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sábado, 19 de setembro de 2026

Quando tudo é Absoluto

Absolute Batman, vol. 1, O Zoo


Goste-se ou não da dita “banda desenhada de super-heróis”, é um facto que o Batman é um personagem incontornável da 9.ª Arte, mas indo muito mais além, pois é transversal a diversas manifestações da cultura contemporânea mundial.


Criado por Bob Kane e Bill Finger em maio de 1939, poucos meses antes de estalar a Segunda Guerra Mundial, o Cavaleiro das Trevas tem uma longa carreira que se estende ao longo de quase nove décadas.


Bastante diferente do Batman inicial, vingativo e até assassino, a sua versão actual soube acompanhar o evoluir dos tempos e das mentalidades, continuando por isso a agradar a cada nova geração. Já lhe conhecemos várias versões, mas a mais negra talvez seja a criada por Frank Miller em 1986 no seu O Regresso do Cavaleiro das Trevas, no qual assume argumento e desenho. E depois em Batman: Ano Um, momento em que passa o ónus da arte para o brilhante David Mazzucchelli. A estas duas obras seminais é essencial juntar-se A Piada Mortal, escrita por Alan Moore e desenhada por Brian Bolland.


De qualquer modo, com mais ou menos trevas, com mais ou menos revelações bombásticas, o Batman continuou a ser o Batman, e os cânones que lhe dão vida permaneceram inalterados.


Bom, na verdade, tal já não corresponde à realidade. É que em Outubro de 2024, Scott Snyder torna-se o “grande arquitecto” de um novo universo da DC Comics, o Absolute Universe. Antes disso, muitos meses antes e em segredo, começa a preparar o fio condutor que unirá a santíssima trindade da DC (Super-Homem, Batman e Mulher Maravilha) e chama para si o controlo total de Absolute Batman.


Quando se anunciou o lançamento, muitos críticos e divulgadores falaram da enésima maquilhagem do personagem, de mais do mesmo ou até de mais um capítulo fugaz da série Elseworlds, passada em universos alternativos.


No entanto, a publicação do número 1 do Batman Absoluto silenciou as vozes dos descrentes, encantou os fãs mais empedernidos e conseguiu conquistar até os leitores quase exclusivamente habituados à leitura de mangá.


Vaticinado como um fogo fátuo, o Batman Absoluto continua a arder passados dois anos e mantém-se como o comic mais vendido nos EUA e no resto do mundo. E Scott Snyder (argumento) e Nick Dragotta (desenho) ocupam o lugar no pódio dos melhores criadores de BD.


Em Portugal, a editora Devir publicou recentemente a compilação do primeiro arco de história que agrupa os números do 1 ao 6 e que tem como título O Zoo. A edição é muito cuidada, de capa dura e inclui uma série de bónus, com destaque para uma galeria com as inúmeras capas alternativas.


Como se pode ler na contracapa:

Sem mansão… sem dinheiro… sem mordomo… resta apenas… o Cavaleiro das Trevas Absoluto!


Vamos à história!


É um dia como outro qualquer. Bom, não será bem assim! A turma foi com o professor numa visita de estudo ao Zoo. Entre os alunos está o jovem Bruce, o filho do professor, o Sr. Wayne. A visita corre tranquila, até que, frente à jaula dos leões, um tiro ecoa no ar. O pensamento do Sr. Wayne vai para os miúdos e a sua preocupação é mantê-los em segurança, o que poderá custar-lhe a vida…

 


Muitos anos depois, uma moto percorre a alta velocidade as ruas de Gotham. O piloto procura algo ou alguém que ainda sequer conseguiu vislumbrar. A cidade parece ter-se transformado durante a sua longa ausência… para pior. Na mesma mantém-se a loja de chá do velho Amir, a única decente em Gotham. E mesmo ao lado dela, o motoqueiro tem o seu refúgio secreto onde guarda um verdadeiro arsenal. É também lá que se mantém em contacto com o seu enigmático empregador que lhe dá como nova missão vigiar e recolher informação acerca do gangue “Os Animais da Festa”. Estes andam há três meses a espalhar o caos e a morte por Gotham. Ninguém está a salvo, nem sequer as 32 pessoas de uma creche que foram queimadas vivas enquanto os psicopatas mascarados dançavam no exterior.


Mas o agente do MI6 é avisado que, tal como ele, parece haver outro “jogador” em jogo.



Não é por acaso ou devido a um surto psicótico fugaz que o primeiro comic de Absolute Batman vale hoje (se em perfeitas condições) um pouco mais de 17.000% do seu valor inicial. É que esta série conseguiu muito rapidamente agradar a gregos e troianos, o que no mundo da BD significa velhos e novos, tradicionais e vanguardistas, leitores clássicos e leitores apenas familiarizados com o que se produz no extremo Oriente. E só assim se consegue vender muitos milhões e ser lido por uns tantos outros.


O feito deve-se a Scott Snyder e a Nick Dragotta, dois nomes a ter em conta pelos festivais de BD nacionais. A premissa parece simples, uma espécie de “ovo de Colombo”: esqueçam quase tudo o que aprenderam ao longo de 87 anos de existência do Batman. Em Absolute, Bruce Wayne não é um milionário bem-parecido sempre em destaque nas revistas cor-de-rosa. É filho de um professor e de uma assistente social, cresceu num meio humilde de bairros pobres. Não tem mansão ou mordomo, nem rios de dinheiro para aplicar em causas beneméritas.


Se há algo que o liga à mitologia clássica do personagem é a perda de um dos progenitores, o pai, morto durante a visita ao zoo. Em contrapartida, a mãe continua viva e trabalha agora como adjunta do presidente da câmara, Jim Gordon. Todos os outros personagens recorrentes na série original têm agora os seus papeis redefinidos, sendo que o grupo de vilões composto por Edward Nygma (o Enigma), Oswald Cobblepot (o Penguim), Harvey Dent (o Duas Caras), Waylon Jones (o Killer Croc) e Selina Kyle (a Mulher-Gato) fazem agora parte do grupo de infância e da juventude de Bruce e estão longe de serem vilões – pelo menos, neste primeiro volume.



Absolute Batman é o primeiro comic book que tenta (e consegue) recontextualizar Batman para os tempos actuais de forma significativa que vá além dos alicerces criados por Bob Kane e Bill Finger em 1939. O projecto ambicioso assenta na maneira como se apodera de toda a história do personagem e a traz para as fundações desta nova existência. Como já disse, não se trata de um novo Ano Um ou de uma incursão em universos paralelos da série Elseworlds. No “seu” Batman, Scott Snyder usa 86 anos de narrativa apenas em retrospectiva. De resto, tem carta branca para recriar e até criar, sem se preocupar com a continuidade de quase nove décadas de histórias. E até tomar decisões muito arriscadas nas peças até agora intocáveis da história de origem icónica.

Mas a coisa mais chocante em Absolute Batman é a maneira como são abandonadas muitas das ideias básicas que aceitamos serem o cerne inabalável do que faz de Batman o Batman. Todos conhecemos a ladainha: ele é um rapaz rico cujos pais foram mortos num momento de violência gratuita. Órfão, usa a sua fabulosa riqueza para se tornar uma figura vingadora e protector dos desfavorecidos.


Aqui, os Wayne não foram mortos num beco escuro e a mãe está viva. Não há um assalto no “crime alley”. Aqui, o momento trágico dá-se durante uma visita de estudo ao zoo, onde um jovem Bruce se deixa fascinar pelos morcegos, mesmo antes de um atirador abrir fogo sobre a multidão. Curiosamente, a placa informativa do zoo acerca dos morcegos é um elemento visual recorrente que lembra aquele constituído pelas pérolas a caírem do colar de Martha Wayne quando é assassinada na história de origem concebida por Kane e Finger. A placa anuncia no original “Bats are crazy!”, atribuindo uma certa loucura ao personagem que se adivinha.


Esta é a mudança mais expressiva do mito. Não apenas o facto de Bruce não ser um órfão, mas de o caminho a percorrer para se tornar no Batman começar com um tiroteio em massa. Snyder transpõe o acto instigante do assalto aleatório, um símbolo da era da Depressão – na época de Kane e Finger – ou do crime urbano na era de Ronald Reagan – em Ano Um de Frank Miller – para um tiroteio em massa, reposicionando assim o Batman no “aqui e agora”, num Batman do minuto em que vivemos. Num mundo pautado pela indiferença e crueldade, pela falta de heróis e por ricos e poderosos em quem não se pode confiar, o Batman torna-se um homem vulgar derivado do caldeirão de desgraças que é a cidade onde vive.



Snyder não recontextualizou apenas a tragédia, mas cada faceta do personagem. Desde o princípio da narrativa está tudo claro. Bruce é apenas mais uma criança numa Gotham decadente e moribunda, uma cidade esventrada por oligarcas corporativos e fugas de capital e igualmente por assassinos absolutamente sem escrúpulos. Os vilões clássicos de Batman são agora os seus amigos de infância, todos eles de origens humildes. Neste contexto de grande negrume, o caminho escolhido por Batman parece ser mais que óbvio, mas a tensão é absolutamente notável.

 

Absolute Batman é a maximização das histórias de super-heróis. Da narração dramática à abrangência da história, dos diálogos duros e rudes ao universo visual exagerado e inovador de Nick Dragotta, tudo confere sentido à palavra “Absoluto”.

 

Por exemplo, o vilão de serviço, Roman Sionis, também conhecido como Máscara Negra, é o líder do gangue de mascarados “Os Animais da Festa” e declara guerra à tradicional estrutura de poder de Gotham. Quando o Máscara Negra assassina brutalmente os cabecilhas das mais importantes famílias do crime – os Falcone e os Maroni – tal assinala uma mudança da velha guarda do crime organizado para um terror caótico e sangrento. Em Absolute Batman nada poderia ser menos que isto.


O mesmo se passa com a violência de parte a parte. Quando Batman finalmente confronta “Os Animais da Festa” num combate brutal no meio da rua, não se trata apenas de fazer parar os criminosos no seu percurso destrutivo; trata-se de proteger a comunidade da classe trabalhadora a que ele pertence. E fá-lo através de métodos brutais que reflectem o seu desespero: facas escondidas nas orelhas do capuz, um enorme bat-símbolo que se transforma num machado que ele manuseia com a eficácia de um homem das obras e a vontade declarada de provocar lesões definitivas nos seus inimigos. Ao pé deste Batman absoluto, aquele que já conhecíamos é a moderação em pessoa.



Este Batman constrói todo o seu uniforme a partir de restos de materiais de construção e peças de metal. Os seus veículos são equipamentos de trabalho públicos alterados. O gangue do Máscara Negra é o antagonista principal e representa algo muito mais tangível do que a vilania típica dos comic books. Caramba! Até o “Alfredo” subverte todas as expectativas ao aparecer como um operativo do MI6 empedernido.

 

À medida que a história progride, a campanha de terror do Máscara Negra torna-se cada vez mais pessoal e vingativa. “Os Animais da Festa” já não roubam apenas bancos ou vendem drogas; eles passam a ter como alvo a própria infraestrutura que mantém a classe trabalhadora de Gotham a funcionar deficitariamente. Eles atacam os locais de construção onde Bruce trabalha durante o dia, ameaçam a família e amigos que ele mantém no Beco do Crime e forçam-no a manobras cada vez mais desesperadas.

 

Como vos digo, aqui é tudo Absoluto!


E o que faz a trama funcionar com tanta eficácia é a maneira como nivela a mitologia do Batman ao nível da rua. Ou seja, não se trata aqui de salvar o mundo ou de enfrentar uma ameaça cósmica. Trata-se de salvar a vizinhança daqueles que a querem destruir apenas por diversão. “Os Animais da Festa” representam assim o deslocamento urbano através da violência, forçando a fuga de comunidades perfeitamente estabelecidas através do terror. A resposta do Batman não é propriamente fruto de calculismo ou de pensamento estratégico; é a fúria desesperada de alguém que vê o seu meio a ser destruído.


O Zoo não se refere apenas às máscaras animalescas usadas pelos antagonistas, mas à selva urbana em que Gotham se transformou debaixo da sua influência. O maior desafio do Batman não é apenas perceber como vai travar o Máscara Negra; é aprender como sobreviver numa cidade onde as regras civilizacionais foram completamente destruídas por estes animais.


 

A escrita de Snyder tem uma profunda complexidade psicológica, conseguindo manter, ao mesmo tempo, uma simplicidade aparente que não permite ao leitor sentir-se entediado. Os diálogos são naturais, o ritmo nunca se arrasta e a cadência emocional atordoa-nos ao longo de cada um dos seis capítulos. Snyder conseguiu arranjar uma maneira deveras eficaz de nos fazer sentir que este Batman Absoluto é mesmo perigoso e verdadeiramente ameaçador.


E depois, na mais pura tradição dos seriados cinematográficos e dos comic books, Snyder gere o ritmo da narrativa bem a seu modo, com muita acção e reviravoltas em todos os capítulos. Alguns leitores poderão achar tudo um exagero ultra-violento, mas este é um Batman dos nossos dias, nos quais há chacinas em liceus, líderes chamam às guerras “operações especiais” e povos inteiros são chacinados e os sobreviventes, deslocados. Exagero não é o Absolute Batman; é grande parte do mundo em que vivemos!

 


Quanto ao aspecto gráfico, a arte de Nick Dragotta é absolutamente espectacular. Para mim, claro está! Tem, como se diz, assinatura, personalidade, e é difícil encontrar algo que se lhe assemelhe. Para além disso, casa na perfeição com esta versão mais “macabra” das aventuras do Batman criada por Snyder e tem a capacidade cinematográfica de conseguir acompanhar a sua narrativa.


Contudo, o primeiro impacto para o leitor surge de imediato na capa. Fisicamente, este Batman não é aquele a que estamos habituados. O corpo é levado ao exagero e assemelha-se a um Hulk. Este é um Batman que faz trabalho braçal e cujo uniforme parece ser realizado com materiais arranjados em estaleiros de obras. O símbolo do morcego, também ele levado ao exagero extremo, é um rectângulo negro que vai de axila a axila e pode transformar-se num machado. Se a narrativa de Snyder é “Absoluta”, a arte de Dragotta também o é.


 

A planificação das páginas parece ter sido realizada durante um surto psicótico de Dragotta, tomado por um caos criativo. Tanto temos páginas carregadas de pequenas vinhetas, como, logo de seguida, estas se agigantam e tomam conta da prancha, transformando-se em uma só ou até ocupando página dupla. Mais uma vez, um salto Absoluto que vai do micro para o macro e até para o hiper-macro.


Este primeiro volume está repleto de detalhes e de acção. Dragotta utiliza pequenas vinhetas quadradas e rectangulares tanto para construir a sensação de acção muito rápida como para desacelerar a narrativa. O efeito de desaceleração pode ser visto, por exemplo, quando Alfred toma o seu chá relaxadamente. Os vários passos para o fazer atravessam a página horizontalmente e acima e abaixo destes, uma vinheta individual e uma dupla criam a sensação: Alfred respira e o leitor também.


E depois há as cenas de acção muito rápida. Mais uma vez, um exemplo do primeiro capítulo. Dá-se o confronto entre Batman e o gangue dos “Animais da Festa” frente ao edifício da Câmara. Ficamos fascinados com a batalha de um homem só contra um exército de lunáticos descontrolados e com as capacidades físicas do Homem Morcego, bem como com os predicados do seu uniforme. Mas a verdadeira acção, aquela que no cinema mal poderíamos percepcionar, começa quando vemos apenas pequenos flashes do Batman, enquanto ele faz cair a sua fúria sobre o exército de terroristas. Os sentidos do leitor são sobrecarregados e tornados ainda mais tensos pelo encarnado sangrento providenciado pelo colorista Frank Martin. Aliás, Dragotta utiliza este tipo de estímulo visual exacerbado ao longo de toda a obra, tornando-o numa arma eficaz da própria narrativa.


Noutro sentido, as sequências de acção têm um peso real e consequências sérias ao longo de todas as cenas de luta. O leitor consegue sentir o impacto de cada osso a partir-se; o desespero dos psicopatas que, frente a um Batman impiedoso, parecem nada mais quererem do que misericórdia; todas as tentativas desesperadas de sobrevivência contra o que parecem ser derrotas garantidas neste mundo impiedoso habitado pelo Batman e no qual leva avante a sua cruzada brutal.



Este primeiro volume de Absolute Batman marca um começo extraordinário para um herói que já existia no tempo dos nossos avós e até dos nossos bisavós. Cada escolha foi feita criteriosamente e não apenas com o intuito de ser diferente. Nesse sentido, a nova mitologia do personagem que se vem construindo desde 2024 aborda o mundo como ele se nos apresenta hoje. Snyder e Dragotta desafiam a iconografia do Batman, forjada numa era específica e arrastam-na para os anos de 2020 apenas para a dilacerarem e recriarem algo inesperado e visceralmente excitante.


O que Snyder e Dragotta nos oferecem é algo revolucionário para o Cavaleiro das Trevas. O que emerge desta dupla criativa não é apenas mais uma nova versão do Batman e do seu universo, mas uma mudança filosófica que desafia todos os pressupostos acerca do que faz funcionar o Batman como personagem impactante e símbolo cultural da BD e da sociedade de hoje.


O Batman é alguém destroçado que tenta concertar um mundo destroçado, mas sem meios suficientes para o fazer, embora com uma determinação quase inabalável. Retirando a vasta riqueza e privilégios que por vezes tornaram o personagem um pouco dissociado dos problemas do mundo real, Snyder e Dragotta criaram uma versão do herói que se sente urgente e absolutamente necessária para os leitores dos tempos que correm.


Como admirador do Batman há muitos anos, posso dizer-vos que este primeiro volume resulta igualmente bem para novos leitores e para aqueles que, como eu, julgavam ter visto já todas as abordagens possíveis ao personagem. Este Batman é um guerrilheiro urbano, um herói vindo da classe trabalhadora, alguém que percebe verdadeiramente o que significa não ter nada a perder.


Aqui estabelecem-se as fundações sólidas que parecem garantir a existência de um novo Batman a longo termo ao mesmo tempo que, no imediato, somos bombardeados com uma narrativa literária e gráfica excitante.


Embora haja um grande desenvolvimento de personagens, há também extraordinárias cenas de acção e inúmeras e inesperadas reviravoltas narrativas. Tudo é brutal, rápido, intenso e impecavelmente coreografado.


Tive a oportunidade de entrevistar Scott Snyder na Comic Con em Santa Maria da Feira e garanto-vos que o próximo volume (a lançar pela Devir ainda este ano) não só não defrauda as expectativas como eleva a fasquia deste Universo Absoluto. E preparem-se para o acrescento de um novo condimento: o Terror. O Terror nas suas múltiplas facetas.


No entanto, quando tudo é Absoluto, não sabemos o que mais esperar…

 


 Por Francisco Lyon.

 

Celebrando os 25 anos do Menino Triste


 

quinta-feira, 17 de setembro de 2026

Está nas bancas um Astérix na Lusitânia cheio de extras

O “histórico” Asterix na Lusitânia chegou de novo às bancas, mas desta vez chega com extra que justifica aqui uma nota. Já sabemos que a editora SALVAT está de novo, e pela terceira(!) vez, a (re)lançar a sua Colecção Integral Astérix, e até aqui não há nada de novo. Mas este álbum em concreto, o terceiro volume (n.º 48 na lombada) desta série, é justamente o da aventura dos nossos irredutíveis gauleses por terras lusitanas.

- Ó pá, é mais do mesmo?
- Ó pá, não!

Porque a Salvat não se ficou por reimprimir o álbum tal e qual. Este traz mais qualquer coisa. Acrescenta à história um belíssimo dossier de extras intitulado “Os Segredos da Criação”. 

São cerca de 24 páginas que mostram os bastidores, começando pelas viagens realizadas pelos nossos heróis onde se aborda a questão da globalização muito presente nestas aventuras, passa pelo registo fotográfico da passagem de Fabcaro por Portugal para a recolha de elementos e pequenos detalhes sobre a Lusitânia até aos primeiros esboços da Olisipo portuária. Não esquece de dissecar as "portugalidades" que entram no álbum, e explora mais outros detalhes.

Não sei se estes extras são os presentes na edição especial francesa, mas seja como for este álbum é sem dúvida um óptimo complemento à história e vale os simpáticos € 10,99 do preço de capa. Encontra-se nas bancas.



 

 

 

quarta-feira, 16 de setembro de 2026

O penúltimo «Monster»

A editora DEVIR prepara uma entrada nos últimos meses deste ano com uma oferta vasta e destinada aos mais variados gostos. O manga obviamente que domina, mas o mercado americano também vai marcar uma forte presença nos escaparates das livrarias. E até o franco-belga faz uma perninha com uma obra de David Combet, que esperemos que não seja editada naquele malfadado formato “angouleme”.

Mas trago aqui hoje é um novo volume de MONSTER, de Naoki Urasawa, uma bela saga que se aproxima já do seu desfecho. A partir de amanhã temos disponível o volume 8, o penúltimo da colecção. Já aqui tinha escrito que este é dos poucos mangas que sigo e mais ainda que o agora que o quadro começa a compor-se. O volume final chega ainda este ano, em Novembro. 

MONSTER 8
«Deve haver uma chave para o nascimento deste “MONSTRO” na minha memória!!»
Nina, que permaneceu em Praga com o objetivo de recuperar as suas memórias de infância, recupera finalmente toda a sua memória!! O que terá acontecido à jovem Nina e ao Johan!? O que havia na “Mansão da Rosa Vermelha”!? O Johan nunca dá ouvidos a ninguém. O Johan nunca é generoso. Os desejos de ninguém interessam ao Johan. Para onde raio é que ele se dirige? O que o levou a tornar-se num monstro destes? À medida que a verdade misteriosa se vai revelando gradualmente, o que é que irá acontecer!? 
 
Ficha técnica:
Monster - Volume 8
De Naoki Urasawa
Capa mole, 148x210, p/b, 426 páginas.
ISBN: 9789895598656
PVP: € 20,00
Editor: DEVIR 
 

terça-feira, 15 de setembro de 2026

Está ai o terceiro volume de SHI!

Outra bela novidade que encontramos este mês nas livrarias nacionais, é este terceiro volume da colecção SHI da editora ALA DOS LIVROS. A fantástica saga de fantasia e vingança assinada pela magnifica dupla de autores Zidrou/Homs tem aqui, não um, mas dois desenvolvimentos, uma vez que cada volume da edição portuguesa agrega dois tomos. 

Desta vez, Zidrou mergulha as suas heroínas, sedentas por vingança e justiça social, no coração de um evento histórico que ressoa com particular força nos dias de hoje: "O Grande Fedor", uma catástrofe climática que desencadeou uma verdadeira revolução na saúde pública de Inglaterra. Um ambiente crepuscular onde a arte evocativa de Homs mais uma vez opera maravilhas.

Sou suspeito para falar desta belíssima colecção porque gosto de tudo aqui: dos autores, da história, da edição. E recordo que o desenhador Josep Homs é um dos convidados do próximo Amadora BD com direito a exposição

Londres, 1858. Enquanto Jay aguarda o seu julgamento na prisão, após os trágicos eventos de Trafalgar Square, e tanto Kita como Sensei, com os seus demónios, lutam para recuperar dos seus ferimentos, uma nova calamidade assola a Inglaterra e a capital do Império Vitoriano. Uma onda de calor intensa seca o Tamisa, poluindo Londres e ameaçando reacender uma epidemia de cólera. Mas isso não impede as fundadoras das "Mães Furiosas" de planearem novos ataques, de lutarem pelo fim do trabalho infantil e de procurarem a filha de Jay. Só falta a encarnação do quarto demónio para finalmente se vingarem do Império, porque, como diz a cantiga infantil: "4 é o seu número, o seu número maligno"... 

Ficha técnica:
Shi - Livro 3 (inclui os tomos 5 e 6)
Argumento de Zidrou e desenho de Josep Homs
Capa dura, dimensões 235 x 320, cores, 128 páginas.
ISBN: 9789899363007
PVP: € 32,00   |   Editor ALA DOS LIVROS 
 

domingo, 13 de setembro de 2026

Deus e a Bala

  Wild West, volume 5

 

Para todos aqueles que gostam de westerns, actualmente há duas séries de banda desenhada incontornáveis: Undertaker e Wild West.


Para todos aqueles que gostam de uma BD com uma boa história e bem desenhada, actualmente há duas séries a ter em consideração: Wild West e Undertaker.


A maior diferença entre as duas, para além da arte, é o facto de Wild West ter uma abordagem mais clássica ao género, mas nem por isso ultrapassada.


Curiosamente, as duas séries são publicadas em Portugal pela Ala dos Livros e estão a par com as edições francesas.

 

Mas o que nos interessa agora é Redenção, o quinto volume de Wild West que abre um novo díptico e nos traz mais um personagem lendário do Velho Oeste, como veremos mais adiante. Aliás, esta é uma das “imagens de marca” da série: a história da conquista do Oeste Selvagem através da história das suas figuras lendárias, desconstruindo esse estatuto de lendas, tal como nos habituaram Thierry Gloris (argumento) e Jacques Lamontagne (desenho).

 

Antes de mais…


Vamos à história!

 

A locomotiva avança a todo o vapor pela região montanhosa da Califórnia. Subitamente, a linha está bloqueada por troncos de árvores. Para que não haja dúvidas, o bando de foras-da-lei dispara várias vezes para o ar anunciando o assalto. Entre os assaltantes, uma mulher parece liderar o ataque. Dentro da carruagem de passageiros, ela abate o único que lhe resiste. Na carruagem forte, assassinam todos os ocupantes e levam o conteúdo do cofre. Depois de dividirem o resultado do saque, combinam encontrar-se dali a seis meses para um novo assalto.



Meio ano depois. Dolores City, entre a Califórnia e o Nevada. A pequena cidade poeirenta vive ao ritmo da mina de bórax, dos seus mineiros, dos homens de família e de negócios e do imponente pastor de almas. Disso e dos cada vez mais frequentes episódios escandalosos da menina Calamidade, ou melhor dizendo, de Calamity Jane. Fúrias imprevisíveis, humor irrascível e embriaguez crónica afogam os seus velhos tormentos, enquanto os bons homens da cidade pedem ao xerife que faça algo. Naquela manhã é vê-la a dormir na pocilga a céu aberto, por entre porcos e perante as senhoras de sociedade que a observam chocadas. Juntamente com o seu ajudante, o xerife Bill Hickok vai buscar a sua amiga Jane à pocilga, sabendo de antemão que é mais fácil fazer reinar a ordem na cidade do que manter Calamidade nos eixos. Nem Charlie Utter, o seu amigo comum, consegue fazê-lo.

 


Entretanto, nos arrabaldes de Dolores, a intrigante família Ballou acaba de comprar o velho e isolado rancho W. Com eles trazem dez cabeças de gado, rostos carrancudos e explicações pouco convincentes. A intuição de Hickok coloca-o em alerta. Aproxima-se uma tempestade. E das grandes…



Com Redenção inicia-se o terceiro díptico de Wild West, a série criada por Gloris e Lamontagne. E, mais uma vez, Gloris consegue dar-nos um retrato apurado do Velho Oeste e daquele momento na história dos EUA em que a “civilização” começa a chegar aos lugares mais recônditos da jovem nação. E fá-lo através das vidas de Wild Bill Hickok, Calamity Jane e Charlie Utter, figuras lendárias do Faroeste que são aqui tratadas de forma bem mais interessante e prosaica.


Uma das grandes diferenças deste volume em relação aos anteriores é o facto de irmos encontrar estes três protagonistas cristalizados nas suas rotinas em Dolores City. Hickok usa na lapela a estrela de xerife e leva a vida de casado como um homem respeitável, mas entediado. Charlie Utter entrega o correio e Calamity Jane bebe até ao esquecimento e incompatibiliza-se com toda a cidade. Aliás, ao contrário do que se passou anteriormente, Jane tem um papel muito reduzido neste volume.


No primeiro terço da obra, Gloris parece levar-nos por um percurso narrativo inconsequente. Uma ida ao dentista, uma partida de cartas, o final de um dia de aulas na escola, um jantar formal em casa dos Coleman, são alguns dos momentos que parecem querer mostrar-nos que tudo vai bem em Dolores City. Mas Gloris consegue instalar no leitor uma espécie de dúvida sistemática que leva à percepção quase inconsciente de uma tensão crescente.



Ao mesmo tempo, este ambiente aparentemente morno permite ao autor construir um Bill Hickok mais denso, desenvolvendo os estados de alma do personagem enredado nos seus deveres conjugais. Já quanto a Calamity Jane, quase não a reconhecemos. Irrascível, descontrolada, personagem desagradável, parece ter apenas as boas graças de Charlie Utter. Mas percebemos como chegou a este estado pois, embora vão longe os tempos em que trabalhou numa casa de prostitutas, casou com um índio e viveu na sua tribo e perseguiu Hickok por ter morto o seu marido, tudo isto se acumulou nela e a transformou.


Mas assim que a narrativa estabelece as suas bases, estes aparentes tempos mortos desaparecem e dão lugar a uma trama corrida e violenta, na qual todos têm um passado perturbado. Um passado oculto num Oeste americano que permite a todos reinventarem-se e criarem novas vidas… até que os fantasmas pretéritos ressurjam do nada. E temos assim a importância do título deste volume – Redenção.


Gloris é um escritor experiente e sabe não só criar situações de suspense como implantar na trama uma tensão crescente que, neste caso, provavelmente acabará com o troar do Smith & Wesson de Bill Hickok. Neste burgo onde a vida só é perturbada pelos excessos de Jane e no qual os fora-da-lei se mantêm distantes do nosso xerife, o poder acaba por ser partilhado pelo homem da lei e pelo homem da fé, o pastor Jérémiah Henderson.


 

A escolha narrativa de centrar a trama em Wild Bill Hickok não é inocente e encerra o propósito maior (quanto a mim) deste volume. A figura da lei em luta, não apenas contra o crime, mas contra os dogmas de uma comunidade dominada pela fé. Num Faroeste carregado de contradições, a justiça dos homens confronta-se com a de Deus. E a palavra Dele é invariavelmente substituída pelo verbo da bala. Os tiros e os sermões inflamados parecem estar ao mesmo nível, exercendo de forma igualmente eficaz o julgamento dos outros. E é isto que Gloris nos quer mostrar, uma América de pioneiros, de aventureiros, de desbravadores, a maior parte deles consumidos por certezas morais, onde a fé tantas vezes se torna mais opressiva que a lei.


A narrativa estabelece-se assim com tensão e densidade. Mas há que arranjar um catalisador que a acelere e encontramo-lo na chegada da família Ballou a Dolores City, encabeçada pela bela Catherine. E para os menos atentos, este é o momento de Gloris acrescentar à galeria de figuras lendárias de Wild West a de Belle Starr, a conhecida fora-da-lei amplamente divulgada pelas Dime Novels da época e imortalizada por Morris numa das aventuras de Lucky Luke. De igual modo, ficamos a conhecer o dentista tuberculoso de Hickok, o também lendário Doc Holliday, sobretudo famoso pela sua participação ao lado de Wyatt Earp no tiroteio de OK Corral.


Por fim, a “embrulhar tudo”, temos ainda a enorme tensão entre os cidadãos de Dolores City e a comunidade chinesa de mineiros, acusados de roubar o emprego aos americanos. O quinto volume de Wild West é um autêntico barril de pólvora.



Quanto à arte, Jacques Lamontagne parece estar no seu pico artístico. O seu estilo único, realista, com um traço meticuloso, é o garante da completa imersão do leitor num Oeste rude e porco, no qual, de igual modo, mulheres e homens cheiram mal; a poeira raramente assenta nas ruas, excepto quando estas estão submersas em lama; e o duro dos duros pode morrer com uma infecção num dente. O Faroeste de Lamontagne é sujo e tangível, inclemente e credível.

E para isso contribui, e muito, a sua atenção aos pormenores e as muitas pesquisas que faz antes de pôr os pincéis e lápis a trabalhar. Quando Lamontagne desenha o interior de um saloon, uma rua do bairro chinês ou um simples Colt, o leitor acredita no que está a ver e prossegue como se lá estivesse. Esta atenção dada ao detalhe inibe-o, a maior parte das vezes, de preencher os fundos das vinhetas com uma simples cor plana. Os detalhes em Lamontagne são como uma epidemia que se propaga dos primeiros para os segundos e terceiros planos. Reparem na imagem que se segue e como os pormenores se estendem até para lá da porta do saloon.



Para além disso, o artista tem um sentido muito apurado no que diz respeito aos enquadramentos e à encenação. A narrativa visual, por isso, nunca é monótona e serve na perfeição à constante tensão dramática da trama. Por si só, cada vinheta é composta como se de um quadro se tratasse, sempre com uma profundidade extraordinária. E se lhes juntarmos um sentido cinematográfico de montagem, facilmente conseguimos imaginar o “filme das coisas” a desenrolar-se diante o nosso olhar com um grande dinamismo.

Como artista completo que é, Lamontagne aplica a cor aos seus desenhos. E fá-lo com grande mestria. O bailado entre luz e sombra é perfeito, criando contrastes que dão grande realismo ao desenho. A colorização é ligeiramente dessaturada e subtil, acentuando o equilíbrio frágil entre a beleza e o desespero, o quotidiano fastidioso e o momento opressivo ou de tensão.



Redenção, o quinto volume de Wild West, é uma nova pérola nesta série, confirmando a riqueza narratia de Thierry Gloris e o génio artístico de Jacques Lamontagne.


Uma história que se desenrola num ambiente pesado, evitando os clichés a que Hollywood nos habituou nos seus westerns ou as imagens românticas propagadas pelas dime novels dos finais do século XIX e princípios do século XX e que são responsáveis pelas ideias lendárias e erradas que temos de grande parte dos protagonistas da história do Velho Oeste.


De novo, a pretexto de nos contarem a história de Bill Hickok, Calamity Jane e Charlie Utter, Gloris e Lamontagne pintam um fresco monumental sobre a história do Oeste Longínquo e dos homens e mulheres que o foram desbravando a grande custo, tantas vezes pagando com a própria vida. E se a leitura de cada volume nos embrenha profundamente na vida dos protagonistas e dos seus secundários, a leitura completa e sucessiva de toda a série, feita num mesmo momento, dar-nos-á a grandiosidade desse fresco.

 

EXTRAS


Os retratos reais dos protagonistas de Wild West (II):

 

Belle Starr

 


 

Doc Holliday e “Belle Starr jumping bail” (ilustração do National Police Gazette de 22 de maio de 1886)

 



Por Francisco Lyon