1938-2026
Há
momentos em que a nossa estrutura é abalada e sentimos ter sido arrancado,
visceralmente, um pedaço da nossa vida.
É isso
que sinto com a partida de Hermann que, incansável, trabalhou até aos
derradeiros momentos e conseguiu terminar Cartagena,
a sua obra final a ser publicada em Abril e que desejo seja publicada muito
rapidamente em Portugal.
Criador
belga de Banda Desenhada, Hermann Huppen ofereceu-nos séries incontornáveis
como Bernard Prince, Comanche, As Torres de Bois-Maury e Jeremiah,
para citar apenas as minhas favoritas. E uma infinidade de álbuns isolados nos
quais abordou os temas e géneros mais díspares.
Mais do
que fazer parte do “meu” mundo da banda desenhada, Hermann fez (e faz) parte do
meu crescimento desde a infância. Nesse sentido, escrevi há poucas semanas no
texto acerca do álbum Revoir Comanche o
seguinte:
“Lembro-me
bem da primeira vez que Red Dust e Comanche entraram em minha casa. Tinha
apenas oito anos de idade e estava habituado a conviver com o Tintin, o Spirou,
o Mickey e o Tio Patinhas, a Mónica e, bem mais raramente, com o Homem-Aranha,
o Batman e o Super-Homem. Foi pois com estranheza e algum desconforto que li
aquele primeiro volume publicado em Portugal em 1976 (na verdade, o sexto da
série). Fúria Rebelde tinha na capa
um índio extremamente agressivo que parecia estar a atacar o leitor. Os
desenhos do interior mostravam-me personagens de feições rudes, todos eles
abrutalhados, feios, para a percepção estética de uma criança.
Apesar
disso, o facto é que nos oito anos que se seguiram devorei todos os álbuns de Comanche publicados em português. E,
logo a seguir, aqueles inéditos no nosso País e só disponíveis em francês (Os Xerifes e O Deserto Sem Luz). Por fim, em 1998, quando não sonhava haver
ainda algo para ler de Comanche de Greg e Hermann, saiu Le Prisonnier, colectânea de 5 histórias curtas publicados na
revista Tintin entre 1972 e 1982. Foi
o final de uma belíssima aventura no mundo da Banda Desenhada.”
Se as
histórias e a estética de Comanche revelaram-se na minha infância, As Torres de Bois-Maury preencheram toda
a minha adolescência e começo da idade adulta. Tal como em Jeremiah, Hermann é aqui senhor absoluto da criação. Uma longa
narrativa que corre durante 10 álbuns (o primeiro ciclo), conta a história de
um cavaleiro medieval, Aymar de Bois-Maury, desapossado das suas terras, e de
como vai tentar reconquistá-las. A reconstituição dos ambientes, costumes e
práticas medievais é primorosa e as histórias são enriquecedoras e excitantes.
Já a
série Jeremiah, que corre num mundo pós-apocalíptico, e que conta com 42
álbuns, acompanhou-me de 1979 a 2025 (data de publicação do último álbum).
Capaz
de publicar uma média de 2 álbuns por ano, Hermann acompanhou-me por isso ao
longo dos últimos 50 anos (caramba!!!). Cada novo livro foi sempre para mim um
acontecimento ansiosamente aguardado, mesmo quando a mão do mestre por vezes
claudicava. Mas não foi essa razão para o deixar de apreciar (e muito!).
Nestas
circunstâncias utilizam-se muitas vezes chavões. “É o fim de um ciclo”,
“fecha-se uma página…”, blá, blá, blá! Para mim fechou-se uma luz que me
alumiava, pelo menos, duas vezes ao ano. Um pouco da minha alma que foi coberta
pela sombra.
Felizmente,
posso rever Hermann na sua obra monumental de mais de 120 livros e reconhecer
aqui que o mundo da Nona Arte lhe deve infindáveis favores. Mestre da cor
directa, manipulador inteligente dos silêncios, a sua obra é um primor do
realismo que se destaca na minha modesta biblioteca.
Lamento
apenas que em Portugal nunca se tenha publicado o integral d’As Torres do Bois-Maury lançado em 2013
pela Glénat numa luxuosa edição de que vos deixo a capa mais à frente.
E
aproveito para partilhar convosco os breves momentos em que me cruzei com o
mestre.
Adeus,
Hermann! Até breve, numa das muitas páginas dos seus livros!
(Capa da
edição integral do primeiro ciclo de Les
Tours de Bois-Maury e Dedicatória
no primeiro volume integral de Bernard Prince. Beja, 2010)
(Dedicatória
no livro Itinéraires de Bois-Maury.
Beja, 2010 e dedicatória
no 14.º volume de Bois-Maury. Beja, 2010)
Por Francisco Lyon de Castro