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sábado, 31 de outubro de 2026

As boas novas da ASA para 2027

Apesar do ano editorial de 2026 ainda não estar fechado, até porque faltar chegar às livrarias uma meia-dúzia de novidades, entre as quais o novo Lucky Luke de Achdé e os Casos Arquivados de Blake & Mortimer, decorreu no final da tarde de Quinta mais um sempre agradável encontro informal promovido pelo editor da ASA, Luís Saraiva, que junta divulgadores e livreiros, para falar acerca das novidades que a editora já tem preparadas para o primeiro semestre de 2027. 
 
A editora vai repetir a mesma fórmula já seguida em 2026, de apostar em títulos mais fortes para os primeiros meses do ano, e deixar as apostas mais comerciais para o segundo semestre. E assim, meus amigos, preparem-se porque a fasquia vai ficar muito alta.
 
Logo a abrir em Janeiro, a ASA vai finalmente pôr em ordem o universo criado por Morris, que se encontra actualmente disperso em diferentes edições, colecções, editoras. Tem início a publicação dos INTEGRAIS LUCKY LUKE, seguindo a ordem cronológica dos álbuns. Cada um destes volumes irá reunir três a quatro(!) álbuns, para além de integrar um vasto caderno de extras. A ideia é fazer publicar dois integrais por ano. A edição será igual à da francesa Dupuis. 
 
A pensar num público mais jovem, até porque como o editor referiu as “bd’s de princesas” vendem-se bem, terá início a colecção RAVEN SAGA, mais uma saga que chega à banda desenhada originária do universo webtoon. 
 
E depois chega aquele, que para mim será certamente dos grandes álbuns do próximo ano: SILENT JENNY de Mathieu Bablet. Para quem se queixa, e a meu ver justificadamente, de pouca ficção-científica, temos aqui um colosso com as suas 320 páginas numa belíssima edição em capa dura. A premissa do “álbum das abelhas” é uma Terra sem insetos polinizadores varridos pelas alterações climáticas. Foi o que me gerou a maior expectativa. 
 
Para Fevereiro. Seguiu-se o anúncio do regresso de David Sala com a sua adaptação de FRANKENSTEIN. Se a história já é sobejamente conhecida, a arte de Sala aqui é uma explosão de cores e texturas admirável. Mais uma edição no belo formato 235x312 igual à da Casterman. Seduziu-me. Previsto para Março.
 
 
A novidade seguinte parece daqueles segredos mal guardados. Depois de um Hoka Hey que tão boa impressão deixou, e que colocou o seu autor Neyef debaixo do radar, não só nosso, mas também do editor, era previsível que o seu mais recente álbum, OS MENINOS PERDIDOS DE PETER PAN, chegasse cá. O universo criado por J. M. Barrie serve de inspiração para uma adaptação livre por parte do autor francês. Lançamento em Abril.
 
Outro anúncio que não (me) surpreendeu, quase pelas mesmas razões do anterior, é SAMIR da holandesa Aimée de Jongh. Confesso que o seu Senhor das Moscas não me entusiasmou assim muito, mas esta nova história sai do campo das adaptações, e com a autora talvez resulte melhor. Na história, Samir, é um jovem sírio, que vive na Grécia com a sua família, num campo a que os refugiados chamam a “sala de espera da Europa”. 

 
A sessão estava já animada com os títulos anunciados, e foi a altura do editor mostrar aqueles que eu dira que talvez se apresentem com maior risco comercial. O primeiro foi A RUÍNA de Lizzy Stewart. É descrito como um emaranhado confuso de amor, inveja e desejo que sustenta as nossas relações mais preciosas, e os caminhos difíceis que temos de percorrer para descobrir o nosso verdadeiro eu. Seguiu-se AS OLIVEIRAS DE NEGUS, de David Prudhomme e Laurent Gaudé. Apesar de visualmente cativante, não me senti tocado. É esperar por Maio para uma segunda oportunidade.  
 
Se até aqui as surpresas já eram boas, então o anúncio seguinte foi a cereja. Uma aposta na banda desenhada nacional com a obra original VILA ALGARVE. A argumentista de serviço é Ana Bárbara Pedrosa, que durante uma estadia em Maputo, apaixonou-se por uma antiga casa dos tempos coloniais, e que se encontra actualmente em estado de completo abandono. Que histórias contariam aquelas paredes nuas, que serviram de sede da PIDE naquela cidade? A ideia passou para o papel, e o plano passou por mostrar a construção do edifício, de nome Vila Algarve (podem pesquisar imagens no google) ao mesmo tempo que se vai contando a história de Moçambique, incluindo as relações coloniais com Portugal. À cabeça, estarão duas personagens, através das quais serão criados os eixos de ação. O desenhador Micky de seu nome é um perfeito desconhecido por cá, mas já se fez publicar em Inglaterra (com Charlie's London: From East Lane to the Limelight), e pela amostra de pranchas que tivemos oportunidade de observar, diria que temos aqui talento do bom. Vila Algarve tem o seu lançamento previsto para Maio. Só um aparte para referir que em 2027 teremos um novo álbum do Luís Louro, um do Filipe Melo e um da Rita Alfaite. Promete.
 
 
 
E ainda…. estão garantidos os novos álbuns de Águias de Roma, Murena e o final de Slava. Um novo Gaston e mais dois volumes de Michel Vaillant (que celebra 70 anos), a continuação dos Integrais Tintin e muito quase certo o novo Asterix. Eu não disse isto, mas de Nanbanjin do Cyril Pedrosa devemos também ter novidades! 
 
Portanto, temos aqui a ASA marcar uma posição, e a colocar a fasquia das edições em 2027 num patamar diria superior ao de 2026. Confesso que gostei bastante do compromisso do editor com a edição. Formatos generosos como um bom franco-belga deve ser publicado. Mas isto é uma cena minha!
 

quinta-feira, 29 de outubro de 2026

Jean Graton leva-nos de volta às pistas!

Temos de novo Michel Vaillant no regresso às pistas neste novo álbum de antologia de histórias curtas ainda assinadas por Jean Graton. AMERICAN CIRCUS, assim se intitula este novo volume, é o terceiro da colecção com a chancela da ASA, e traz-nos relatos míticos de Daytona, Indianápolis, Ford, Chevrolet, Chaparral, NASCAR, Dragster, Can-Am.

Michel Vaillant e Steve Warson enfrentam os pilotos americanos nas principais provas dos anos 70 nos EUA, ao volante de carros de corrida que entraram para a lenda! Este novo álbum já se encontra disponível nas livrarias.

A série celebra o seu 70º aniversário em 2027, e Michel Vaillant é uma das mais populares personagens da banda desenhada, mas mesmo assim, segundo consta, não foi acolhida a ideia de uma exposição comemorativa para o próximo Amadora BD, o que não se entende. 

Ficha técnica:
American Circus
Michel Vaillant - Histórias Curtas - volume 3
De Jean Graton
Capa dura, dimensões 239x316, cores, 64 páginas.
ISBN: 9789892369709
PVP: € 18,50
Editor: Edições ASA

quarta-feira, 28 de outubro de 2026

Já saiu o segundo álbum de Islander!

Outubro não desilude. Tem sido assim há vários anos, mas este mês já foram batidos todos os recordes de lançamento de livros de banda desenhada em Portugal. Obviamente não vou conseguir aqui dar nota de todas as novidades, pelo que vou saltitando entre editoras que disponibilizaram imagens. Já anteriormente tinha referido que a ARTE DE AUTOR se tinha preparado bem para o Amadora BD, e no festival pude confirmar os belos lançamentos.

Hoje trago aqui este ISLANDER. O primeiro volume foi lançado precisamente há um ano, e temos agora o segundo álbum desta trilogia de sobrevivência. 

O desenho quase realista de Corentin Rouge é por si só um garante de qualidade. Assinado por Caryl Férey, temos aqui uma história de ficção mas que num futuro próximo pode ter mais de realidade do que possamos pensar. O continente europeu é assolado por múltiplas catástrofes, o que obriga a um forte fluxo migratório das populações em busca de refúgio seguro. Os autores invertem a ordem do mundo tal como o conhecemos hoje.

A ALIANÇA
Enquanto o continente europeu é assolado por catástrofes, a Islândia continua poupada. Mas, agora, a ilha está à beira do caos. A sul, um governo autoritário tenta manter a ordem. A norte, áreas entregues a milícias de sobrevivencialistas fecham-se sobre si mesmas e, entre as duas regiões, a fronteira é brutal. Milhares de migrantes são rejeitados como intrusos. Neste cenário explosivo, os "Rejeitados", liderados por Yuri, revoltam-se e tomam a central geotérmica. Em breve cercam Reykjavik, mergulhando a capital no frio e na fome… Perante a onda de violência, Erika e Elektra iniciam uma perigosa fuga pelas paisagens nevadas para se juntarem aos sobrevivencialistas antes que a crise devore a ilha. No meio desta turbulência, Liam e Lívia tentam encontrar os últimos defensores. Mas, quando as forças da natureza se desencadeiam, o pânico apodera-se da Islândia e inicia-se uma luta feroz pela sobrevivência... 
 
Álbum já disponível nas livrarias. 
 
 
Ficha técnica:
ISLANDER vol. 2 – A Aliança
Argumento de Caryl Férey e desenho de Corentin Rouge
Capa dura, formato 232x310, cores, 160 páginas.
ISBN: 978-989-9094-93-2
PVP: € 35,00
Edição ARTE DE AUTOR
 

terça-feira, 27 de outubro de 2026

Entre tendas fez-se mais um Amadora BD!

Feito. Não tenho memória de ter passado tantas horas num festival como aconteceu nesta edição do Amadora BD. Mas já lá vou. Primeiro, a avaliação geral: excelente. Arrisco uma analogia com o mundo dos vinhos e decreto que o 37.º Amadora BD foi um “ano Barca Velha”. Das exposições aos autores, das conversas aos autógrafos, dos lançamentos às novidades, tudo esteve à altura e em bom. E até o estado do tempo tão incerto nesta altura, ajudou à festa, não chovendo. Endereço desde já os parabéns à Catarina e à sua equipa pelo trabalho magnífico. E uma palavra especial para quem presta apoio nas sessões de autógrafos, e que foi com quem mais contactei. Simpatia e disponibilidade totais. Verifico que a equipa se tem mantido constante nos últimos anos, e também seja o esse o segredo do bom trabalho que realizam.
 
Claro que nem tudo foi correu sobre rodas, mas nada significativo que não possa ser trabalhado e melhorado em futuras edições. Mas já lá chego, até porque no meio das tantas conversas que fui tendo, soube que, entre promessas e tendas, a Câmara Municipal vai finalmente avançar com o tão desejado investimento nas infraestruturas naquele que é o maior evento cultural do município (não sei se isto era segredo!). Um novo edifício estará já a ser estudado para aquele espaço. Espero que a ideia não seja só o de trocar uma tenda por quatro paredes e um telhado. É preciso mais que isso: mais área de exposição, melhor zona comercial, um verdadeiro espaço para conversas e apresentações sem ruído de fundo, e uma digna zona de autógrafos. Esta última sobretudo mais espaçosa e melhor iluminada. Basta dizer que no Domingo os autores estiveram a trabalhar à meia-luz e num espaço exíguo. E também não fica nada bem “despachar” um autor para dar lugar a outro. Os atrasos acontecem, seja porque o autor gosta de conversar com quem o lê, seja porque um desenho leva o seu tempo. Tem de existir lugares extras para estas circunstâncias. E até a zona de circulação em redor merece atenção, para evitar que se transforme numa zona de atabalhoamento colectivo. Portanto há aqui muito a melhorar.
 
A principal novidade no festival foi a utilização de uma nova tenda, de tamanho maior, para a zona comercial. Fala-se num desperdício de 100 mil porque na prática apenas permitiu disponibilizar mais lugares sentados na zona de apresentações. Não dei conta que tivessem sido preenchidos na sua totalidade alguma vez. A falta, nesta área, de um painel informativo com a chamada para as sessões de autógrafos que decorriam em paralelo no lado oposto, leva a que muita gente mesmo com interesse em assistir, não o possa fazer justamente por falta de informação do que se passa no outro lado. Parece uma questão de pormenor, mas faz toda a diferença. O novo espaço também me pareceu óptimo mas para os dias frios de inverno. Agora se serviu para reforçar a ideia que o festival precisa mesmo de novas infraestruturas, então pode-se dizer que foi um bom investimento.
 
E se já falei aqui de desperdício, então nem preciso de dizer mais nada sobre a tenda dita “do gaming”. Continuo sem perceber o seu propósito. Parece que este ano também albergava um artist alley… mas esqueçam lá isso. 
 
Agora, a edição deste ano veio revelar, pela primeira vez, o lado mais perverso do sistema de senhas para autógrafos que vigora no festival há já alguns anos. É verdade que existiu um alinhamento de factores que contribuiu para que tal acontecesse: a presença de um elevado número de muito bons autores, a sua concentração num único fim-de-semana e a distribuição de um número reduzido de senhas (entre 15 a 20 por autor). E o que sucedeu, perante uma elevada procura para tão reduzida oferta, foi que as filas para as senhas de autógrafos começaram-se a formar às 06:00(!) da manhã de Sábado e repetiu de novo no Domingo. Recordo que as portas do festival só abriam às 10:00. É fácil perceber que qualquer pessoa que integrasse a fila depois das 08:00 (duas horas antes da abertura do festival) simplesmente não conseguiria obter qualquer senha para os autores principais. Oficialmente atingimos aqui o ponto da insanidade, e contra mim falo porque fui um dos insanos (resultando daqui o meu elevado número de horas acumuladas de festival). E sinceramente não queria que fosse este o caminho para futuras edições.
 
Não há sistemas perfeitos, e cada um tem a liberdade de dispor do seu tempo da forma que melhor achar, mas pode-se sobretudo evitar aqui que se caia numa loucura colectiva. O sistema de senhas é talvez o preferível entre todos os sistemas, e serve bem aquela regra universal do primeiro a chegar primeiro a servir-se. Funciona assim em quase todo o lado. Agora compreendo a frustração de um qualquer visitante que não tenha a possibilidade de chegar de madrugada ao evento.
 
E alternativas? Uma das formas de tentar garantir que mais visitantes tivessem oportunidade, sugeria por exemplo que cada pessoa na fila e na sua vez, pudesse levantar no máximo três ou quatro senhas escolhendo entre os vários autores disponíveis, ao invés do “sem limite” que funciona actualmente. Em compensação cada senha garantia no máximo dois livros autografados. Em alternativa a este sistema, ou mesmo em cumulativamente, o festival abria dois momentos distintos de sessões de autógrafos: um no período da manhã e outro da tarde, com a distribuição das senhas a fazer-se exclusivamente no início de cada período. Não resolve todos os problemas, mas permitiria uma melhor distribuição por um maior número de interessados, e talvez dispensássemos a hora do galo. Fica a sugestão!
 
Agora madrugadas à parte, e por ter conseguido estar com todos os autores que pretendia, não me posso queixar. A colheita (continuando com a analogia) foi das melhores dos últimos anos. Já tinha conhecido o Craig Thompson em Beja em 2009, o Peter Van Dongen em Beja em 2019 e o Joseph Homs na Comic Con em 2022, portanto as surpresas foram para outros. Nesta edição, pessoalmente destaco o italiano Bruno Brindisi. Esta malta da casa Bonelli é talento puro. Cosa Vuoi? perguntava ele. E logo de seguida a pagina em branco enchia-se de traços fantásticos. O seu, agora meu, "Blueberry" encheu-me as medidas! Fiquei igualmente bem impressionado com o Andrea Artusi (O caso Vargas) e com Alexis Nesme (El Diablo), e entre outros juntei um “obrigatório” Lucky Luke da Joana Afonso e mais um “boneco” da Rita Alfaiate. Custou-me levantar muito cedo, mas pela minha colecção de desenhos originais valeu o esforço, não o posso negar. De coração cheio com estes autores! 
 
Uma palavra final para o público. Não tenho números de visitantes mas a sensação que já vi este festival mais bem composto. Esta alteração no calendário, a colocar o evento a realizar-se talvez no período mais critico do mês em termos financeiros não me parece nada uma boa ideia.
 
E está feito. Temos um festival que tem qualidade mas que ainda procura um espaço. Esperemos que se concretizem as obras, para que próximo ano o festival consiga cumprir o sonho de trocar a tenda por uma casa!