Wild West,
volume 5
Para
todos aqueles que gostam de westerns, actualmente há duas séries de banda
desenhada incontornáveis: Undertaker
e Wild West.
Para
todos aqueles que gostam de uma BD com uma boa história e bem desenhada,
actualmente há duas séries a ter em consideração: Wild West e Undertaker.
A maior
diferença entre as duas, para além da arte, é o facto de Wild West ter uma abordagem mais clássica ao género, mas nem por
isso ultrapassada.
Curiosamente,
as duas séries são publicadas em Portugal pela Ala dos Livros e estão a par com as edições francesas.
Mas o
que nos interessa agora é Redenção, o
quinto volume de Wild West que abre
um novo díptico e nos traz mais um personagem lendário do Velho Oeste, como
veremos mais adiante. Aliás, esta é uma das “imagens de marca” da série: a
história da conquista do Oeste Selvagem através da história das suas figuras
lendárias, desconstruindo esse estatuto de lendas, tal como nos habituaram
Thierry Gloris (argumento) e Jacques Lamontagne (desenho).
Antes
de mais…
Vamos à
história!
A
locomotiva avança a todo o vapor pela região montanhosa da Califórnia.
Subitamente, a linha está bloqueada por troncos de árvores. Para que não haja
dúvidas, o bando de foras-da-lei dispara várias vezes para o ar anunciando o
assalto. Entre os assaltantes, uma mulher parece liderar o ataque. Dentro da
carruagem de passageiros, ela abate o único que lhe resiste. Na carruagem
forte, assassinam todos os ocupantes e levam o conteúdo do cofre. Depois de
dividirem o resultado do saque, combinam encontrar-se dali a seis meses para um
novo assalto.

Meio
ano depois. Dolores City, entre a Califórnia e o Nevada. A pequena cidade
poeirenta vive ao ritmo da mina de bórax, dos seus mineiros, dos homens de
família e de negócios e do imponente pastor de almas. Disso e dos cada vez mais
frequentes episódios escandalosos da menina Calamidade, ou melhor dizendo, de
Calamity Jane. Fúrias imprevisíveis, humor irrascível e embriaguez crónica
afogam os seus velhos tormentos, enquanto os bons homens da cidade pedem ao
xerife que faça algo. Naquela manhã é vê-la a dormir na pocilga a céu aberto,
por entre porcos e perante as senhoras de sociedade que a observam chocadas.
Juntamente com o seu ajudante, o xerife Bill Hickok vai buscar a sua amiga Jane
à pocilga, sabendo de antemão que é mais fácil fazer reinar a ordem na cidade
do que manter Calamidade nos eixos. Nem Charlie Utter, o seu amigo comum,
consegue fazê-lo.

Entretanto,
nos arrabaldes de Dolores, a intrigante família Ballou acaba de comprar o velho
e isolado rancho W. Com eles trazem dez cabeças de gado, rostos carrancudos e
explicações pouco convincentes. A intuição de Hickok coloca-o em alerta.
Aproxima-se uma tempestade. E das grandes…
Com Redenção inicia-se o terceiro díptico de
Wild West, a série criada por Gloris
e Lamontagne. E, mais uma vez, Gloris consegue dar-nos um retrato apurado do
Velho Oeste e daquele momento na história dos EUA em que a “civilização” começa
a chegar aos lugares mais recônditos da jovem nação. E fá-lo através das vidas
de Wild Bill Hickok, Calamity Jane e Charlie Utter, figuras lendárias do
Faroeste que são aqui tratadas de forma bem mais interessante e prosaica.
Uma das
grandes diferenças deste volume em relação aos anteriores é o facto de irmos
encontrar estes três protagonistas cristalizados nas suas rotinas em Dolores
City. Hickok usa na lapela a estrela de xerife e leva a vida de casado como um
homem respeitável, mas entediado. Charlie Utter entrega o correio e Calamity
Jane bebe até ao esquecimento e incompatibiliza-se com toda a cidade. Aliás, ao
contrário do que se passou anteriormente, Jane tem um papel muito reduzido
neste volume.
No
primeiro terço da obra, Gloris parece levar-nos por um percurso narrativo
inconsequente. Uma ida ao dentista, uma partida de cartas, o final de um dia de
aulas na escola, um jantar formal em casa dos Coleman, são alguns dos momentos
que parecem querer mostrar-nos que tudo vai bem em Dolores City. Mas Gloris consegue
instalar no leitor uma espécie de dúvida sistemática que leva à percepção quase
inconsciente de uma tensão crescente.

Ao
mesmo tempo, este ambiente aparentemente morno permite ao autor construir um
Bill Hickok mais denso, desenvolvendo os estados de alma do personagem enredado
nos seus deveres conjugais. Já quanto a Calamity Jane, quase não a
reconhecemos. Irrascível, descontrolada, personagem desagradável, parece ter
apenas as boas graças de Charlie Utter. Mas percebemos como chegou a este
estado pois, embora vão longe os tempos em que trabalhou numa casa de
prostitutas, casou com um índio e viveu na sua tribo e perseguiu Hickok por ter
morto o seu marido, tudo isto se acumulou nela e a transformou.
Mas
assim que a narrativa estabelece as suas bases, estes aparentes tempos mortos
desaparecem e dão lugar a uma trama corrida e violenta, na qual todos têm um
passado perturbado. Um passado oculto num Oeste americano que permite a todos
reinventarem-se e criarem novas vidas… até que os fantasmas pretéritos
ressurjam do nada. E temos assim a importância do título deste volume – Redenção.
Gloris
é um escritor experiente e sabe não só criar situações de suspense como
implantar na trama uma tensão crescente que, neste caso, provavelmente acabará
com o troar do Smith & Wesson de Bill Hickok. Neste burgo onde a vida só é
perturbada pelos excessos de Jane e no qual os fora-da-lei se mantêm distantes
do nosso xerife, o poder acaba por ser partilhado pelo homem da lei e pelo
homem da fé, o pastor Jérémiah Henderson.

A
escolha narrativa de centrar a trama em Wild Bill Hickok não é inocente e
encerra o propósito maior (quanto a mim) deste volume. A figura da lei em luta,
não apenas contra o crime, mas contra os dogmas de uma comunidade dominada pela
fé. Num Faroeste carregado de contradições, a justiça dos homens confronta-se
com a de Deus. E a palavra Dele é invariavelmente substituída pelo verbo da
bala. Os tiros e os sermões inflamados parecem estar ao mesmo nível, exercendo
de forma igualmente eficaz o julgamento dos outros. E é isto que Gloris nos
quer mostrar, uma América de pioneiros, de aventureiros, de desbravadores, a
maior parte deles consumidos por certezas morais, onde a fé tantas vezes se
torna mais opressiva que a lei.
A
narrativa estabelece-se assim com tensão e densidade. Mas há que arranjar um
catalisador que a acelere e encontramo-lo na chegada da família Ballou a
Dolores City, encabeçada pela bela Catherine. E para os menos atentos, este é o
momento de Gloris acrescentar à galeria de figuras lendárias de Wild West a de Belle Starr, a conhecida fora-da-lei
amplamente divulgada pelas Dime Novels
da época e imortalizada por Morris numa das aventuras de Lucky Luke. De igual
modo, ficamos a conhecer o dentista tuberculoso de Hickok, o também lendário
Doc Holliday, sobretudo famoso pela sua participação ao lado de Wyatt Earp no
tiroteio de OK Corral.
Por
fim, a “embrulhar tudo”, temos ainda a enorme tensão entre os cidadãos de
Dolores City e a comunidade chinesa de mineiros, acusados de roubar o emprego aos
americanos. O quinto volume de Wild West
é um autêntico barril de pólvora.
Quanto
à arte, Jacques Lamontagne parece estar no seu pico artístico. O seu estilo
único, realista, com um traço meticuloso, é o garante da completa imersão do
leitor num Oeste rude e porco, no qual, de igual modo, mulheres e homens
cheiram mal; a poeira raramente assenta nas ruas, excepto quando estas estão
submersas em lama; e o duro dos duros pode morrer com uma infecção num dente. O
Faroeste de Lamontagne é sujo e tangível, inclemente e credível.
E para
isso contribui, e muito, a sua atenção aos pormenores e as muitas pesquisas que
faz antes de pôr os pincéis e lápis a trabalhar. Quando Lamontagne desenha o
interior de um saloon, uma rua do bairro chinês ou um simples Colt, o leitor
acredita no que está a ver e prossegue como se lá estivesse. Esta atenção dada
ao detalhe inibe-o, a maior parte das vezes, de preencher os fundos das
vinhetas com uma simples cor plana. Os detalhes em Lamontagne são como uma epidemia
que se propaga dos primeiros para os segundos e terceiros planos. Reparem na
imagem que se segue e como os pormenores se estendem até para lá da porta do
saloon.
Para
além disso, o artista tem um sentido muito apurado no que diz respeito aos
enquadramentos e à encenação. A narrativa visual, por isso, nunca é monótona e
serve na perfeição à constante tensão dramática da trama. Por si só, cada
vinheta é composta como se de um quadro se tratasse, sempre com uma
profundidade extraordinária. E se lhes juntarmos um sentido cinematográfico de
montagem, facilmente conseguimos imaginar o “filme das coisas” a desenrolar-se
diante o nosso olhar com um grande dinamismo.
Como
artista completo que é, Lamontagne aplica a cor aos seus desenhos. E fá-lo com
grande mestria. O bailado entre luz e sombra é perfeito, criando contrastes que
dão grande realismo ao desenho. A colorização é ligeiramente dessaturada e
subtil, acentuando o equilíbrio frágil entre a beleza e o desespero, o
quotidiano fastidioso e o momento opressivo ou de tensão.
Redenção, o
quinto volume de Wild West, é uma
nova pérola nesta série, confirmando a riqueza narratia de Thierry Gloris e o
génio artístico de Jacques Lamontagne.
Uma
história que se desenrola num ambiente pesado, evitando os clichés a que
Hollywood nos habituou nos seus westerns ou as imagens românticas propagadas
pelas dime novels dos finais do
século XIX e princípios do século XX e que são responsáveis pelas ideias
lendárias e erradas que temos de grande parte dos protagonistas da história do
Velho Oeste.
De
novo, a pretexto de nos contarem a história de Bill Hickok, Calamity Jane e
Charlie Utter, Gloris e Lamontagne pintam um fresco monumental sobre a história
do Oeste Longínquo e dos homens e mulheres que o foram desbravando a grande
custo, tantas vezes pagando com a própria vida. E se a leitura de cada volume
nos embrenha profundamente na vida dos protagonistas e dos seus secundários, a
leitura completa e sucessiva de toda a série, feita num mesmo momento,
dar-nos-á a grandiosidade desse fresco.
EXTRAS
Os retratos reais dos protagonistas de Wild West (II):
Belle Starr
Doc Holliday e “Belle Starr
jumping bail” (ilustração do National
Police Gazette de 22 de maio de 1886)
Por Francisco Lyon