O Mercenário,
volume 14: O Último Dia
Em 2021 escrevi um texto que começava
assim:
“Ninguém conhece o seu nome ou o seu
passado. Dele só se sabe que é um soldado da fortuna a soldo de quem lhe
retribuir os seus méritos – um mercenário.
Num país envolto em nuvens eternas,
isolado do resto do mundo e com uma cultura muito própria, o Mercenário viaja
de cidades altaneiras ou flutuantes para picos solitários e extensas mesetas,
montado em dragões e em busca das mais fantásticas aventuras nas quais nunca
podem faltar as mais belas mulheres desnudadas.”
Deste modo, assinalei a segunda vida
de O Mercenário de Vicente Segrelles no mercado português.
Série criada pelo autor espanhol para
a revista Cimoc em 1980, publicada pela primeira vez em álbum em 1983,
chegou a Portugal no ano seguinte pelas mãos da Meribérica. De 1984 a
1999, esta editora publicou os primeiros nove volumes da série. Os leitores
portugueses ficaram por isso sem conhecer os cinco volumes restantes.
Até que, em 2021, a Ala dos Livros
surpreendeu o mercado nacional da BD ao relançar O Mercenário. Mas não o
fez de qualquer maneira. Cada volume tinha agora capa dura com lombada em tela,
papel de alta qualidade com uma “boa mão” e um caderno de extras no qual o
autor explicava os bastidores da série.
Ao leitor português restava esperar
que a Ala dos Livros não o defraudasse e levasse a série a bom porto,
mesmo até ao seu final. Pois bem, 6 anos depois foi exactamente isso que
aconteceu com “O Último Dia”, o 14.º e último volume da série.
O Mercenário é ambientado no género Alta Fantasia e situado em
plena Baixa Idade Média, por volta do ano 1000. O seu enorme sucesso deveu-se
(e deve-se), em parte, ao facto de o autor pintar a óleo cada vinheta,
transformando-as em verdadeiros quadros. Só 14 anos após o começo da série é
que o americano Alex Ross faria (também com grande sucesso) algo do género.
Ao longo de 13 álbuns, somos levados
ao País das Nuvens Permanentes; montados em criaturas aladas, planamos na Zona
dos Grandes Frios; encontramos refúgio no Mosteiro da Ordem da Cratera e
viajamos para paragens longínquas, atravessando até os oceanos. Enfrentamos
todo um bestiário que, por vezes, parece retirado do próprio Inferno. Somos
aconselhados por Lama, o ancião do Mosteiro; vivemos as maiores aventuras ao
lado da jovem e bela guerreira Nan-Tay; somos constantemente perseguidos pelo
perigoso Claust; e tomamos contacto com estranhas civilizações alienígenas.

Agora, neste derradeiro volume,
Vicente Segrelles resolve unir todos os pontos e concluir a odisseia d’O
Mercenário. E fá-lo escrevendo uma novela de 23 páginas acompanhadas por 23
ilustrações de página inteira. Um festim para os olhos dos leitores; uma
revelação em termos da narrativa. Digo-vos apenas que a história e a fantasia fundem-se
por fim, e na sua totalidade, com a ficção científica, transportando o
Mercenário, Nan-Tay e a jovem Ky para novas e misteriosas paragens.
Mas não é tudo! O habitual caderno de
16 páginas de extras é aqui substituído por umas meras 4 páginas que dão depois
lugar à última banda desenhada do Mercenário que, na verdade, foi a primeira em
que o personagem enveredou pela ficção científica e que foi realizada em 1984.
Com o título A Evidência, esta
banda desenhada curta, de apenas dez páginas, está em perfeita sintonia com o
final da série e bem que também se poderia intitular de A Revelação.
O certo é que o leitor habitual de O
Mercenário não se sentirá defraudado com este derradeiro volume. E os novos
leitores não só podem descobrir uma arte fantástica como têm agora a
oportunidade de ler toda a série sem interrupções. Cá por mim, vou fazer uma
maratona de Mercenário no próximo fim-de-semana e deixar-me levar até um dos
imaginários mais fortes da minha adolescência.
Por Francisco Lyon de Castro