Dakota 1880
Para os
que amam a Nona Arte, Lucky Luke é um daqueles personagens incontornáveis. O
cowboy solitário, mais rápido que a própria sombra, sempre acompanhado por
Jolly Jumper, o seu fiel e opinativo cavalo, e a quem se junta, por vezes,
Rantanplan, o cão mais estúpido do Oeste.
Lucky
Luke, criado em 1946 por Morris, comemora em 2026 oitenta anos de existência. Oitenta
anos de histórias bem-humoradas, com um pé entre a ficção e a realidade, e onde
se revisitam figuras históricas e as realidades do Faroeste oitocentista.
Sempre lúdico e pedagógico (para quem quer!). Mas, sobretudo, com muito humor.
A Seita tem
vindo a publicar em Portugal a série spin-off de Lucky Luke na qual vários
autores são convidados a fazerem a sua interpretação do herói. Desta feita,
cabe a Appollo (argumento) e a Brüno (desenho) a árdua tarefa. E digo árdua
porque estes autores, embora grandemente desconhecidos em Portugal, têm
créditos bem firmados no mercado franco-belga e não se podem dar ao luxo de
criar algo que não passe de mera manutenção de colecção. Dakota 1880 nunca poderia ficar atrás de obras como Commando Colonial, Junk, Nemo ou Tyler Cross, entre outras dos autores.
Então
porque fazer esta homenagem a Lucky Luke sem o humor que caracteriza as suas
aventuras? E porque colocar o herói num momento da sua vida em que a juventude
não comporta ainda os traços que o tornaram uma figura mítica do Velho Oeste? E
porque razão os autores resolveram fazer sete histórias curtas ao invés de uma
só aventura?
É isso
que vamos ver, num álbum que nos oferece um Lucky Luke realista, numa edição
com duas capas (versão regular e versão Wook) e que termina com um interessante
dossier de que se falará adiante.
Vamos à
história!
A
diligência avança a custo, fustigada pela tempestade de neve que assola aquela
parte do Dakota no Inverno de 1880. Hank conduz com mãos férreas os quatro
cavalos que vão desbravando o território inóspito. A seu lado, um jovem cowboy
de carabina alerta serve de escolta. O seu nome é Luke.
Numa
das pistas nevadas do Dakota, no meio do nada, apanham um passageiro que diz
ser Louis Riel, professor primário, que quer ir para o Norte, para o Canadá.
Mais à
frente, um tronco atravessado na via interrompe-lhes o percurso e cabe a Luke
descer da diligência e desimpedir o caminho. Mas assim que começa a tarefa, é
agredido violentamente por duas figuras misteriosas e atirado do alto da
ravina. Perde a consciência enquanto a neve persiste em cair, e os dois homens
levam a diligência e com ela o cocheiro e o mestre-escola.
Quando
recupera a consciência, Luke segue os traços que a diligência deixara na neve e
acaba por cruzar-se com dois índios. Estes procuram o mestre-escola. Luke
faz-se de desentendido e pede-lhes um cavalo.
Rapidamente,
alcança os seus agressores no preciso momento em que se preparam para enforcar
Louis Riel, já montado num cavalo, de mãos atadas atrás das costas e com a
corda à volta do pescoço. Ao lado, ajoelhado na neve, também manietado e
completamente impotente perante a situação está Hank, o cocheiro. Luke
confronta os bandidos e pede-lhes para largarem as armas; estes, estando em
superioridade numérica, tentam abatê-lo. Mas com quatro tiros bem colocados,
Luke desarma-os e põe-nos em fuga.
Entretanto,
veem-se cercados por um grupo de índios e em breve saberão a verdadeira
identidade de Louis Riel…
Como já
se disse, Lucky Luke foi criado por Morris em 1946. Desde então, teve uma
primeira série que conta 31 álbuns; uma segunda série com 41 álbuns e uma
terceira com 11 álbuns, esta última já sem Morris entre os vivos. Para além
disso, corre ainda uma série spin-off “Lucky Luke visto por…” e que conta já
com 7 álbuns. Ou seja, ao todo o cowboy solitário tem 83 álbuns publicados. E
ainda tem de se lhes juntar a série Kid Lucky (5 álbuns) e Rantanplan (20
álbuns).
Na
origem de tudo isto está uma pequena história criada em 1946 na qual Lucky Luke
está irreconhecível e longe do traço e das características que hoje de imediato
lhe reconhecemos. Mais tarde inserida no álbum Arizona, tem por título “Arizona 1880”.
Ora,
chegados ao princípio, chegamos ao fim, ou melhor, ao presente. Em homenagem a
Morris e ao seu personagem central, Appollo e Brüno lançam o álbum Dakota 1880, referência clara à primeira
aventura do herói.
Mas
afastam-se do original ao eliminarem a ligeireza e a indiferença que
caracterizam Lucky Luke e o western humorístico de Morris e dos seus
sucessores. Aqui temos Luke mais sério, em começo de “carreira” e a quem ainda
não foi atribuída a alcunha de Lucky.
Por
outro lado, aproximam-se de Morris quando criam um álbum com histórias curtas e
(aparentemente) independentes; curtas que eram, inicialmente, tão caras ao
autor belga. São sete histórias e um epílogo que seguem o percurso de uma
diligência pelos extensos territórios do Midwest e onde encontramos Luke como gatilho
contratado para proteger passageiros e cocheiro.
E é no
decorrer desta longa viagem que Appollo lança os alicerces do herói, desde o
surgimento da sua alcunha “Lucky”, passando pela maneira como dispara o seu revólver,
até à habitual partida solitária em direcção ao pôr-do-sol. Nada de zaragatas
em saloons, ataques por estranhas tribos índias ou Daltons a falhar mais um
assalto a um banco. Este é um álbum crepuscular cuja narração apresenta uma
profunda melancolia.
Narração
que é feita em voz-off por Baldwin Chenier, um jovem crioulo americano que mais
tarde publicará as suas memórias e escreverá várias novelas para as famosas dime novels, onde um dos personagens
principais será Lucky Luke. Baldwin acompanha a diligência e assiste por isso
ao nascimento do mito.
Nesta
envolvência de pseudo-realidade histórica, Appollo escreve diálogos sóbrios,
extremamente depurados e quase telegráficos, conseguindo conferir-lhes uma
enorme eficácia. A leitura é por isso rápida, mas muito envolvente. E o leitor
é levado, com a ajuda do artigo final que surge após o epílogo, a confrontar-se
com algo de que nunca suspeitou: Mas o Lucky Luke existiu mesmo?
A
história de Appollo é extremamente inteligente. Construída como um road-movie, confronta o leitor não com
os arquétipos habituais do western, mas, sobretudo, com uma humanidade cansada
onde se encontram índios privados das suas terras, um mestre-escola rebelde, antigos
escravos na penúria, poetas desesperados e mulheres vítimas de abusos.
Mulheres
que, de certo modo, são essenciais no fio desta história de homens. Todas elas
de origens e idades diferentes, tendo em comum características fora do comum. A
avó de Baldwin, a Grandma Gumbo,
escrava liberta, sempre de charuto na boca e exímia com a sua carabina; a jovem
Annie Oakley, que viria a ser considerada a melhor atiradora dos EUA e que
actuaria no famoso espectáculo de Buffalo Bill; a jovem mulher que atravessa
sozinha as grandes planícies para ir ter com o noivo, soldado no 20.º de
Cavalaria; e Lucy, uma jovem prostituta que quer abandonar a profissão e que só
aparentemente parece indefesa.
Todas
estas figuras, históricas ou não, vão cruzando o caminho de Lucky Luke à medida
que a diligência avança pelos territórios de fronteira dos Estados Unidos. E
passam à posteridade pela pena de Baldwin e pelas histórias que conta à volta
da fogueira.
Do
primeiro ao último conto assiste-se não apenas à longa viagem da diligência
como às alterações implacáveis que se vão sucedendo no Oeste Selvagem. As
últimas revoltas índias e as reservas, assunto tratado no conto que envolve
Louis Riel e a tribo dos Madeira-Queimada; a abolição da escravatura e os
problemas que subsistiram com os negros americanos; os pseudo-tribunais nos
quais os juízes adequam as leis aos seus juízos; o caminho-de-ferro que corta a
pradaria e reduz a distância entre a costa leste e a oeste; as cercas e o arame
farpado que diminuem a percepção dos grandes espaços a céu aberto; e, por fim,
a chegada do futuro com aquela geringonça que captura as almas dos incautos, a
máquina fotográfica – curiosamente, a máquina do futuro que capta o passado
para a posteridade.
É
verdade que são sete histórias independentes, mas todas elas têm o mesmo fio
condutor – o crepúsculo de uma época já então pleno de nostalgia.
A
contribuir para esta sensação de nostalgia está o nosso Lucky Luke, parco nas
palavras, muitas vezes desprovido de boca ou lábios, que prefere em geral
observar sem nada dizer, deixando a voz para a narração feita pelo jovem
Baldwin. Luke parece conformado com o avanço da civilização para o Oeste, mas
nem por isso deixa de opinar sobre os direitos dos índios, dos escravos
(trabalhadores) e das mulheres. Como se virasse a página de um livro, a
realidade passa a lenda e a neve começa a cobrir os últimos fragmentos do Velho
Oeste.
Appollo
e Brüno conseguem com Dakota 1880 não
só homenagear os 80 anos da criação de Morris, mas reinventar o herói “que
dispara mais rápido que a própria sombra”.
Para
isso contribui também em muito a arte de Brüno, talvez o mais purista dos
actuais seguidores da “linha clara” criada por Hergé e Jacobs. Resumindo o
traço ao essencial, embora usando por vezes jogos de sombras, Brüno oferece-nos
panoramas magníficos do Faroeste e variadas situações de western que só lhe
conhecíamos nos dois volumes de Junk.
O seu
despojamento gráfico, quase como recusando egos, impõe-se silencioso, como que
acompanhando o herói que agora retrata.
O seu traço dá a cada silhueta uma certa rigidez de estátua, como que cristalizando uma época. E os chapões de encarnados e ocres lembram os pôr-do-sol que antecedem o crepúsculo de uma era.
A composição das pranchas é rigorosa e alterna grande planos silenciosos com planos apertados onde o olhar, invariavelmente, diz mais do que as palavras. É o domínio absoluto do espaço e do tempo.
Em
suma, Dakota 1880 é uma obra
essencial a todos os admiradores de Lucky Luke, mas muito mais que isso, é um
apelo à leitura por parte daqueles leitores exigentes que nunca recusam uma boa
narrativa, seja em que género literário for. A lembrança longínqua de Arizona
1880 alimenta este Dakota 1880, e afasta-se dele pelo tom narrativo e realista.
Enquanto
o leitor assiste às bases da criação de um mito que bem conhece, é levado a
embrenhar-se num realismo que até agora desconhecia no personagem. Lucky Luke é
testemunha e actor de um momento crucial da história americana, vivendo-a sem
ser nem protagonista nem figurante, submetendo-se ao silêncio do cowboy
solitário e guardando para si as opiniões que tem acerca de tudo. Opiniões que acabam
por ganhar voz nos papeis desempenhados pelas minorias na época: as mulheres,
os negros e os índios.
Appollo
e Brüno tecem um verdadeiro trabalho narrativo e gráfico digno dos melhores
ourives. Uma variação magnífica sobre o mito do cowboy solitário, poética e
profundamente humana.
Por Francisco Lyon de Castro