivos de autores, presentes em bom número, mostrarem a sua voz.

Como habitualmente deixo a lista das exposições do festival e dos autores convidados:

AS EXPOSIÇÕES AVENTURERAS GRÁFICAS – Espanha, BEATRIZ BRAJAL – Portugal, BENJAMIN BACHELIER – França ,LUCKAS IOHANATHAN – Brasil, DINIZ CONEFREY – Portugal, DRACULA IN COMICS – Roménia, FILIPE PINA – Portugal, H-ALT – Portugal, INÊS LOURO – Portugal, PEDRO CLETO – Portugal, PHILIPPE GIRARD – Canadá, PORTUGAL EM BRUXELAS – Portugal, SIMONE BAUMANN – Suíça, THOMAS OTT – Suíça, TOUPEIRA – HÁ MOVIMENTO DEBAIXO DA TERRA – Angola | Brasil | Espanha | Inglaterra | Portugal

OS AUTORES BEATRIZ BRAJAL | BENJAMIN BACHELIER | LUCKAS IOHANATHAN | DINIZ CONEFREY | INÊS LOURO |PEDRO CLETO | PHILIPPE GIRARD | SIMONE BAUMANN | THOMAS OTT | Autoras e autores das coletivas AVENTURERAS GRÁFICAS | DRACULA IN COMICS | FILIPE PINA | H-ALT | PORTUGAL EM BRUXELAS | TOUPEIRA – HÁ MOVIMENTO DEBAIXO DA TERRA 

O Festival decorre entre 5 e 21 de Junho na Casa da Cultura de Beja. Sintam-se convidados! 

 

quinta-feira, 4 de junho de 2026

Estreia de uma nova voz iraniana

No dia da notícia do falecimento da iraniana Marjane Satrapi, das primeiras autoras a trazer para a banda desenhada a realidade iraniana despida de qualquer exotismo, em obras como Persepolis e Frango Com Ameixas, ambas já publicadas em Portugal, trago aqui uma nova voz iraniana, na sua primeira novela gráfica. 

AS LINHAS QUE TRAÇAM O MEU CORPO, da autoria de Mansoureh Kamari, numa edição já disponível da ARTE DE AUTOR, é também um registo auto-biográfico, onde autora se socorre das recordações da sua infância e adolescência, para levantar o véu sobre a opressão das mulheres no Irão, onde vigora um sistema de controlo e de medo constante. 

No Irão, segundo a lei islâmica, o pai de uma família é dono do sangue dos seus filhos e, por isso, não pode ser processado se prejudicar a sua descendência. Isto explica, em parte, a estrutura da sociedade iraniana, onde os homens detêm o poder absoluto, principalmente sobre as mulheres, com total impunidade. 

Mas Mansoureh fugiu do Irão, conseguiu escapar a este regime permanente, e este álbum é também a história de uma metamorfose, a de uma mulher que reconquista a sua liberdade.
 
Ficha técnica: 
As linhas que traçam o meu corpo
Argumento e desenho de Mansoureh Kamari
Edição cartonada, 17x 24, cores, 200 páginas.
ISBN: 978-989-9094-88-8
PVP: € 25,00
Edição ARTE DE AUTOR 
 

quarta-feira, 3 de junho de 2026

Algo de bom foi acrescentado à nossa vida!

A Adopção 3 – O Rei dos Mares

 

 

Há muitos anos que mantenho uma rotina diária de leitura. Comics+franco-belga+ficção/não-ficção (não BD). No final de cada semana, tenho cerca de 20 a 30 livros devorados. Destes, no que respeita à BD, escolho 1 para vos dar aqui conta através destes meus textos.


E enquanto escrevo um texto, vou lendo mais 20 livros. Conclusão: são muitos mais os livros lidos do que aqueles sobre os quais escrevo. Mas uma coisa é certa! Quando começo a escrever, é sobre um livro (ou conjunto deles) que incide o meu foco. E nada me faz parar!


Ora, o que era certo, deixou de o ser! Estava eu deliciado a escrever sobre uma BD que me é cara e surge-me (mais uma vez) o desestabilizador do Zidrou com mais uma incursão na sua série A Adopção. Resultado: tive de parar o que estava a escrever para, de imediato, poder partilhar convosco as minhas impressões acerca de mais uma “zidrouanice” brilhante.


Depois de dois dípticos, publicados em Portugal em dois volumes integrais, Zidrou e Arno Monin (desenho) oferecem-nos agora o terceiro volume de A Adopção, com o subtítulo O Rei dos Mares, editado pela Ala dos Livros.


E não! Não é mais do mesmo! E sim! O Zidrou continua com aquele seu toque transformador do quotidiano em algo mágico, do banal em sublime.


Vamos à história!

 

 

Como se fazem os bebés?


As três irmãs, com as folhas de papel e os lápis de cor espalhados pelo chão, vão dando a resposta à pergunta através de uma série de desenhos. Nenhuma delas terá mais de 9 anos.


“Primeiro a mãe diz ao pai: “Quero miminhos!!” “Ela beija-o na boca e em todo o lado!” “E o pai até se esquece de ir passear o cão!” “A mãe leva o pai para a cama grande.” “Aí, fazem amor. Como nos filmes. Mas de verdade.”


E as três irmãs continuam, desenho a desenho, a contar a sua própria história. A história de como foram adoptadas. A Sethe, a Doucha e a Clarissa.

 

 

Durante uma trovoada…

 

Muitos anos depois, Clarissa recebe um telefonema. Engole em seco com a notícia. Tenta esconder o que sente e vê-se obrigada a sair do emprego. Lá fora, enche o peito de ar e telefona à Doucha. Interrompe-lhe o jogo de polo aquático para dar a notícia. Depois, telefona à Sethe, professora de música a meio de uma aula barulhenta.


O pai morreu! Repentinamente, o olhar das três jovens irmãs torna-se vazio. A piscina fica vazia. A sala de música mergulha no silêncio. E o escritório de Clarisse deixa de existir…


Cada qual com o seu luto, cada qual com a sua alegria.

 


Muitos anos antes… Muitos anos depois… As três irmãs encontram-se na casa dos pais, a casa da sua infância. Abraçam-se. Choram. Sorriem. E relembram com felicidade a sorte que tiveram na vida…


 

Mesmo quando esperamos mais do mesmo – o que no caso de Zidrou é sempre bom -, este autor consegue voltar a surpreender o leitor. Se nos dois primeiros dípticos de A Adopção acompanhamos a integração de duas criancinhas em famílias desconhecidas (para simplificar), neste terceiro volume o maior interesse está na vida que os pais proporcionaram às três filhas e as memórias que elas guardam deles.


Para os leitores mais pessimistas, esta será uma história triste acerca da morte de um pai gentil e generoso. Mas para o leitor mais atento, esta continua a ser uma história triste acerca da inevitabilidade da vida, mas sempre com um terno sorriso nos lábios.


O casal Edu e Nathi não conseguem ter filhos. Há anos que tentam. Ele, de origem espanhola, inicia um processo de adopção no seu país. Ela, de origem francesa, faz o mesmo, mas em França. Quando a resposta chega, vem a dobrar. Para mais, Nathi está grávida! O casal tem agora três filhas e esta também é a sua história, mas é, sobretudo, a do seu pai. Talvez a lembrança comum mais forte que têm dele seja a dos longos trajectos de carro feitos pelo pai para as levar às aulas e às actividades extracurriculares. Isso e tudo o que ele faz em casa por elas, desde a refeição às brincadeiras, passando pelas inúmeras histórias que lhes vai contando. Aliás, é ele que faz tudo em casa. Um papá diferente dos outros. Já a mãe, que também lhes é querida, sai todos os dias para trabalhar, e em casa perde-se em leituras de grandes romances.


Com a morte do pai, as três irmãs reencontram-se na casa de família e revivem a sua vida, partilhando memórias, dramas e alegrias e, sobretudo, momentos inesquecíveis.



E é aqui que entra aquilo que já chamei em outro texto de “o toque Zidrou”. O argumentista de Banda Desenhada que consegue transformar uma história simples em algo maravilhoso. E, faça-se-lhe justiça, “Monin consegue, com a sua arte, imergir-nos nessa narrativa maravilhosa, conferindo-lhe um toque mágico que passa muito pela expressividade dos seus personagens.”


Zidrou é um mágico dos sentimentos, mas sem os denunciar. A sua escrita é de tal modo envolvente que, quando damos por nós, já nos deixámos levar irremediavelmente. As suas histórias só na aparência são simples, mas na sua simplicidade conseguem sempre ter momentos inesquecíveis.


Atentem na frase de abertura das memórias das três irmãs após saberem da morte do pai:

“É engraçado: quando penso no pai, a primeira coisa de que me lembro é… do rabo dele!”

E não pensem que Zidrou logo explica esta afirmação. São precisas 6 páginas para ficarmos a perceber o verdadeiro significado de afirmação tão desconcertante. Seis páginas que nos vão enchendo de informação acerca daquela família que, nesse momento da leitura, já começa a ser nossa.


O Fabuloso Destino de Amélie é o melhor paralelismo que vos posso oferecer. Muitos pormenores que parecem enriquecer a narrativa, mas que aparentemente carecem de sentido ou, pelo menos, não serão importantes para o desenrolar da trama. Coisas ínfimas, acessórias, mas que no todo ganham a máxima importância.


Escolhi mais dois exemplos para vos demonstrar o que quero dizer. Num deles, até uma verdade de La Palice ganha contornos surpreendentes com o remate de Clarissa. Ora leiam as vinhetas:



No outro, Doucha acaba de perder uma final de natação. Vendo a filha desolada, o pai resolve ir comemorar a derrota. Por si só, a situação parece inédita, mas o mais importante é a lição que ele dá às filhas:



Zidrou é isto! A sua narrativa está sempre repleta de pormenores que enriquecem a história. Grande parte das vezes parecem não passar de pequenos episódios, sendo que, a pouco e pouco, criam personagens profundos, tramas bem urdidas e, como já disse, o leitor vê-se irremediavelmente enredado naquele princípio que Flaubert tão bem desenvolveu na sua novela Uma Alma Simples – os pequenos nadas podem ser tudo!


A Adopção 3 está carregada de cenas emocionantes, tratadas por Zidrou com delicadeza, naturalidade e (está aqui o segredo) com o pathos suficiente para que nenhum leitor consiga ficar indiferente à história, à narrativa e aos personagens. Qualquer experiência humana tratada por Zidrou gera sentimentos profundos e coloca cada uma das suas obras em lugar de destaque.


Todos os personagens estão muito bem conseguidos. E embora cada um tenha personalidade própria, todos concorrem para que o personagem do pai seja o mais profundo, tanto pelos seus actos como pelo tipo de recordações que as filhas guardam dele. Para além disso, um conjunto de personagens secundários não só ajuda a enriquecer o ambiente da família protagonista, como por si só são dignos de, também eles, se resguardarem na nossa memória. É Shanti, o velho cão da família que se recusa a ser abatido devido às suas convicções religiosas; é Gauguin, o pintor homónimo do outro que pinta paisagens de praia, as vende no areal e sonha fazer dinheiro para ir viver para a Polinésia; é a Lisette, perita em mudar pneus; a gata Pandora, com alguns dos tiques do Garfield; e até a Pipi das Meias Altas. Uma bela galeria de personagens que gostaríamos que povoasse as nossas vidas.


Como o grande contador de histórias que é, Zidrou consegue escrever os diálogos mais extraordinários com a maior das simplicidades, o que confere às suas histórias, e a esta em particular, uma espécie de realismo mágico (tão caro na América Latina), no qual a magia não passa por cenas esotéricas, mas pela qualidade das relações pessoais. O certo é que Zidrou continua com a rara capacidade de tocar o nervo da emoção do leitor, independentemente do género ou da idade.



Por seu lado, Arno Monin é o “parceiro do crime” ideal para colocar em imagens mais esta história de Zidrou.


De traço semi-realista e sempre inspirado, Monin é exímio em representar a inúmera panóplia de expressões faciais que é essencial para que uma história deste género seja de tal modo credível que o leitor não hesite em interpretar a mensagem escrita em cada rosto. Reparem bem no olhar das três irmãs, já adultas e a terem de enfrentar a morte do pai. A tristeza está lá, tal como a felicidade das memórias. Nunca estão completamente tristes ou felizes, mas conseguem emanar serenidade e um estranho bem-estar.


Mas as expressões faciais são apenas um dos seus fortes. Também os planos que cria são inteligentemente construídos, tal como a encenação. Atentem na mudança da cena de praia, feliz, com todos os protagonistas, de cores predominantemente quentes, para a cena seguinte na casa de família já sem o pai, com cores frias e árvores despidas.




A paleta de cores de Monin também conta a história, complementando-a de maneira essencial. Não só consegue criar ambientes como sentimentos e, mais difícil, baralhar o valor da mensagem cor quente=alegria/cor fria=tristeza. Assim, se na praia ensolarada predominam os amarelos e nos contratempos, os azuis e pretos, em momentos de grande alegria também podem imperar as cores frias envolvidas na chuva. Ou seja, a doçura também pode ser pintada com as cores da tristeza.



A Adopção 3 – O Rei dos Mares é uma pequena pérola da literatura gráfica. Pela maneira desempoeirada como aborda o tema central – a morte de um pai. Pelo modo como trata um tema complexo, como é o da adopção, mas descomplexificando-o. Pela qualidade narrativa a que Zidrou já nos habituou quando trata de temas do quotidiano. Pela beleza da trama que nos consegue encher a alma de episódios que formam, de modo singelo, uma vida. Pelo humanismo que preside a todas as cenas da história. Pela delicadeza, requinte e elegância da arte de Monin. Pelos estados de alma que consegue recriar através das expressões faciais que desenha.


Uma história que parte de uma premissa triste, mas que nos sorri tal como as três protagonistas femininas. Um sorriso que traduz a admiração delas por esse pai que, em parte, as criou sozinho. Por elas sofremos; por elas regozijamos. Simples e tocante. Emocionante e reflexivo.


Por fim, não me recordo de alguma vez ter visto o tema da morte ser tratado de maneira tão inteligente… tão inteligente que nos esquecemos dela. Tão inteligente que a enfrentamos de sorriso nos lábios, sabendo que ela pode ser vencida pela capacidade daqueles que já partiram em criar memórias duradoras que nos enchem a vida.


“Ah, este Zidrou encanta-nos!” Lê-lo é acordarmos no dia seguinte a sentirmos que algo de bom foi acrescentado à nossa vida.

 

Por Francisco Lyon de Castro