O Diabo e a Coral
Diz-nos
a Bíblia que o Diabo é a mais pura personificação do mal. O querubim
responsável pela Guarda Celestial, expulso dos Céus por ter incitado um grupo
de anjos a rebelarem-se contra Deus de modo a roubar-Lhe o trono e guardar para
si a glória do Criador.
Expulso
então, tornou-se no anjo caído, na criatura dos mil nomes, o grande caluniador
e apartador de homens, o tentador, o que espalha a mentira e o maior inimigo de
Deus. Segundo a tradição judaico-cristã, é um anjo-querubim da mais alta
hierarquia, de uma enorme beleza, sabedoria e clarividência, a perfeição
personificada.
Independentemente
dos ensinamentos bíblicos, as gentes atribuíram-lhe ao longo dos séculos uma
tez vermelha, feições humanas, mas monstruosas, chifres e uma cauda pontiaguda.
O seu
reino, em oposição ao de Deus, é o Inferno, o sítio das mil agonias que acolhe
as almas pecadoras que serão torturadas por toda a Eternidade. E a eternidade é
precisamente o tempo que ele e a sua horda de demónios de vários estratos vão
levar a combater Deus, naquela que é a guerra eterna.
Agora,
imaginem que o Diabo está preso na Terra, imaginem que não consegue regressar
ao Inferno, imaginem que está a enfraquecer e que a única maneira de se salvar
é com a ajuda de Coral, uma rapariga não muito inocente. Se imaginarem tal
cenário, chegarão à premissa que vos franqueia os portões para entrarem no
romance gráfico de José Homs (sim, o de Shi!)
que a Ala dos Livros acaba de publicar em Portugal.
Vamos à
história!
Praga,
1938.
Estamos
na alvorada da Segunda Guerra Mundial. O Acordo de Munique entrega as regiões
fronteiriças dos Sudetos à Alemanha de Hitler. A Checoslováquia é isolada e
destituída dos seus bens mais valiosos. Meses depois, o Inferno sobe ao mundo
dos homens.
Mas
antes de isso acontecer, vive-se em Praga um clima de inquietude. E ainda mais
no seio da comunidade judaica que sente em Hitler uma ameaça séria. O führer
desfila em triunfo nas ruas da capital checa, mas a maioria vê-o como a
personificação do diabo.
No
entanto, para Coral, jovem judia de dezanove anos, o Diabo, o verdadeiro, está
a seu lado e tenta-a desde tenra idade. Ninguém o consegue ver, excepto ela,
como se de um amigo imaginário se tratasse. Mas ele é bem real e está na vida
dela devido às acções do rabino Gershon Loew, pai da Coral. Desde a infância
que ela, manipulada pelo “Enxofre” (o nome que dá a Satanás), acredita que o
pai é uma pessoa horrível quando, na verdade, é o maior adversário do Príncipe
das Mentiras. Ou melhor dizendo, era, pois agora jaz inerte numa cadeira de
rodas, após um exorcismo mal-sucedido.
Afinal,
o que liga tão intimamente o Diabo e a Coral? Qual o terrível segredo por
detrás desta ligação misteriosa? Porque tenta ele corrompê-la e roubar-lhe a
alma de forma quase obsessiva? E porque é que Lúcifer se passeia
incessantemente pelas ruas de Praga? Qual a fronteira entre o bem e o mal? Ou
será que são ambos faces diferentes da mesma moeda?
O Diabo e a Coral é a primeira obra em que José Homs é responsável tanto pelo argumento
como pelo desenho. Já o conhecemos como desenhador da magnífica série Shi, mas nessa o argumentista foi o
inimitável Zidrou. Homs arrisca agora a sua enorme reputação enveredando também
pela escrita. E devo dizê-lo que o faz de uma maneira inteligente.
A
narrativa tem o mérito de se fazer a dois tempos, independentemente dos
flashbacks. Um é o tempo do Diabo e da jovem Coral, os momentos que vão
pautando a sua relação e que vão adicionando à trama uma aura de mistério. O
outro tempo é aquele que mistura realidade e ficção e que permite ao leitor o
seu momento de reflexão – é o tempo em que o Diabo anda à solta pelas ruas de
Praga e sussurra aos ouvidos de Hitler tudo aquilo que este levará a cabo ao
longo da Segunda Guerra Mundial. No entanto, sabemos que num tempo e no outro o
Diabo só é visto por Coral. Tudo o resto são sopros maléficos que ele lança aos
ouvidos dos incautos.
O tema
é vetusto – o Bem contra o Mal. Também secular é a ideia do pacto com o Diabo,
popularizada por Goethe no seu Fausto.
Mas Homs acrescenta-lhes dois pontos da máxima importância. O primeiro é o
facto da protagonista ter plena consciência de estar a lidar com o Príncipe das
Trevas, o Rei das Mentiras e de, ela própria, não ser uma alma inocente,
percorrendo inúmeras vezes a linha ténue que a poderá fazer descer ao Inferno.
O outro ponto é o ódio e a intolerância que se instalam na Europa nas vésperas
de uma nova guerra e que têm como centro da tempestade Hitler, guiado pelo
próprio Diabo. Lúcifer, não podendo regressar ao Inferno, não sabemos ainda
porquê, dedica-se a atormentar Coral e a aconselhar Hitler.
Como
sub-enredo, Homs ressuscita a conhecida lenda do século XVI do Golem do Maharal
de Praga como defensor da comunidade judaica e antepassado do rabino Loew, pai
da Coral.
Mais
importante que Hitler, mais importante que o rabino Loew, que o Golem ou até
que o próprio Diabo, é Coral. A jovem judia de espírito livre, única capaz de
ver o “Enxofre” é a chave de todo o mistério. Mas nem ela tem a noção disso.
Limita-se a manter aquela estranha relação com o Diabo, na qual ambos têm de
usar estratagemas e engenho para escaparem ao sortilégio que os liga.
Em
termos narrativos, Homs vai temperando a trama com interrogações que são, elas
próprias, um motor da leitura. Qual o segredo que liga o Diabo à Coral de forma
tão misteriosa? E o que terá a haver com isso o rabino Loew, o pai da Coral,
também ele envolto num passado misterioso? E porquê esse interesse obsessivo do
Diabo por Coral?
A pouco
e pouco, a trama intrincada vai-se desnovelando, e os vários personagens ganham
dimensão e ocupam solidamente o seu lugar na narrativa. Esta é, no entanto, e
sempre, dominada pelo Diabo e pela Coral.
Romance
gráfico que mistura com mestria elementos históricos, esoterismo (feitiçaria,
alquimia), lendas seculares da velha Europa e o folclore checo, O Diabo e a Coral é também pautado pelo
humor, quase exclusivamente no que respeita à relação entre os dois
protagonistas. Um humor necessário, tendo em conta a natureza da jovem judia e
do seu “Enxofre”. Negro, irónico e sarcástico, surge naturalmente nos diálogos
entre ambos e enriquece a sua relação, tornando-a mais íntima. Por outro lado, destabiliza
o leitor, que se sente perante uma obra sombria. E isso é bom!
Por fim, as várias referências históricas e folclóricas que
encontramos na obra, ao contrário de a diluírem, solidificam-na. Para aqueles
leitores com conhecimentos mais diversificados, é sempre interessante encontrar
num livro de ficção referências reais que em algum momento da sua vida os
enriqueceram culturalmente. No caso presente destaco uma das lendas associadas
à construção da Ponte Carlos (a mais famosa de Praga) e o mito do Golem do
Maharal de Praga.
Visualmente, O Diabo e a
Coral é uma verdadeira joia. O traço elegante e preciso de José Homs,
aliado a uma colorização harmoniosa e de grande qualidade, revelam-nos mais uma
vez o seu grande talento. O seu estilo é daqueles que, como se diz, tem
assinatura e nos faz exclamar “Ah! Isto é um Homs!”
Mas, como já tive oportunidade de dizer várias vezes, não basta
a um desenhador desenhar bem. É essencial que a sua cultura artística seja
acompanhada por uma forte cultura geral. Só assim é possível recriar Praga dos
anos de 1930 com autenticidade, graças aos cenários detalhados e precisos,
indumentárias, veículos e outros quejandos. E o mesmo se passa com Praga do
século XIV, evocada na cena da construção da Ponte Carlos.
Tecnicamente, a variação entre grandes planos e planos gerais,
entre cenas mais sombrias e outras mais luminosas, mostram bem a sapiência
narrativa do autor que, visualmente, não dá descanso ao leitor. Para além
disso, a planificação dinâmica, por vezes com belas ilustrações de página
inteira, contribui para uma narrativa visual veloz e muito bela.
Mas para se atingir o estatuto de desenhador fora de série –
algo que Homs já alcançou – é preciso também inventividade e grande imaginação.
Estas características estão magnificamente demonstradas na sua interpretação do
Inferno. Ainda que aqui e ali se possam reconhecer diversas influências de
pintores renascentistas e posteriores, a sua representação dantesca do reino do
Diabo é extremamente pessoal. Os inúmeros demónios e seres que por lá pululam
formam uma galeria de pesadelo digna de uma mente deveras inventiva.

Há ainda que referir as interessantes referências
cinematográficas (e literárias) a filmes de terror que o talento de Homs
transforma em suas. Desde logo, a lenda do Golem e as suas múltiplas adaptações
ao grande ecrã, datando a primeira de 1915 e a mais recente de 2023. Mas também
o ambiente circense captado em Freaks,
o filme de 1932 realizado por Tod Browning. No entanto, aquela que mais importa
para a trama de Homs é aquela que nos lança no mundo aterrorizante d’O Exorcista, o filme de 1973 realizado
por William Friedkin e escrito por William Peter Blatty. Deste até nos brinda
com a icónica imagem do padre Merrin diante da casa amaldiçoada, padre
substituído aqui pelo pai da Coral, o rabino Loew.
Para concluir, O Diabo e a
Coral dá-nos a conhecer um novo argumentista que conhecíamos como
reconhecido ilustrador, dividindo-se agora o seu talento pelas duas artes.
Um enredo muito interessante, pleno de mistério, com uma
narrativa dinâmica contada em duas dimensões e enriquecida por referências
históricas, folclóricas e esotéricas. No fim, como nos é mostrado, um recontar
da fábula do sapo e do escorpião.
Uma arte que nos enche as medidas pelo traço, pela encenação,
pelas cores e pela criatividade.
Não resisto sem rematar dizendo que o todo é diabolicamente
eficaz.
Por Francisco Lyon.