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terça-feira, 6 de outubro de 2026

A bela aposta da ASA para o último trimestre de 2026

Chegou às livrarias o álbum TERRA OU LUA, uma das maiores aposta da editora ASA para este último trimestre do ano. Chama logo a atenção pela capa… está fantástica. Trata-se do primeiro volume de um díptico assinado por Jade Khoo e que tem a sua conclusão prevista para o próximo ano.

Temos aqui uma obra de ficção-científica contada a aguarela. São quase 300 páginas, num trabalho marcado pela cor e pela suavidade do traço.

Na premissa, temos Otelo, um rapaz de apenas sete anos e apaixonado por pássaros, que manipulado pela mãe, envenena sem querer o pai. A reviravolta seguinte é que o cenário aparentemente terreno, com aldeias de pedra e campos cultivados, fica afinal na Lua. 

É tudo o que posso dizer já sobre a obra. Mais só lendo. 

Ficha técnica:
Terra ou Lua - Parte 1
De Jade Khoo
Capa dura, 219x286, cores, 296 páginas.
ISBN: 9789892369204
PVP: € 36,90
Edição Edições ASA
 

segunda-feira, 5 de outubro de 2026

Quando o batom faz a diferença…

 Mar de Rosas

 

As fotonovelas fizeram a alegria de milhares de leitoras portuguesas nos anos que correram entre 1960 e 1980. Eram romances fotográficos que pareciam colocar a linguagem do cinema e da televisão em revistas de leitura fácil e envolvente, desempenhando o papel que as telenovelas tiveram de seguida. Supostamente de contornos realistas, pecavam pelo estatismo das fotografias, ao contrário da Banda Desenhada que, com os seus códigos gráficos, permite ao leitor compreender rapidamente a arte sequencial.


Agora, imaginem que um autor de BD resolve retomar alguns dos códigos narrativos das fotonovelas e criar um álbum de quase duzentas páginas (extras incluídos), ressuscitando o espírito nostálgico daquelas edições. Esse autor é Tomás Sousa e o livro é Mar de Rosas, recentemente publicado pela Penguin.


Vamos à história!


Era uma vez uma serviçal…


Celeste estava perdidamente apaixonada por Sebastião, o filho do patrão. Embora mantivesse em segredo o seu amor, a mera presença do rapaz era suficiente para alimentar de alegria os dias monótonos da jovem criada. Mas com o passar do tempo, Sebastião tornara-se desprendido e algo alheio do mundo que o rodeava, o que incluía Celeste.


Até que um dia surgiu a malfadada notícia que fez desmoronar todas as esperanças e ilusões da jovem. Sebastião anunciara o noivado com uma mulher misteriosa vinda de nenhures, a enigmática Rosalinda. Antes que fosse tarde demais, Celeste resolveu confessar o seu amor a Sebastião, mas, na verdade, parecia ser tarde demais.


Será que Celeste consegue seguir em frente e refazer a sua vida? E Sebastião, tomará o lugar do pai no império empresarial e conseguirá viver em harmonia com Rosalinda? E esta, que planos diabólicos teceu em volta de Sebastião e das suas irmãs?


Tomás Sousa é um jovem autor que tem em Mar de Rosas o seu primeiro álbum de Banda Desenhada. E começa com um projecto ambicioso já que reúne em si o papel de argumentista, de desenhador e de colorista. Deve dizer-se, no entanto, que não esteve sozinho, pois Mar de Rosas foi criado no âmbito do seu mestrado, orientado pela reconhecida e talentosa Joana Afonso.


Como o próprio autor disse no lançamento oficial da obra, esta parte da premissa da nostalgia. E embora as fotonovelas tenham terminado muito antes do nascimento do autor em 1998, Tomás Sousa viu nelas um meio de expressar a sua narrativa nostálgica. E este é, precisamente, o primeiro ponto a salientar da obra. A narrativa é muito bem construída e o texto cuidadosamente escrito, lançando no leitor um misto de nostalgia e de imersão num tempo que não se descortina imediatamente ser o do passado ou do nosso presente. Por algumas construções frásicas, hesitamos entre concluir que a trama decorre num Portugal pré-revolucionário ou num ambiente em que o formalismo de antigamente ainda dá cartas.


Seja como for, o dinamismo dos diálogos e o avanço rápido da intriga facilmente passam questões temporais para segundo plano. E este é o segundo elemento a salientar. A trama está muito bem urdida (ainda que de algum modo previsível) e os diálogos são credíveis, mesmo naqueles momentos em que parecem ser projectados pelas vozes mais clássicas do Teatro Nacional. E quando o são, é porque assim faz mais sentido para a narrativa. A escrita de Tomás Sousa é adequada a cada momento e não defrauda a expectativa do leitor. Também a utilização de múltiplos narradores não só contribui para o dinamismo já referido como também ajuda o leitor a acompanhar e melhor perceber o que move cada narrador/personagem (mais uma jogada inteligente do autor que assim melhor nos prende à leitura).


O terceiro elemento a destacar é o cuidado na construção dos personagens, sobretudo dos protagonistas. Cada um deles um verdadeiro e propositado estereótipo novelesco. Assim, temos Celeste, a serviçal apaixonada, a quem falta sofisticação e aprumo no penteado, e que é movida pelos melhores sentimentos. A sua alma é pura e a sua índole boa. Já Rosalinda é a personificação do mal, maquiavélica, de aspecto sofisticado, e para quem o fatalismo não existe ou não fosse ela própria o exemplo acabado da “femme fatale”. Sedutora, consegue ou acha que consegue trazer para si as situações mais propícias à custa do charme e da credulidade dos outros. E por fim há Sebastião, o menino rico, mas pouco ambicioso ou assertivo, a quem custa resolver até as situações mais fáceis. Um joguete nas mãos até daqueles que não gostam de jogar.


Assim, entre um maniqueísmo propositadamente assumido, a trama vai evoluindo para um desfecho que, curiosamente, acaba por ser proporcionado pelas personagens secundárias – opção interessante e original.


A entremear os vários capítulos, o autor criou momentos de respiração da narrativa nos quais nos apresenta rebuscados anúncios de época, supostos recortes de imprensa que esclarecem o passado de alguns personagens ou artigos ao estilo da conhecida revista Crónica Feminina, acrescentando um toque de humor ligeiro ao drama que se desenrola no corpo central da obra.


O certo é que tudo isto concorre para que Mar de Rosas seja um projecto bem conseguido no qual os elementos criadores de uma fotonovela se apropriam dos códigos da Banda Desenhada para darem origem a algo novo no panorama da Nona Arte portuguesa.


Mas devo dizer-vos, caros leitores, que o que mais me chamou a atenção foi a novidade do traço, pelo menos no que diz respeito à criação de BD nacional. Aparentemente simples e dinâmico, parece ir beber muito da sua inspiração às mais inspiradas criações de Bruce Timm, o autor americano de estilo minimalista e angular, grande responsável pelo magnífico Batman: The Animated Series e pela criação da famosa Harley Quinn em colaboração com Paul Dini.


O minimalismo de Tomás Sousa é bem visível nos cenários e até nos personagens. Estes representam bem a fusão do minimalismo de Timm com a linha clara de Hergé e, claro está, com o estilo próprio do autor. Mas este minimalismo não prejudica em nada a sua capacidade de carregar os seus personagens com as mais credíveis expressões faciais, elemento essencial para criar uma certa empatia com o leitor que gosta de perceber, no imediato, o que os protagonistas querem transmitir.


Também a planificação das pranchas é muito dinâmica, oscilando entre as 6 vinhetas e a imagem única, a chamada “splash page”. De igual modo contribui para uma leitura mais dinâmica a utilização de variados planos em picado e contrapicado, muitas vezes subtis. Aliás, o plano contrapicado utilizado na capa é bem prova disso.


Mostrando grande habilidade na colorização, Tomás Sousa opta pelas cores planas, fazendo delas um uso inteligente com uma progressão gradiente. Nesse sentido, particularmente bem conseguida é a cena nocturna em plena tempestade que decorre entre as páginas 122 e 129 nas quais o uso dos azuis impera quase em exclusivo.



Mar de Rosas é uma excelente estreia de Tomás Sousa nas longas de BD. E para isto contribuem tanto os seus inspirados dotes narrativos como o seu grafismo e o seu uso da cor tal como acima se explicou. A isto há que juntar a sua inventividade com os “textos de apoio” que introduz entre capítulos e um caderno generoso de extras com os bastidores da obra.


Por último, e embora todos os fios da trama sejam resolvidos, o fim parece ficar em aberto, o que deixa antever uma continuação. Talvez pegando naquilo que parece animar a perversidade de Rosalinda e que poderá torná-la ainda mais perversa – um simples batom!


Quanto a si, Tomás Sousa, espero continuar a vê-lo e a lê-lo nas próximas décadas.



Por Francisco Lyon.

 

 

sábado, 3 de outubro de 2026

Dormindo Entre Nomeações

Chegou Outubro. Último trimestre do ano e mês do AMADORA BD. Faltam menos de 15 dias para o maior festival nacional de banda desenhada acontecer, por isso, entre notas de lançamentos, vão aparecer aqui várias abordagens ao evento. E começo já, porque entretanto foram divulgados os nomeados aos Prémios de Banda Desenhada da Amadora (PBDA), e o resultado não dignifica nem os prémios, nem o festival, nem a BD nacional. E apetece-me escrever sobre isso.

Começo pelo que já tinha criticado por aqui: a nomeação, para MELHOR OBRA DE BANDA DESENHADA DE AUTOR PORTUGUÊS (a categoria mais importante dos prémios), de obras editadas originalmente no estrangeiro. Já aconteceu no passado, voltou a acontecer no Prémio Nacional de Banda Desenhada da DGLAB e agora repete-se. Sabemos que o novo regulamento não acautelou o óbvio, mas contava-se com o bom senso do júri para destacar o que melhor se faz e edita em Portugal. Uma coisa à moda da campanha "100% PORTUGUÊS". Mas temos um  júri que preferiu aquela máxima "se já se fez mal, faz-se mal outra vez", e ainda com agravante: não nomeou uma, mas duas obras de origem estrangeira. Uma saiu primeiro no mercado brasileiro (Dormindo entre Cadáveres), outra no americano (Rare Flavours, que até manteve o título em inglês). O ponto em comum? Ambas contam com a participação de um autor português. O caricato é que - pode acontecer mas não vai acontecer - se a obra brasileira vencer (e para a DGLAB é a Obra do Ano), no próximo Amadora BD podíamos muito bem ter a imagem do maior festival nacional assinada por um artista brasileiro!!!! É tudo o que se pretendia com os PBDA, certo?

Convém ainda realçar que Rare Flavours tem dupla nomeação: MELHOR OBRA DE BANDA DESENHADA DE AUTOR PORTUGUÊS e MELHOR EDIÇÃO PORTUGUESA DE BD. O aceitável seria concorrer a MELHOR OBRA ESTRANGEIRA DE BD EDITADA EM PORTUGAL. Mas isso seria pedir demasiado.

Depois vem a questão da representatividade, ou melhor, a falta dela. As obras de origem asiática rondam os 35% da oferta no mercado nacional. Não se pode, nem se deve, ignorar este peso. E, no entanto, olhamos para as nomeações e não há uma única a merecer lugar em MELHOR OBRA ESTRANGEIRA ou sequer em MELHOR EDIÇÃO. Lembro que, no período elegível, saíram títulos de qualidade como Showa – História do Japão, Monster, Akira ou As linhas que traçam o meu corpo, que mereciam, no mínimo, outra atenção.

E por fim, a cereja no topo do bolo: o PRÉMIO REVELAÇÃO. O júri foi incapaz de distinguir um livro ilustrado de um livro de banda desenhada e nomeou Wandson Lisboa pelo seu primeiro livro, O Cão Invisível, uma obra dirigida ao público infanto-juvenil. Desconheço os critérios, mas aqui entramos no domínio do incompreensível. No livro ilustrado, a narrativa assenta sobretudo no texto e a ilustração acompanha, o que é o caso; na banda desenhada, a narrativa assenta na sequência gráfica e o texto acompanha. Parece simples, mas há quem continue a fazer confusão. E, para mal dos PBDA, esse alguém é o júri! Confesso que gostaria fosse tornada pública a acta das reunião das nomeações!

Em resumo, teremos aqui mais uma edição de prémios que não ficará para a história pelos melhores motivos. Mas também é verdade que estes prémios perderam a sua credibilidade há algum tempo e, a continuar assim, dificilmente voltarão a servir de referência para o melhor que se faz e edita em Portugal. 

Para memória futura, fica o trabalho do júri:

NOMEADO - MELHOR OBRA ESTRANGEIRA DE BD EDITADA EM PORTUGAL

● Soli Deo Gloria, de Jean-Christophe Deveney e Edouard Cour, editado pela Ala dos Livros
● Ulysse & Cyrano, de S. Servain e Xavier Dorisson, editado pela Asa/Leya
● Blast - Tomo 1/2, de Manu Larcenet, editado pela Ala dos Livros
● A Fera vol. 2, de Zidrou e Frank Pé, editado pel’A Seita
● Os Trabalhadores do Mar, de Michel Durand, editado pel’A Seita

NOMEADO - PRÉMIO REVELAÇÃO

● A Cada Sete Ondas, de Beatriz Brajal, editado pela Chilli com Carne
● Canalha Borrada, de Zé Lázaro Lourenço, editado pel’A Seita
● Manda msg quando chegares, de R.G.B, editado pela Iguana/Penguin Random House
● A Solidão do Ser, de Helena Sá, editado pel’A Seita
● O cão invisível, de Wandson Lisboa, editado pela Iguana/Penguin Random House

NOMEADO - MELHOR FANZINE OU PUBLICAÇÃO INDEPENDENTE

● Palácio #5, de Francisco Sousa Lobo, edição de autor.
● Alzine #3, de Filomena Fidalgo, Guido Barsi, Nicolas Viñolo, Fil, Hugo Teixeira, Joana Mariano, Luís Sousa, Vasco Lopes, Pedro N, Miguel Santos, Rodrigo Leme, André Vieira, Rita Torres, Marta Vicente, Marcelo Degrazia, João Gordinho, Samir Karimo, José Bandeira, Lança Guerreiro, Graziela Nascimento, Marco Fraga da Silva, Sérgio Santos, Manuel Monteiro, Sandro Leonardo, Keven Rocha, Amanda Bezerra, R Lourenço, Bruna Rodrigues, Mário André, João Gil, Sofia Santos, Sara Pires, Filipe Duarte, Sofia Bernardes, Beny-Draws, Phermad, Luciano Ferreira, José Mendes, Miguel Sánchez, Ana Mota, Rafael Sanzio, Henry Diaz, Hugo Maciel, editado pela Associação Tentáculo
● Augusto Trigo: “O menino que rabiscava paredes” e “Na pista de um Sonho”, de José Baptista, Augusto Trigo e Jorge Magalhães, editado pela Câmara Municipal de Moura
● Fanzine Poesia BD nº14 – A avó Florinda e o avô que bebia cachaça, de António Tavares e Paulo Diogo, Edição de Autor

NOMEADO - MELHOR OBRA DE BANDA DESENHADA DE AUTOR PORTUGUÊS

● Caderno de Memórias Coloniais, de Isabela Figueiredo e Júlia Barata, editado pela Leya/Caminho
● Rare Flavours, de Filipe Andrade e Ram V, editado pela Kingpin Books
● Dormindo Entre Cadáveres, de Luís Moreira Gonçalves e Felipe Parucci, editado pela Zigurate
● O progresso da humanidade, de João Sequeira e Rui Cardoso Martins editado pela Polvo
● Atrahasis, de David Soares e Sónia Oliveira, editado pela Kingpin Books

NOMEADO - MELHOR EDIÇÃO PORTUGUESA DE BD

● A Fera vol. 2, de Zidrou e Frank Pé, editado pel’A Seita
● O grande poder do Chninkel, de Van Hamme e Rosinsky, editado pela Arte de Autor
● Os Trabalhadores do Mar, de Michel Durand, editado pel’A Seita
● Rare Flavours, de Filipe Andrade e Ram V, editado pela Kingpin Books
● Shi - Livro 2, de Zidrou e Joseph Homs, editado pela Ala dos Livros