quinta-feira, 2 de abril de 2026

A história de Carlota

A edição é de Março pelo que já se encontra disponível em livrarias. CARLOTA IMPERATRIZ, numa edição da ALA DOS LIVROS, é uma BD histórica assinada por Fabien Nury e Matthieu Bonhomme que transforma a vida de Charlotte da Bélgica numa tragédia íntima e política, mais focada no destino humano da personagem do que na simples reconstituição factual. 

Nury aposta num tom sombrio para a obra, onde a ascensão imperial dá lugar a um lento desmoronar emocional e psicológico. O desenho, é conduzido pelo traço elegante do francês Bonhomme, o autor que já revisitou Lucky Luke por duas vezes e de forma sempre magnifica.

Inicialmente publicado em 4 volumes entre 2018 e 2025, Carlota Imperatriz, é agora publicada em Portugal em dois volumes integrais, contendo cada álbum da versão portuguesa dois álbuns da edição original francesa.

CARLOTA IMPERATRIZ: A Princesa e o Arquiduque
Criada pelo seu pai, Leopoldo I, Charlotte da Bélgica estava destinada a um casamento glorioso. Para a jovem, a escolha recaiu no arquiduque Maximiliano da Áustria, irmão mais novo do imperador Francisco José. Um casamento sumptuoso selou a união, que não seria feliz. O jovem casal foi dominado pelas rivalidades que se travavam, entre os terríveis Habsburgos e o calculista imperador Napoleão III. E Maximiliano revelou-se um homem decepcionante em todos os sentidos. Foi enfrentando a adversidade que Charlotte teve finalmente a oportunidade de sair do caminho comum... Desde o seu casamento com Maximiliano da Áustria, Charlotte passa de desencanto para desilusão atrás de desilusão. Com a sua vida conjugal em ruínas, aposta tudo na coroa mexicana. 
 
Ficha técnica:
Carlota, Imperatriz - Tomos 1 e 2
De Fabien Nury e Matthieu Bonhomme
Capa dura, dimensões 243 x 317, cores, 152 páginas.
ISBN: 9789899108813
PVP: € 35,00    Editor ALA DOS LIVROS
 

terça-feira, 31 de março de 2026

Uma biografia de quem viveu entre o pensamento e o inconformismo

Para fechar o mês, a editora IGUANA traz-nos SIMONE DE BEAUVOIR - QUERO TUDO DA VIDA, a biografia gráfica de uma das figuras mais marcantes do pensamento contemporâneo, não apenas pelo seu papel central na filosofia existencialista, mas também pela forma como desafiou convenções sociais e abriu caminho a novas formas de pensar a liberdade, o amor e a identidade. 

É uma obra que convida o leitor a entrar no universo íntimo e intelectual desta autora incontornável, revelando a intensidade com que viveu e pensou cada dimensão da existência. O título, Quero Tudo da Vida, não é apenas evocativo; é uma declaração de princípio. Beauvoir quis tudo: conhecimento, independência, paixão, intervenção no mundo. E é precisamente essa ambição total que torna este livro tão atual. Num tempo em que ainda se discutem os limites impostos às escolhas individuais, a sua voz continua a ressoar com força e clareza.

As premiadas autoras Julia Korbik e Julia Bernhard retratam Simone de Beauvoir como filha, amiga, uma intelectual que quis tudo da vida e explorou como ninguém a condição da mulher, a sexualidade, a liberdade e as diferentes formas de amar. 

QUERO TUDO DA VIDA Desde a infância, numa época em que as mulheres não podiam estudar, votar ou escolher a sua profissão, Simone de Beauvoir embarcou com paixão na grande aventura de ser ela própria. Motivada por uma enorme curiosidade em relação a si e aos outros, pela recusa em aceitar papéis impostos e por uma busca radical pela liberdade, esta filósofa e escritora existencialista, autora da obra revolucionária O Segundo Sexo, desafiou normas sociais sobre o papel da mulher na sociedade e tornou-se um ícone incontestável do feminismo e uma fonte de inspiração para uma legião de leitores. 

A partir de hoje nas livrarias. 

Ficha técnica:
Simone de Beauvoir – Quero Tudo da Vida
De Julia Korbik e Julia Bernhard
Capa dura, dimensões 170x240mm, cores, 224 páginas.
ISBN 9789895894710
PVP: € 21,95  |   Chancela IGUANA 

sexta-feira, 27 de março de 2026

Regresso às livrarias do clássico distópico de Margaret Atwood

Tem sido uma prática de algumas das nossas editoras generalistas aproveitarem um título da literatura contemporânea integrante do seu catálogo para lhe darem nova vida através da edição da sua adaptação para novela gráfica. Ainda recentemente a Gradiva fez isso com O Nome da Rosa, de Umberto Eco ou a Relógio D’Água com a saga Duna de Frank Herbert. 

Um dos títulos mais emblemáticos da editora BERTRAND, o clássico A HISTÓRIA DE UMA SERVA, de Margaret Atwood, uma distopia feroz sobre poder, género e controlo, que se tornou um fenómeno global e inspirou uma célebre série televisiva, é mais um exemplo que conhece aqui a sua versão em banda desenhada. É o regresso às livrarias numa nova edição com a chancela da Bertrand, depois de a anterior, publicada em 2020, se ter esgotado. O aterrador universo da República de Gileade volta assim a ser revisitado numa versão visualmente impactante, ilustrada por Renée Nault. 

A HISTÓRIA DE UMA SERVA Defred é uma Serva na República de Gileade, onde o trabalho, a leitura e a formação de amizades estão vedados às mulheres. Está ao serviço do Comandante e da sua mulher e, na nova ordem social, tem um único propósito: uma vez por mês, tem de se deitar de costas e rezar para que o Comandante a engravide, porque, numa era de nascimentos em declínio, Defred e as outras Servas são valorizadas apenas se forem férteis. Mas Defred lembra-se dos anos antes de Gileade, em que era uma mulher independente, com um emprego, uma família e um nome seu. Agora, as suas memórias e a sua vontade são atos de rebelião.

Ficha técnica:
A História de Uma Serva - Novela Gráfica
Adaptação de Renée Nault
Capa mole, dimensões 158 x 236, cores, 240 páginas.
ISBN: 9789722550369
PVP: € 20,90
Editor: BERTRAND EDITORA 
 

 
 

quinta-feira, 26 de março de 2026

Au revoir, Herman! Et à bientôt!


1938-2026

Há momentos em que a nossa estrutura é abalada e sentimos ter sido arrancado, visceralmente, um pedaço da nossa vida.


É isso que sinto com a partida de Hermann que, incansável, trabalhou até aos derradeiros momentos e conseguiu terminar Cartagena, a sua obra final a ser publicada em Abril e que desejo seja publicada muito rapidamente em Portugal.


Criador belga de Banda Desenhada, Hermann Huppen ofereceu-nos séries incontornáveis como Bernard Prince, Comanche, As Torres de Bois-Maury e Jeremiah, para citar apenas as minhas favoritas. E uma infinidade de álbuns isolados nos quais abordou os temas e géneros mais díspares.


Mais do que fazer parte do “meu” mundo da banda desenhada, Hermann fez (e faz) parte do meu crescimento desde a infância. Nesse sentido, escrevi há poucas semanas no texto acerca do álbum Revoir Comanche o seguinte:


Lembro-me bem da primeira vez que Red Dust e Comanche entraram em minha casa. Tinha apenas oito anos de idade e estava habituado a conviver com o Tintin, o Spirou, o Mickey e o Tio Patinhas, a Mónica e, bem mais raramente, com o Homem-Aranha, o Batman e o Super-Homem. Foi pois com estranheza e algum desconforto que li aquele primeiro volume publicado em Portugal em 1976 (na verdade, o sexto da série). Fúria Rebelde tinha na capa um índio extremamente agressivo que parecia estar a atacar o leitor. Os desenhos do interior mostravam-me personagens de feições rudes, todos eles abrutalhados, feios, para a percepção estética de uma criança.

Apesar disso, o facto é que nos oito anos que se seguiram devorei todos os álbuns de Comanche publicados em português. E, logo a seguir, aqueles inéditos no nosso País e só disponíveis em francês (Os Xerifes e O Deserto Sem Luz). Por fim, em 1998, quando não sonhava haver ainda algo para ler de Comanche de Greg e Hermann, saiu Le Prisonnier, colectânea de 5 histórias curtas publicados na revista Tintin entre 1972 e 1982. Foi o final de uma belíssima aventura no mundo da Banda Desenhada.”

 

Se as histórias e a estética de Comanche revelaram-se na minha infância, As Torres de Bois-Maury preencheram toda a minha adolescência e começo da idade adulta. Tal como em Jeremiah, Hermann é aqui senhor absoluto da criação. Uma longa narrativa que corre durante 10 álbuns (o primeiro ciclo), conta a história de um cavaleiro medieval, Aymar de Bois-Maury, desapossado das suas terras, e de como vai tentar reconquistá-las. A reconstituição dos ambientes, costumes e práticas medievais é primorosa e as histórias são enriquecedoras e excitantes.


Já a série Jeremiah, que corre num mundo pós-apocalíptico, e que conta com 42 álbuns, acompanhou-me de 1979 a 2025 (data de publicação do último álbum).


Capaz de publicar uma média de 2 álbuns por ano, Hermann acompanhou-me por isso ao longo dos últimos 50 anos (caramba!!!). Cada novo livro foi sempre para mim um acontecimento ansiosamente aguardado, mesmo quando a mão do mestre por vezes claudicava. Mas não foi essa razão para o deixar de apreciar (e muito!).


Nestas circunstâncias utilizam-se muitas vezes chavões. “É o fim de um ciclo”, “fecha-se uma página…”, blá, blá, blá! Para mim fechou-se uma luz que me alumiava, pelo menos, duas vezes ao ano. Um pouco da minha alma que foi coberta pela sombra.


Felizmente, posso rever Hermann na sua obra monumental de mais de 120 livros e reconhecer aqui que o mundo da Nona Arte lhe deve infindáveis favores. Mestre da cor directa, manipulador inteligente dos silêncios, a sua obra é um primor do realismo que se destaca na minha modesta biblioteca.


Lamento apenas que em Portugal nunca se tenha publicado o integral d’As Torres do Bois-Maury lançado em 2013 pela Glénat numa luxuosa edição de que vos deixo a capa mais à frente.

 

E aproveito para partilhar convosco os breves momentos em que me cruzei com o mestre.

 

Adeus, Hermann! Até breve, numa das muitas páginas dos seus livros!

 


(Capa da edição integral do primeiro ciclo de Les Tours de Bois-Maury e Dedicatória no primeiro volume integral de Bernard Prince. Beja, 2010)

 

(Dedicatória no livro Itinéraires de Bois-Maury. Beja, 2010 e dedicatória no 14.º volume de Bois-Maury. Beja, 2010)

 

Por Francisco Lyon de Castro