Rever
Comanche
Não!
Não é necessário ter lido a série Comanche,
criada em 1969 por Greg e Hermann para a revista Tintin, para que a leitura deste Rever Comanche seja, para além de totalmente perceptível, um
momento de nos encher a alma.
Claro
que para aqueles que, como eu, tiveram a sorte de ir lendo as aventuras de Red
Dust, cowboy solitário, e de Comanche, proprietária do rancho Triplo 6, Rever Comanche tem um encanto adicional.
Lembro-me
bem da primeira vez que Red Dust e Comanche entraram em minha casa. Tinha
apenas oito anos de idade e estava habituado a conviver com o Tintin, o Spirou,
o Mickey e o Tio Patinhas, a Mónica e, bem mais raramente, com o Homem-Aranha,
o Batman e o Super-Homem. Foi pois com estranheza e algum desconforto que li
aquele primeiro volume publicado em Portugal em 1976 (na verdade, o sexto da
série). Fúria Rebelde tinha na capa
um índio extremamente agressivo que parecia estar a atacar o leitor. Os desenhos
do interior mostravam-me personagens de feições rudes, todos eles abrutalhados,
feios, para a percepção estética de uma criança.
Apesar
disso, o facto é que nos oito anos que se seguiram devorei todos os álbuns de Comanche publicados em português. E,
logo a seguir, aqueles inéditos no nosso País e só disponíveis em francês (Os Xerifes e O Deserto Sem Luz). Por fim, em 1998, quando não sonhava haver
ainda algo para ler de Comanche de Greg e Hermann, saiu Le Prisonnier, colectânea de 5 histórias curtas publicados na
revista Tintin entre 1972 e 1982. Foi
o final de uma belíssima aventura no mundo da Banda Desenhada.
Mas,
caro leitor, esta viagem pelas alamedas da memória não é de todo inocente. É
que meio século depois de ler a primeira aventura de Comanche, a criancinha de
1976 é confrontada com, agora sim, a derradeira aventura de Red Dust e
Comanche.
Rever Comanche,
de Romain Renard, publicado recentemente pela Edições Asa, é a muitos níveis
excepcional.
Vamos à
história!
Estamos
no ano de 1930. Solitário, o Ford A Tudor segue a curvilínea estrada costeira
da Califórnia, embrenhando-se nos densos bosques que levam à pequena povoação.
O carro pára na bomba de gasolina da Texaco. Do interior sai uma jovem que
exibe uma gravidez avançada. Questiona o gasolineiro acerca de um certo Cole
Hupp. O gasolineiro, desconfiado, pergunta-lhe se ela é da família ou da
polícia. Mas não; ela está ali em trabalho. Convencido, o homem lá lhe fornece
as indicações para chegar à casa de Cole perdida no bosque.

Lá
chegada, dá de caras com um velho homem. Pergunta-lhe se é ele Cole Hupp. Ele
responde-lhe que não há ali ninguém com esse nome. Ela pergunta-lhe se ele
prefere responder pelo nome de Red Dust. O olhar dele é fulminante, analítico e
desconfiado. Ela decide apresentar-se. É Vivienne Bosch, historiadora a
trabalhar para a Biblioteca do Congresso com a missão de recolher testemunhos
das últimas pessoas vivas que passaram pela idade de ouro do “Wild West”. Ele
continua a afirmar não ser quem ela pensa. Vivienne mostra-lhe uma velha foto
de Red Dust com Comanche tirada na época do rancho Triplo 6. Diz-lhe que
ninguém responde às cartas que enviou para o rancho. Pergunta-lhe se ele não
quer saber como está Comanche. E quando ela afirma saber que ele é de facto Red
Dust e porque é que se esconde, ele levanta o machado ameaçador, obrigando-a a
partir.

Mas os
fantasmas do passado não dão descanso a Red. Na vila, tenta telefonar para o
Triplo 6… a linha foi cortada. Mais uma vez, encontra-se com Vivienne.
Pergunta-lhe se não conseguiu mesmo contactar com o Triplo 6. Pergunta-lhe
acerca de Toby-Cara-Sombria e de Clem-Cabelos-Revoltos. Ela responde-lhe que
também não conseguiu contactar com nenhum dos antigos companheiros dele e sabe
que Red é procurado em quatro Estados. Com ela, o velho cowboy poderá chegar ao
Wyoming em maior segurança.
Partem
no dia seguinte, com Vivienne ao volante. A longa viagem irá servir para que a
jovem historiadora consiga o testemunho vivo de um tempo há muito passado,
quando o Wyoming ainda não fazia parte da União, a lei era tanto a da Justiça
como a da bala, os vários povos índios ainda iam alterando os seus terrenos de
caça consoante as estações do ano, e o progresso chegava ao Oeste Selvagem a
conta-gotas.
E a
cada milha que passa, Red reaproxima-se do seu passado, mas enfrenta também os
perigos do presente, a polícia e os irmãos Dobbs…
Comecemos
então pelo mais óbvio. Rever Comanche
é uma homenagem que Romain Renard presta à série de culto dos anos 70 e 80 do
século passado criada por Greg e Hermann. Foi em Comanche que os leitores de banda desenhada puderam acompanhar o
desenvolvimento do talento do desenhador Hermann que atinge o seu máximo
precisamente no último volume da série, O
Corpo de Algernon Brown. O mesmo traço que iremos acompanhar logo de
seguida na série Jeremiah
(actualmente no seu 42.º volume) e na excelente As Torres de Bois-Maury. E é o próprio Hermann que está presente ao
longo de todo o Rever Comanche, pois
é ele que dá cara ao Red Dust envelhecido.
Por seu
lado, Greg criou em Comanche um
conjunto de cenários densos que funcionam individualmente, e na perfeição
quando lidos como conjunto. E com estes argumentos, ofereceu-nos um conjunto de
personagens fortes dos quais sobressaem Red Dust e Comanche e a sua relação
ambígua e intensa, da qual o leitor esperou sempre mais.
Ora, é
precisamente esta relação que Romain Renard vai utilizar como pano de fundo
desta novela gráfica que é aquilo que em cinema se chama um road-movie.
A
viagem em si, até ao Wyoming e ao rancho Triplo 6, é apenas um pretexto para
irmos conhecendo dois personagens fortes, um do passado e a outra do presente,
que é então 1930. Viagem longa, numa história que leva o seu tempo e que vai
progredindo milimetricamente numa narrativa reveladora e intensa que não
descura a criação de atmosferas físicas e psicológicas. E um argumento que vai
revelando, a pouco e pouco, uma construção muito hábil e inteligente.
Estamos
perante o fim de uma época; o momento crepuscular em que ainda podemos ver
cowboys do Velho Oeste montados no seu cavalo ao lado de automóveis de segunda
geração. O momento em que Red Dust é reencontrado, 50 anos após ter deixado o
Triplo 6. O momento em que Red tem de resolver o passado e rever Comanche, nem
que seja pela última vez.
Renard
põe-nos frente a frente com o fim de um mundo; o mundo do Faroeste, prestes a
eclipsar-se e a ceder o seu lugar aos mitos e às lendas. É o tempo da nostalgia
e da melancolia. O tempo balizado pela Grande Depressão começada em 1929 e
agravada em vários Estados pela “Dust Bowl” (tão bem retratada por Aimée de
Jongh no seu livro Dias de Areia,
também da Asa). O tempo da desolação
que parece acabar com o Sonho Americano.
E
Renard coloca os “últimos índios” e esses amaldiçoados da Grande Depressão, que
fogem da morte e da miséria, como testemunhas do fim de um sonho prestes a
eclipsar-se: os barões do petróleo substituem os prospectores de ouro, os
sobreviventes índios amontoam-se nas reservas, os cowboys vão desaparecendo
mercê do arame farpado nas pradarias, os pioneiros e colonos não passam já de
personagens de filme, e os usos e costumes do Velho Oeste são atracções de
circo, do cinema ou dos comic-books.
E até nos comic-books serão prontamente substituídos pelo Madrake (1934), pelo
Fantasma (1936), pelo Super-Homem (1938) ou pelo Batman (1939)
A
narrativa intimista de Renard, num ritmo ponderado, permite aos personagens
viverem a sua história, os seus silêncios e os seus segredos no tempo em que
decorre a viagem majestosa e nostálgica ao longo de uma América rural tão
devastada que quase ganha contornos pós-apocalípticos.
Uma
narrativa extremamente humana, com três reviravoltas absolutamente inesperadas
e que acrescenta à série de Greg e Hermann o suficiente para que possa ser
considerada a derradeira obra de Comanche.
Rever Comanche,
para quem aprecia momentos mais poéticos, entre vários tem dois deles
magníficos e que representam essa passagem de testemunho entre épocas, a
herança, mas também o estertor dos últimos momentos do passado. O primeiro
momento é muito simples e é representado pelo cavalo de Red Dust preso a uma
bomba de gasolina.

O
segundo momento é mais denso e composto por toda uma prancha – aquela em que
Red Dust é levado por Vivienne ao cinema. O momento é mágico a vários níveis. É
a primeira vez que Red Dust assiste a um filme e logo o The Big Trail (A Pista dos
Gigantes, 1930) de Raoul Walsh e com o jovem John Wayne como protagonista.
O filme é sobre um grupo de pioneiros em caravanas que desbrava o Oeste
americano no caminho do Oregon, é dos primeiros sonoros e o primeiro filmado em
exteriores, fora do estúdio. A prancha é composta por 4 tiras, cada uma com 3
vinhetas, sendo que cada vinheta central vai-nos mostrando a reacção – em
crescendo – de Red ao filme. São também estas vinhetas centrais que nos remetem
de imediato para aquela magia nostálgica do Cinema
Paraíso, e quase conseguimos ver o leão que emoldurava a janelinha de
projecção no filme de Tornatore. No fim do filme, já na prancha seguinte, Red,
visivelmente emocionado e maravilhado, pergunta se pode ver aquelas imagens de
novo. Afinal, todo o seu mundo acabara de ser cristalizado em breves momentos
numa sala escura.

Curiosamente,
o leitor mais atento reparará nos vários anacronismos com que Renard vai
pontuando a sua obra, como que nos lembrando que muito do que sofria a América
na década de 1930, continuou a sofrer até hoje. Vejam-se as páginas 56 e 57 com
cemitérios de automóveis da década de 1970 ou, na 57, três outdoors
publicitários da década de 1960, um dos quais anunciando o Kennedy Space
Center, assim nomeado só a partir de 1963. Já na página 68 temos, no meio do
nada, uma máquina moderna de venda automática da Coca-Cola e na página 69 uma
estrada pós-apocalíptica repleta de ossadas humanas. Por fim, na página 140, um
campo de grandes antenas parabólicas abandonadas. Tudo isto, opções criativas
do autor para nos fazer mergulhar numa nostalgia que se projecta até no futuro.
No
entanto, nestes anacronismos há um que não me parece intencional. Mesmo antes
de ter a experiência cinematográfica avassaladora, Red Dust vê uma pulp magazine da Street & Smith’s, da série Far
West Romances, datada de Abril de 1932. Ora, a acção decorre no ano de
1930. Mas até este pequeno erro tem a capacidade de nos fazer mergulhar na
nostalgia. Veja-se a capa a replicar um jovem John Wayne. Já agora, como
curiosidade, a Street & Smith’s não só foi a primeira editora a publicar pulps como também a primeira a imprimir
capas a cores.
Quanto
ao desenho, a técnica escolhida por Romain Renard adequa-se na perfeição ao
romance crepuscular que nos oferece e ao sentimento de nostalgia que o percorre
do princípio ao fim.
A isso
não será alheia a opção do preto e branco e dos meio-tons. Nem a fusão entre
desenho e fotografia retocada. O resultado é de uma enorme densidade e perfeito
para criar atmosferas soturnas e quase oníricas. E igualmente perfeito para nos
envolver num desenho realista que nos leva pela América profunda de 1930.
Renard
trata a iluminação com grande mestria e delicadeza. A mesma luz que desliza
suavemente sobre a pele dos seus personagens, torna-se poderosa e violenta no
momento de se fazer irromper uma gigantesca tempestade de poeiras.
Toda a
mise em scène, ou encenação, é não só espectacular como extremamente
cinematográfica, ampliada por jogos de olhar subtis entre os personagens e
enquadramentos que dão força ao lado épico e dramático da narrativa.
Não há
em Rever Comanche uma tentativa
sequer de imitar o estilo de Hermann. Tudo é original! E, no entanto, o autor
não quis deixar de nos brindar com breves relampejos da arte original de
Hermann retratada nas fotografias de época que Vivienne vai mostrando a Red
Dust. Também aqui, Renard homenageia o “Javali das Ardenas”. Contudo, não perde
a oportunidade de, ele próprio, desenhar a bela e enigmática Comanche.
Por
fim, a capa! Poderosa, com os protagonistas ao centro, no foco de luz. A
gravidez dela evidenciada pelo vento que lhe cola o vestido ao corpo. A
determinação empedernida dele, vista no olhar cerrado. Ele empunha uma pistola
que não é do seu tempo, tal como ela empunha um revólver de tempos antanhos.
Ambos prestes a serem engolidos por uma enorme tempestade de poeiras que
parecem formar o semblante de Russ, o mais maléfico dos irmãos Dobbs. Muito
bela, como é tudo nesta obra!
Rever Comanche
é, sem dúvida, uma das grandes obras editadas em Portugal neste ano de 2026.
Uma
homenagem sombria e intimista de Romain Renard a Comanche, a série culto de Greg e Hermann. Retomando o personagem
de Red Dust leva-o num “road-movie” melancólico a preto e branco e com
grafismos de fusão entre desenho e fotografia, o que lhe confere um realismo
impressionante.
Uma
viagem pela América rural de 1930, em plena Grande Depressão e assolada pelo
fenómeno da Dust Bowl, onde reencontramos não só Red Dust como também Raio de
Luar e vamos vislumbrando, aqui e ali, a imagem quase feérica de Comanche.
Romance
gráfico crepuscular, retrata o fim de uma época, a do agora Velho Oeste, que
também se chamara Faroeste e Oeste Selvagem. Mas também aborda temas como a
velhice, os arrependimentos e até o amor.
Neste
western admirável, nesta narrativa derradeira, Red Dust só deseja rever a
mulher que nunca esqueceu… Comanche!
Como já
se disse, Rever Comanche não obriga à
leitura prévia dos 10 (11) volumes da série original de Greg e Hermann. Mas
aposto que depois de a lerem, quererão perder-se também na série culto. E até
podem fazê-lo pois a Ala dos Livros
tem-na no seu catálogo em três integrais a preto e branco.
Esta é
uma excelente aposta da Asa que nos
surpreende ainda com várias reviravoltas e um final muito reflectido, original
e muito humano, onde ainda há tempo para uma homenagem final a Hermann.
Um fim
de encher a alma!
Por Francisco Lyon de Castro