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sexta-feira, 21 de agosto de 2026

A revelação

 O Mercenário, volume 14: O Último Dia


Em 2021 escrevi um texto que começava assim:

 

“Ninguém conhece o seu nome ou o seu passado. Dele só se sabe que é um soldado da fortuna a soldo de quem lhe retribuir os seus méritos – um mercenário.


Num país envolto em nuvens eternas, isolado do resto do mundo e com uma cultura muito própria, o Mercenário viaja de cidades altaneiras ou flutuantes para picos solitários e extensas mesetas, montado em dragões e em busca das mais fantásticas aventuras nas quais nunca podem faltar as mais belas mulheres desnudadas.”


Deste modo, assinalei a segunda vida de O Mercenário de Vicente Segrelles no mercado português.


Série criada pelo autor espanhol para a revista Cimoc em 1980, publicada pela primeira vez em álbum em 1983, chegou a Portugal no ano seguinte pelas mãos da Meribérica. De 1984 a 1999, esta editora publicou os primeiros nove volumes da série. Os leitores portugueses ficaram por isso sem conhecer os cinco volumes restantes.


Até que, em 2021, a Ala dos Livros surpreendeu o mercado nacional da BD ao relançar O Mercenário. Mas não o fez de qualquer maneira. Cada volume tinha agora capa dura com lombada em tela, papel de alta qualidade com uma “boa mão” e um caderno de extras no qual o autor explicava os bastidores da série.


Ao leitor português restava esperar que a Ala dos Livros não o defraudasse e levasse a série a bom porto, mesmo até ao seu final. Pois bem, 6 anos depois foi exactamente isso que aconteceu com “O Último Dia”, o 14.º e último volume da série.

 

O Mercenário é ambientado no género Alta Fantasia e situado em plena Baixa Idade Média, por volta do ano 1000. O seu enorme sucesso deveu-se (e deve-se), em parte, ao facto de o autor pintar a óleo cada vinheta, transformando-as em verdadeiros quadros. Só 14 anos após o começo da série é que o americano Alex Ross faria (também com grande sucesso) algo do género.


Ao longo de 13 álbuns, somos levados ao País das Nuvens Permanentes; montados em criaturas aladas, planamos na Zona dos Grandes Frios; encontramos refúgio no Mosteiro da Ordem da Cratera e viajamos para paragens longínquas, atravessando até os oceanos. Enfrentamos todo um bestiário que, por vezes, parece retirado do próprio Inferno. Somos aconselhados por Lama, o ancião do Mosteiro; vivemos as maiores aventuras ao lado da jovem e bela guerreira Nan-Tay; somos constantemente perseguidos pelo perigoso Claust; e tomamos contacto com estranhas civilizações alienígenas.

 


Agora, neste derradeiro volume, Vicente Segrelles resolve unir todos os pontos e concluir a odisseia d’O Mercenário. E fá-lo escrevendo uma novela de 23 páginas acompanhadas por 23 ilustrações de página inteira. Um festim para os olhos dos leitores; uma revelação em termos da narrativa. Digo-vos apenas que a história e a fantasia fundem-se por fim, e na sua totalidade, com a ficção científica, transportando o Mercenário, Nan-Tay e a jovem Ky para novas e misteriosas paragens.

 


Mas não é tudo! O habitual caderno de 16 páginas de extras é aqui substituído por umas meras 4 páginas que dão depois lugar à última banda desenhada do Mercenário que, na verdade, foi a primeira em que o personagem enveredou pela ficção científica e que foi realizada em 1984.

 

Com o título A Evidência, esta banda desenhada curta, de apenas dez páginas, está em perfeita sintonia com o final da série e bem que também se poderia intitular de A Revelação.


O certo é que o leitor habitual de O Mercenário não se sentirá defraudado com este derradeiro volume. E os novos leitores não só podem descobrir uma arte fantástica como têm agora a oportunidade de ler toda a série sem interrupções. Cá por mim, vou fazer uma maratona de Mercenário no próximo fim-de-semana e deixar-me levar até um dos imaginários mais fortes da minha adolescência.



Por Francisco Lyon de Castro


 

terça-feira, 18 de agosto de 2026

Finalmente um novo Thorgal!

É provavelmente dos melhores títulos do catálogo da editora A SEITA e só peca mesmo pela morosidade da sua publicação por cá. Porque passados dois anos depois da edição do primeiro álbum, está finalmente disponível nas livrarias o segundo volume da colecção THORGAL SAGA. Ainda não tive oportunidade de ver este novo WENDIGO, mas à confiança acredito que vale bem o seu  preço de capa. 

A premissa desta colecção é quase um "Thorgal visto por outros autores...". Um pequeno desvio à série principal, onde diferentes artistas são convidados a explorar o fantástico universo criado por Jean van Hamme e Grzegorz Rosinski. 

Este novo álbum traz a assinatura do fantástico Corentin Rouge no desenho - e atente-se bem à magnifica capa -  artista que nos tem deixado muito bem impressionados, primeiro com RIO e mais recentemente com ISLANDER, do qual haverá o segundo volume ainda este ano

Nesta história, o argumentista Fred Duval mergulha nas lendas ancestrais do Norte, para construir uma narrativa tensa e profundamente humana baseada em Wendigo, uma criatura do folclore ameríndio associada à fome, à solidão extrema e à perda da humanidade. A história destaca-se pela forma como combina aventura e horror, colocando as personagens perante dilemas éticos intensos. O traço expressivo de Corentin Rouge, aliado ao argumento sólido de Fred Duval, reforça o sentimento de claustrofobia e tensão constante. Mais do que um simples episódio de aventura, Wendigo é uma reflexão sobre o instinto de sobrevivência e o preço a pagar quando a civilização cede lugar à barbárie

WENDIGO
Durante a viagem de regresso do país Qâ, Thorgal e a sua família veem se apanhados em pleno conflito entre dois povos autóctones. Nestas terras ainda selvagens, nada parece capaz de travar o caos da guerra, desde que o Wendigo, uma criatura mitológica, foi invocado. Para salvar Aaricia, grávida e ferida, Thorgal não tem outra escolha senão tomar partido e voltar a comprometer se na loucura dos homens.
 

 
 
Ficha técnica:
Thorgal Saga - vol. 2: Wendigo
De Fred Duval e Corentin Rouge
Capa dura, formato 235 x 325, cores, 136 páginas.
ISBN: 978-989-9202-98-6
PVP: € 28,00
Editor A SEITA
 

segunda-feira, 17 de agosto de 2026

Quando o silêncio grita mais alto…

 

Os Cabelos de Édith

 

Autor dos romances 1984 e O Triunfo dos Porcos (ou A Quinta dos Animais), entre outros, é a George Orwell que se atribui a frase “A história é escrita pelos vencedores.” E, de facto, se nos determos no final da Segunda Guerra Mundial, são muito mais abundantes os registos dos vitoriosos do que dos que capitulam.


Ao leitor interessado por este período não lhe é desconhecida a famosa fotografia do marinheiro a beijar uma jovem em plena Times Square, no meio da multidão que comemora o final da guerra de 39-45. Nem aquela que mostra os soldados soviéticos a tomarem o Reichstag, o parlamento alemão, hasteando a bandeira soviética. Ou ainda a de Winston Churchill a fazer o sinal de vitória que popularizou, após discursar para uma multidão no dia 8 de Maio de 1945 (o dia oficial do fim da guerra).


E como “a história é escrita pelos vencedores”, interessa não deixar cair no esquecimento certas atrocidades praticadas pelos vencidos. E é assim que, após o fim da Segunda Guerra Mundial se começam a divulgar imagens dos campos de concentração nazis e dos horrores que por lá se praticavam e que chocaram um mundo incrédulo.


Mas a história, caro leitor, não se detém naquilo que se fez ou nas comemorações mais ou menos triunfais da vitória. Na verdade, após a euforia, o comum dos cidadãos tem de voltar para casa e descascar batatas ou nem sequer tem casa para onde voltar ou batatas para descascar. O comum dos cidadãos, vencedor ou vencido, tem de prosseguir a sua vida com um défice material e um excedente traumático que não experimentara antes do conflito. E é aqui que a história escrita pelos vencedores tem tendência a saltar e a passar para o período seguinte mais interessante.


Mas, afinal o que aconteceu aos sobreviventes do “holocausto”? Como conseguiram prosseguir com as suas vidas? E como foram percepcionados pelos “vencedores”?


Fabienne Blanchut e Catherine Locandro, apoiadas pelo traço sensível de Dawid vão transportar-nos precisamente para o pós-Segunda Guerra Mundial (poucas semanas depois do conflito terminar e muitos outros começarem) através do seu romance gráfico Os Cabelos de Edith publicado em Portugal pelas Edições Asa.

Vamos à história!


Paris, 22 de Maio de 1945.


À saída do liceu, Louis despede-se dos seus amigos, monta a bicicleta e pedala pelas ruas de Paris. Passa pela leitaria que não tem leite há uma semana. Passa pela mercearia do Senhor Dubois onde uma fila de parisienses aguardam a sua vez na tentativa de comprar bens racionados. Passa pela sapataria que só tem um par de sapatos. E chega por fim ao Pax, o cinema no qual trabalha na bilheteira para ganhar mais uns cobres e ajudar a família. Afinal, a guerra acabou, mas as dificuldades continuam. Só depois de se cruzar com um autocarro cheio de pessoas que se dirige ao Hotel Lutetia, Louis assume o seu posto na bilheteira do Pax. Em cartaz está “As Crianças do Paraíso”.

 

Já a noite vai alta quando Louis regressa a casa. Enquanto pedala ligeiro, a cidade parece ignorá-lo e esquecer-se que há poucas semanas o conflito mundial ainda tinha fim incerto. As pessoas divertem-se no Les Deux Magots e Louis pedala; no Tabou e Louis pedala; na Brasserie Lipp e Louis pedala. Chega por fim a casa. O pai lê o jornal, a mãe já se deitou, mas deixou comida na panela para o Louis aquecer. Pai e filho trocam algumas palavras e o dia termina.


Na manhã seguinte recomeçam as rotinas. A mãe acorda Louis que tem de levar a irmã à escola antes de ir para o liceu. Por sua vez, ela vai à mercearia na esperança de arranjar farinha que deve chegar nesse dia. Já no liceu, Louis estuda Camus na aula de francês e no intervalo reencontra o seu antigo professor da disciplina – este voltou depois da guerra, perdeu um braço, mas será reintegrado. Enquanto pedala de regresso a casa, Louis vê de novo o autocarro que se dirige ao Lutetia, cheio, como sempre. Num impulso, segue-o.


Os corpos esqueléticos dos deportados mergulham na multidão que os espera. As pessoas procuram os seus parentes desaparecidos entre os recém-chegados. Dentro do hotel, escuteiros e voluntários tentam manter alguma organização e dar assistência aos sobreviventes do horror nazi. Mas muitas mãos são poucas para acolher tantos. Tudo aquilo é demais para o Louis que acaba por se oferecer como voluntário.

 

Nas 24 horas seguintes, a vida de Louis mudará para sempre. No meio dos seus novos afazeres, conhece Sylvette e Édith, duas jovens deportadas de cabelos rapados que ocupam o mesmo quarto. Mas enquanto Sylvette conseguiu manter um certo espírito, Édith não fala e parece ter deixado o seu ser no campo de concentração de Birkenau. Sylvette partirá em breve e pede a Louis para tomar conta de Édith. Ele aceita, mas…

 

A deportação de milhões de judeus e outros “indesejados”, bem como o seu extermínio, são temas essenciais da história mundial, sendo amiúde abordados pela banda desenhada. Bem recente em Portugal temos, por exemplo a magnífica série de Émile Bravo, A Esperança Nunca Morre, também publicada pelas Edições Asa.


Já o período de regresso dos poucos sobreviventes é, regra geral, menosprezado ou resumindo-se na BD a breves vinhetas. Ora, esta lacuna é agora colmatada pelas premiadas romancistas francesas Fabienne Blanchut e Catherine Locandro que, a quatro mãos, escrevem Os Cabelos de Édith e conseguem vencer o Prémio Goscinny 2026.


Curiosamente, dar voz a uma sobrevivente de Birkenau é respeitar o seu silêncio. Édith está por demais traumatizada para que possa interagir com outros sobreviventes ou com os seus benfeitores. A mudez é apenas quebrada maioritariamente fora do foco do leitor, quando ela se expressa com Sylvette, a sua companheira de infortúnio. E é este o segredo da narrativa e o que lhe dá força. No seu silêncio ouvem-se as palavras, tudo o que não diz e que se reflecte nos actos de Louis, um dos protagonistas.


Amiúde, Édith viaja ao passado pela alameda da memória e tudo o que recorda é o terror por que passou às mãos dos nazis. Mais ainda, pequenos nadas do presente transportam-na constantemente a esse passado e fazem-na cada vez mais ausentar-se da realidade do quotidiano.

 

É a Louis que caberá a tentativa de trazer Édith para o presente. Mas ele próprio, e a sua família, estão ainda enredados nos tentáculos que a Segunda Guerra Mundial lançou para o futuro.


A história estende-se apenas por doze dias, tempo mais que suficiente para que Sylvette se agarre ao futuro de modo a melhor esquecer o passado de horror. O mutismo de Édith é assombrado pelo tempo de terror passado no campo de concentração e qualquer coisa é suficiente para reavivar o pesadelo vivido. Já Louis vê-se a repensar a vida e a tomar consciência de realidades dolorosas, atrozes e até, no caso da sua família, vergonhosas. É que o seu pai esconde um segredo.


Se a narrativa, de certa forma, está concentrada em Édith, é em Louis que ela encontra o seu motor. O rapaz alimenta-se da relação silenciosa com Édith e do que vai tomando consciência através dos jornais para que não seja tomado pela insensibilidade ou choque. Para além disso, percebe-se ao longo da leitura, que a ajuda dada às “deportadas” é também um desafio à autoridade paternal – ganha, também ela, pelo silêncio. Mas é naquele elo subtil que vai criando com Édith que a narrativa ganha em emoção e sensibilidade.

 

Quanto ao desenho, está a cargo de Dawid, de quem o leitor português já conhece o álbum Senhor Apothéoz, também publicado pela Asa. E a escolha não podia ser mais acertada, pois o traço subtil e delicado do artista consegue representar de forma quase transcendente a fragilidade dos personagens. Quer seja a Édith ou a Sylvette, o Louis ou o seu pai, todos eles parecem frágeis, prestes a desmoronarem-se, “vítimas” do traço de contornos delicados de Dawid. O próprio traço parece ser evocativo dos momentos graves retratados.


Por outro lado, a paleta de cores do autor, em tons pastel, tem a particularidade de transmitir serenidade e acalmar os ânimos, quase numa contradição chocante com os horrores por que passaram as duas protagonistas.


E para afirmar de certo modo que o pior já passou, o traço de Dawid altera-se radicalmente quando representa as cenas passadas por Édith no campo de concentração. Um traço nervoso que irrompe rude, bruto e de maior grossura, sempre em cenas inesperadas e reveladoras de que a violência continua bem viva na memória de Édith.


A composição das pranchas (entre 1 e 8 vinhetas) e os enquadramentos variados permitem ao leitor uma leitura dinâmica. E os cenários parisienses estão muito bem conseguidos e remetem na perfeição para o ambiente do pós-guerra.

 

Com uma grande delicadeza e cuidado, Blanchut, Locandro e Dawid contam-nos a história dos deportados dos campos de concentração, não só do que passaram durante a guerra como do que estão a passar após o conflito mundial. De certo modo é uma história dos vencidos, mesmo quando são vencedores. Por um lado, temos a população de Paris que quer esquecer a guerra e concentrar-se no dia a dia. Por outro lado, os sobreviventes do holocausto traumatizados. E depois, temos ainda aqueles que, como o Louis, querendo melhor enfrentar este período da História, tentam ser úteis aos outros.


No caso de Louis, é o encontro com Édith que o vai mudar profundamente. Um encontro pautado pelo silêncio dela. Um silêncio que, para quem quer ver, grita mais alto que qualquer dor.


Por fim, perguntar-se-á o leitor, qual a importância dos cabelos de Édith? E a resposta é a óbvia: há que ler a obra.

 

Por Francisco Lyon de Castro 

 

 


sábado, 15 de agosto de 2026

Prelúdio do Festival

Tic...tac... Faltam ainda dois meses para que as portas se abram à 37ª edição do Amadora BD, o evento que encerra a temporada dos grandes festivais de banda desenhada em Portugal. Os preparativos já estão em curso, e algumas novidades justificam fazer aqui este breve prelúdio. 

O Espaço 
Não é difícil perceber que será mais um ano onde a Câmara responsável continua em modo poupança relativamente aquele que eles próprios anunciam como "um dos eventos da 9.ª arte mais participados em Portugal". Nenhuma melhoria significativa, entenda-se nenhum investimento de relevo ao nível logístico do evento. O núcleo central ameaça perpetuar-se nas limitadas instalações do denominado Parque da Liberdade, na Damaia.
 
Para a festa junta-se a já tradicional tenda, que aloja a zona comercial do evento, e a insistência em mais dois locais descentralizados, na Bedeteca da Amadora e na Galeria Municipal Artur Bual, cuja localização e horários, sobretudo ao fim-de-semana, não constituem qualquer mais-valia para o festival, sobretudo para os visitantes que chegam de fora.
 
Não queria passar por excessivamente amargo, mas a verdade resiste a fantasias. Falta ali um espaço a sério para receber autores, para conversas e apresentações. Seria impossível, por exemplo, acolher nomes de calibre como Didier Conrad ou Fabcaro, autores que encheram uma sala de cinema com mais de trezentos lugares no Corte Inglês em Outubro do ano passado. A realidade, essa triste companheira do evento, é que o maior festival nacional de banda desenhada continua reduzido a um barraco e uma tenda! 
 
As Exposições 
Agora, pela informação já divulgada sabe-se que a edição deste ano será, mais uma vez, uma espécie de festa de aniversário colectivo, com vários aniversariantes. Uns mais populares, outros nem por isso.
 
Promete-se celebrar os 80 anos de Lucky Luke (dizem que com originais de Morris que valem sempre a visita); outros 80 da dupla Blake & Mortimer, com destaque para o trabalho do desenhador Peter Van Dongen; mais os 65 anos do Quarteto Fantástico, que traz a Portugal o argumentista Ryan North e o ilustrador Iban Coello; os 40 anos de Dylan Dog e os 25 anos do Menino Triste de João Mascarenhas. Encontrou-se espaço para uma retrospetiva de Guy Delisle e exposições de autores como Josep Homs (desenhador da saga de fantasia Shi editada pela Ala dos Livros), Mansoureh Kamari (da obra As linhas que traçam o meu corpo, edição da Arte de Autor), Thomas Gilbert (da obra As Raparigas de Salém, edição da Arte de Autor), e Patrícia Costa com as suas Crónicas de Enerelis. Todos estes autores são convidados do festival.
 
Podemos questionar algumas das escolhas, mas a lógica seguida de autor com exposição e livro editado é claramente vencedora. 
 
Os Prémios 
As novidades principais na edição deste ano, centram-se nos Prémios de Banda Desenhada da Amadora (PBDA) promovidos pelo Festival. O novo regulamento introduz desde logo algumas alterações. Umas bem feitas, outras nem por isso.
 
Começa por manter um júri composto apenas por três elementos, o que já se sabe é manifestamente curto. Para a sua composição, deixou-se cair, e bem, a figura do “representante indicado pelo Clube Português de Banda Desenhada”, um clube muito discreto com uma presença nas redes sociais bastante irregular para não dizer praticamente sem actividade. É substituido agora pelo “Autor(a) vencedor(a) no ano anterior, na categoria de Melhor Obra de Banda Desenhada de Autor Português”, o que não melhora. Continuamos mal. E porquê? Obriga-se um autor a exercer função de jurado sem garantir que esse mesmo autor seja, assumidamente muitos não o são, um ávido leitor de banda desenhada. Fica com um peso que não pediu, com a responsabilidade de escolher entre as várias centenas de obras publicadas em Portugal munido apenas de boa-vontade e gostos pessoais. Não será certamente o que se pretende.
 
Passamos à categoria de Melhor Obra de Banda Desenhada de autor português. Continua cheia de lacunas. Falta as menções a "obra original" e “editada originalmente em Portugal”. Não se querem reedições e devia-se acautelar situações que diria de absurdas como por exemplo a verificada no recém-criado Prémio Nacional de Banda Desenhada do Ministério da Cultura em que a Obra do Ano vencedora é… uma obra brasileira!!!! Depois não se tornou aqui condição que apenas elegíveis obras cuja história tenha no mínimo trinta páginas em banda desenhada. Mais uma vez acautelar o óbvio: há uma grande diferença entre um livro com uma história de trinta paginas e um livro com três histórias de dez páginas cada. Se o objectivo é credibilizar a obra portuguesa, é preciso não confundir a "estrada da beira com a beira da estrada".
 
Agora, infelizmente, o regulamento, manteve a categoria de Melhor Edição Portuguesa, quando se podia ter aproveitado para destacar quem faz livros: o editor/editora. Premeia-se autores, premeia-se obras e esquecem-se desta verdade de La Palice: sem editor, não há livro. Mais que se justificava um ‘Melhor Editora Nacional’ muito mais do que se considerar “a qualidade, o rigor e a nobreza dos materiais utilizados na edição física, eventuais conteúdos adicionais à obra…” Quem é que escreve estas coisas?? Não obstante, a organização dos PBDA decidiu aqui, relativamente à obra vencedora desta categoria, premiar a respectiva editora com o compromisso por parte do município em adquirir 100 exemplares desta edição. Resta saber se a edição for assim tão boa como se espera, se haverá 100 exemplares ainda disponíveis!
 
Agora a parte boa e de aplaudir. Os reforços. O valor pecuniário a atribuir à ‘Melhor Obra’ duplicou e vale agora €10.000. E pela primeira vez, é atribuído um prémio pecuniário de €3.000 ao ‘Autor Revelação’. É um incentivo excelente à produção nacional. Nota máxima aqui. 
  
A Inútil tenda 
Outra novidade será a existência pela primeira vez, de um Artist Alley, (continuo sem perceber a necessidade do uso destes estrangeirismos bacocos), um espaço dedicado a autores e criadores independentes com projetos ligados à cultura pop, banda desenhada, ilustração e animação. Funcionará naquela tenda adjacente destinada ao chamado 'gaming'. É a melhor forma que descobriram para darem alguma utilidade aquele triste espaço!
 
Os Autores
Quanto aos autores estrangeiros convidados desta edição, entre estreantes e repetentes, encontramos bons nomes. Quero acreditar que a lista encontra-se ainda bastante incompleta, até porque apostaria na presença, por exemplo, de um autor italiano do Dylan Dog, a acreditar na forte aposta que a editora A Seita tem feito nas histórias deste personagem. E também há um autor que tem um livro sobre o ginseng que está na calha. Mas para por agora retemos os seguintes nomes: Romain Renard (Rever Comanche), Josep Homs (O Diabo e a Coral, Shi), Peter Van Dongen (Blake e Mortimer), Mansoureh Kamari (As Linhas que Traçam o Meu Corpo), Guy Delisle (O Guia do mau pai, Crónicas de Jerusalém, Crónicas da Birmânia, entre outras), Thomas Gilbert (As Raparigas de Salém), Sydney Gusmão (Domingos [com lançamento no festival]), Ryan North e Iban Coello (que assinou algumas capas do título Amazing Spider-Man).
 
A 37º edição do Amadora BD acontece entre 15 e 25 de Outubro. 

 

sexta-feira, 14 de agosto de 2026

Celebram-se os 80 anos do Principezinho!

Este ano andamos sob o signo do 80!  São os 80 anos de Lucky Luke, os 80 anos de Blake e Mortimer e agora os 80 anos da publicação da obra O Principezinho em França, a obra-prima de Antoine de Saint-Exupéry. É justamente para celebrar esta última efeméride que saiu hoje para as bancas a novela gráfica Saint-Exupéry e a origem do Principezinho numa edição da LEVOIR.

Recordo que ainda em Maio passado, a editora ASA lançou o álbum O PRÍNCIPE DOS PÁSSAROS DE ALTO VOO, da autoria de Philippe Girar, um romance gráfico também sobre o escritor-aviador Antoine de Saint-Exupéry, tendo como pano de fundo a vida deste durante o seu exílio norte-americano durante a Segunda Guerra Mundial.

Este SAINT-EXUPÉRY E A ORIGEM DO PRINCIPEZINHO conta como era a vida do seu autor antes deste sucesso mundial, que só se concretizou após a sua morte, e como o conto filosófico surgiu na sua mente. Foi nas noites solitárias — entre as suas missões no Saara, na Argentina e nos Estados Unidos — que nasceu, em 1943, O Principezinho, que viria a trazer, em plena guerra, um pouco de luz, inocência e maravilha... Saint-Exupéry foi explorador na companhia Aeropostal, arriscou a vida a sobrevoar desertos, resgatou outros pilotos retidos como reféns pelos tuaregues, atravessou oceanos em aviões pouco seguros, procurou companheiros acidentados nos Andes, participou na Segunda Guerra Mundial..., resume Fernández, que espera que o leitor aprecie o prazer que representou para ele e Pierre-Roland Saint-Dizier a realização desta obra. 

O dossier no final do livro contém imagens da vida de Saint-Exupéry nos Estados Unidos. 

Ficha técnica:
Saint-Exupéry e a origem do Principezinho 
De Pierre-Roland Saint-Dizier e Cédric Fernandez
Colecção Novela Gráfica IX – vol. 07
Capa dura, 195 X 270, cores, 176 páginas.
PVP: € 16,90
Edição LEVOIR 
 

terça-feira, 11 de agosto de 2026

Fim da linha para a Gradiva BD!

O panorama da banda desenhada em Portugal está em movimento, mas a verdade é que nem tudo são boas notícias. Se por um lado sopram bons ventos na edição, por outro lado a vitalidade num mercado também se faz de ajustes. 

Quando em Outubro de 2025 a GRADIVA integrou o grupo Guerra e Paz Editores, era quase inevitável o que viria a seguir. Nos últimos anos, os números da editora já evidenciavam um claro desinvestimento no selo Gradiva BD do seu catálogo: em 2022 lançava trinta e dois títulos; em 2023 caíram para dezoito; em 2024 ficou-se pelos quinze; no ano passado foram apenas quatro. Uma queda que não deixou margem para dúvidas.

À saída de cena do editor Guilherme Valente juntou-se a integração da editora num grupo editorial que não tem experiência na edição de banda desenhada. E quando não se entende um mercado, torna-se difícil justificar um investimento. Não é assim surpresa os descontos agressivos que começaram a aparecer nas campanhas para liquidar o catálogo da Gradiva BD. O espaço físico que os álbuns ocupam em armazém são neste momento um encargo.

Apesar de não existir um comunicado oficial, consta que títulos de séries em curso como ALIX SENATOR, com altos e baixos nas histórias e custos de direitos de publicação considerados caros, e AS GRANDES BATALHAS NAVAIS, uma autêntica desilusão e vendas fracas, foram cancelados. Quanto ao TANGO, talvez por apresentar números de venda interessantes, encontra-se ainda em avaliação, mas acredito que seja difícil a sua continuação. A conclusão da adaptação de O Nome da Rosa para banda desenhada, editado em Fevereiro deste ano, ficará, em princípio, como o último título da Gradiva BD que já não terá qualquer stand no próximo Amadora BD. 

Não estou aqui a considerar as enésimas reedições dos livros de Calvin & Hobbes, que será talvez o título de maior interesse do actual catálogo da Guerra e Paz em termos de banda desenhada, mas ao qual a editora já nada tem a acrescentar senão mais do mesmo.