Smoke & Mirrors
Quando
um género literário ou cinematográfico se torna muito popular e tem grande
divulgação, torna-se difícil criar algo de novo. E os clichés no género,
alcançados em poucos anos, são aquilo que o podem tornar desinteressante ou
conseguirem renegá-lo para segundo plano.
Foi
precisamente isso que aconteceu com a ficção científica, com o western, a
fantasia e uns tantos outros géneros. Mas, claro está, de tempos a tempos lá
surge um fenómeno ressuscitador. Talvez o caso mais evidente disso mesmo seja o
que aconteceu com a trilogia de O Senhor
dos Anéis levada ao cinema por Peter Jackson. A bem da verdade, os livros
de Tolkien nunca deixaram de ser um best-seller, mas também nunca venderam
tanto como na época de Peter Jackson. Contudo, o mais interessante foi a
proliferação de obras de Fantasia ou Alta Fantasia que daí advieram, sendo a
mais evidente A Guerra dos Tronos.
Quanto
ao policial noir – o género que interessa para a presente análise –, tem
conhecido várias adaptações ao meio da Banda Desenhada, sobretudo nos comics americanos, numa ou noutra
incursão pela BD franco-belga (como é o caso de Noir Burlesco, de Marini) e naquela que é a sua série de maior
sucesso, Blacksad. Mas tirando a questão do antropomorfismo desta última,
nenhuma tem sido particularmente inovadora.
Ora,
não é esse o caso de Smoke & Mirrors, a obra de
estreia de Verónica Louro na Banda Desenhada e que acaba de ser publicada em
coedição pela Arte de Autor e A Seita.
Smoke & Mirrors é uma obra inovadora ao nível do género literário – sem abandonar
alguns dos seus cânones – e da arte, como poderão ver mais adiante.
Vamos à
história!
Naquela
noite, o ambiente era sinistro e não deixava antever nada de bom. Debaixo de
uma chuva copiosa, dois carros da polícia bloqueavam a entrada da catedral. As
luzes das milhentas janelas dos arranha-céus quebravam a escuridão, como uma
multidão de olhos cintilantes que observam anonimamente a desgraça.
Lá
dentro, iluminada pela luz difusa dos vitrais, uma cena de terror balizada por
barreiras policiais. Um homem e uma mulher, vestidos a preceito, parecem
executar um complexo passo de dança. Na verdade, estão mortos, meticulosamente
suspensos por fios, num bailado macabro. Esta encenação não é desconhecida da
polícia, já que é a imagem de marca do mais tenebroso assassino em série dos
últimos tempos – o Puppeteer – que manipula as suas vítimas tal como um mestre
bonecreiro manipula as suas marionetas.

Frank
Mallory observa a cena de semblante carregado e cigarro ao canto da boca. Em
tempos foi polícia, em tempos… Agora só tem acesso ao local do crime pela
amizade que mantém com Crane, o antigo colega. Foi precisamente o caso do
Puppeteer que o fez perder o distintivo. Mas não consegue afastar-se, mesmo
sendo agora um detective privado. O amigo aconselha-o a esquecer o assassino em
série e a arranjar outros casos. Mas Frank é teimoso e não gosta de ser
assombrado por fantasmas do passado.
De
volta ao escritório, Frank senta-se pensativo, envolto na penumbra suavizada
pela luz que entra pelas frestas das persianas. Poucos minutos depois, ela
entra. Primeiro adivinha-lhe a silhueta recortada no contraluz. Depois
percebe-a em toda a sua beleza enigmática. Ela é Evelyn Hart e o seu marido
Victor está desaparecido. Frank serve-se de um bourbon e, renitente, aceita o
caso. Sempre poderá esquecer o sacana do Puppeteer e ganhar algum dinheiro.
Isto é, se não arranjar outros problemas…!
Como já
se disse, Verónica Louro estreia-se na BD com o álbum Smoke & Mirrors, mas não é propriamente uma estreante em termos
artísticos. Tendo vários trabalhos na área da escrita, escultura, fotografia e
edição de vídeo, trabalha há alguns anos para a Topps com as licenças Star
Wars, Marvel e Disney e para a UpperDeck com a DC.
Para
além disso, é a filha mais velha de Luís Louro, o conhecido e premiado autor
português de BD. Não que isso seja relevante. O facto do seu pai ser talentoso
não significa que a filha o seja (por mérito próprio, até é!). Mas é definidor
do ambiente em que cresceu. De resto, o estilo de Verónica, tanto como
argumentista como artista gráfico, afasta-se por completo do de Luís Louro.
E é
esta a primeira saudação que faço à jovem autora. Não bebendo do estilo do seu
pai, sem dúvida que abraçou o seu espírito de autor completo, pois a Verónica
estreia-se como argumentista, desenhadora, colorista e até, imagine-se,
tradutora de si própria. É que a Verónica escreveu originalmente esta obra em
inglês (pronta a ser publicada, por exemplo, por uma Image) e retroverteu-a para português.
A trama
parece simples. Frank Mallory, um detective privado, já viu dias melhores.
Afastado da polícia por não conseguir resolver o caso do Puppeteer, um
assassino em série, Frank vive atormentado pelo seu fracasso. Até que Evelyn
Hart entra na sua vida e contrata-o para resolver o caso do seu marido
desaparecido. Para Frank, tudo parece simples; talvez simples demais. Victor, o
marido de Evelyn, deve ter fugido para os braços de outra mulher. Mas neste
mundo, onde ninguém diz a verdade e se entretém a lançar cortinas de fumo sobre
o olhar do detective, aquilo que é simples não passa de “smoke and mirrors”.
Pois,
se a trama fosse apenas esta, estaríamos perante mais um policial noir típico,
eventualmente de leitura agradável, mas sem trazer nada de significativamente
novo ao leitor mais exigente. Contudo, Verónica Louro parece ter a noção que,
para vingar desde o início, tem de inovar. E é precisamente isso que faz.
Mantendo
as premissas típicas daquilo que constitui um policial noir, Verónica
acrescenta um toque invulgar à sua obra de estreia. Está lá o detective privado,
durão, cínico e realista, que nos obsequeia com as suas reflexões em voz-off.
Também está lá a bela cliente, toda ela transpirando a envolvência predatória
da femme fatale. Os protagonistas são
moralmente ambíguos e, por vezes, de virtudes questionáveis. Os personagens
secundários têm pouca profundidade psicológica e funcionam exclusivamente como
suportes dos protagonistas, não existindo para lá deles. E a ambiência é a típica
dos mais famosos filmes noir realizados nos anos de 1940 e 1950.
Verónica
Louro, mantendo assim as características principais deste subgénero, inova
através da narrativa, complexificando-a ao nível da trama policial. Assim, ao
mesmo tempo que o leitor acompanha o caso do marido desaparecido – sendo este o
motor principal da história –, vai também tendo acesso ao caso maior – o do
Puppeteer – que moldou o passado de Frank e que se mantém definidor do seu
presente. Esta dupla narrativa, que torna a história bem mais complexa, é, no
entanto, feita de um modo inteligentemente suave, dando ao leitor o bónus de
poder acompanhar dois policiais em um só. Para além disso, a Verónica introduz
no noir o elemento sempre interessante do “serial killer”, que desconheço
existir em outros livros do género.
Os
diálogos estão muito bem conseguidos. Frases curtas e pungentes tornam-os
credíveis e de leitura aliciante. Invariavelmente, são entremeados pela voz-off
de Frank Mallory, aumentando a profundidade do personagem. À medida que a
história avança e que criamos a expectativa da envolvência dos protagonistas, a
reviravolta da trama surge como o gume inesperado de uma faca nas costas do
leitor. Depois, uma reviravolta ainda maior. E, afinal, é isso que se quer!

Também
em relação ao estilo gráfico, Verónica Louro é inovadora no panorama da BD
portuguesa. O seu traço parece formar-se com impaciência, eliminando tudo
aquilo que considera acessório à narrativa. Deste modo, a essência da narração
é o objectivo, evitando-se os detalhes que poderiam criar um desnecessário
ruído de fundo. Devo dizer-vos que não tenho nada contra detalhes. Aliás, sou
grande admirador de uma composição detalhada. Mas devo reconhecer que o traço
da Verónica me encantou, tanto pela sua versatilidade como pelo seu
despojamento aparente. E é apenas aparente, pois a sua capacidade de compor uma
cena e de a sintetizar com o seu traço dinâmico é o que lhe dá a originalidade.
Smoke & Mirrors é uma obra a preto e branco, enriquecida com a utilização muito
ponderada dos cinzentos. E, a este nível, a autora também é convincente no uso
de uma iluminação sofisticada que lembra bem os filmes noir e que torna cada
cena verosímil. No fundo, o sentido perfeito da iluminação complementa o
dinamismo do traço e faz-nos adivinhar os movimentos da câmara. Por vezes, o
leitor consegue mesmo ver os fumos suspensos no ar a deslocarem-se lentamente
em ambientes saturados.
Verónica
Louro não nos poupa na variedade de cenários. Becos e vielas escuras; o
escritório de segunda categoria do detective; a casa de Frank; a casa de
Evelyn; os ambientes luxuosos do casino e do Blue Lantern, o clube de jazz.
Tudo sem grandes pormenores, mas com a capacidade da autora de criar atmosferas
envolventes – das ruas sórdidas à vida nocturna vibrante.
Pormenor
interessante e original: na cena de revelação em flashback que decorre ao longo
de seis pranchas, estas são bordejadas à esquerda pelas ranhuras típicas de uma
película cinematográfica, dando a ideia do correr do filme, ainda acentuado
pelos habituais riscos presentes em películas muito visionadas.
Verónica
Louro estreia-se assim em grande na BD com Smoke
& Mirrors, um policial noir em dose dupla no qual os cânones do
subgénero literário são respeitados, mas aos quais a autora acrescenta vários
toques criativos e de originalidade quer ao nível narrativo, quer ao nível
gráfico.
A
voz-off do protagonista Frank Mallory é convincente e confere densidade
psicológica ao personagem. Os diálogos são concisos e pungentes, conferindo à
narrativa uma dinâmica rápida. E a trama está construída de modo a que o leitor
seja “enganado” até ao fim. Ou melhor, até ao suposto fim, pois há que não
esquecer o epílogo. Um epílogo que permite ao leitor sonhar com uma continuação
que nos é proporcionada pelo Puppeteer…
Aliás,
permita-me, cara Verónica Louro, lançar-lhe o mesmo repto que lancei a Jordi
Lafebre quando publicou e Portugal a obra Sou
o Seu Silêncio. Pedi-lhe que não deixasse morrer Eva Rojas. E não é que deu
certo!? A si, peço-lhe que não deixe morrer Frank Mallory.
Um
derradeiro pormenor. Verónica Louro incluiu no álbum um QR code através do qual
o leitor pode acompanhar a leitura de Smoke
& Mirrors com uma banda sonora inspiradora.
Por Francisco Lyon.