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segunda-feira, 7 de setembro de 2026

Há um Mar de Rosas esta semana nas livrarias!

Numa semana particularmente rica em novidades, começo por uma estreia que merece atenção, pois temos aqui a primeira obra de um novo autor português. Chega-nos com o selo da PENGUIN, editora que tem servido de rampa de lançamento para novos nomes da banda desenhada nacional, habitualmente através da sua chancela Iguana. Ao seu catálogo junta-se agora Tomás Sousa

MAR DE ROSAS é seu primeiro livro, onde assume responsabilidade integral pelo argumento e pelo desenho. A proposta de leitura inspira-se nas antigas fotonovelas - o título é perfeito - agora em versão gráfica, com todos os seus ingredientes dramáticos, de amores e desamores, ciúmes e traições. Sem conhecer ainda o livro, que tem o seu lançamento oficial amanhã, devo acrescentar que, à primeira vista, o traço ágil de linhas elegantes que é apresentado nestas páginas cativa-me. 

MAR DE ROSAS
Numa família abastada prestes a enfrentar o caos, Rosalinda fará tudo para casar com Sebastião e garantir a herança — até afastar Celeste, a jovem apaixonada por ele. Quando o patriarca morre e o casamento ameaça ruir, intrigas, chantagem e ambições desmedidas rebentam à superfície. Entre uma irmã determinada a proteger o legado, outra dividida entre o mundo e o convento, e um advogado cúmplice que acaba por recuar, a teia de Rosalinda implode. Presa e traída, jura regressar… mas até os cúmplices têm limites.
 
Ficha técnica:
Mar de Rosas
De Tomás Sousa
Capa mole, dimensões 171x239, cores, 192 páginas. 
ISBN 9789895893362
PVP: € 20,45
Chancela PENGUIN
 

domingo, 6 de setembro de 2026

Ah! Isto é um Homs!

 

O Diabo e a Coral


 

Diz-nos a Bíblia que o Diabo é a mais pura personificação do mal. O querubim responsável pela Guarda Celestial, expulso dos Céus por ter incitado um grupo de anjos a rebelarem-se contra Deus de modo a roubar-Lhe o trono e guardar para si a glória do Criador.


Expulso então, tornou-se no anjo caído, na criatura dos mil nomes, o grande caluniador e apartador de homens, o tentador, o que espalha a mentira e o maior inimigo de Deus. Segundo a tradição judaico-cristã, é um anjo-querubim da mais alta hierarquia, de uma enorme beleza, sabedoria e clarividência, a perfeição personificada.


Independentemente dos ensinamentos bíblicos, as gentes atribuíram-lhe ao longo dos séculos uma tez vermelha, feições humanas, mas monstruosas, chifres e uma cauda pontiaguda.


O seu reino, em oposição ao de Deus, é o Inferno, o sítio das mil agonias que acolhe as almas pecadoras que serão torturadas por toda a Eternidade. E a eternidade é precisamente o tempo que ele e a sua horda de demónios de vários estratos vão levar a combater Deus, naquela que é a guerra eterna.


Agora, imaginem que o Diabo está preso na Terra, imaginem que não consegue regressar ao Inferno, imaginem que está a enfraquecer e que a única maneira de se salvar é com a ajuda de Coral, uma rapariga não muito inocente. Se imaginarem tal cenário, chegarão à premissa que vos franqueia os portões para entrarem no romance gráfico de José Homs (sim, o de Shi!) que a Ala dos Livros acaba de publicar em Portugal.


Vamos à história!

 

Praga, 1938.

 

Estamos na alvorada da Segunda Guerra Mundial. O Acordo de Munique entrega as regiões fronteiriças dos Sudetos à Alemanha de Hitler. A Checoslováquia é isolada e destituída dos seus bens mais valiosos. Meses depois, o Inferno sobe ao mundo dos homens.


Mas antes de isso acontecer, vive-se em Praga um clima de inquietude. E ainda mais no seio da comunidade judaica que sente em Hitler uma ameaça séria. O führer desfila em triunfo nas ruas da capital checa, mas a maioria vê-o como a personificação do diabo.



No entanto, para Coral, jovem judia de dezanove anos, o Diabo, o verdadeiro, está a seu lado e tenta-a desde tenra idade. Ninguém o consegue ver, excepto ela, como se de um amigo imaginário se tratasse. Mas ele é bem real e está na vida dela devido às acções do rabino Gershon Loew, pai da Coral. Desde a infância que ela, manipulada pelo “Enxofre” (o nome que dá a Satanás), acredita que o pai é uma pessoa horrível quando, na verdade, é o maior adversário do Príncipe das Mentiras. Ou melhor dizendo, era, pois agora jaz inerte numa cadeira de rodas, após um exorcismo mal-sucedido.


Afinal, o que liga tão intimamente o Diabo e a Coral? Qual o terrível segredo por detrás desta ligação misteriosa? Porque tenta ele corrompê-la e roubar-lhe a alma de forma quase obsessiva? E porque é que Lúcifer se passeia incessantemente pelas ruas de Praga? Qual a fronteira entre o bem e o mal? Ou será que são ambos faces diferentes da mesma moeda?


 

O Diabo e a Coral é a primeira obra em que José Homs é responsável tanto pelo argumento como pelo desenho. Já o conhecemos como desenhador da magnífica série Shi, mas nessa o argumentista foi o inimitável Zidrou. Homs arrisca agora a sua enorme reputação enveredando também pela escrita. E devo dizê-lo que o faz de uma maneira inteligente.

 

A narrativa tem o mérito de se fazer a dois tempos, independentemente dos flashbacks. Um é o tempo do Diabo e da jovem Coral, os momentos que vão pautando a sua relação e que vão adicionando à trama uma aura de mistério. O outro tempo é aquele que mistura realidade e ficção e que permite ao leitor o seu momento de reflexão – é o tempo em que o Diabo anda à solta pelas ruas de Praga e sussurra aos ouvidos de Hitler tudo aquilo que este levará a cabo ao longo da Segunda Guerra Mundial. No entanto, sabemos que num tempo e no outro o Diabo só é visto por Coral. Tudo o resto são sopros maléficos que ele lança aos ouvidos dos incautos.


O tema é vetusto – o Bem contra o Mal. Também secular é a ideia do pacto com o Diabo, popularizada por Goethe no seu Fausto. Mas Homs acrescenta-lhes dois pontos da máxima importância. O primeiro é o facto da protagonista ter plena consciência de estar a lidar com o Príncipe das Trevas, o Rei das Mentiras e de, ela própria, não ser uma alma inocente, percorrendo inúmeras vezes a linha ténue que a poderá fazer descer ao Inferno. O outro ponto é o ódio e a intolerância que se instalam na Europa nas vésperas de uma nova guerra e que têm como centro da tempestade Hitler, guiado pelo próprio Diabo. Lúcifer, não podendo regressar ao Inferno, não sabemos ainda porquê, dedica-se a atormentar Coral e a aconselhar Hitler.


Como sub-enredo, Homs ressuscita a conhecida lenda do século XVI do Golem do Maharal de Praga como defensor da comunidade judaica e antepassado do rabino Loew, pai da Coral.

 


Mais importante que Hitler, mais importante que o rabino Loew, que o Golem ou até que o próprio Diabo, é Coral. A jovem judia de espírito livre, única capaz de ver o “Enxofre” é a chave de todo o mistério. Mas nem ela tem a noção disso. Limita-se a manter aquela estranha relação com o Diabo, na qual ambos têm de usar estratagemas e engenho para escaparem ao sortilégio que os liga.


Em termos narrativos, Homs vai temperando a trama com interrogações que são, elas próprias, um motor da leitura. Qual o segredo que liga o Diabo à Coral de forma tão misteriosa? E o que terá a haver com isso o rabino Loew, o pai da Coral, também ele envolto num passado misterioso? E porquê esse interesse obsessivo do Diabo por Coral?


A pouco e pouco, a trama intrincada vai-se desnovelando, e os vários personagens ganham dimensão e ocupam solidamente o seu lugar na narrativa. Esta é, no entanto, e sempre, dominada pelo Diabo e pela Coral.



Romance gráfico que mistura com mestria elementos históricos, esoterismo (feitiçaria, alquimia), lendas seculares da velha Europa e o folclore checo, O Diabo e a Coral é também pautado pelo humor, quase exclusivamente no que respeita à relação entre os dois protagonistas. Um humor necessário, tendo em conta a natureza da jovem judia e do seu “Enxofre”. Negro, irónico e sarcástico, surge naturalmente nos diálogos entre ambos e enriquece a sua relação, tornando-a mais íntima. Por outro lado, destabiliza o leitor, que se sente perante uma obra sombria. E isso é bom!


Por fim, as várias referências históricas e folclóricas que encontramos na obra, ao contrário de a diluírem, solidificam-na. Para aqueles leitores com conhecimentos mais diversificados, é sempre interessante encontrar num livro de ficção referências reais que em algum momento da sua vida os enriqueceram culturalmente. No caso presente destaco uma das lendas associadas à construção da Ponte Carlos (a mais famosa de Praga) e o mito do Golem do Maharal de Praga.


 

Visualmente, O Diabo e a Coral é uma verdadeira joia. O traço elegante e preciso de José Homs, aliado a uma colorização harmoniosa e de grande qualidade, revelam-nos mais uma vez o seu grande talento. O seu estilo é daqueles que, como se diz, tem assinatura e nos faz exclamar “Ah! Isto é um Homs!”


Mas, como já tive oportunidade de dizer várias vezes, não basta a um desenhador desenhar bem. É essencial que a sua cultura artística seja acompanhada por uma forte cultura geral. Só assim é possível recriar Praga dos anos de 1930 com autenticidade, graças aos cenários detalhados e precisos, indumentárias, veículos e outros quejandos. E o mesmo se passa com Praga do século XIV, evocada na cena da construção da Ponte Carlos.


Tecnicamente, a variação entre grandes planos e planos gerais, entre cenas mais sombrias e outras mais luminosas, mostram bem a sapiência narrativa do autor que, visualmente, não dá descanso ao leitor. Para além disso, a planificação dinâmica, por vezes com belas ilustrações de página inteira, contribui para uma narrativa visual veloz e muito bela.


Mas para se atingir o estatuto de desenhador fora de série – algo que Homs já alcançou – é preciso também inventividade e grande imaginação. Estas características estão magnificamente demonstradas na sua interpretação do Inferno. Ainda que aqui e ali se possam reconhecer diversas influências de pintores renascentistas e posteriores, a sua representação dantesca do reino do Diabo é extremamente pessoal. Os inúmeros demónios e seres que por lá pululam formam uma galeria de pesadelo digna de uma mente deveras inventiva.

 


Há ainda que referir as interessantes referências cinematográficas (e literárias) a filmes de terror que o talento de Homs transforma em suas. Desde logo, a lenda do Golem e as suas múltiplas adaptações ao grande ecrã, datando a primeira de 1915 e a mais recente de 2023. Mas também o ambiente circense captado em Freaks, o filme de 1932 realizado por Tod Browning. No entanto, aquela que mais importa para a trama de Homs é aquela que nos lança no mundo aterrorizante d’O Exorcista, o filme de 1973 realizado por William Friedkin e escrito por William Peter Blatty. Deste até nos brinda com a icónica imagem do padre Merrin diante da casa amaldiçoada, padre substituído aqui pelo pai da Coral, o rabino Loew.



Para concluir, O Diabo e a Coral dá-nos a conhecer um novo argumentista que conhecíamos como reconhecido ilustrador, dividindo-se agora o seu talento pelas duas artes.


Um enredo muito interessante, pleno de mistério, com uma narrativa dinâmica contada em duas dimensões e enriquecida por referências históricas, folclóricas e esotéricas. No fim, como nos é mostrado, um recontar da fábula do sapo e do escorpião.


Uma arte que nos enche as medidas pelo traço, pela encenação, pelas cores e pela criatividade.


Não resisto sem rematar dizendo que o todo é diabolicamente eficaz.

 

Por Francisco Lyon.

 

  

quinta-feira, 3 de setembro de 2026

O universo felino de volta ao catalogo da Sendai Editora

Por aqui continuo a dar nota de lançamentos de manga fora das “grandes” editoras, dando espaço de divulgação às mais pequenas, que tem o condão de complementar a oferta nacional de banda desenhada japonesa. Ontem falei da coletânea editada pela FA, hoje trago aqui a SENDAI EDITORA.

O universo felino continua a estar bem presente no catálogo desta editora, que acaba anunciar o seu vigésimo primeiro lançamento: ENTÃO, MICHAEL?!: VIZINHANÇA EM CAOS

Trata-se de mais um volume assinado por Makoto Kobayashi, que nos traz a continuação das peripécias e travessuras de Michael, um gato laranja que poderia ser igual a tantos outros, porém, sua curiosidade sempre mete-o em sarilhos.

Então, Michael?! é uma série de cinco livros, cada um com vários pequenos capítulos independentes. Este é o seu segundo volume.

Já disponível na loja online da Sendai Editora aqui!

Ficha técnica:
Então, Michael?!: Vizinhança em Caos
De Makoto Kobayashi
Capa mole, formato: 12,8 x 18,2 cm, p/b, 216 páginas.
ISBN: 9789893537299
Preço: € 9,90 
Edição SENDAI EDITORA 

quarta-feira, 2 de setembro de 2026

Antologia Mangá por Vários Autores

A pequena FA, editora que vai paulatinamente construindo o seu catálogo de banda desenhada, acaba de anunciar o lançamento de ANSOROJIMANGA, com a assinatura coletiva de Nan Ninka No Chosha.

Trata-se de uma antologia de celebração da banda desenhada de inspiração japonesa, que reúne vários autores com mangás dentro dos seus vários estilos, reunindo 22 histórias de uma ou duas páginas cada e em diferentes géneros.

A obra oferece um numero dinâmico de histórias, navegando por múltiplos géneros como ação, drama, comédia e romance. Cada história traz um traço e um universo novos, garantindo uma leitura surpreendente e acessível. Num momento, podemos ser transportados para combates dinâmicos ou comédias do quotidiano e no momento seguinte, confrontamo-nos com reflexões profundas, ficção científica ou romances delicados. 

Disponível diretamente na loja on-line.  

Ficha técnica:
Ansorojimanga
De Nan Ninka No Chosha
Capa mole, 124x210, p/b, 46 páginas.
ISBN 9789403930961
PVP: € 14,90
Edição: FA 

segunda-feira, 31 de agosto de 2026

Lançamento DEVIR: Boa Noite, Punpun - volume 6

Na remessa de novidades de Agosto da editora DEVIR, temos a continuação da história de Onodera Punpun, nestas capas tão inexpressivas. Nas livrarias  encontramos o novo volume da colecção BOA NOITE, PUNPUN, um manga perturbador que caminha já para seu desfecho final, com a degradação moral e emocional cada vez maior do seu protagonista.

Este volume 6 marca o ponto de não retorno da série, onde a idealização do amor e da redenção colide com a realidade das personagens e onde a fuga se revela, definitivamente, uma ilusão.

BOA NOITE, PUNPUN 6
Aiko e Punpun estão finalmente juntos. Os dois viajam em direção à terra prometida na infância, mas algo de terrível do seu passado é revelado. Juntos terão que superar o que aconteceu, mas será que conseguem? Punpun, e se não houver nada a fazer?
 
Ficha técnica:
Boa Noite, Punpun – volume 6
De Inio Asano
Capa mole, dimensões 12,6 x 19 cm, p/b, 480 páginas.
ISBN 9789895597789
PVP: € 20,00
Editor Edições DEVIR 
 

domingo, 30 de agosto de 2026

Conclusão da triste história da Carlota Imperatriz!

Ainda este mês, a editora ALA DOS LIVROS fechou a tetralogia sobre a vida trágica de CARLOTA IMPERATRIZ, uma soberana e uma mulher a quem o sofrimento não poupou. O argumento tem a assinatura de Nury e o desenho conta com o elegante traço de Bonhomme. Os quatros volumes da edição original francesa foram condensados em dois volumes na edição portuguesa, reunindo este último o terceiro e quarto álbum desta trágica saga.

De leitura muito agradável, temos aqui uma narrativa bem construída, inspirada em factos reais, que nos conta a história da vida da princesa Carlota da Bélgica, que quis o destino e o coração que trocasse o pretendente e futuro Pedro V de Portugal pelo pretendente e arquiduque Maximiliano da Áustria. É a partir do seu casamento todos os sonhos se desmoronam. A oferta da coroa mexicana, um presente envenenado da parte de Napolão III, revela-se um fardo maior, um triste episódio de interesses criados, ingenuidade e desespero. 

CARLOTA IMPERATRIZ
Aproveitando-se da ausência do marido e com a ajuda do Coronel Alfred van der Smissen, cujo charme lhe é irresistível, Carlota da Bélgica assume o controlo do império mexicano. Infelizmente para ela, as coisas pioram com o regresso de Maximiliano. As rebeliões intensificam-se e, pior ainda, o exército francês prepara-se para retirar do México. Enquanto isso, Maximiliano pretende desesperadamente um herdeiro para o trono. Recusando-se a compartilhar a cama com ele, por saber que ele sofre de sífilis, Carlota é forçada a recorrer à adopção. A menos, é claro, que ela sucumba ao fascínio da carne com o enigmático van der Smissen... Após atravessar o Atlântico para interceder a favor do marido, a Imperatriz Carlota do México descobre na Europa que os seus aliados são poucos e distantes entre si... Abandonada por todos, a jovem soberana mergulha num estado de loucura — por vezes violento — que os seus inimigos exploram para prendê-la... durante sessenta anos!
 

 
 
 
Ficha técnica:
Carlota, Imperatriz - Tomos 3 e 4
De Fabien Nury e Matthieu Bonhomme
Capa dura, dimensões 243 x 317, cores, 168 páginas.
ISBN: 9789899108998
PVP: € 35,00
Editor ALA DOS LIVROS
 

sábado, 29 de agosto de 2026

O fabuloso destino de Aimé Louzeau

 

Brigada de Costumes

 


No mundo da Nona Arte, é relativamente fácil reconhecer os desenhadores pelo seu traço. Mesmo quando o seu estilo evolui, há algo da sua alma que permanece em cada desenho, permitindo-nos identifica-los como sendo este ou aquele.


O mesmo já não se pode dizer dos argumentistas. É difícil percebermos o cunho de um escritor em histórias que podem variar do policial ao western, da comédia de costumes à aventura histórica ou do romance à ficção científica. Em cada género literário que um autor aborda, parece soltar a sua criatividade esquizofrénica, tornando-se irreconhecível. E isso até é bom pois significa que o escritor tem uma invejável capacidade de se reinventar, conseguindo assim chegar a mais leitores.


Ora, estando perante uma obra escrita por Zidrou, desejo o absoluto contrário; desejo que ele mantenha o cunho que tão bem o caracteriza. Mantendo-o, sei que a obra, em termos narrativos, será sempre superlativa. É dos poucos que se reconhece pela escrita, pelos truques narrativos, pela inventividade da trama ou a capacidade de trazer para o nosso século heróis do passado. No seu palmarés contam-se mais de 100 histórias, todas diferentes e todas com a sua marca distintiva.


De Verões Felizes ao díptico A Fera, de Lydie à série A Adopção, dos novos casos de Ric Hochet à série Shi (entre outros) tudo o que é escrito por Zidrou é bom! E torna-se ainda melhor quando uma das suas parcerias habituais é com Jordi Lafebre, também ele sobejamente conhecido no nosso País e capaz de transformar em desenho os conceitos mais complexos de Zidrou.


Pois bem! Para quem aprecia os dois autores, o momento não pode ser melhor. A Arte de Autor e A Seita juntam-se em mais uma coedição e lançam o díptico Brigada de Costumes em um só volume. Como sempre, uma obra intensa, inteligente, com uma narrativa que nos deixa agarrados literalmente até à última página e um traço inconfundível.

 

Vamos à história!

 

Uma noite de Abril de 1944. As bombas dos ingleses caiem em Paris como uma chuvada de meteoritos primaveris. O recolher obrigatório imposto pelos nazis já não é suficiente e a população tem de se refugiar em abrigos improvisados pela cidade. E é precisamente num deles que começa a nossa história, nas profundezas de uma estação de metro. Apinhada de parisienses assustados, martirizados por cada estrondo que lhes chega do exterior, a estação parece ser agora o seu porto de abrigo.


Entre eles está um oficial da Wehrmacht que tenta encetar conversa com um jovem casal oferecendo-lhes um cigarro. O homem recusa e esclarece que não são um casal. Na verdade, ele é inspector da Brigada de Costumes e ela é uma “experiente” profissional a quem se algemou. Foi já há sete anos, em Novembro de 37, que Aimé Louzeau teve o seu primeiro dia nos “Costumes”. Lembra-se como se fosse hoje…

 


Naquela manhã chovia copiosamente. Aimé toma o pequeno-almoço preparado pela sua querida mamã e servido pela fiel Clémentine, a criada interna que os acompanha desde sempre. Depois, mete o seu chapéu de coco, despede-se da mãe e parte para o número 36 do Quai des Orfévres onde ficará sob as ordens do inspector-chefe Séverin. Ao sair de casa ainda se cruza com a porteira, a jovem senhora (perdão… menina!) Wallez, cujo peito portentoso é um imã para o seu olhar.


Chegado aos “Costumes”, rapidamente sente o ambiente onde vai trabalhar. Dois dos seus novos colegas entretêm-se a espancar El Guapito, um proxeneta bem conhecido da brigada que se divertira a talhar o mamilo de uma das suas “meninas”. Séverin irrompe nas instalações com a sua inseparável bicicleta; cumprimenta Louzeau, troca breves impressões fruto das circunstâncias e combina com o resto da brigada o almoço de iniciação do novo elemento.


Na manhã seguinte, Louzeau tenta conhecer os cantos à casa, mas é informado por um colega que vai passar mais tempo de vigia do que sentado atrás da secretária. Para além disso, deve familiarizar-se com o “pequeno dicionário ilustrado” da Brigada, que vai de “Abuso” a “Zoofilia”. Precisamente, entre uma vigia e mais uma almoçarada dos “Costumes”, Aimé Louzeau vai deparar-se com uma fotografia que irá mudar a sua vida…



Ora, aqui está uma obra que podia ter dado para o torto ou, simplesmente, ter tomado o caminho mais fácil. Sendo o tema central o dia a dia de uma “brigada de costumes”, o leitor poderia ter sido aliciado pelo correr de uma espécie de “slides” acerca dos inúmeros vícios da sociedade parisiense no período de 1937 a 1944. De qualquer modo, se espera por um livro pejado de prostituição, droga, violência doméstica e outros crimes que já foram ou ainda são, não ficará desiludido. Mas se a obra se resumisse a isso, não estaríamos perante um argumento digno de Zidrou.


Na verdade, o foco da narrativa incide sobre os estados de alma do jovem inspector Aimé Louzeau, confrontado com os desvarios sexuais perpetrados na Cidade Luz. O tema é delicado e poderia ter sido tratado com facilitismo, algo que Zidrou contorna habilmente. Em termos narrativos, as depravações parisienses passam quase a um segundo plano, dando lugar à história nada vulgar de Aimé. E como é de esperar do autor, somos apanhados de surpresa por uma narrativa desconcertante e original – algo que me remete sempre para o filme de Jean-Pierre Jeunet, O Fabuloso Destino de Amélie. Evocando com tacto, embora sem concessões, as práticas mais sórdidas, o argumentista belga alterna-as com variadas considerações humanas que criam no leitor uma dualidade de sentimentos. Para isto contribui também a ingenuidade de Aimé que não o predispõe propriamente para este tipo de investigações policiais.


Mas o que é realmente extraordinário nesta obra, é a maneira como Zidrou vai do macro para o micro. Da Segunda Guerra Mundial passa para a Brigada de Costumes parisiense e para a caracterização social da urbe de então, centrando-se depois na vida privada e complexa do inspector Aimé. E neste ponto, o micro torna-se o principal da história. Somos sempre surpreendidos por cada caso a ser investigado, pelo tempo presente a correr na estação de metro, mas somos sobretudo envolvidos pelo fabuloso destino de Aimé Louzeau. Os pequenos episódios que rodeiam a vida do jovem inspector melancólico são absolutamente deliciosos. Atravessando a guerra sem encontrar propriamente o seu lugar no mundo, Aimé abandona os seus sonhos de infância e vai aventurar-se pelas suas próprias contradições, sobretudo quando se deixa embrenhar pelo caminho de uma paixão proibida. Ou de duas. Ou de três!



Como já se disse, a Brigada de Costumes aborda temas tão diferentes como difíceis de tratar. E vai ainda mais além quando nos confronta com o peso da religião, a saúde mental, a manipulação das perversões de cada um e até o papel da polícia durante a Ocupação nazi. Porém, todos estes assuntos são tratados pela superfície, deixando ao leitor avisado o papel de os aprofundar. Afinal, o tema central é o da humanidade.


O que contribui para uma boa história, para além de um tema interessante, é uma narrativa inteligente pontuada por diálogos de excelência. Estes, para o serem, têm de ser verosímeis, dinâmicos e sagazes, sem tons pomposos ou paternalistas. E isso, caros leitores, consegue-se com simplicidade e boas ideias, algo que sobeja nas pequenas células cinzentas de Zidrou. Por exemplo, só ele para chamar Mona Lisa a uma velha e desgastada prostituta, desenvolvendo a conversa que se segue, pontuada por várias pérolas.



E se a Brigada de Costumes tem Zidrou no seu melhor, o mesmo acontece com Jordi Lafebre. Antes de outros álbuns que lhe conhecemos, já aqui demonstra uma maturidade artística capaz de expressar os mais complexos estados de alma. E caso se estranhe a quase ausência de traços de cinismo ou perversão nos rostos dos seus personagens, optando por uma doçura nas divertidas fisionomias, não nos podemos esquecer que o tom impresso à narrativa por Zidrou é esse mesmo, o de uma certa candura. No fundo, os autores são perfeitos aliados no modo de gerar empatia para com o leitor, sendo este um dos vários charmes do álbum.



O traço semi-realista de Lafebre serve na perfeição os propósitos emocionais de Zidrou. Cada expressão facial é inequívoca, cada ruga tem a sua função, cada esgar comporta uma mensagem.


Mas não basta a um artista desenhar bem. Ao serviço da arte tem de pôr também a inteligência. E isso é evidente nos enquadramentos de Lafebre, na planificação das pranchas e na paleta de cores utilizada. Quanto a estas, oscilam maioritariamente entre as cenas dominadas pelo sépia e as envoltas nos cinzentos. A grande excepção é a “cena da felicidade”, na qual as cores ganham outra vida…



E depois há a composição de cena aliada à reconstituição meticulosa da época e dos seus ambientes. Só assim conseguimos sentir a envolvência dos cafés parisienses no período despreocupado e algo frívolo de entre guerras; o bulício no interior da esquadra ou a sofisticação dos bordéis. Para além disso, as indumentárias, os acessórios, as ruas, os transportes, tudo nos remete criteriosamente para Paris dos tempos idos.



 

Brigada de Costumes começa com um bombardeamento, um abrigo, uma noite de Abril de 1944, uma taça de champanhe e as memórias que se reavivam e nos levam numa viagem de sete anos pela vida do inspector Aimé Louzeau – entre a sua família, as suas aventuras e a Brigada de Costumes ou, como era conhecida, La Mondaine.


História algo desconcertante, na qual Zidrou aborda com mestria temas sensíveis, não deixa de estar impregnada de uma ternura que faz, aqui e ali, acreditar na espécie humana. Embora a realidade seja bem menos idílica nos “Costumes”. Por vezes, o destino troca as voltas aos protagonistas e a candura dá o seu lugar à tragédia, desconcertando o leitor.

 

A galeria de personagens é invejável e meticulosamente construída. Sejam os personagens principais como Aimé Louzeau, o inspector-chefe Séverin e os colegas Duglu e Grapin “monocelha”, a mãe, a Clémentine (a velha criada interna) e a porteira, a bem constituída menina Wallez ou os infindáveis personagens secundários, todos eles têm algo a dizer-nos, algo a ficar gravado na nossa memória.


Um romance gráfico de contornos raros, Brigada de Costumes aborda temas tão diversos como a loucura, o peso da religião, o papel da polícia durante a Ocupação, a perversidade, a vida sexual secreta da sociedade, tudo com uma grande subtileza. Mas afinal, depois de tudo, os casos da Brigada não serão mais do que uma evocação ou um cenário para preparar o leitor para o estado psicológico do personagem principal e a sua relação com o mundo, sendo este o verdadeiro motor da intriga. Ao mesmo tempo, perante a seriedade dos inúmeros acontecimentos, Zidrou polvilha a obra com o seu humor inteligente, os seus diálogos realistas e desconcertantes reviravoltas numa narrativa que não deixa o leitor indiferente.


Ao longo dos sete anos em que decorre a história, acompanhamos a evolução de Aimé e presenciamos a sua inocência a transformar-se em algo mais sórdido que é, afinal, o que o torna um ser profundamente humano, fustigado pelas circunstâncias.


Tudo isto daria um extraordinário romance. Contudo, não nos podemos esquecer que estamos perante um duo talentoso de autores e um deles, Lafebre, faz acrescentar ao romance o termo “gráfico”. O seu traço semi-realista é, mais uma vez, impecável e funciona como uma segunda pele do argumento, igualmente com a capacidade de nos tocar irremediavelmente e de conferir ao conjunto da obra uma incrível sensibilidade.


Para finalizar, devo dizer-vos que, para o meu gosto literário, o final é daqueles que me enche as medidas. Seja o final expresso na última cena, seja aquele que nos surge na derradeira página com um longo recitativo que não permite que fiquemos sem saber o desfecho de cada personagem.


E quanto ao nosso jovem inspector, é-lhe reservada a frase final que, com a cena anterior, permite a cada um de vós, caros leitores, decidirem do fabuloso destino de Aimé Louzeau.

 


 Por Francisco Lyon.