A Longa Marcha de Lucky Luke
Já alguém pensou que o Tintin faz um século daqui a três anos? Sim?! Não?! Por agora, não importa! O que importa mesmo é o facto que Lucky Luke faz 80 anos e continua bem vivo.
Criado em 1946 pelo belga Maurice De Bévère (mais conhecido por Morris), Lucky Luke é o personagem de maior sucesso da banda desenhada franco-belga, só ultrapassado por Tintin e Astérix. Mas é, sem dúvida, aquele com mais álbuns publicados. A série principal (que, na verdade, se divide em três) é composta por 83 livros e a esta podemos juntar a série “Lucky Luke visto por…” que acaba de ver publicado o seu oitavo livro pela editora A Seita.
Vamos à história!
O cavaleiro solitário avança penosamente pela paisagem nevada de uma floresta despida de folhagem no norte do Minnesota. O branco cobre toda a paisagem e a neve cai incessante, aumentando o frio que se adivinha pelas nuvens de vapor projectadas pela respiração de cavaleiro e cavalo.
Depois de uma longa viagem, o cowboy chega por fim a uma aldeola de montanha com uns quantos casebres, uma serração e um “armazém central”, local para onde se dirige. O cowboy solitário é Lucky Luke que quase esbarra com alguém com pressa de sair. Lá dentro, o ambiente é mais acolhedor, embora pesado. Caçadores de peles numa mesa, o taberneiro atrás de um balcão improvisado, mantimentos e utensílios a forrarem as paredes e uma pilha de peles de urso a um canto. Lucky Luke pede um chá muito quente que lhe é servido pelo taberneiro; um “Cramp tea”. Tem também à disposição um “Cramp coffee” ou um “Cramp whisky”. Ali, tudo tem a marca “Cramp”. Lucky Luke pergunta pelo paradeiro um certo Jeremiah Johnson e é informado que acaba de se cruzar com ele à entrada. Luke apressa-se a persegui-lo montado em Jolly Jumper e dá-se o confronto. Johnson dispara a sua carabina e erra. Já o nosso cowboy acerta em cheio no cano da arma do velho andrajoso que, mesmo assim, inicia uma fuga desesperada, travada com um pontapé no traseiro.
De volta ao estabelecimento, Johnson e Lucky Luke recompõem-se e este último explica ao caçador de peles que foi mandatado pelo Mister Ronald Cramp, o patrão da “Cramp Company”, para encontrar uma criança branca de dez anos que vive com a tribo dos Pés-Azuis, uma criança que é o seu sobrinho. Segundo Cramp, Johnson terá sido o último branco a ver o sobrinho entre os índios. Lucky Luke quer por isso convencê-lo a levá-lo até aos Pés-Azuis. Após uma breve negociação, Johnson aceita a missão e os dois partem pelos montes cobertos de neve e de milhares de árvores abatidas. Uma paisagem desoladora que, explica Johnson, é fruto da ambição desmedida de Cramp e a razão pela qual os Pés-Azuis estão em guerra contra o homem branco.
Tem assim início uma longa marcha…
Já não é surpresa! Com a regularidade próxima à de um relógio suíço, Matthieu Bonhomme tem-nos oferecido a sua visão de Lucky Luke de cinco em cinco anos. A última vez tinha sido por altura do 75.º aniversário do herói. Agora é o momento de assinalar o 80.º aniversário com uma nova aventura.
Com A Longa Marcha de Lucky Luke, Bonhomme apropria-se mais uma vez do personagem inventado por Morris em 1946 e torna-o seu. Mesmo assim, respeitando os códigos criados pelo autor original em conjunto com Goscinny. Ao mesmo tempo, confere-lhe mais realismo, mais violência e uma maior densidade psicológica. Entre a tradição e a inovação. Talvez por essa razão consiga agradar aos fãs do Lucky Luke clássico e àqueles que só agora tomam conhecimento da existência do cowboy que dispara mais rápido que a sua sombra.
Bonhomme não é só um desenhador de primeira água, é também um excelente argumentista. E isso é notório nesta história e no desenrolar da narrativa desenvolvida criteriosamente. Se o objectivo primário da aventura é resolver o salvamento de uma criança que vive há anos em território Lakota, no seio da tribo dos Pés-Azuis, rapidamente o leitor é confrontado com outras questões tão ou mais importantes que o dito “salvamento”. Um guia de pouco confiança que esconde um segredo; uma tensão crescente entre índios e brancos; a exploração brutal e descontrolada de recursos naturais com efeitos devastadores; tudo isto serve para conferir à viagem (marcha) de Lucky Luke uma muito maior dimensão.
Mas o mais interessante é o desenvolvimento psicológico do protagonista. Fazendo-o, Bonhomme consegue criar entre o leitor e o cowboy solitário um elo quase de camaradagem, um elo que ultrapassa em muito o prazer de ler uma boa aventura repleta de gags. A intriga assenta numa mudança progressiva de ponto de vista por parte do herói que acaba por ter de repensar a sua missão e assumir um papel de protector. O cowboy que conhecemos desde sempre como solitário e distante aproxima-se daquilo que nunca terá na sua vida: a paternidade. Nuvem Vermelha, a criança procurada, vai mexer com os seus valores e, ainda que por breves momentos, vai retirar o significado à frase final de todas as aventuras de Lucky Luke – “I’m a poor lonesome cowboy…”. Dos quase 100 álbuns que constituem a saga de Lucky Luke, este é, sem dúvida, o mais intimista e sentimental, sem nunca cair no mau gosto ou na vulgaridade. Para os admiradores de westerns, esta “Longa Marcha” remete-nos um pouco para Shane, o filme de George Stevens de 1953, protagonizado por Alan Ladd e baseado no romance homónimo de Jack Schaefer.
Desenganem-se, no entanto, aqueles que pensarem estarmos perante uma história melosa. A narrativa de Bonhomme não o permite, alternando sequências de pura acção com momentos mais reflexivos e outros mesmo introspectivos. E a tudo isto acrescenta ainda momentos de grande tensão e outros de humor refinado e eficaz. Para além disso e da intriga propriamente dita, são abordados temas tão contemporâneos agora como o eram já nas derradeiras décadas do século XIX: a exploração das terras e seus recursos, a ecologia e um capitalismo selvagem sem lei nem grei. No entanto, e felizmente, para o bem da narrativa, estas temáticas contemporâneas não surgem com pendor panfletário e estão perfeitamente integradas na história.
De igual modo, e de forma inteligente, certos personagens já conhecidos das aventuras de Lucky Luke estão também perfeitamente integrados na história. Desde logo, os irmãos (primos) Dalton que, não desempenhando um papel principal, têm uma participação equilibrada e pontuada pela ameaça real que representam e os disparates constantes que os caracterizam. E, desta feita, o seu papel está invertido pois não são eles os perseguidos por Lucky Luke, mas o cowboy que é perseguido pelos seus inimigos de sempre.
Decorrendo a trama entre o norte do Minnesota e o Canadá, Bonhomme brinda-nos ainda com a participação especial do cabo Pendergast, conhecido personagem do álbum Os Dalton no Canadá. Fazendo parte do corpo da famosa polícia montada canadense, Pendergast desempenha um papel central, ainda que breve, na resolução do conflito final da narrativa.
Com os Dalton e o cabo Pendergast a participarem em pleno na dinâmica da história, Bonhomme atrai também a atenção dos leitores clássicos de Lucky Luke.
Ao mesmo tempo, o autor cria uma galeria de personagens principais e secundários invejável, de tão ricos e bem caracterizados. Desde logo, os Pés-Azuis, baseados nos Sioux Lakotas do norte dos Estados Unidos, com destaque para Puma Negro e para Lança de Madeira. O primeiro é o guerreiro índio intempestivo e irascível, e o segundo é o sábio chefe da tribo. A estes dois junta-se aquele que é personagem principal de toda a trama, Nuvem Vermelha (a criança), e que acompanha Luke nesta aventura quase até à derradeira vinheta.
Jeremiah Johnson, o guia que leva o nosso cowboy até à tribo dos Pés-Azuis e que desempenha um papel fulcral numa das reviravoltas da narrativa é também um personagem denso e até ambíguo. Parecendo mover-se apenas por dinheiro, preocupa-se também com a desflorestação e as relações cada vez mais problemáticas com os Pés-Azuis. Curiosamente, Johnson foi um personagem real do Velho Oeste, um caçador e pisteiro muito mais brutal e sanguinário do que a versão que aparece no álbum ou mesmo no filme realizado por Sidney Pollack e protagonizado por Robert Redford em 1972 com o título Jeremiah Johnson e que em Portugal foi rebatizado como As Brancas Montanhas da Morte.
Por fim, há o vilão dos vilões, o magnata sem escrúpulos Ronald Cramp. A sua presença faz-se sentir ao longo de toda a história, mesmo quando está ausente – o que acontece na maior parte do tempo. E quando está presente, surge sempre em silhueta ou debaixo de uma forte sombra, reforçando o mistério e aumentando a inquietação no leitor. Parece que Bonhomme nos quer dizer que o mal não precisa de ter rosto. Personagem muito bem conseguido, é por demais óbvia a sua semelhança com um líder mundial da actualidade, até quando diz “O Canadá não é nada! Se for preciso, um dia compro-o! Ou anexo-o!”
Em termos gráficos, Bonhomme está no seu zénite, tanto a nível do traço como da maturidade enquanto artista. A sua abordagem semi-realista ao universo de Lucky Luke afasta-o da arte original de Morris, embora mantendo-se fiel ao espírito da série. Reconhecemos de imediato Lucky Luke, mas agora sentimos que ele também existe na nossa dimensão. E esta aproximação ao realismo é evidente não só nos personagens como nas paisagens e nas acções. Por vezes, de forma quase imperceptível. Pois, afinal o papel do desenho é servir a narrativa e fazer-se diluir de tal modo que o leitor não tenha dele plena consciência e se deixe envolver pela dupla narração. Assim, a percepção da história sem olho clínico é muito mais emotiva e gratificante. Para além disso, há sempre a possibilidade de novas leituras. E este é um dos trunfos gráficos de Matthieu Bonhomme: a capacidade de nos gravar no cérebro mesmo as vinhetas aparentemente mais insignificantes.
Quanto aos seus personagens, extremamente expressivos, são criados com um cuidado ímpar. Voltemos então a eles. Puma Negro é um guerreiro de cabeça quente e para acentuar a sua agressividade Bonhomme salienta-lhe as maçãs do rosto, confere-lhe um olhar duro e revira-lhe os cantos da boca para baixo. Para evitar os clichés, não lhe atribui um nariz adunco e a sua silhueta é formada por uma cabeça pequena e pernas longas, tudo conferindo-lhe um aspecto poderoso de guerreiro. Lança de Madeira é um pouco o inverso. Aspecto de velho sábio, tem os traços mais doces e sem muitas rugas, o seu nariz é mais longo e carismático e o seu tocado assimétrico reforça a sua singularidade. Já Nuvem Vermelha tem atributos dos Lakota como os cabelos longos e as roupas, mas é logo identificado como branco através dos seus olhos e cabelos claros. Como criança, as suas rugas de expressão são diminuídas ao mínimo. Como curiosidade, Antílope, a mãe de Nuvem Vermelha, é baseada na conhecida actriz Eva Marie Saint, protagonista de Há Lodo no Cais de Elia Kazan ou Intriga Internacional de Hitchcock. Bonhomme atribuiu-lhe um nariz mais pontiagudo e olheiras carregadas para sugerir uma vivência difícil.
A Longa Marcha de Lucky Luke decorre, maioritariamente, ao longo das montanhas, paisagens cobertas de neve e tempestades fustigantes, um desafio para qualquer desenhador. Mas Bonhomme, no que à neve diz respeito, tem um truque: primeiro desenha a paisagem e só depois a cobre de neve, sempre utilizando o branco da prancha, tal como aprendeu com o conhecido autor Cosey.
Neste álbum, um dos grandes inimigos dos heróis é o frio, ainda mais difícil de representar do que a neve. Não basta desenhá-la para que o frio se torne imediatamente evidente. Mas Bonhomme também domina os ares gélidos, traduzindo-se isso nas atitudes e posturas dos personagens (cabeça encolhida nos ombros, o bafejar nas mãos) e no vapor emanado dos corpos ou que sai das bocas. Atentem na sequência que se segue que é apenas parte de duas pranchas nas quais o frio é de cortar à faca…
Estes cenários nevados, vastos, selvagens e imersivos criam uma atmosfera muito particular onde o silêncio impera. Um silêncio que contrasta com a rudeza e violência dos acontecimentos, conferindo aos personagens uma maior expressividade perante o “vazio”.
Mas o traço firme de Bonhomme presta-se a muito mais. Seja na composição de cenas, no cuidado com que desenha as indumentárias, na maneira como desenvolve graficamente as cenas de acção ou na apropriação de personagens como seus. Um bom exemplo desta apropriação é a ligeira rinoplastia a que sujeitou todos os irmãos Dalton. E esta aventura de Lucky Luke permitiu-lhe também desenhar os animais típicos da região: lobos, bisontes… Aliás, a cena de acção caótica com os bisontes que decorre ao longo de seis pranchas é simplesmente memorável…
Em suma, A Longa Marcha de Lucky Luke é um verdadeiro festival narrativo e visual. O cowboy de Morris é aqui o de Bonhomme, que o adapta respeitosamente ao mesmo tempo que consegue manter os cânones da série original. As raízes de Lucky Luke são preservadas, a visão do herói é renovada.
O argumento sólido parte da ideia única do salvamento de uma criança para logo derivar para uma leve mensagem ecológica e anti-capitalismo selvagem através de um personagem à la Trump que se permite a tudo, usando do seu imenso poder.
Mas a ideia principal, aquela que faz mover a história e o próprio herói, eterno celibatário, é o seu inesperado papel de pai para o qual não está minimamente preparado. Nesse sentido, A Longa Marcha não é só aquela que calcorreia montanhas geladas e enfrenta todos os perigos. É também a que nos faz reflectir acerca do que é ser um herói, acerca da solidão e das razões que levam Lucky Luke a estar sozinho e a partir para longe no final de todas as suas aventuras.
A tudo isto, Matthieu Bonhomme junta um fino humor (veja-se a cena em que o herói recusa fumar o cachimbo da paz pois é um ex-fumador), várias reviravoltas no argumento, muita acção e um desenho irrepreensível. Por fim, a edição portuguesa oferece-nos um muito interessante caderno de extas no qual encontramos estudos de personagens, esboços de pranchas e pranchas e pranchas semi-terminadas a tinta e um estudo de capas. Como já nos habitou A Seita nas “aventuras de Bonhomme”, o público português é ainda brindado com duas edições de capa diferente.
Caro leitor, seja um amante do género western ou de apenas histórias superlativas, A Longa Marcha de Lucky Luke é um livro que não pode perder!
Por Francisco Lyon de Castro


























