Acerca do passado fim-de-semana. A fotografia aqui ao lado é propositada. Em Beja, a banda desenhada é, oficialmente, o motivo da visita. Mas existe todo um programa não-oficial do Beja BD, feito de tertúlias espontâneas e encontros à mesa que se prolongam mais do que o planeado. De tal forma, que logo na sexta, ao jantar o díptico boa-mesa e boa-conversa levou a que perdesse a abertura do festival. Desculpa, Paulo! É esse lado que cativa em Beja e que o distingue dos demais festivais portugueses. Há um sentimento genuíno de informalidade que em outros festivais porventura não se encontra ou não conseguem ter. Noutra refeição tive o prazer de me sentar ao lado de uma simpática malta de Torres Vedras: os editores do fanzine Impulso, um dos mais antigos em publicação em Portugal. Celebrou 50 anos em 2023. Na verdade, de fanzine pouco tem, porque cada revista é um autêntico manancial de banda desenhada e de informação sobre banda desenhada. Se quiserem conhecer mais cliquem aqui.
É isto Beja, ir é como experimentar novos sabores.
Esta 21ª edição do Beja BD apresentava, aparentemente, o cartaz menos apelativo dos últimos anos. Nomes como Thomas Ott, Benjamin Bachelier, Philippe Girard ou Lucas Iohanathan acredito que pouco digam a uma grande maioria dos leitores, e isso acabou por se reflectir também na afluência. Mas como em tudo, só perde quem não vai.
E quem ficou em casa perdeu Thomas Ott. E isso foi uma perda genuína. O autor de O Número 73304-23-4153-6-96-8 e, mais recentemente, de A Floresta, foi a grande figura desta edição. Um artista de talento singular, que desafia a arte com um x-ato num cartão preto. O que sai dali tem uma precisão de um relojoeiro e o resultado é só magnífico. Pensar que os livros dele são feitos assim é qualquer coisa de extraordinário. Não admira que a oferta portuguesa disponível no mercado do livro, e que se encontrava complementada com edições espanholas, tenha rapidamente esgotado.


Gostei de conhecer Diniz Conefrey, um autor de uma grande sensibilidade. Tive o prazer de apresentar uma conversa com ele, e de assinar o texto para a revista Splaft! Trouxe o seu último livro, A Estância do Sino Coberto, ao qual foi dedicada uma bela exposição.
E por falar em exposições, os originais expostos de Benjamin Bachelier eram magníficos, os pequenos quadros de Ott extraordinários, e o trabalho de Beatriz Brajal, vencedora do prémio Geraldes Lino, muito interessante. Também aqui falhou a editora portuguesa no envio de livros da autora para venda. Faltou conhecer as meninas do colectivo espanhol Aventureras Gráficas, que infelizmente cancelaram a sua vinda.
Nos concertos desenhados, uma imagem de marca do Beja BD, o cartaz deste contou com um nível artístico elevado. Para além do Ott, participaram os autores Nuno Saraiva e o Vasco Colombo, este último, que também não tinha lá livros, a ilustrar o som dos Club Makumba, o projecto artístico de Tó Tripps. Foi assim a edição deste ano.
Feita de pequenos mas saborosos apontamentos.
Agora há uma questão que fica no ar depois desta edição, e que não é fácil de ignorar.
O festival encontra-se agora numa posição ingrata no calendário. De um lado, o Maia BD veio dar às gentes do Norte o seu próprio evento, e do outro lado a Feira do Livro de Lisboa, que a cada ano apresenta mais banda desenhada no seu programa. Para quem está ali no meio, em pleno Alentejo profundo, o cenário não se mostra propriamente favorável. Senti esse esvaziamento. Não de forma dramática, mas sente-se. Percebe-se que não haverá muito mais espaço para crescer. A geografia não ajuda e o calendário conspira. O novo museu de banda desenhada pode trazer uma nova dinâmica, um novo argumento, uma razão adicional válida para a visita. Não sei se há a pressão dos números, a ansiedade de crescer, mas confesso o meu egoísmo. Beja é um pequeno grande festival. Erguido com paixão, ano após ano. Espero genuinamente que nunca perca a sua essência. Que se mantenha assim, como um pequeno grande, feito de encontros e descobertas. Aquele lugar onde sempre voltamos todos os anos para um fim-de-semana com amigos e para comer, beber e respirar banda desenhada.
PS A primeira imagem foi de um saboroso arroz de cabidela no restaurante Tem Avondo.