domingo, 1 de março de 2026

A leitura de Duas Raprigas Nuas

DUAS RAPARIGAS NUAS
 
Uma das primeiras belas leituras de 2026 é também um dos primeiros lançamentos do ano pela editora ASA. Temos uma história de um quadro real que sobreviveu ao regime nazi durante a Segunda Guerra Mundial. Dito simplesmente assim é talvez demasiado redutor, porque estamos aqui perante uma obra que é, na verdade, muito mais do que isso e não é menos que magnifica. 
 
Neste álbum, o francês Luz dá vida à trajetória de uma pintura que, por força das circunstâncias, se torna uma testemunha silenciosa de um dos períodos mais sombrios da história europeia do século XX. Oferece-nos um exercício narrativo e, sobretudo, visual absolutamente singular. O olhar do autor coloca-nos, a nós leitores, dentro do quadro, e torna-nos cúmplices de um jogo de olhares: observamos e somos observados. Involuntariamente assumimo-nos como a figura central desta história feita de pequenos episódios, ricos em detalhes, fragmentos de memória que atravessam o tempo. 
 
Acompanhamos o percurso daquela que começou apenas como uma expressão artística de Otto Mueller e que, com o desenrolar dos acontecimentos, passa por diversas mãos e destinos. Durante os “anos negros”, a arte revela-se impotente perante a espoliação, a violência e a destruição - as imagens como as colunas de fumo que saem das torres são sintomáticas. Mas Luz não se resigna: mostra também a arte como peça de resistência, sobrevivência e, acima de tudo, de memória viva. O quadro retratado, Zwei weibliche Halbakte, encontra hoje um lugar seguro no Museu Ludwig, em Colónia, e a sua presença ali ecoa esse percurso de resistência. 
 
O registo gráfico de Luz é marcado por um traço nervoso e expressivo, com caricaturas subtis que acentuam gestos e posturas, e que conferem dinamismo e emoção à leitura. A narrativa visual prende-nos pela curiosidade desde as primeiras pinceladas na primeira página, e avança num belo equilíbrio entre intensidade e elegância. 
 
Esta edição portuguesa de Duas Raparigas Nuas vem ainda enriquecida com um notável dossier documental: inclui um posfácio assinado pela diretora-adjunta do Museu Ludwig, biografias das figuras reais envolvidas, uma cronologia detalhada e uma lista das obras consideradas “degeneradas” que se cruzam com o destino do quadro. Um excelente complemento que reforça o diálogo entre a arte, história e a memória que atravessa todo o álbum. 
 
É uma obra que merece ser lida. E uma entrada directa para a minha lista de melhores leituras do ano.
 
A minha nota: EXCELENTE ÁLBUM

 
 

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2026

Dos mesmo autores de Islander chega-nos Sangoma

Para quem já leu o primeiro volume da saga ISLANDER já sabe aqui ao que vai, e que em termos de qualidade vai bem servido, sobretudo a nível visual. Do mesmo argumentista, Caryl Férey, e do mesmo desenhador, Corentin Rouge, temos agora SANGOMA - OS CONDENADOS DA CIDADE DO CABO, a mais recente novidade da editora ARTE DE AUTOR

Mudamos agora de cenário, da gélida paisagem da Islândia para uma quente África do Sul pós-apartheid, muito marcada ainda por desigualdades raciais profundas entre proprietários brancos e trabalhadores negros. A descoberta do corpo de um trabalhador negro morto numa vinha é o ponto de partida para um policial intenso que decorre num clima de elevada tensão social.

Já nas livrarias. 

SANGOMA
Na África do Sul, cerca de vinte anos após o Apartheid, as cicatrizes deixadas demoram a cicatrizar. O racismo já não está institucionalizado, mas as desigualdades persistem e a população continua dividida entre proprietários brancos e trabalhadores negros. Neste contexto, Sam é encontrado morto nas terras da quinta Pienaar, os seus patrões. O tenente Shepperd é encarregado da investigação que cedo se complica. Enquanto Shane Shepperd luta contra o silêncio e as mentiras daqueles com quem conversa, em segundo plano, o parlamento é palco de divisões que dilaceram a nação sul-africana… A reforma agrária, que visa redistribuir as terras usurpadas durante o apartheid, gera debates acalorados e exacerba as tensões entre os partidos radicais. Em breve, ambos os lados recorrerão à violência. 
 
Ficha técnica:
Sangoma - Os condenados da Cidade do Cabo
Argumento de Caryl Férey e desenho de Corentin Rouge
Cartonado, formato 232x310, cores, 152 páginas.
ISBN: 978-989-9094-75-8
PVP: € 33,00   |    Edição ARTE DE AUTOR
 

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2026

A conclusão do diptico O Nome da Rosa

Depois de ter garantido, durante o festival do Amadora BD de 2025, que faria a edição do segundo e último volume da adaptação por Manara do romance O NOME DA ROSA de Umberto Eco, a GRADIVA acaba de fazer o seu lançamento para as livrarias.

Se por um lado é de aplaudir este “esforço” da editora em não deixar os leitores portugueses “pendurados” atendendo ao processo da reestruturação pelo qual passou recentemente – o seu catálogo passou para a editora Guerra e Paz – por outro lado quer-me parecer que este lançamento terá sido o “canto do cisne” em termos de edição de BD pela Gradiva.

É certo que continua a reeditar pela enésima vez, e à vez, os livros do Calvin & Hobbes, mas sem qualquer valor acrescentado, tudo mais do mesmo, e acresce que o seu stock de banda desenhada encontra-se a saldos. Logo se verá o que reserva o futuro, mas palpita-me que não devemos ouvir falar de novos lançamentos de BD por parte da Gradiva mais este ano. 

Para já temos aqui a conclusão deste NOME DA ROSA, do qual confesso que a primeira parte não me entusiasmou – achei algo maçuda de se ler (recomendo antes ver o filme de Jean-Jacques Annaud). 

Ficha técnica:
O Nome da Rosa - Volume II
De Milo Manara e Umberto Eco
Capa dura, dimensões 220x305, cores, 72 páginas.
ISBN: 9789897854026
PVP: € 24,50
Editor: GRADIVA
 

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2026

A ASA serve-nos agora um banquete!

Se o anterior lançamento da editora tratava sobre livros, segue-se agora um novo prazer: comida. Podemos caracterizar este ULYSSE & CYRANO, com a chancela da ASA, com saída para as livrarias a partir de amanhã, como uma história culinária. 

O argumentista é o nosso já conhecido Xavier Dorison, que só escreve coisas boas (Undertaker, O Castelo dos Animais, Long John Silver, 1629, O Terceiro Testamento, …). A arte é de Stéphane Servain, que confesso não conhecer, mas como o Dorison só trabalha com bons artistas, podemos à partida acreditar que parte visual será excelente, e as páginas disponibilizadas pela editora apontam já para um desenho expressivo. 

Temos aqui uma história passada em França em meados do século passado, que assume os códigos clássicos do duo mentor aluno, do arco de redenção, do encanto da província e o poder da cozinha, enquanto serve como crónica social do pós-guerra. A gastronomia surge simultaneamente como cenário, trama e metáfora, colocando questões tão necessárias quanto universais: o que é o prazer e a amizade? Onde está a realização... e como podemos alcançá-la?

ULYSSE & CYRANO
Para Ulysse Ducerf, a matemática dificilmente o entusiasma, mas é impossível fugir dela quando lhe é prometido um futuro brilhante: a École Polytechnique e um dia assumir a cimenteira da família. Este é o desejo do pai de Ulisses, porém este é surpreendido por graves acusações: 10 anos antes, a sua empresa teria participado no esforço de guerra alemão. A família instala-se na Borgonha, onde Ulisses conhece um homem rude e reservado. O choque é imediato: Cyrano e a excelente culinária mudarão a vida de Ulisses para sempre... 
 
Ficha técnica:
Ulysse & Cyrano
De Xavier Dorison e Stéphane Servain
Capa dura, dimensões 240x318, cores, 184 páginas.
ISBN: 9789892367446
PVP: € 30,90   |    Editor: Edições ASA 
 

domingo, 22 de fevereiro de 2026

Lançamento DEVIR: Batman de Grant Morrison - volume 5

Por cá este ano será um daqueles em que não faltarão histórias de super-herois  no nosso mercado. A editora DEVIR continua a dar à estampa o excelente arco assinado por Grant Morrisson com a personagem do Cavaleiro das Trevas, e a chegar às livrarias esta semana teremos o quinto volume da colecção BATMAN DE GRANT MORRISON, que traz os desenvolvimentos pós-Bruce Wayne.

Reúne as histórias publicadas na revista Batman & Robin #1 a #7. Inclui DOMINO EFFECT e THE CIRCUS OF STRANGE e conta com a arte de Frank Quitely, Philip Tan e Cameron Stuart. 

Bruce Wayne desapareceu e Richard Grayson – no papel de Batman, juntamente com Damian Wayne como Robin, enfrentam uma trupe de circo com porcos e sapos, onde a moeda de troca são peças de dominó.
 
Ficha técnica:
Batman de Grant Morrison - volume 5
De Grant Morrison e desenho de Frank Quitely, Philip Tan e Cameron Stuart
Capa dura, formato 18x27, cores, 144 páginas.
ISBN 9789895597604
PVP: € 20
Editora DEVIR