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sábado, 19 de setembro de 2026
quinta-feira, 17 de setembro de 2026
Está nas bancas um Astérix na Lusitânia cheio de extras
O “histórico” Asterix na Lusitânia chegou de novo às bancas, mas desta vez chega com extra que justifica aqui uma nota. Já sabemos que a editora SALVAT está de novo, e pela terceira(!) vez, a (re)lançar a sua Colecção Integral Astérix, e até aqui não há nada de novo. Mas este álbum em concreto, o terceiro volume (n.º 48 na lombada) desta série, é justamente o da aventura dos nossos irredutíveis gauleses por terras lusitanas.
Porque a Salvat não se ficou por reimprimir o álbum tal e qual. Este traz mais qualquer coisa. Acrescenta à história um belíssimo dossier de extras intitulado “Os Segredos da Criação”.
São cerca de 24 páginas que mostram os bastidores, começando pelas viagens realizadas pelos nossos heróis onde se aborda a questão da globalização muito presente nestas aventuras, passa pelo registo fotográfico da passagem de Fabcaro por Portugal para a recolha de elementos e pequenos detalhes sobre a Lusitânia até aos primeiros esboços da Olisipo portuária. Não esquece de dissecar as "portugalidades" que entram no álbum, e explora mais outros detalhes.
Não sei se estes extras são os presentes na edição especial francesa, mas seja como for este álbum é sem dúvida um óptimo complemento à história e vale os simpáticos € 10,99 do preço de capa. Encontra-se nas bancas.
quarta-feira, 16 de setembro de 2026
O penúltimo «Monster»
A editora DEVIR prepara uma entrada nos últimos meses deste ano com uma oferta vasta e destinada aos mais variados gostos. O manga obviamente que domina, mas o mercado americano também vai marcar uma forte presença nos escaparates das livrarias. E até o franco-belga faz uma perninha com uma obra de David Combet, que esperemos que não seja editada naquele malfadado formato “angouleme”.
Mas trago aqui hoje é um novo volume de MONSTER, de Naoki Urasawa, uma bela saga que se aproxima já do seu desfecho. A partir de amanhã temos disponível o volume 8, o penúltimo da colecção. Já aqui tinha escrito que este é dos poucos mangas que sigo e mais ainda que o agora que o quadro começa a compor-se. O volume final chega ainda este ano, em Novembro.
terça-feira, 15 de setembro de 2026
Está ai o terceiro volume de SHI!
Outra bela novidade que encontramos este mês nas livrarias nacionais, é este terceiro volume da colecção SHI da editora ALA DOS LIVROS. A fantástica saga de fantasia e vingança assinada pela magnifica dupla de autores Zidrou/Homs tem aqui, não um, mas dois desenvolvimentos, uma vez que cada volume da edição portuguesa agrega dois tomos.
Desta vez, Zidrou mergulha as suas heroínas, sedentas por vingança e justiça social, no coração de um evento histórico que ressoa com particular força nos dias de hoje: "O Grande Fedor", uma catástrofe climática que desencadeou uma verdadeira revolução na saúde pública de Inglaterra. Um ambiente crepuscular onde a arte evocativa de Homs mais uma vez opera maravilhas.
Sou suspeito para falar desta belíssima colecção porque gosto de tudo aqui: dos autores, da história, da edição. E recordo que o desenhador Josep Homs é um dos convidados do próximo Amadora BD com direito a exposição.
Londres, 1858. Enquanto Jay aguarda o seu julgamento na prisão, após os trágicos eventos de Trafalgar Square, e tanto Kita como Sensei, com os seus demónios, lutam para recuperar dos seus ferimentos, uma nova calamidade assola a Inglaterra e a capital do Império Vitoriano. Uma onda de calor intensa seca o Tamisa, poluindo Londres e ameaçando reacender uma epidemia de cólera. Mas isso não impede as fundadoras das "Mães Furiosas" de planearem novos ataques, de lutarem pelo fim do trabalho infantil e de procurarem a filha de Jay. Só falta a encarnação do quarto demónio para finalmente se vingarem do Império, porque, como diz a cantiga infantil: "4 é o seu número, o seu número maligno"...
domingo, 13 de setembro de 2026
Deus e a Bala
Wild West, volume 5
Para todos aqueles que gostam de westerns, actualmente há duas séries de banda desenhada incontornáveis: Undertaker e Wild West.
Para todos aqueles que gostam de uma BD com uma boa história e bem desenhada, actualmente há duas séries a ter em consideração: Wild West e Undertaker.
A maior diferença entre as duas, para além da arte, é o facto de Wild West ter uma abordagem mais clássica ao género, mas nem por isso ultrapassada.
Curiosamente, as duas séries são publicadas em Portugal pela Ala dos Livros e estão a par com as edições francesas.
Mas o que nos interessa agora é Redenção, o quinto volume de Wild West que abre um novo díptico e nos traz mais um personagem lendário do Velho Oeste, como veremos mais adiante. Aliás, esta é uma das “imagens de marca” da série: a história da conquista do Oeste Selvagem através da história das suas figuras lendárias, desconstruindo esse estatuto de lendas, tal como nos habituaram Thierry Gloris (argumento) e Jacques Lamontagne (desenho).
Antes de mais…
Vamos à história!
A locomotiva avança a todo o vapor pela região montanhosa da Califórnia. Subitamente, a linha está bloqueada por troncos de árvores. Para que não haja dúvidas, o bando de foras-da-lei dispara várias vezes para o ar anunciando o assalto. Entre os assaltantes, uma mulher parece liderar o ataque. Dentro da carruagem de passageiros, ela abate o único que lhe resiste. Na carruagem forte, assassinam todos os ocupantes e levam o conteúdo do cofre. Depois de dividirem o resultado do saque, combinam encontrar-se dali a seis meses para um novo assalto.
Meio ano depois. Dolores City, entre a Califórnia e o Nevada. A pequena cidade poeirenta vive ao ritmo da mina de bórax, dos seus mineiros, dos homens de família e de negócios e do imponente pastor de almas. Disso e dos cada vez mais frequentes episódios escandalosos da menina Calamidade, ou melhor dizendo, de Calamity Jane. Fúrias imprevisíveis, humor irrascível e embriaguez crónica afogam os seus velhos tormentos, enquanto os bons homens da cidade pedem ao xerife que faça algo. Naquela manhã é vê-la a dormir na pocilga a céu aberto, por entre porcos e perante as senhoras de sociedade que a observam chocadas. Juntamente com o seu ajudante, o xerife Bill Hickok vai buscar a sua amiga Jane à pocilga, sabendo de antemão que é mais fácil fazer reinar a ordem na cidade do que manter Calamidade nos eixos. Nem Charlie Utter, o seu amigo comum, consegue fazê-lo.
Entretanto, nos arrabaldes de Dolores, a intrigante família Ballou acaba de comprar o velho e isolado rancho W. Com eles trazem dez cabeças de gado, rostos carrancudos e explicações pouco convincentes. A intuição de Hickok coloca-o em alerta. Aproxima-se uma tempestade. E das grandes…
Com Redenção inicia-se o terceiro díptico de Wild West, a série criada por Gloris e Lamontagne. E, mais uma vez, Gloris consegue dar-nos um retrato apurado do Velho Oeste e daquele momento na história dos EUA em que a “civilização” começa a chegar aos lugares mais recônditos da jovem nação. E fá-lo através das vidas de Wild Bill Hickok, Calamity Jane e Charlie Utter, figuras lendárias do Faroeste que são aqui tratadas de forma bem mais interessante e prosaica.
Uma das grandes diferenças deste volume em relação aos anteriores é o facto de irmos encontrar estes três protagonistas cristalizados nas suas rotinas em Dolores City. Hickok usa na lapela a estrela de xerife e leva a vida de casado como um homem respeitável, mas entediado. Charlie Utter entrega o correio e Calamity Jane bebe até ao esquecimento e incompatibiliza-se com toda a cidade. Aliás, ao contrário do que se passou anteriormente, Jane tem um papel muito reduzido neste volume.
No primeiro terço da obra, Gloris parece levar-nos por um percurso narrativo inconsequente. Uma ida ao dentista, uma partida de cartas, o final de um dia de aulas na escola, um jantar formal em casa dos Coleman, são alguns dos momentos que parecem querer mostrar-nos que tudo vai bem em Dolores City. Mas Gloris consegue instalar no leitor uma espécie de dúvida sistemática que leva à percepção quase inconsciente de uma tensão crescente.
Ao mesmo tempo, este ambiente aparentemente morno permite ao autor construir um Bill Hickok mais denso, desenvolvendo os estados de alma do personagem enredado nos seus deveres conjugais. Já quanto a Calamity Jane, quase não a reconhecemos. Irrascível, descontrolada, personagem desagradável, parece ter apenas as boas graças de Charlie Utter. Mas percebemos como chegou a este estado pois, embora vão longe os tempos em que trabalhou numa casa de prostitutas, casou com um índio e viveu na sua tribo e perseguiu Hickok por ter morto o seu marido, tudo isto se acumulou nela e a transformou.
Mas assim que a narrativa estabelece as suas bases, estes aparentes tempos mortos desaparecem e dão lugar a uma trama corrida e violenta, na qual todos têm um passado perturbado. Um passado oculto num Oeste americano que permite a todos reinventarem-se e criarem novas vidas… até que os fantasmas pretéritos ressurjam do nada. E temos assim a importância do título deste volume – Redenção.
Gloris é um escritor experiente e sabe não só criar situações de suspense como implantar na trama uma tensão crescente que, neste caso, provavelmente acabará com o troar do Smith & Wesson de Bill Hickok. Neste burgo onde a vida só é perturbada pelos excessos de Jane e no qual os fora-da-lei se mantêm distantes do nosso xerife, o poder acaba por ser partilhado pelo homem da lei e pelo homem da fé, o pastor Jérémiah Henderson.
A escolha narrativa de centrar a trama em Wild Bill Hickok não é inocente e encerra o propósito maior (quanto a mim) deste volume. A figura da lei em luta, não apenas contra o crime, mas contra os dogmas de uma comunidade dominada pela fé. Num Faroeste carregado de contradições, a justiça dos homens confronta-se com a de Deus. E a palavra Dele é invariavelmente substituída pelo verbo da bala. Os tiros e os sermões inflamados parecem estar ao mesmo nível, exercendo de forma igualmente eficaz o julgamento dos outros. E é isto que Gloris nos quer mostrar, uma América de pioneiros, de aventureiros, de desbravadores, a maior parte deles consumidos por certezas morais, onde a fé tantas vezes se torna mais opressiva que a lei.
A narrativa estabelece-se assim com tensão e densidade. Mas há que arranjar um catalisador que a acelere e encontramo-lo na chegada da família Ballou a Dolores City, encabeçada pela bela Catherine. E para os menos atentos, este é o momento de Gloris acrescentar à galeria de figuras lendárias de Wild West a de Belle Starr, a conhecida fora-da-lei amplamente divulgada pelas Dime Novels da época e imortalizada por Morris numa das aventuras de Lucky Luke. De igual modo, ficamos a conhecer o dentista tuberculoso de Hickok, o também lendário Doc Holliday, sobretudo famoso pela sua participação ao lado de Wyatt Earp no tiroteio de OK Corral.
Por fim, a “embrulhar tudo”, temos ainda a enorme tensão entre os cidadãos de Dolores City e a comunidade chinesa de mineiros, acusados de roubar o emprego aos americanos. O quinto volume de Wild West é um autêntico barril de pólvora.
E para isso contribui, e muito, a sua atenção aos pormenores e as muitas pesquisas que faz antes de pôr os pincéis e lápis a trabalhar. Quando Lamontagne desenha o interior de um saloon, uma rua do bairro chinês ou um simples Colt, o leitor acredita no que está a ver e prossegue como se lá estivesse. Esta atenção dada ao detalhe inibe-o, a maior parte das vezes, de preencher os fundos das vinhetas com uma simples cor plana. Os detalhes em Lamontagne são como uma epidemia que se propaga dos primeiros para os segundos e terceiros planos. Reparem na imagem que se segue e como os pormenores se estendem até para lá da porta do saloon.
Como artista completo que é, Lamontagne aplica a cor aos seus desenhos. E fá-lo com grande mestria. O bailado entre luz e sombra é perfeito, criando contrastes que dão grande realismo ao desenho. A colorização é ligeiramente dessaturada e subtil, acentuando o equilíbrio frágil entre a beleza e o desespero, o quotidiano fastidioso e o momento opressivo ou de tensão.
Redenção, o quinto volume de Wild West, é uma nova pérola nesta série, confirmando a riqueza narratia de Thierry Gloris e o génio artístico de Jacques Lamontagne.
Uma história que se desenrola num ambiente pesado, evitando os clichés a que Hollywood nos habituou nos seus westerns ou as imagens românticas propagadas pelas dime novels dos finais do século XIX e princípios do século XX e que são responsáveis pelas ideias lendárias e erradas que temos de grande parte dos protagonistas da história do Velho Oeste.
De novo, a pretexto de nos contarem a história de Bill Hickok, Calamity Jane e Charlie Utter, Gloris e Lamontagne pintam um fresco monumental sobre a história do Oeste Longínquo e dos homens e mulheres que o foram desbravando a grande custo, tantas vezes pagando com a própria vida. E se a leitura de cada volume nos embrenha profundamente na vida dos protagonistas e dos seus secundários, a leitura completa e sucessiva de toda a série, feita num mesmo momento, dar-nos-á a grandiosidade desse fresco.
EXTRAS
Os retratos reais dos protagonistas de Wild West (II):
Belle Starr
Doc Holliday e “Belle Starr jumping bail” (ilustração do National Police Gazette de 22 de maio de 1886)
Por Francisco Lyon
sexta-feira, 11 de setembro de 2026
A biografia gráfica de Pier Paolo Pasolini
Hoje nas bancas o novo e nono volume da colecção Novela Gráfica IX da Levoir, traz-nos a biografia gráfica do poeta, cineasta, ensaísta Pier Paolo Pasolin, na obra O ANJO PASOLINI, assinado pela mesma dupla de autor, Arnaud Delalande e Eric Liberge, que também assumiram a biografia do matemático Alan Turing, em O Caso Alan Turing.
Misturando factos reais com elementos simbólicos e oníricos, esta obra procura reflectir sobre os diferentes aspectos da personalidade de Pasolini e sobre o papel do artista transgressor numa sociedade italiana profundamente marcada pelo peso do catolicismo.
Pasolini foi poeta, cineasta, ensaísta, marxista, homossexual assumido num país católico e moralista. Figura incómoda e lúcida que expôs as contradições da modernidade. Criticou de forma implacável o consumismo, a burguesia italiana, a modernização homogeneizadora e a falsa esquerda, usando a sua poesia, romances e ensaios para denunciar a destruição cultural e antropológica da sociedade italiana pelo capitalismo. Nos últimos anos de vida, Pasolini era considerado um sujeito perigoso. As suas ideias iam longe demais. Ele falava demais. Escrevia artigos que denunciavam a corrupção do Estado, o pacto silencioso entre os Poderes, os media, a indústria e o crime organizado. Em Novembro de 1975 foi atraído para uma emboscada numa praia de Ostia, onde foi agredido e assassinado por desconhecidos. Agonizando naquela terra de ninguém, o mais piedoso de todos os blasfemos vê o seu anjo a aparecer.





























