O Deus
Selvagem
Característica
indelével da humanidade, a violência marca o percurso da História desde aqueles
tempos longínquos em que a escrita surgiu na Suméria. E mesmo antes, como nos
mostram vários artefactos arqueológicos.
Em
estado de paz, até podemos pensar quais os mecanismos mentais que levam o homem
a cobiçar o território do outro, a querer roubar-lhe recursos, a desejar tirar
vidas e a fazer da arte da guerra o seu permanente objectivo temporal. Em
estado de guerra, atacantes e defensores pouco equacionam os motivos, pois a
urgência está na sobrevivência e no vencer o conflito.
O certo
é que, a pretexto de mil pretextos, como é bem visível na actualidade que nos
cerca, as guerras levam ao escalar de uma violência que só é minimamente
digerível enquanto nos encontramos a uma boa distância dela. Uma violência que ensombra
a humanidade e nos inibe de evoluirmos, como um todo… para um destino melhor.
Pois é
sobre essa violência, no limite da sanidade mental e muito para além dela, que
o leitor vai poder ler num dos mais recentes lançamentos editoriais da Ala dos
Livros. O Deus Selvagem, de Fabien
Vehlmann (argumento) e Roger (desenho) é uma magnífica e triste fábula de
tempos imemoriais ou, talvez, de tempos futuros. O certo é que não pode deixar
de a ler…
Vamos à
história!
Os
tempos são difíceis para os símios do clã dos Que-Se-Mantêm-de-Pé.
Exércitos de
formigas-ceifeiras vermelhas devoraram tudo à sua passagem. Aquela terra,
outrora fértil, já não tem caça nem frutos.
É preciso partir para novas
paragens. Pelo menos, é isso que pensa a líder do clã, a Nova-Mãe, seguida de
perto pelo órfão que adoptou, o Sem-Voz.
Sem-Voz
é forte e rápido e anseia provar ao clã o seu valor. E o momento parece ter
chegado pois, durante o êxodo, avistam um velho e gigantesco crocodilo ferido
durante uma luta e que procura, desesperado, um local com água. Se forem
pacientes, aquela é uma presa fácil, uma boa fonte de alimentação. Basta
seguirem-no até que o velho crocodilo sucumba aos ferimentos.
Mas a
intentona leva perseguido e os seus perseguidores até ao limite das terras onde
é proibido ir, as Terras do Fim-do-Mundo, as terras do antigo medo, de onde
apenas lhes chegam por vezes lamentos monstruosos e distantes. Os
Que-Se-Mantêm-de-Pé hesitam; o crocodilo prossegue, na sua busca por água.
Quebra-Cabeças lança um grito às Terras Proibidas e o clã imita-o num clamor
que indica que aquele será o caminho a tomar.
No dia
seguinte, a coberto do capim, as sentinelas do clã observam o crocodilo
moribundo imóvel, talvez já morto. Os insectos rodeiam a sua carcaça
malcheirosa. É preciso agir. Todos os mais jovens avançam imprudentes. Todos
menos Sem-Voz. Quem tocar primeiro no monstro ascenderá no clã. Quebra-Cabeças
e Costas-Vermelhas tomam a dianteira e este último consegue tocar no crocodilo.
O ataque do réptil gigantesco é fulminante. Costas-Vermelhas é devorado de uma
assentada. Quebra-Cabeças é varrido pela cauda do animal, embatendo
violentamente contra uma rocha. O crocodilo avança rapidamente sobre ele. É o
momento pelo qual Sem-Voz aguardava. Saltando sobre ele, espeta-lhe um graveto
afiado no olho.

O
crocodilo jaz morto na terra seca. O clã exulta de alegria. Todos se reúnem
para o festim. Quebra-Cabeças oferece a Sem-Voz o melhor pedaço de carne. Mas
uma força invisível ataca-os de surpresa, sem piedade. Sem-Voz observa tudo,
impotente. A Nova-Mãe é atingida, a chacina é geral. E aquela força invisível
acaba por chegar a Sem-Voz. Mal sabe ele que aquele dia é o que o transformará
numa lenda que ecoará o seu novo nome pelos tempos vindouros: o Deus Selvagem…
Fabien
Vehlmann é um bem-sucedido argumentista francês, talvez mais conhecido pela
série Seuls (em conjunto com o
desenhador Bruno Gazzotti), da qual foram já publicados 16 volumes. Com O Deus Selvagem não faz mais do que
provar ao leitor a sua genialidade narrativa. E é mesmo isso que queremos, um
autor que se reinventa a cada obra e que nos consegue deslumbrar com a sua
originalidade.
A obra
começa logo por ter uma localização temporal incerta, o que adensa o mistério
da trama. Tanto pode decorrer há milhares de anos como passar-se num futuro
apocalíptico longínquo. Dividida em quatro capítulos e um violento epílogo,
cada um deles tem a particularidade de se centrar num personagem diferente da
intriga e colocá-lo como narrador. Temos assim quatro diferentes vozes e
sensibilidades a contarem-nos em sequência a história de Sem-Voz e do povo de
humanos que o capturou.
Até se
pode classificar a história dentro do género fantasia-heróica, sabendo de
antemão que elfos, anões, magia ou dragões primam pela total ausência. Mas os
autores criam um mundo de raiz num universo imaginário, no qual o protagonista,
parecendo ter o dom da ubiquidade, deixa sentir a sua omnipresença no relato de
cada um dos narradores. Prosseguindo a sua silenciosa demanda por vingança, o
pobre Sem-Voz, que é o mesmo que dizer o temido Deus Selvagem, vai-nos sendo
apresentado através de uma narrativa coral que rapidamente se afasta dos
estereótipos do género da fantasia e surpreende o leitor. Como se disse, quatro
capítulos, quatro narradores, prosseguindo cada um destinos que se cruzam, que
colidem e que se despedaçam, numa trama bem arquitectada por Fabien Vehlmann.

Para
tornar mais complexa (e “deliciosa”) a trama, para além dos quatro narradores,
Vehlmann faz correr a narrativa em dois tempos. Aquele que é percepcionado por
Sem-Voz, capturado por uma caravana de humanos exilados, e a viver num inferno
enlouquecedor. Educado e treinado a golpes de chicote e de pau, o quotidiano de
Sem-Voz é pautado pelo sofrimento, pelo temor e pela desesperança infinita. É
um tempo lento, sem perspectiva de futuro apaziguador. O seu sonho é a liberdade
e o seu alimento é a raiva… que não cessa de crescer.
Em
simultâneo, corre o tempo dos humanos, nomeadamente o da Casa Matsia,
recentemente exilada pela Casa Imperial. Mas este mundo está à beira do
precipício, atingido por uma manifestação apocalíptica da Natureza que vai
abalar todas as regras e destruir a ordem social. Uma civilização em agonia que
corre em tempo acelerado na sobrevivência quotidiana.
Independentemente
do narrador ou de como correm os dias, o motor da trama é a violência, sendo
mesmo o elemento central da história. A violência entre animais, entre homens
ou destes contra as “feras” ou ainda a violência da natureza. É a violência que
governa a interacção entre os personagens e que impulsiona o tempo. É a
violência das batalhas, a violência das lutas, a violência de um tsunami de
proporções bíblicas, a violência na arena. Mas é também a violência no seu
expoente máximo quando se alia à crueldade.

Apesar
disso, Vehlmann não entrega por completo o reinado da sua história à violência.
É o momento que o autor encontra para melhor manipular a leitura e o leitor.
Cada um dos quatro narradores vai-se questionando sobre o destino, sobre o
infortúnio, a sobrevivência, a maldade, a violência e até sobre o Deus
Selvagem. Para o fazerem, Vehlmann utiliza em cada capítulo uma voz-off
distinta que leva o leitor a mudar de ponto de vista em função do que cada
narrador lhe vai contando. Tomamos como nossas as razões de cada narrador e,
pelo menos no breve correr de cada capítulo, somos o personagem e
identificamo-nos com as suas tomadas de decisão. Mesmo que não reconheçamos em
nós a capacidade de produzir determinados actos, é inevitável sentirmos empatia
pelos narradores e pelas suas emoções, e penar pelos seus destinos.
Para
além disso, os recitativos hipnotizantes parecem lançar-nos o estranho
sortilégio do conhecimento. Pois, afinal é através deles que nos é permitido
percebermos as motivações de cada protagonista e a sua densidade psicológica. É
através deles que o autor consegue torná-los mais reais e fazê-los viver no
nosso imaginário muito tempo depois de a leitura terminar.
O Deus Selvagem
é uma obra que poderia valer apenas pela força da história e da narração. Mas
para a sua magistralidade há que juntar-lhe o talento de Roger na arte.
Num
estilo realista e detalhado, com um traço e composição de página dinâmicos, o
desenhador espanhol não mitiga em nada a violência e a crueldade dos
acontecimentos. O seu desenho é perfeito para o ritmo nervoso da narrativa e
realça a urgência e tensão que compõem o manto que cobre toda esta história de
uma natureza hostil.
E a sua
capacidade de encenação minuciosa, alternando cenas de acção com outras mais
introspectivas, faz-nos mergulhar naquela sensação de fim dos tempos, quando
esperamos que tudo seja resolvido no derradeiro minuto de vida.
Saibam
que o artista é também mestre na representação das expressões faciais. Não há
nos rostos que desenha qualquer ambiguidade, excepto quando é isso que quer
representar. As expressões faciais dos seus personagens não nos enganam;
sabemos quando estão felizes, tristes, irados ou aterrorizados. Mais ainda,
conseguimos distinguir as classes sociais através do que nos transmitem os seus
rostos: os nobres e a corte imperial mais inexpressivos; os altos funcionários
num misto de superioridade e encantamento; e o povo, entre rostos sofridos e de
exaltação de felicidade, ainda que momentânea.
Mais
ainda, Roger é capaz de criar cenas de grande composição, algumas delas dignas
de passarem a óleo e figurarem num grande museu, como é o caso da que se segue
e que, de algum modo, me lembra o quadro de Géricault, A Jangada da Medusa.
Outras,
absolutamente adequadas à narrativa, e de grande força cinematográfica, como a
que se segue, na qual se pode ver o exército de escravos que puxam as
embarcações pelo rio, enterrados na água até ao peito, debaixo de uma chuva
copiosa, todos eles exibindo expressões de desalento e conformação.
O Deus Selvagem
de Vehlmann e Roger é uma obra sombria e cruel que nos fala de sobrevivência e
resiliência. Uma fábula na qual a violência dos homens e dos animais é eco da
violência do mundo no qual habitam.
O
leitor é levado numa viagem tão desestabilizadora quanto tocante, tão bela
quanto violenta, através de uma narração original e poderosa que nos é trazida
por quatro vozes como que nos apresentando os quatro evangelhos para o fim dos
tempos.
Como
nos tem vindo a habituar, a Ala dos Livros oferece-nos uma edição muito cuidada
à qual acrescenta um muito interessante “caderno gráfico” de 15 páginas no qual
podemos apreciar esboços, pranchas a lápis, estudos de personagens e estudos
para a capa.
Único
reparo a fazer: a opção da editora em publicar a edição a preto e branco. Bem
sei que assim se pode apreciar melhor (será?) o traço de Roger, mas não nos
podemos esquecer que é ele próprio o colorista e que as cores da versão
original são muito impactantes e criam, elas também, a atmosfera adequada aos
acontecimentos, sejam eles luminosos ou sombrios. Para além disso, sem cor há
pormenores que escapam ao leitor e que têm relevância narrativa, como é o facto
de Sem-Voz ser um macaco albino.
Reparo
aparte, O Deus Selvagem é uma obra
eloquente que marca o leitor e que não o deixa indiferente. Mas é também uma
obra que tem uma dimensão muito actual.
Por Francisco Lyon de Castro.