Brigada de Costumes
No
mundo da Nona Arte, é relativamente fácil reconhecer os desenhadores pelo seu
traço. Mesmo quando o seu estilo evolui, há algo da sua alma que permanece em
cada desenho, permitindo-nos identifica-los como sendo este ou aquele.
O mesmo
já não se pode dizer dos argumentistas. É difícil percebermos o cunho de um
escritor em histórias que podem variar do policial ao western, da comédia de
costumes à aventura histórica ou do romance à ficção científica. Em cada género
literário que um autor aborda, parece soltar a sua criatividade esquizofrénica,
tornando-se irreconhecível. E isso até é bom pois significa que o escritor tem
uma invejável capacidade de se reinventar, conseguindo assim chegar a mais
leitores.
Ora,
estando perante uma obra escrita por Zidrou, desejo o absoluto contrário;
desejo que ele mantenha o cunho que tão bem o caracteriza. Mantendo-o, sei que
a obra, em termos narrativos, será sempre superlativa. É dos poucos que se
reconhece pela escrita, pelos truques narrativos, pela inventividade da trama
ou a capacidade de trazer para o nosso século heróis do passado. No seu
palmarés contam-se mais de 100 histórias, todas diferentes e todas com a sua
marca distintiva.
De Verões Felizes ao díptico A Fera, de Lydie à série A Adopção,
dos novos casos de Ric Hochet à série
Shi (entre outros) tudo o que é
escrito por Zidrou é bom! E torna-se ainda melhor quando uma das suas parcerias
habituais é com Jordi Lafebre, também ele sobejamente conhecido no nosso País e
capaz de transformar em desenho os conceitos mais complexos de Zidrou.
Pois
bem! Para quem aprecia os dois autores, o momento não pode ser melhor. A Arte de Autor e A Seita juntam-se em mais uma coedição e lançam o díptico Brigada
de Costumes em um só volume. Como sempre, uma obra intensa,
inteligente, com uma narrativa que nos deixa agarrados literalmente até à
última página e um traço inconfundível.
Vamos à
história!
Uma
noite de Abril de 1944. As bombas dos ingleses caiem em Paris como uma chuvada
de meteoritos primaveris. O recolher obrigatório imposto pelos nazis já não é
suficiente e a população tem de se refugiar em abrigos improvisados pela
cidade. E é precisamente num deles que começa a nossa história, nas profundezas
de uma estação de metro. Apinhada de parisienses assustados, martirizados por
cada estrondo que lhes chega do exterior, a estação parece ser agora o seu
porto de abrigo.
Entre
eles está um oficial da Wehrmacht que tenta encetar conversa com um jovem casal
oferecendo-lhes um cigarro. O homem recusa e esclarece que não são um casal. Na
verdade, ele é inspector da Brigada de Costumes e ela é uma “experiente” profissional
a quem se algemou. Foi já há sete anos, em Novembro de 37, que Aimé Louzeau
teve o seu primeiro dia nos “Costumes”. Lembra-se como se fosse hoje…
Naquela
manhã chovia copiosamente. Aimé toma o pequeno-almoço preparado pela sua
querida mamã e servido pela fiel Clémentine, a criada interna que os acompanha
desde sempre. Depois, mete o seu chapéu de coco, despede-se da mãe e parte para
o número 36 do Quai des Orfévres onde ficará sob as ordens do inspector-chefe
Séverin. Ao sair de casa ainda se cruza com a porteira, a jovem senhora (perdão…
menina!) Wallez, cujo peito portentoso é um imã para o seu olhar.
Chegado
aos “Costumes”, rapidamente sente o ambiente onde vai trabalhar. Dois dos seus
novos colegas entretêm-se a espancar El Guapito, um proxeneta bem conhecido da
brigada que se divertira a talhar o mamilo de uma das suas “meninas”. Séverin
irrompe nas instalações com a sua inseparável bicicleta; cumprimenta Louzeau,
troca breves impressões fruto das circunstâncias e combina com o resto da
brigada o almoço de iniciação do novo elemento.
Na
manhã seguinte, Louzeau tenta conhecer os cantos à casa, mas é informado por um
colega que vai passar mais tempo de vigia do que sentado atrás da secretária.
Para além disso, deve familiarizar-se com o “pequeno dicionário ilustrado” da
Brigada, que vai de “Abuso” a “Zoofilia”. Precisamente, entre uma vigia e mais
uma almoçarada dos “Costumes”, Aimé Louzeau vai deparar-se com uma fotografia
que irá mudar a sua vida…
Ora,
aqui está uma obra que podia ter dado para o torto ou, simplesmente, ter tomado
o caminho mais fácil. Sendo o tema central o dia a dia de uma “brigada de
costumes”, o leitor poderia ter sido aliciado pelo correr de uma espécie de
“slides” acerca dos inúmeros vícios da sociedade parisiense no período de 1937
a 1944. De qualquer modo, se espera por um livro pejado de prostituição, droga,
violência doméstica e outros crimes que já foram ou ainda são, não ficará
desiludido. Mas se a obra se resumisse a isso, não estaríamos perante um
argumento digno de Zidrou.
Na
verdade, o foco da narrativa incide sobre os estados de alma do jovem inspector
Aimé Louzeau, confrontado com os desvarios sexuais perpetrados na Cidade Luz. O
tema é delicado e poderia ter sido tratado com facilitismo, algo que Zidrou
contorna habilmente. Em termos narrativos, as depravações parisienses passam
quase a um segundo plano, dando lugar à história nada vulgar de Aimé. E como é
de esperar do autor, somos apanhados de surpresa por uma narrativa
desconcertante e original – algo que me remete sempre para o filme de
Jean-Pierre Jeunet, O Fabuloso Destino de
Amélie. Evocando com tacto, embora sem concessões, as práticas mais
sórdidas, o argumentista belga alterna-as com variadas considerações humanas
que criam no leitor uma dualidade de sentimentos. Para isto contribui também a
ingenuidade de Aimé que não o predispõe propriamente para este tipo de
investigações policiais.
Mas o
que é realmente extraordinário nesta obra, é a maneira como Zidrou vai do macro
para o micro. Da Segunda Guerra Mundial passa para a Brigada de Costumes
parisiense e para a caracterização social da urbe de então, centrando-se depois
na vida privada e complexa do inspector Aimé. E neste ponto, o micro torna-se o
principal da história. Somos sempre surpreendidos por cada caso a ser
investigado, pelo tempo presente a correr na estação de metro, mas somos
sobretudo envolvidos pelo fabuloso destino de Aimé Louzeau. Os pequenos
episódios que rodeiam a vida do jovem inspector melancólico são absolutamente
deliciosos. Atravessando a guerra sem encontrar propriamente o seu lugar no
mundo, Aimé abandona os seus sonhos de infância e vai aventurar-se pelas suas
próprias contradições, sobretudo quando se deixa embrenhar pelo caminho de uma
paixão proibida. Ou de duas. Ou de três!

Como já
se disse, a Brigada de Costumes
aborda temas tão diferentes como difíceis de tratar. E vai ainda mais além
quando nos confronta com o peso da religião, a saúde mental, a manipulação das
perversões de cada um e até o papel da polícia durante a Ocupação nazi. Porém,
todos estes assuntos são tratados pela superfície, deixando ao leitor avisado o
papel de os aprofundar. Afinal, o tema central é o da humanidade.
O que
contribui para uma boa história, para além de um tema interessante, é uma
narrativa inteligente pontuada por diálogos de excelência. Estes, para o serem,
têm de ser verosímeis, dinâmicos e sagazes, sem tons pomposos ou paternalistas.
E isso, caros leitores, consegue-se com simplicidade e boas ideias, algo que
sobeja nas pequenas células cinzentas de Zidrou. Por exemplo, só ele para
chamar Mona Lisa a uma velha e desgastada prostituta, desenvolvendo a conversa
que se segue, pontuada por várias pérolas.

E se a Brigada de Costumes tem Zidrou no seu
melhor, o mesmo acontece com Jordi Lafebre. Antes de outros álbuns que lhe
conhecemos, já aqui demonstra uma maturidade artística capaz de expressar os
mais complexos estados de alma. E caso se estranhe a quase ausência de traços
de cinismo ou perversão nos rostos dos seus personagens, optando por uma doçura
nas divertidas fisionomias, não nos podemos esquecer que o tom impresso à
narrativa por Zidrou é esse mesmo, o de uma certa candura. No fundo, os autores
são perfeitos aliados no modo de gerar empatia para com o leitor, sendo este um
dos vários charmes do álbum.
O traço
semi-realista de Lafebre serve na perfeição os propósitos emocionais de Zidrou.
Cada expressão facial é inequívoca, cada ruga tem a sua função, cada esgar
comporta uma mensagem.
Mas não
basta a um artista desenhar bem. Ao serviço da arte tem de pôr também a
inteligência. E isso é evidente nos enquadramentos de Lafebre, na planificação
das pranchas e na paleta de cores utilizada. Quanto a estas, oscilam
maioritariamente entre as cenas dominadas pelo sépia e as envoltas nos
cinzentos. A grande excepção é a “cena da felicidade”, na qual as cores ganham
outra vida…
E
depois há a composição de cena aliada à reconstituição meticulosa da época e
dos seus ambientes. Só assim conseguimos sentir a envolvência dos cafés
parisienses no período despreocupado e algo frívolo de entre guerras; o bulício
no interior da esquadra ou a sofisticação dos bordéis. Para além disso, as
indumentárias, os acessórios, as ruas, os transportes, tudo nos remete
criteriosamente para Paris dos tempos idos.
Brigada de Costumes começa com um bombardeamento, um abrigo, uma noite de Abril de 1944,
uma taça de champanhe e as memórias que se reavivam e nos levam numa viagem de
sete anos pela vida do inspector Aimé Louzeau – entre a sua família, as suas
aventuras e a Brigada de Costumes ou, como era conhecida, La Mondaine.
História
algo desconcertante, na qual Zidrou aborda com mestria temas sensíveis, não
deixa de estar impregnada de uma ternura que faz, aqui e ali, acreditar na
espécie humana. Embora a realidade seja bem menos idílica nos “Costumes”. Por
vezes, o destino troca as voltas aos protagonistas e a candura dá o seu lugar à
tragédia, desconcertando o leitor.
A
galeria de personagens é invejável e meticulosamente construída. Sejam os
personagens principais como Aimé Louzeau, o inspector-chefe Séverin e os
colegas Duglu e Grapin “monocelha”, a mãe, a Clémentine (a velha criada
interna) e a porteira, a bem constituída menina Wallez ou os infindáveis
personagens secundários, todos eles têm algo a dizer-nos, algo a ficar gravado
na nossa memória.
Um
romance gráfico de contornos raros, Brigada
de Costumes aborda temas tão diversos como a loucura, o peso da religião, o
papel da polícia durante a Ocupação, a perversidade, a vida sexual secreta da
sociedade, tudo com uma grande subtileza. Mas afinal, depois de tudo, os casos
da Brigada não serão mais do que uma evocação ou um cenário para preparar o
leitor para o estado psicológico do personagem principal e a sua relação com o
mundo, sendo este o verdadeiro motor da intriga. Ao mesmo tempo, perante a
seriedade dos inúmeros acontecimentos, Zidrou polvilha a obra com o seu humor
inteligente, os seus diálogos realistas e desconcertantes reviravoltas numa
narrativa que não deixa o leitor indiferente.
Ao
longo dos sete anos em que decorre a história, acompanhamos a evolução de Aimé
e presenciamos a sua inocência a transformar-se em algo mais sórdido que é,
afinal, o que o torna um ser profundamente humano, fustigado pelas
circunstâncias.
Tudo
isto daria um extraordinário romance. Contudo, não nos podemos esquecer que
estamos perante um duo talentoso de autores e um deles, Lafebre, faz
acrescentar ao romance o termo “gráfico”. O seu traço semi-realista é, mais uma
vez, impecável e funciona como uma segunda pele do argumento, igualmente com a
capacidade de nos tocar irremediavelmente e de conferir ao conjunto da obra uma
incrível sensibilidade.
Para
finalizar, devo dizer-vos que, para o meu gosto literário, o final é daqueles
que me enche as medidas. Seja o final expresso na última cena, seja aquele que
nos surge na derradeira página com um longo recitativo que não permite que
fiquemos sem saber o desfecho de cada personagem.
E
quanto ao nosso jovem inspector, é-lhe reservada a frase final que, com a cena
anterior, permite a cada um de vós, caros leitores, decidirem do fabuloso
destino de Aimé Louzeau.
Por Francisco Lyon.