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segunda-feira, 17 de agosto de 2026

Quando o silêncio grita mais alto…

 

Os Cabelos de Édith

 

Autor dos romances 1984 e O Triunfo dos Porcos (ou A Quinta dos Animais), entre outros, é a George Orwell que se atribui a frase “A história é escrita pelos vencedores.” E, de facto, se nos determos no final da Segunda Guerra Mundial, são muito mais abundantes os registos dos vitoriosos do que dos que capitulam.


Ao leitor interessado por este período não lhe é desconhecida a famosa fotografia do marinheiro a beijar uma jovem em plena Times Square, no meio da multidão que comemora o final da guerra de 39-45. Nem aquela que mostra os soldados soviéticos a tomarem o Reichstag, o parlamento alemão, hasteando a bandeira soviética. Ou ainda a de Winston Churchill a fazer o sinal de vitória que popularizou, após discursar para uma multidão no dia 8 de Maio de 1945 (o dia oficial do fim da guerra).


E como “a história é escrita pelos vencedores”, interessa não deixar cair no esquecimento certas atrocidades praticadas pelos vencidos. E é assim que, após o fim da Segunda Guerra Mundial se começam a divulgar imagens dos campos de concentração nazis e dos horrores que por lá se praticavam e que chocaram um mundo incrédulo.


Mas a história, caro leitor, não se detém naquilo que se fez ou nas comemorações mais ou menos triunfais da vitória. Na verdade, após a euforia, o comum dos cidadãos tem de voltar para casa e descascar batatas ou nem sequer tem casa para onde voltar ou batatas para descascar. O comum dos cidadãos, vencedor ou vencido, tem de prosseguir a sua vida com um défice material e um excedente traumático que não experimentara antes do conflito. E é aqui que a história escrita pelos vencedores tem tendência a saltar e a passar para o período seguinte mais interessante.


Mas, afinal o que aconteceu aos sobreviventes do “holocausto”? Como conseguiram prosseguir com as suas vidas? E como foram percepcionados pelos “vencedores”?


Fabienne Blanchut e Catherine Locandro, apoiadas pelo traço sensível de Dawid vão transportar-nos precisamente para o pós-Segunda Guerra Mundial (poucas semanas depois do conflito terminar e muitos outros começarem) através do seu romance gráfico Os Cabelos de Edith publicado em Portugal pelas Edições Asa.

Vamos à história!


Paris, 22 de Maio de 1945.


À saída do liceu, Louis despede-se dos seus amigos, monta a bicicleta e pedala pelas ruas de Paris. Passa pela leitaria que não tem leite há uma semana. Passa pela mercearia do Senhor Dubois onde uma fila de parisienses aguardam a sua vez na tentativa de comprar bens racionados. Passa pela sapataria que só tem um par de sapatos. E chega por fim ao Pax, o cinema no qual trabalha na bilheteira para ganhar mais uns cobres e ajudar a família. Afinal, a guerra acabou, mas as dificuldades continuam. Só depois de se cruzar com um autocarro cheio de pessoas que se dirige ao Hotel Lutetia, Louis assume o seu posto na bilheteira do Pax. Em cartaz está “As Crianças do Paraíso”.

 

Já a noite vai alta quando Louis regressa a casa. Enquanto pedala ligeiro, a cidade parece ignorá-lo e esquecer-se que há poucas semanas o conflito mundial ainda tinha fim incerto. As pessoas divertem-se no Les Deux Magots e Louis pedala; no Tabou e Louis pedala; na Brasserie Lipp e Louis pedala. Chega por fim a casa. O pai lê o jornal, a mãe já se deitou, mas deixou comida na panela para o Louis aquecer. Pai e filho trocam algumas palavras e o dia termina.


Na manhã seguinte recomeçam as rotinas. A mãe acorda Louis que tem de levar a irmã à escola antes de ir para o liceu. Por sua vez, ela vai à mercearia na esperança de arranjar farinha que deve chegar nesse dia. Já no liceu, Louis estuda Camus na aula de francês e no intervalo reencontra o seu antigo professor da disciplina – este voltou depois da guerra, perdeu um braço, mas será reintegrado. Enquanto pedala de regresso a casa, Louis vê de novo o autocarro que se dirige ao Lutetia, cheio, como sempre. Num impulso, segue-o.


Os corpos esqueléticos dos deportados mergulham na multidão que os espera. As pessoas procuram os seus parentes desaparecidos entre os recém-chegados. Dentro do hotel, escuteiros e voluntários tentam manter alguma organização e dar assistência aos sobreviventes do horror nazi. Mas muitas mãos são poucas para acolher tantos. Tudo aquilo é demais para o Louis que acaba por se oferecer como voluntário.

 

Nas 24 horas seguintes, a vida de Louis mudará para sempre. No meio dos seus novos afazeres, conhece Sylvette e Édith, duas jovens deportadas de cabelos rapados que ocupam o mesmo quarto. Mas enquanto Sylvette conseguiu manter um certo espírito, Édith não fala e parece ter deixado o seu ser no campo de concentração de Birkenau. Sylvette partirá em breve e pede a Louis para tomar conta de Édith. Ele aceita, mas…

 

A deportação de milhões de judeus e outros “indesejados”, bem como o seu extermínio, são temas essenciais da história mundial, sendo amiúde abordados pela banda desenhada. Bem recente em Portugal temos, por exemplo a magnífica série de Émile Bravo, A Esperança Nunca Morre, também publicada pelas Edições Asa.


Já o período de regresso dos poucos sobreviventes é, regra geral, menosprezado ou resumindo-se na BD a breves vinhetas. Ora, esta lacuna é agora colmatada pelas premiadas romancistas francesas Fabienne Blanchut e Catherine Locandro que, a quatro mãos, escrevem Os Cabelos de Édith e conseguem vencer o Prémio Goscinny 2026.


Curiosamente, dar voz a uma sobrevivente de Birkenau é respeitar o seu silêncio. Édith está por demais traumatizada para que possa interagir com outros sobreviventes ou com os seus benfeitores. A mudez é apenas quebrada maioritariamente fora do foco do leitor, quando ela se expressa com Sylvette, a sua companheira de infortúnio. E é este o segredo da narrativa e o que lhe dá força. No seu silêncio ouvem-se as palavras, tudo o que não diz e que se reflecte nos actos de Louis, um dos protagonistas.


Amiúde, Édith viaja ao passado pela alameda da memória e tudo o que recorda é o terror por que passou às mãos dos nazis. Mais ainda, pequenos nadas do presente transportam-na constantemente a esse passado e fazem-na cada vez mais ausentar-se da realidade do quotidiano.

 

É a Louis que caberá a tentativa de trazer Édith para o presente. Mas ele próprio, e a sua família, estão ainda enredados nos tentáculos que a Segunda Guerra Mundial lançou para o futuro.


A história estende-se apenas por doze dias, tempo mais que suficiente para que Sylvette se agarre ao futuro de modo a melhor esquecer o passado de horror. O mutismo de Édith é assombrado pelo tempo de terror passado no campo de concentração e qualquer coisa é suficiente para reavivar o pesadelo vivido. Já Louis vê-se a repensar a vida e a tomar consciência de realidades dolorosas, atrozes e até, no caso da sua família, vergonhosas. É que o seu pai esconde um segredo.


Se a narrativa, de certa forma, está concentrada em Édith, é em Louis que ela encontra o seu motor. O rapaz alimenta-se da relação silenciosa com Édith e do que vai tomando consciência através dos jornais para que não seja tomado pela insensibilidade ou choque. Para além disso, percebe-se ao longo da leitura, que a ajuda dada às “deportadas” é também um desafio à autoridade paternal – ganha, também ela, pelo silêncio. Mas é naquele elo subtil que vai criando com Édith que a narrativa ganha em emoção e sensibilidade.

 

Quanto ao desenho, está a cargo de Dawid, de quem o leitor português já conhece o álbum Senhor Apothéoz, também publicado pela Asa. E a escolha não podia ser mais acertada, pois o traço subtil e delicado do artista consegue representar de forma quase transcendente a fragilidade dos personagens. Quer seja a Édith ou a Sylvette, o Louis ou o seu pai, todos eles parecem frágeis, prestes a desmoronarem-se, “vítimas” do traço de contornos delicados de Dawid. O próprio traço parece ser evocativo dos momentos graves retratados.


Por outro lado, a paleta de cores do autor, em tons pastel, tem a particularidade de transmitir serenidade e acalmar os ânimos, quase numa contradição chocante com os horrores por que passaram as duas protagonistas.


E para afirmar de certo modo que o pior já passou, o traço de Dawid altera-se radicalmente quando representa as cenas passadas por Édith no campo de concentração. Um traço nervoso que irrompe rude, bruto e de maior grossura, sempre em cenas inesperadas e reveladoras de que a violência continua bem viva na memória de Édith.


A composição das pranchas (entre 1 e 8 vinhetas) e os enquadramentos variados permitem ao leitor uma leitura dinâmica. E os cenários parisienses estão muito bem conseguidos e remetem na perfeição para o ambiente do pós-guerra.

 

Com uma grande delicadeza e cuidado, Blanchut, Locandro e Dawid contam-nos a história dos deportados dos campos de concentração, não só do que passaram durante a guerra como do que estão a passar após o conflito mundial. De certo modo é uma história dos vencidos, mesmo quando são vencedores. Por um lado, temos a população de Paris que quer esquecer a guerra e concentrar-se no dia a dia. Por outro lado, os sobreviventes do holocausto traumatizados. E depois, temos ainda aqueles que, como o Louis, querendo melhor enfrentar este período da História, tentam ser úteis aos outros.


No caso de Louis, é o encontro com Édith que o vai mudar profundamente. Um encontro pautado pelo silêncio dela. Um silêncio que, para quem quer ver, grita mais alto que qualquer dor.


Por fim, perguntar-se-á o leitor, qual a importância dos cabelos de Édith? E a resposta é a óbvia: há que ler a obra.

 

Por Francisco Lyon de Castro 

 

 


sábado, 15 de agosto de 2026

Prelúdio do Festival

Tic...tac... Faltam ainda dois meses para que as portas se abram à 37ª edição do Amadora BD, o evento que encerra a temporada dos grandes festivais de banda desenhada em Portugal. Os preparativos já estão em curso, e algumas novidades justificam fazer aqui este breve prelúdio. 

O Espaço 
Não é difícil perceber que será mais um ano onde a Câmara responsável continua em modo poupança relativamente aquele que eles próprios anunciam como "um dos eventos da 9.ª arte mais participados em Portugal". Nenhuma melhoria significativa, entenda-se nenhum investimento de relevo ao nível logístico do evento. O núcleo central ameaça perpetuar-se nas limitadas instalações do denominado Parque da Liberdade, na Damaia.
 
Para a festa junta-se a já tradicional tenda, que aloja a zona comercial do evento, e a insistência em mais dois locais descentralizados, na Bedeteca da Amadora e na Galeria Municipal Artur Bual, cuja localização e horários, sobretudo ao fim-de-semana, não constituem qualquer mais-valia para o festival, sobretudo para os visitantes que chegam de fora.
 
Não queria passar por excessivamente amargo, mas a verdade resiste a fantasias. Falta ali um espaço a sério para receber autores, para conversas e apresentações. Seria impossível, por exemplo, acolher nomes de calibre como Didier Conrad ou Fabcaro, autores que encheram uma sala de cinema com mais de trezentos lugares no Corte Inglês em Outubro do ano passado. A realidade, essa triste companheira do evento, é que o maior festival nacional de banda desenhada continua reduzido a um barraco e uma tenda! 
 
As Exposições 
Agora, pela informação já divulgada sabe-se que a edição deste ano será, mais uma vez, uma espécie de festa de aniversário colectivo, com vários aniversariantes. Uns mais populares, outros nem por isso.
 
Promete-se celebrar os 80 anos de Lucky Luke (dizem que com originais de Morris que valem sempre a visita); outros 80 da dupla Blake & Mortimer, com destaque para o trabalho do desenhador Peter Van Dongen; mais os 65 anos do Quarteto Fantástico, que traz a Portugal o argumentista Ryan North e o ilustrador Iban Coello; os 40 anos de Dylan Dog e os 25 anos do Menino Triste de João Mascarenhas. Encontrou-se espaço para uma retrospetiva de Guy Delisle e exposições de autores como Josep Homs (desenhador da saga de fantasia Shi editada pela Ala dos Livros), Mansoureh Kamari (da obra As linhas que traçam o meu corpo, edição da Arte de Autor), Thomas Gilbert (da obra As Raparigas de Salém, edição da Arte de Autor), e Patrícia Costa com as suas Crónicas de Enerelis. Todos estes autores são convidados do festival.
 
Podemos questionar algumas das escolhas, mas a lógica seguida de autor com exposição e livro editado é claramente vencedora. 
 
Os Prémios 
As novidades principais na edição deste ano, centram-se nos Prémios de Banda Desenhada da Amadora (PBDA) promovidos pelo Festival. O novo regulamento introduz desde logo algumas alterações. Umas bem feitas, outras nem por isso.
 
Começa por manter um júri composto apenas por três elementos, o que já se sabe é manifestamente curto. Para a sua composição, deixou-se cair, e bem, a figura do “representante indicado pelo Clube Português de Banda Desenhada”, um clube muito discreto com uma presença nas redes sociais bastante irregular para não dizer praticamente sem actividade. É substituido agora pelo “Autor(a) vencedor(a) no ano anterior, na categoria de Melhor Obra de Banda Desenhada de Autor Português”, o que não melhora. Continuamos mal. E porquê? Obriga-se um autor a exercer função de jurado sem garantir que esse mesmo autor seja, assumidamente muitos não o são, um ávido leitor de banda desenhada. Fica com um peso que não pediu, com a responsabilidade de escolher entre as várias centenas de obras publicadas em Portugal munido apenas de boa-vontade e gostos pessoais. Não será certamente o que se pretende.
 
Passamos à categoria de Melhor Obra de Banda Desenhada de autor português. Continua cheia de lacunas. Falta as menções a "obra original" e “editada originalmente em Portugal”. Não se querem reedições e devia-se acautelar situações que diria de absurdas como por exemplo a verificada no recém-criado Prémio Nacional de Banda Desenhada do Ministério da Cultura em que a Obra do Ano vencedora é… uma obra brasileira!!!! Depois não se tornou aqui condição que apenas elegíveis obras cuja história tenha no mínimo trinta páginas em banda desenhada. Mais uma vez acautelar o óbvio: há uma grande diferença entre um livro com uma história de trinta paginas e um livro com três histórias de dez páginas cada. Se o objectivo é credibilizar a obra portuguesa, é preciso não confundir a "estrada da beira com a beira da estrada".
 
Agora, infelizmente, o regulamento, manteve a categoria de Melhor Edição Portuguesa, quando se podia ter aproveitado para destacar quem faz livros: o editor/editora. Premeia-se autores, premeia-se obras e esquecem-se desta verdade de La Palice: sem editor, não há livro. Mais que se justificava um ‘Melhor Editora Nacional’ muito mais do que se considerar “a qualidade, o rigor e a nobreza dos materiais utilizados na edição física, eventuais conteúdos adicionais à obra…” Quem é que escreve estas coisas?? Não obstante, a organização dos PBDA decidiu aqui, relativamente à obra vencedora desta categoria, premiar a respectiva editora com o compromisso por parte do município em adquirir 100 exemplares desta edição. Resta saber se a edição for assim tão boa como se espera, se haverá 100 exemplares ainda disponíveis!
 
Agora a parte boa e de aplaudir. Os reforços. O valor pecuniário a atribuir à ‘Melhor Obra’ duplicou e vale agora €10.000. E pela primeira vez, é atribuído um prémio pecuniário de €3.000 ao ‘Autor Revelação’. É um incentivo excelente à produção nacional. Nota máxima aqui. 
  
A Inútil tenda 
Outra novidade será a existência pela primeira vez, de um Artist Alley, (continuo sem perceber a necessidade do uso destes estrangeirismos bacocos), um espaço dedicado a autores e criadores independentes com projetos ligados à cultura pop, banda desenhada, ilustração e animação. Funcionará naquela tenda adjacente destinada ao chamado 'gaming'. É a melhor forma que descobriram para darem alguma utilidade aquele triste espaço!
 
Os Autores
Quanto aos autores estrangeiros convidados desta edição, entre estreantes e repetentes, encontramos bons nomes. Quero acreditar que a lista encontra-se ainda bastante incompleta, até porque apostaria na presença, por exemplo, de um autor italiano do Dylan Dog, a acreditar na forte aposta que a editora A Seita tem feito nas histórias deste personagem. E também há um autor que tem um livro sobre o ginseng que está na calha. Mas para por agora retemos os seguintes nomes: Romain Renard (Rever Comanche), Josep Homs (O Diabo e a Coral, Shi), Peter Van Dongen (Blake e Mortimer), Mansoureh Kamari (As Linhas que Traçam o Meu Corpo), Guy Delisle (O Guia do mau pai, Crónicas de Jerusalém, Crónicas da Birmânia, entre outras), Thomas Gilbert (As Raparigas de Salém), Sydney Gusmão (Domingos [com lançamento no festival]), Ryan North e Iban Coello (que assinou algumas capas do título Amazing Spider-Man).
 
A 37º edição do Amadora BD acontece entre 15 e 25 de Outubro. 

 

sexta-feira, 14 de agosto de 2026

Celebram-se os 80 anos do Principezinho!

Este ano andamos sob o signo do 80!  São os 80 anos de Lucky Luke, os 80 anos de Blake e Mortimer e agora os 80 anos da publicação da obra O Principezinho em França, a obra-prima de Antoine de Saint-Exupéry. É justamente para celebrar esta última efeméride que saiu hoje para as bancas a novela gráfica Saint-Exupéry e a origem do Principezinho numa edição da LEVOIR.

Recordo que ainda em Maio passado, a editora ASA lançou o álbum O PRÍNCIPE DOS PÁSSAROS DE ALTO VOO, da autoria de Philippe Girar, um romance gráfico também sobre o escritor-aviador Antoine de Saint-Exupéry, tendo como pano de fundo a vida deste durante o seu exílio norte-americano durante a Segunda Guerra Mundial.

Este SAINT-EXUPÉRY E A ORIGEM DO PRINCIPEZINHO conta como era a vida do seu autor antes deste sucesso mundial, que só se concretizou após a sua morte, e como o conto filosófico surgiu na sua mente. Foi nas noites solitárias — entre as suas missões no Saara, na Argentina e nos Estados Unidos — que nasceu, em 1943, O Principezinho, que viria a trazer, em plena guerra, um pouco de luz, inocência e maravilha... Saint-Exupéry foi explorador na companhia Aeropostal, arriscou a vida a sobrevoar desertos, resgatou outros pilotos retidos como reféns pelos tuaregues, atravessou oceanos em aviões pouco seguros, procurou companheiros acidentados nos Andes, participou na Segunda Guerra Mundial..., resume Fernández, que espera que o leitor aprecie o prazer que representou para ele e Pierre-Roland Saint-Dizier a realização desta obra. 

O dossier no final do livro contém imagens da vida de Saint-Exupéry nos Estados Unidos. 

Ficha técnica:
Saint-Exupéry e a origem do Principezinho 
De Pierre-Roland Saint-Dizier e Cédric Fernandez
Colecção Novela Gráfica IX – vol. 07
Capa dura, 195 X 270, cores, 176 páginas.
PVP: € 16,90
Edição LEVOIR 
 

terça-feira, 11 de agosto de 2026

Fim da linha para a Gradiva BD!

O panorama da banda desenhada em Portugal está em movimento, mas a verdade é que nem tudo são boas notícias. Se por um lado sopram bons ventos na edição, por outro lado a vitalidade num mercado também se faz de ajustes. 

Quando em Outubro de 2025 a GRADIVA integrou o grupo Guerra e Paz Editores, era quase inevitável o que viria a seguir. Nos últimos anos, os números da editora já evidenciavam um claro desinvestimento no selo Gradiva BD do seu catálogo: em 2022 lançava trinta e dois títulos; em 2023 caíram para dezoito; em 2024 ficou-se pelos quinze; no ano passado foram apenas quatro. Uma queda que não deixou margem para dúvidas.

À saída de cena do editor Guilherme Valente juntou-se a integração da editora num grupo editorial que não tem experiência na edição de banda desenhada. E quando não se entende um mercado, torna-se difícil justificar um investimento. Não é assim surpresa os descontos agressivos que começaram a aparecer nas campanhas para liquidar o catálogo da Gradiva BD. O espaço físico que os álbuns ocupam em armazém são neste momento um encargo.

Apesar de não existir um comunicado oficial, consta que títulos de séries em curso como ALIX SENATOR, com altos e baixos nas histórias e custos de direitos de publicação considerados caros, e AS GRANDES BATALHAS NAVAIS, uma autêntica desilusão e vendas fracas, foram cancelados. Quanto ao TANGO, talvez por apresentar números de venda interessantes, encontra-se ainda em avaliação, mas acredito que seja difícil a sua continuação. A conclusão da adaptação de O Nome da Rosa para banda desenhada, editado em Fevereiro deste ano, ficará, em princípio, como o último título da Gradiva BD que já não terá qualquer stand no próximo Amadora BD. 

Não estou aqui a considerar as enésimas reedições dos livros de Calvin & Hobbes, que será talvez o título de maior interesse do actual catálogo da Guerra e Paz em termos de banda desenhada, mas ao qual a editora já nada tem a acrescentar senão mais do mesmo. 


domingo, 9 de agosto de 2026

As Brancas Montanhas da Paternidade…

 A Longa Marcha de Lucky Luke


Já alguém pensou que o Tintin faz um século daqui a três anos? Sim?! Não?! Por agora, não importa! O que importa mesmo é o facto que Lucky Luke faz 80 anos e continua bem vivo.


Criado em 1946 pelo belga Maurice De Bévère (mais conhecido por Morris), Lucky Luke é o personagem de maior sucesso da banda desenhada franco-belga, só ultrapassado por Tintin e Astérix. Mas é, sem dúvida, aquele com mais álbuns publicados. A série principal (que, na verdade, se divide em três) é composta por 83 livros e a esta podemos juntar a série “Lucky Luke visto por…” que acaba de ver publicado o seu oitavo livro pela editora A Seita.



A particularidade deste novo álbum é que forma uma espécie de trilogia escrita, desenhada e colorida por Matthieu Bonhomme. Ou seja, aos títulos O Homem que Matou Lucky Luke e Procura-se Lucky Luke junta-se agora A Longa Marcha de Lucky Luke. E embora cada um destes álbuns não tenha continuidade e possa ser lido de maneira independente, neles deparamo-nos com um Lucky Luke mais real e aventuras menos cómicas que, não esquecendo os cânones da série original, apresentam-nos um herói com maior profundidade psicológica.
  
A Longa Marcha de Lucky Luke é precisamente isso que faz. Isso e muito mais! 

 

Vamos à história!

 

O cavaleiro solitário avança penosamente pela paisagem nevada de uma floresta despida de folhagem no norte do Minnesota. O branco cobre toda a paisagem e a neve cai incessante, aumentando o frio que se adivinha pelas nuvens de vapor projectadas pela respiração de cavaleiro e cavalo.

 

 

Depois de uma longa viagem, o cowboy chega por fim a uma aldeola de montanha com uns quantos casebres, uma serração e um “armazém central”, local para onde se dirige. O cowboy solitário é Lucky Luke que quase esbarra com alguém com pressa de sair. Lá dentro, o ambiente é mais acolhedor, embora pesado. Caçadores de peles numa mesa, o taberneiro atrás de um balcão improvisado, mantimentos e utensílios a forrarem as paredes e uma pilha de peles de urso a um canto. Lucky Luke pede um chá muito quente que lhe é servido pelo taberneiro; um “Cramp tea”. Tem também à disposição um “Cramp coffee” ou um “Cramp whisky”. Ali, tudo tem a marca “Cramp”. Lucky Luke pergunta pelo paradeiro um certo Jeremiah Johnson e é informado que acaba de se cruzar com ele à entrada. Luke apressa-se a persegui-lo montado em Jolly Jumper e dá-se o confronto. Johnson dispara a sua carabina e erra. Já o nosso cowboy acerta em cheio no cano da arma do velho andrajoso que, mesmo assim, inicia uma fuga desesperada, travada com um pontapé no traseiro.


De volta ao estabelecimento, Johnson e Lucky Luke recompõem-se e este último explica ao caçador de peles que foi mandatado pelo Mister Ronald Cramp, o patrão da “Cramp Company”, para encontrar uma criança branca de dez anos que vive com a tribo dos Pés-Azuis, uma criança que é o seu sobrinho. Segundo Cramp, Johnson terá sido o último branco a ver o sobrinho entre os índios. Lucky Luke quer por isso convencê-lo a levá-lo até aos Pés-Azuis. Após uma breve negociação, Johnson aceita a missão e os dois partem pelos montes cobertos de neve e de milhares de árvores abatidas. Uma paisagem desoladora que, explica Johnson, é fruto da ambição desmedida de Cramp e a razão pela qual os Pés-Azuis estão em guerra contra o homem branco.


Tem assim início uma longa marcha…

 


Já não é surpresa! Com a regularidade próxima à de um relógio suíço, Matthieu Bonhomme tem-nos oferecido a sua visão de Lucky Luke de cinco em cinco anos. A última vez tinha sido por altura do 75.º aniversário do herói. Agora é o momento de assinalar o 80.º aniversário com uma nova aventura.


Com A Longa Marcha de Lucky Luke, Bonhomme apropria-se mais uma vez do personagem inventado por Morris em 1946 e torna-o seu. Mesmo assim, respeitando os códigos criados pelo autor original em conjunto com Goscinny. Ao mesmo tempo, confere-lhe mais realismo, mais violência e uma maior densidade psicológica. Entre a tradição e a inovação. Talvez por essa razão consiga agradar aos fãs do Lucky Luke clássico e àqueles que só agora tomam conhecimento da existência do cowboy que dispara mais rápido que a sua sombra.

 

Bonhomme não é só um desenhador de primeira água, é também um excelente argumentista. E isso é notório nesta história e no desenrolar da narrativa desenvolvida criteriosamente. Se o objectivo primário da aventura é resolver o salvamento de uma criança que vive há anos em território Lakota, no seio da tribo dos Pés-Azuis, rapidamente o leitor é confrontado com outras questões tão ou mais importantes que o dito “salvamento”. Um guia de pouco confiança que esconde um segredo; uma tensão crescente entre índios e brancos; a exploração brutal e descontrolada de recursos naturais com efeitos devastadores; tudo isto serve para conferir à viagem (marcha) de Lucky Luke uma muito maior dimensão.

 


Mas o mais interessante é o desenvolvimento psicológico do protagonista. Fazendo-o, Bonhomme consegue criar entre o leitor e o cowboy solitário um elo quase de camaradagem, um elo que ultrapassa em muito o prazer de ler uma boa aventura repleta de gags. A intriga assenta numa mudança progressiva de ponto de vista por parte do herói que acaba por ter de repensar a sua missão e assumir um papel de protector. O cowboy que conhecemos desde sempre como solitário e distante aproxima-se daquilo que nunca terá na sua vida: a paternidade. Nuvem Vermelha, a criança procurada, vai mexer com os seus valores e, ainda que por breves momentos, vai retirar o significado à frase final de todas as aventuras de Lucky Luke – “I’m a poor lonesome cowboy…”. Dos quase 100 álbuns que constituem a saga de Lucky Luke, este é, sem dúvida, o mais intimista e sentimental, sem nunca cair no mau gosto ou na vulgaridade. Para os admiradores de westerns, esta “Longa Marcha” remete-nos um pouco para Shane, o filme de George Stevens de 1953, protagonizado por Alan Ladd e baseado no romance homónimo de Jack Schaefer.

 


Desenganem-se, no entanto, aqueles que pensarem estarmos perante uma história melosa. A narrativa de Bonhomme não o permite, alternando sequências de pura acção com momentos mais reflexivos e outros mesmo introspectivos. E a tudo isto acrescenta ainda momentos de grande tensão e outros de humor refinado e eficaz. Para além disso e da intriga propriamente dita, são abordados temas tão contemporâneos agora como o eram já nas derradeiras décadas do século XIX: a exploração das terras e seus recursos, a ecologia e um capitalismo selvagem sem lei nem grei. No entanto, e felizmente, para o bem da narrativa, estas temáticas contemporâneas não surgem com pendor panfletário e estão perfeitamente integradas na história.


De igual modo, e de forma inteligente, certos personagens já conhecidos das aventuras de Lucky Luke estão também perfeitamente integrados na história. Desde logo, os irmãos (primos) Dalton que, não desempenhando um papel principal, têm uma participação equilibrada e pontuada pela ameaça real que representam e os disparates constantes que os caracterizam. E, desta feita, o seu papel está invertido pois não são eles os perseguidos por Lucky Luke, mas o cowboy que é perseguido pelos seus inimigos de sempre.


Decorrendo a trama entre o norte do Minnesota e o Canadá, Bonhomme brinda-nos ainda com a participação especial do cabo Pendergast, conhecido personagem do álbum Os Dalton no Canadá. Fazendo parte do corpo da famosa polícia montada canadense, Pendergast desempenha um papel central, ainda que breve, na resolução do conflito final da narrativa.


Com os Dalton e o cabo Pendergast a participarem em pleno na dinâmica da história, Bonhomme atrai também a atenção dos leitores clássicos de Lucky Luke.

 

 

Ao mesmo tempo, o autor cria uma galeria de personagens principais e secundários invejável, de tão ricos e bem caracterizados. Desde logo, os Pés-Azuis, baseados nos Sioux Lakotas do norte dos Estados Unidos, com destaque para Puma Negro e para Lança de Madeira. O primeiro é o guerreiro índio intempestivo e irascível, e o segundo é o sábio chefe da tribo. A estes dois junta-se aquele que é personagem principal de toda a trama, Nuvem Vermelha (a criança), e que acompanha Luke nesta aventura quase até à derradeira vinheta.


Jeremiah Johnson, o guia que leva o nosso cowboy até à tribo dos Pés-Azuis e que desempenha um papel fulcral numa das reviravoltas da narrativa é também um personagem denso e até ambíguo. Parecendo mover-se apenas por dinheiro, preocupa-se também com a desflorestação e as relações cada vez mais problemáticas com os Pés-Azuis. Curiosamente, Johnson foi um personagem real do Velho Oeste, um caçador e pisteiro muito mais brutal e sanguinário do que a versão que aparece no álbum ou mesmo no filme realizado por Sidney Pollack e protagonizado por Robert Redford em 1972 com o título Jeremiah Johnson e que em Portugal foi rebatizado como As Brancas Montanhas da Morte.


Por fim, há o vilão dos vilões, o magnata sem escrúpulos Ronald Cramp. A sua presença faz-se sentir ao longo de toda a história, mesmo quando está ausente – o que acontece na maior parte do tempo. E quando está presente, surge sempre em silhueta ou debaixo de uma forte sombra, reforçando o mistério e aumentando a inquietação no leitor. Parece que Bonhomme nos quer dizer que o mal não precisa de ter rosto. Personagem muito bem conseguido, é por demais óbvia a sua semelhança com um líder mundial da actualidade, até quando diz “O Canadá não é nada! Se for preciso, um dia compro-o! Ou anexo-o!

 

 

Em termos gráficos, Bonhomme está no seu zénite, tanto a nível do traço como da maturidade enquanto artista. A sua abordagem semi-realista ao universo de Lucky Luke afasta-o da arte original de Morris, embora mantendo-se fiel ao espírito da série. Reconhecemos de imediato Lucky Luke, mas agora sentimos que ele também existe na nossa dimensão. E esta aproximação ao realismo é evidente não só nos personagens como nas paisagens e nas acções. Por vezes, de forma quase imperceptível. Pois, afinal o papel do desenho é servir a narrativa e fazer-se diluir de tal modo que o leitor não tenha dele plena consciência e se deixe envolver pela dupla narração. Assim, a percepção da história sem olho clínico é muito mais emotiva e gratificante. Para além disso, há sempre a possibilidade de novas leituras. E este é um dos trunfos gráficos de Matthieu Bonhomme: a capacidade de nos gravar no cérebro mesmo as vinhetas aparentemente mais insignificantes.


Quanto aos seus personagens, extremamente expressivos, são criados com um cuidado ímpar. Voltemos então a eles. Puma Negro é um guerreiro de cabeça quente e para acentuar a sua agressividade Bonhomme salienta-lhe as maçãs do rosto, confere-lhe um olhar duro e revira-lhe os cantos da boca para baixo. Para evitar os clichés, não lhe atribui um nariz adunco e a sua silhueta é formada por uma cabeça pequena e pernas longas, tudo conferindo-lhe um aspecto poderoso de guerreiro. Lança de Madeira é um pouco o inverso. Aspecto de velho sábio, tem os traços mais doces e sem muitas rugas, o seu nariz é mais longo e carismático e o seu tocado assimétrico reforça a sua singularidade. Já Nuvem Vermelha tem atributos dos Lakota como os cabelos longos e as roupas, mas é logo identificado como branco através dos seus olhos e cabelos claros. Como criança, as suas rugas de expressão são diminuídas ao mínimo. Como curiosidade, Antílope, a mãe de Nuvem Vermelha, é baseada na conhecida actriz Eva Marie Saint, protagonista de Há Lodo no Cais de Elia Kazan ou Intriga Internacional de Hitchcock. Bonhomme atribuiu-lhe um nariz mais pontiagudo e olheiras carregadas para sugerir uma vivência difícil.

 


A Longa Marcha de Lucky Luke decorre, maioritariamente, ao longo das montanhas, paisagens cobertas de neve e tempestades fustigantes, um desafio para qualquer desenhador. Mas Bonhomme, no que à neve diz respeito, tem um truque: primeiro desenha a paisagem e só depois a cobre de neve, sempre utilizando o branco da prancha, tal como aprendeu com o conhecido autor Cosey.


Neste álbum, um dos grandes inimigos dos heróis é o frio, ainda mais difícil de representar do que a neve. Não basta desenhá-la para que o frio se torne imediatamente evidente. Mas Bonhomme também domina os ares gélidos, traduzindo-se isso nas atitudes e posturas dos personagens (cabeça encolhida nos ombros, o bafejar nas mãos) e no vapor emanado dos corpos ou que sai das bocas. Atentem na sequência que se segue que é apenas parte de duas pranchas nas quais o frio é de cortar à faca…

 

 

Estes cenários nevados, vastos, selvagens e imersivos criam uma atmosfera muito particular onde o silêncio impera. Um silêncio que contrasta com a rudeza e violência dos acontecimentos, conferindo aos personagens uma maior expressividade perante o “vazio”.


Mas o traço firme de Bonhomme presta-se a muito mais. Seja na composição de cenas, no cuidado com que desenha as indumentárias, na maneira como desenvolve graficamente as cenas de acção ou na apropriação de personagens como seus. Um bom exemplo desta apropriação é a ligeira rinoplastia a que sujeitou todos os irmãos Dalton. E esta aventura de Lucky Luke permitiu-lhe também desenhar os animais típicos da região: lobos, bisontes… Aliás, a cena de acção caótica com os bisontes que decorre ao longo de seis pranchas é simplesmente memorável…

 


Em suma, A Longa Marcha de Lucky Luke é um verdadeiro festival narrativo e visual. O cowboy de Morris é aqui o de Bonhomme, que o adapta respeitosamente ao mesmo tempo que consegue manter os cânones da série original. As raízes de Lucky Luke são preservadas, a visão do herói é renovada.

 

O argumento sólido parte da ideia única do salvamento de uma criança para logo derivar para uma leve mensagem ecológica e anti-capitalismo selvagem através de um personagem à la Trump que se permite a tudo, usando do seu imenso poder.


Mas a ideia principal, aquela que faz mover a história e o próprio herói, eterno celibatário, é o seu inesperado papel de pai para o qual não está minimamente preparado. Nesse sentido, A Longa Marcha não é só aquela que calcorreia montanhas geladas e enfrenta todos os perigos. É também a que nos faz reflectir acerca do que é ser um herói, acerca da solidão e das razões que levam Lucky Luke a estar sozinho e a partir para longe no final de todas as suas aventuras.


A tudo isto, Matthieu Bonhomme junta um fino humor (veja-se a cena em que o herói recusa fumar o cachimbo da paz pois é um ex-fumador), várias reviravoltas no argumento, muita acção e um desenho irrepreensível. Por fim, a edição portuguesa oferece-nos um muito interessante caderno de extas no qual encontramos estudos de personagens, esboços de pranchas e pranchas e pranchas semi-terminadas a tinta e um estudo de capas. Como já nos habitou A Seita nas “aventuras de Bonhomme”, o público português é ainda brindado com duas edições de capa diferente.

 

Caro leitor, seja um amante do género western ou de apenas histórias superlativas, A Longa Marcha de Lucky Luke é um livro que não pode perder!

 

Por Francisco Lyon de Castro