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domingo, 13 de setembro de 2026

Deus e a Bala

  Wild West, volume 5

 

Para todos aqueles que gostam de westerns, actualmente há duas séries de banda desenhada incontornáveis: Undertaker e Wild West.


Para todos aqueles que gostam de uma BD com uma boa história e bem desenhada, actualmente há duas séries a ter em consideração: Wild West e Undertaker.


A maior diferença entre as duas, para além da arte, é o facto de Wild West ter uma abordagem mais clássica ao género, mas nem por isso ultrapassada.


Curiosamente, as duas séries são publicadas em Portugal pela Ala dos Livros e estão a par com as edições francesas.

 

Mas o que nos interessa agora é Redenção, o quinto volume de Wild West que abre um novo díptico e nos traz mais um personagem lendário do Velho Oeste, como veremos mais adiante. Aliás, esta é uma das “imagens de marca” da série: a história da conquista do Oeste Selvagem através da história das suas figuras lendárias, desconstruindo esse estatuto de lendas, tal como nos habituaram Thierry Gloris (argumento) e Jacques Lamontagne (desenho).

 

Antes de mais…


Vamos à história!

 

A locomotiva avança a todo o vapor pela região montanhosa da Califórnia. Subitamente, a linha está bloqueada por troncos de árvores. Para que não haja dúvidas, o bando de foras-da-lei dispara várias vezes para o ar anunciando o assalto. Entre os assaltantes, uma mulher parece liderar o ataque. Dentro da carruagem de passageiros, ela abate o único que lhe resiste. Na carruagem forte, assassinam todos os ocupantes e levam o conteúdo do cofre. Depois de dividirem o resultado do saque, combinam encontrar-se dali a seis meses para um novo assalto.



Meio ano depois. Dolores City, entre a Califórnia e o Nevada. A pequena cidade poeirenta vive ao ritmo da mina de bórax, dos seus mineiros, dos homens de família e de negócios e do imponente pastor de almas. Disso e dos cada vez mais frequentes episódios escandalosos da menina Calamidade, ou melhor dizendo, de Calamity Jane. Fúrias imprevisíveis, humor irrascível e embriaguez crónica afogam os seus velhos tormentos, enquanto os bons homens da cidade pedem ao xerife que faça algo. Naquela manhã é vê-la a dormir na pocilga a céu aberto, por entre porcos e perante as senhoras de sociedade que a observam chocadas. Juntamente com o seu ajudante, o xerife Bill Hickok vai buscar a sua amiga Jane à pocilga, sabendo de antemão que é mais fácil fazer reinar a ordem na cidade do que manter Calamidade nos eixos. Nem Charlie Utter, o seu amigo comum, consegue fazê-lo.

 


Entretanto, nos arrabaldes de Dolores, a intrigante família Ballou acaba de comprar o velho e isolado rancho W. Com eles trazem dez cabeças de gado, rostos carrancudos e explicações pouco convincentes. A intuição de Hickok coloca-o em alerta. Aproxima-se uma tempestade. E das grandes…



Com Redenção inicia-se o terceiro díptico de Wild West, a série criada por Gloris e Lamontagne. E, mais uma vez, Gloris consegue dar-nos um retrato apurado do Velho Oeste e daquele momento na história dos EUA em que a “civilização” começa a chegar aos lugares mais recônditos da jovem nação. E fá-lo através das vidas de Wild Bill Hickok, Calamity Jane e Charlie Utter, figuras lendárias do Faroeste que são aqui tratadas de forma bem mais interessante e prosaica.


Uma das grandes diferenças deste volume em relação aos anteriores é o facto de irmos encontrar estes três protagonistas cristalizados nas suas rotinas em Dolores City. Hickok usa na lapela a estrela de xerife e leva a vida de casado como um homem respeitável, mas entediado. Charlie Utter entrega o correio e Calamity Jane bebe até ao esquecimento e incompatibiliza-se com toda a cidade. Aliás, ao contrário do que se passou anteriormente, Jane tem um papel muito reduzido neste volume.


No primeiro terço da obra, Gloris parece levar-nos por um percurso narrativo inconsequente. Uma ida ao dentista, uma partida de cartas, o final de um dia de aulas na escola, um jantar formal em casa dos Coleman, são alguns dos momentos que parecem querer mostrar-nos que tudo vai bem em Dolores City. Mas Gloris consegue instalar no leitor uma espécie de dúvida sistemática que leva à percepção quase inconsciente de uma tensão crescente.



Ao mesmo tempo, este ambiente aparentemente morno permite ao autor construir um Bill Hickok mais denso, desenvolvendo os estados de alma do personagem enredado nos seus deveres conjugais. Já quanto a Calamity Jane, quase não a reconhecemos. Irrascível, descontrolada, personagem desagradável, parece ter apenas as boas graças de Charlie Utter. Mas percebemos como chegou a este estado pois, embora vão longe os tempos em que trabalhou numa casa de prostitutas, casou com um índio e viveu na sua tribo e perseguiu Hickok por ter morto o seu marido, tudo isto se acumulou nela e a transformou.


Mas assim que a narrativa estabelece as suas bases, estes aparentes tempos mortos desaparecem e dão lugar a uma trama corrida e violenta, na qual todos têm um passado perturbado. Um passado oculto num Oeste americano que permite a todos reinventarem-se e criarem novas vidas… até que os fantasmas pretéritos ressurjam do nada. E temos assim a importância do título deste volume – Redenção.


Gloris é um escritor experiente e sabe não só criar situações de suspense como implantar na trama uma tensão crescente que, neste caso, provavelmente acabará com o troar do Smith & Wesson de Bill Hickok. Neste burgo onde a vida só é perturbada pelos excessos de Jane e no qual os fora-da-lei se mantêm distantes do nosso xerife, o poder acaba por ser partilhado pelo homem da lei e pelo homem da fé, o pastor Jérémiah Henderson.


 

A escolha narrativa de centrar a trama em Wild Bill Hickok não é inocente e encerra o propósito maior (quanto a mim) deste volume. A figura da lei em luta, não apenas contra o crime, mas contra os dogmas de uma comunidade dominada pela fé. Num Faroeste carregado de contradições, a justiça dos homens confronta-se com a de Deus. E a palavra Dele é invariavelmente substituída pelo verbo da bala. Os tiros e os sermões inflamados parecem estar ao mesmo nível, exercendo de forma igualmente eficaz o julgamento dos outros. E é isto que Gloris nos quer mostrar, uma América de pioneiros, de aventureiros, de desbravadores, a maior parte deles consumidos por certezas morais, onde a fé tantas vezes se torna mais opressiva que a lei.


A narrativa estabelece-se assim com tensão e densidade. Mas há que arranjar um catalisador que a acelere e encontramo-lo na chegada da família Ballou a Dolores City, encabeçada pela bela Catherine. E para os menos atentos, este é o momento de Gloris acrescentar à galeria de figuras lendárias de Wild West a de Belle Starr, a conhecida fora-da-lei amplamente divulgada pelas Dime Novels da época e imortalizada por Morris numa das aventuras de Lucky Luke. De igual modo, ficamos a conhecer o dentista tuberculoso de Hickok, o também lendário Doc Holliday, sobretudo famoso pela sua participação ao lado de Wyatt Earp no tiroteio de OK Corral.


Por fim, a “embrulhar tudo”, temos ainda a enorme tensão entre os cidadãos de Dolores City e a comunidade chinesa de mineiros, acusados de roubar o emprego aos americanos. O quinto volume de Wild West é um autêntico barril de pólvora.



Quanto à arte, Jacques Lamontagne parece estar no seu pico artístico. O seu estilo único, realista, com um traço meticuloso, é o garante da completa imersão do leitor num Oeste rude e porco, no qual, de igual modo, mulheres e homens cheiram mal; a poeira raramente assenta nas ruas, excepto quando estas estão submersas em lama; e o duro dos duros pode morrer com uma infecção num dente. O Faroeste de Lamontagne é sujo e tangível, inclemente e credível.

E para isso contribui, e muito, a sua atenção aos pormenores e as muitas pesquisas que faz antes de pôr os pincéis e lápis a trabalhar. Quando Lamontagne desenha o interior de um saloon, uma rua do bairro chinês ou um simples Colt, o leitor acredita no que está a ver e prossegue como se lá estivesse. Esta atenção dada ao detalhe inibe-o, a maior parte das vezes, de preencher os fundos das vinhetas com uma simples cor plana. Os detalhes em Lamontagne são como uma epidemia que se propaga dos primeiros para os segundos e terceiros planos. Reparem na imagem que se segue e como os pormenores se estendem até para lá da porta do saloon.



Para além disso, o artista tem um sentido muito apurado no que diz respeito aos enquadramentos e à encenação. A narrativa visual, por isso, nunca é monótona e serve na perfeição à constante tensão dramática da trama. Por si só, cada vinheta é composta como se de um quadro se tratasse, sempre com uma profundidade extraordinária. E se lhes juntarmos um sentido cinematográfico de montagem, facilmente conseguimos imaginar o “filme das coisas” a desenrolar-se diante o nosso olhar com um grande dinamismo.

Como artista completo que é, Lamontagne aplica a cor aos seus desenhos. E fá-lo com grande mestria. O bailado entre luz e sombra é perfeito, criando contrastes que dão grande realismo ao desenho. A colorização é ligeiramente dessaturada e subtil, acentuando o equilíbrio frágil entre a beleza e o desespero, o quotidiano fastidioso e o momento opressivo ou de tensão.



Redenção, o quinto volume de Wild West, é uma nova pérola nesta série, confirmando a riqueza narratia de Thierry Gloris e o génio artístico de Jacques Lamontagne.


Uma história que se desenrola num ambiente pesado, evitando os clichés a que Hollywood nos habituou nos seus westerns ou as imagens românticas propagadas pelas dime novels dos finais do século XIX e princípios do século XX e que são responsáveis pelas ideias lendárias e erradas que temos de grande parte dos protagonistas da história do Velho Oeste.


De novo, a pretexto de nos contarem a história de Bill Hickok, Calamity Jane e Charlie Utter, Gloris e Lamontagne pintam um fresco monumental sobre a história do Oeste Longínquo e dos homens e mulheres que o foram desbravando a grande custo, tantas vezes pagando com a própria vida. E se a leitura de cada volume nos embrenha profundamente na vida dos protagonistas e dos seus secundários, a leitura completa e sucessiva de toda a série, feita num mesmo momento, dar-nos-á a grandiosidade desse fresco.

 

EXTRAS


Os retratos reais dos protagonistas de Wild West (II):

 

Belle Starr

 


 

Doc Holliday e “Belle Starr jumping bail” (ilustração do National Police Gazette de 22 de maio de 1886)

 



Por Francisco Lyon


sexta-feira, 11 de setembro de 2026

A biografia gráfica de Pier Paolo Pasolini

Hoje nas bancas o novo e nono volume da colecção Novela Gráfica IX da Levoir, traz-nos a biografia gráfica do poeta, cineasta, ensaísta Pier Paolo Pasolin, na obra O ANJO PASOLINI, assinado pela mesma dupla de autor, Arnaud Delalande e Eric Liberge, que também assumiram a biografia do matemático Alan Turing, em O Caso Alan Turing

Misturando factos reais com elementos simbólicos e oníricos, esta obra procura reflectir sobre os diferentes aspectos da personalidade de Pasolini e sobre o papel do artista transgressor numa sociedade italiana profundamente marcada pelo peso do catolicismo. 

Pasolini foi poeta, cineasta, ensaísta, marxista, homossexual assumido num país católico e moralista. Figura incómoda e lúcida que expôs as contradições da modernidade. Criticou de forma implacável o consumismo, a burguesia italiana, a modernização homogeneizadora e a falsa esquerda, usando a sua poesia, romances e ensaios para denunciar a destruição cultural e antropológica da sociedade italiana pelo capitalismo. Nos últimos anos de vida, Pasolini era considerado um sujeito perigoso. As suas ideias iam longe demais. Ele falava demais. Escrevia artigos que denunciavam a corrupção do Estado, o pacto silencioso entre os Poderes, os media, a indústria e o crime organizado. Em Novembro de 1975 foi atraído para uma emboscada numa praia de Ostia, onde foi agredido e assassinado por desconhecidos. Agonizando naquela terra de ninguém, o mais piedoso de todos os blasfemos vê o seu anjo a aparecer. 

Ficha técnica:
O Anjo Pasolini
De Arnaud Delalande e Eric Liberge 
Colecção Novela Gráfica IX – vol. 09
Capa dura, formato 195x270, cores, 112 páginas.
PVP: € 16,90
Edição LEVOIR 

quinta-feira, 10 de setembro de 2026

Beatlemania em BD!

Chegou esta semana às livrarias o quarteto de quem John Lennon afirmou um dia serem “mais populares que Jesus Cristo”. Apesar da sua curta existência, apenas dez anos enquanto banda e uma dúzia de álbuns gravados, a verdade é que THE BEATLES se tornaram no grupo de música pop mais popular e influente de sempre. A editora ASA oferece-nos agora uma perspetiva diferente com THE BEATLES EM BD, a aposta num revivalismo que nunca passou de moda. 
 
Pode-se dizer que temos aqui um livro híbrido, que junta texto, fotografia e banda desenhada. Uma espécie de BD documental. São mais de 200 páginas que percorrem a história completa da banda, desde que quatro jovens se juntaram em Liverpool até a sua separação em 1969. 
 
Organizada por capítulos, a obra passa revista a vários momentos específicos e reveladores, recordando desde o homem que recusou os Beatles até ao boato sobre a morte do Paul, passando pela digressão americana até à viagem à Índia. Tudo suportado em pequenos textos e fotos, que depois são ilustrados em banda desenhada por diferentes autores.
 
Dos Quarrymen à separação, passando pela loucura da Beatlemania, a história dos Fab Four ganha aqui uma nova perspetiva. Para leitura de quem é curioso por este fenómeno, e que queira conhecer a uma parte importante da cultura pop do século XX contada de forma diferente e envolvente, e obrigatório para quem Hey Jude é ainda um hino!
 
Ficha técnica:
The Beatles em BD
Diversos autores
Capa dura, 253x208, cores, 232 páginas.
ISBN: 9789892369068
PVP: € 28,90   |    Editor Edições ASA

quarta-feira, 9 de setembro de 2026

O segundo volume integral de Tintin

Nos escaparates das livrarias temos já disponível a segunda leva de aventuras de TINTIN agora reunidas em versão integral numa nova edição da ASA. Diria que se trata da edição definitiva. Uma colecção de seis volumes, de capa dura, com todas as histórias imaginadas por Hergé, respeitando a sua ordem cronológica. 

Ainda que não seja propriamente uma novidade, Tintin é daquelas personagens que ainda desperta uma certa nostalgia, e isso pude observar recentemente aquando do lançamento da primeira aventura de Tintin traduzida para mirandês - Ls Xaruros de L Farao - perante uma sala cheia no Panteão nacional em Março último. 

Este segundo integral reúne os seguintes títulos: Os Charutos do Faraó (1934), O Lótus Azul (1936), A Orelha Quebrada (1937), A Ilha Negra (1938). 

Para nostálgicos. 

Ficha técnica: 
As Aventuras de Tintin - Integral 2
De Hergé
Capa dura, 267 x 219, cores, 304 páginas.
ISBN: 9789892368542
PVP: € 32,90
Editor: Edições ASA

terça-feira, 8 de setembro de 2026

Um segundo integral para fechar Blast!

O poeta quase que poderia ter escrito quando editor sonha, a obra nasce! Quando entrou o novo ano, a editora ALA DOS LIVROS fez o se julgava impossível: trouxe BLAST para o mercado nacional! Um livro com mais de 800 páginas de uma história dura, sombria e estranhamente humana, de um autor, Manu Larcenet, a quem já tínhamos ficado rendidos em obras como A Estrada e, sobretudo eu, com O Relatório de Brodeck

Mas Blast é um outro campeonato, a começar logo pelo número de páginas. A opção foi elegante: os quatro álbuns originais foram divididos em duas partes. Se o primeiro volume do integral teve a sua publicação em Janeiro, agora em Setembro chega-nos a segunda e conclusiva parte da viagem de um homem cativante. São mais 400 páginas que fecham uma das edições do ano, aposta orgulhosa da editora, e que os leitores de grandes obras naturalmente agradecem! 

BLAST
Polza Mancini, ainda sob custódia policial após a morte de uma jovem, relata as suas memórias na busca desesperada pelo Blast, "a explosão" - aqueles momentos mágicos que o transportam para outro lugar -, bem como as suas estadias em hospitais psiquiátricos, os seus terrores e pesadelos... 
 
Ficha técnica: 
BLAST - Integral 2/2 
Argumento e desenho de Manu Larcenet
Cartonado, dimensões 225 x 280, cores, 408 páginas.
ISBN: 9789899108967
PVP: € 49,90
Editor ALA DOS LIVROS 

segunda-feira, 7 de setembro de 2026

Há um Mar de Rosas esta semana nas livrarias!

Numa semana particularmente rica em novidades, começo por uma estreia que merece atenção, pois temos aqui a primeira obra de um novo autor português. Chega-nos com o selo da PENGUIN, editora que tem servido de rampa de lançamento para novos nomes da banda desenhada nacional, habitualmente através da sua chancela Iguana. Ao seu catálogo junta-se agora Tomás Sousa

MAR DE ROSAS é seu primeiro livro, onde assume responsabilidade integral pelo argumento e pelo desenho. A proposta de leitura inspira-se nas antigas fotonovelas - o título é perfeito - agora em versão gráfica, com todos os seus ingredientes dramáticos, de amores e desamores, ciúmes e traições. Sem conhecer ainda o livro, que tem o seu lançamento oficial amanhã, devo acrescentar que, à primeira vista, o traço ágil de linhas elegantes que é apresentado nestas páginas cativa-me. 

MAR DE ROSAS
Numa família abastada prestes a enfrentar o caos, Rosalinda fará tudo para casar com Sebastião e garantir a herança — até afastar Celeste, a jovem apaixonada por ele. Quando o patriarca morre e o casamento ameaça ruir, intrigas, chantagem e ambições desmedidas rebentam à superfície. Entre uma irmã determinada a proteger o legado, outra dividida entre o mundo e o convento, e um advogado cúmplice que acaba por recuar, a teia de Rosalinda implode. Presa e traída, jura regressar… mas até os cúmplices têm limites.
 
Ficha técnica:
Mar de Rosas
De Tomás Sousa
Capa mole, dimensões 171x239, cores, 192 páginas. 
ISBN 9789895893362
PVP: € 20,45
Chancela PENGUIN
 

domingo, 6 de setembro de 2026

Ah! Isto é um Homs!

 

O Diabo e a Coral


 

Diz-nos a Bíblia que o Diabo é a mais pura personificação do mal. O querubim responsável pela Guarda Celestial, expulso dos Céus por ter incitado um grupo de anjos a rebelarem-se contra Deus de modo a roubar-Lhe o trono e guardar para si a glória do Criador.


Expulso então, tornou-se no anjo caído, na criatura dos mil nomes, o grande caluniador e apartador de homens, o tentador, o que espalha a mentira e o maior inimigo de Deus. Segundo a tradição judaico-cristã, é um anjo-querubim da mais alta hierarquia, de uma enorme beleza, sabedoria e clarividência, a perfeição personificada.


Independentemente dos ensinamentos bíblicos, as gentes atribuíram-lhe ao longo dos séculos uma tez vermelha, feições humanas, mas monstruosas, chifres e uma cauda pontiaguda.


O seu reino, em oposição ao de Deus, é o Inferno, o sítio das mil agonias que acolhe as almas pecadoras que serão torturadas por toda a Eternidade. E a eternidade é precisamente o tempo que ele e a sua horda de demónios de vários estratos vão levar a combater Deus, naquela que é a guerra eterna.


Agora, imaginem que o Diabo está preso na Terra, imaginem que não consegue regressar ao Inferno, imaginem que está a enfraquecer e que a única maneira de se salvar é com a ajuda de Coral, uma rapariga não muito inocente. Se imaginarem tal cenário, chegarão à premissa que vos franqueia os portões para entrarem no romance gráfico de José Homs (sim, o de Shi!) que a Ala dos Livros acaba de publicar em Portugal.


Vamos à história!

 

Praga, 1938.

 

Estamos na alvorada da Segunda Guerra Mundial. O Acordo de Munique entrega as regiões fronteiriças dos Sudetos à Alemanha de Hitler. A Checoslováquia é isolada e destituída dos seus bens mais valiosos. Meses depois, o Inferno sobe ao mundo dos homens.


Mas antes de isso acontecer, vive-se em Praga um clima de inquietude. E ainda mais no seio da comunidade judaica que sente em Hitler uma ameaça séria. O führer desfila em triunfo nas ruas da capital checa, mas a maioria vê-o como a personificação do diabo.



No entanto, para Coral, jovem judia de dezanove anos, o Diabo, o verdadeiro, está a seu lado e tenta-a desde tenra idade. Ninguém o consegue ver, excepto ela, como se de um amigo imaginário se tratasse. Mas ele é bem real e está na vida dela devido às acções do rabino Gershon Loew, pai da Coral. Desde a infância que ela, manipulada pelo “Enxofre” (o nome que dá a Satanás), acredita que o pai é uma pessoa horrível quando, na verdade, é o maior adversário do Príncipe das Mentiras. Ou melhor dizendo, era, pois agora jaz inerte numa cadeira de rodas, após um exorcismo mal-sucedido.


Afinal, o que liga tão intimamente o Diabo e a Coral? Qual o terrível segredo por detrás desta ligação misteriosa? Porque tenta ele corrompê-la e roubar-lhe a alma de forma quase obsessiva? E porque é que Lúcifer se passeia incessantemente pelas ruas de Praga? Qual a fronteira entre o bem e o mal? Ou será que são ambos faces diferentes da mesma moeda?


 

O Diabo e a Coral é a primeira obra em que José Homs é responsável tanto pelo argumento como pelo desenho. Já o conhecemos como desenhador da magnífica série Shi, mas nessa o argumentista foi o inimitável Zidrou. Homs arrisca agora a sua enorme reputação enveredando também pela escrita. E devo dizê-lo que o faz de uma maneira inteligente.

 

A narrativa tem o mérito de se fazer a dois tempos, independentemente dos flashbacks. Um é o tempo do Diabo e da jovem Coral, os momentos que vão pautando a sua relação e que vão adicionando à trama uma aura de mistério. O outro tempo é aquele que mistura realidade e ficção e que permite ao leitor o seu momento de reflexão – é o tempo em que o Diabo anda à solta pelas ruas de Praga e sussurra aos ouvidos de Hitler tudo aquilo que este levará a cabo ao longo da Segunda Guerra Mundial. No entanto, sabemos que num tempo e no outro o Diabo só é visto por Coral. Tudo o resto são sopros maléficos que ele lança aos ouvidos dos incautos.


O tema é vetusto – o Bem contra o Mal. Também secular é a ideia do pacto com o Diabo, popularizada por Goethe no seu Fausto. Mas Homs acrescenta-lhes dois pontos da máxima importância. O primeiro é o facto da protagonista ter plena consciência de estar a lidar com o Príncipe das Trevas, o Rei das Mentiras e de, ela própria, não ser uma alma inocente, percorrendo inúmeras vezes a linha ténue que a poderá fazer descer ao Inferno. O outro ponto é o ódio e a intolerância que se instalam na Europa nas vésperas de uma nova guerra e que têm como centro da tempestade Hitler, guiado pelo próprio Diabo. Lúcifer, não podendo regressar ao Inferno, não sabemos ainda porquê, dedica-se a atormentar Coral e a aconselhar Hitler.


Como sub-enredo, Homs ressuscita a conhecida lenda do século XVI do Golem do Maharal de Praga como defensor da comunidade judaica e antepassado do rabino Loew, pai da Coral.

 


Mais importante que Hitler, mais importante que o rabino Loew, que o Golem ou até que o próprio Diabo, é Coral. A jovem judia de espírito livre, única capaz de ver o “Enxofre” é a chave de todo o mistério. Mas nem ela tem a noção disso. Limita-se a manter aquela estranha relação com o Diabo, na qual ambos têm de usar estratagemas e engenho para escaparem ao sortilégio que os liga.


Em termos narrativos, Homs vai temperando a trama com interrogações que são, elas próprias, um motor da leitura. Qual o segredo que liga o Diabo à Coral de forma tão misteriosa? E o que terá a haver com isso o rabino Loew, o pai da Coral, também ele envolto num passado misterioso? E porquê esse interesse obsessivo do Diabo por Coral?


A pouco e pouco, a trama intrincada vai-se desnovelando, e os vários personagens ganham dimensão e ocupam solidamente o seu lugar na narrativa. Esta é, no entanto, e sempre, dominada pelo Diabo e pela Coral.



Romance gráfico que mistura com mestria elementos históricos, esoterismo (feitiçaria, alquimia), lendas seculares da velha Europa e o folclore checo, O Diabo e a Coral é também pautado pelo humor, quase exclusivamente no que respeita à relação entre os dois protagonistas. Um humor necessário, tendo em conta a natureza da jovem judia e do seu “Enxofre”. Negro, irónico e sarcástico, surge naturalmente nos diálogos entre ambos e enriquece a sua relação, tornando-a mais íntima. Por outro lado, destabiliza o leitor, que se sente perante uma obra sombria. E isso é bom!


Por fim, as várias referências históricas e folclóricas que encontramos na obra, ao contrário de a diluírem, solidificam-na. Para aqueles leitores com conhecimentos mais diversificados, é sempre interessante encontrar num livro de ficção referências reais que em algum momento da sua vida os enriqueceram culturalmente. No caso presente destaco uma das lendas associadas à construção da Ponte Carlos (a mais famosa de Praga) e o mito do Golem do Maharal de Praga.


 

Visualmente, O Diabo e a Coral é uma verdadeira joia. O traço elegante e preciso de José Homs, aliado a uma colorização harmoniosa e de grande qualidade, revelam-nos mais uma vez o seu grande talento. O seu estilo é daqueles que, como se diz, tem assinatura e nos faz exclamar “Ah! Isto é um Homs!”


Mas, como já tive oportunidade de dizer várias vezes, não basta a um desenhador desenhar bem. É essencial que a sua cultura artística seja acompanhada por uma forte cultura geral. Só assim é possível recriar Praga dos anos de 1930 com autenticidade, graças aos cenários detalhados e precisos, indumentárias, veículos e outros quejandos. E o mesmo se passa com Praga do século XIV, evocada na cena da construção da Ponte Carlos.


Tecnicamente, a variação entre grandes planos e planos gerais, entre cenas mais sombrias e outras mais luminosas, mostram bem a sapiência narrativa do autor que, visualmente, não dá descanso ao leitor. Para além disso, a planificação dinâmica, por vezes com belas ilustrações de página inteira, contribui para uma narrativa visual veloz e muito bela.


Mas para se atingir o estatuto de desenhador fora de série – algo que Homs já alcançou – é preciso também inventividade e grande imaginação. Estas características estão magnificamente demonstradas na sua interpretação do Inferno. Ainda que aqui e ali se possam reconhecer diversas influências de pintores renascentistas e posteriores, a sua representação dantesca do reino do Diabo é extremamente pessoal. Os inúmeros demónios e seres que por lá pululam formam uma galeria de pesadelo digna de uma mente deveras inventiva.

 


Há ainda que referir as interessantes referências cinematográficas (e literárias) a filmes de terror que o talento de Homs transforma em suas. Desde logo, a lenda do Golem e as suas múltiplas adaptações ao grande ecrã, datando a primeira de 1915 e a mais recente de 2023. Mas também o ambiente circense captado em Freaks, o filme de 1932 realizado por Tod Browning. No entanto, aquela que mais importa para a trama de Homs é aquela que nos lança no mundo aterrorizante d’O Exorcista, o filme de 1973 realizado por William Friedkin e escrito por William Peter Blatty. Deste até nos brinda com a icónica imagem do padre Merrin diante da casa amaldiçoada, padre substituído aqui pelo pai da Coral, o rabino Loew.



Para concluir, O Diabo e a Coral dá-nos a conhecer um novo argumentista que conhecíamos como reconhecido ilustrador, dividindo-se agora o seu talento pelas duas artes.


Um enredo muito interessante, pleno de mistério, com uma narrativa dinâmica contada em duas dimensões e enriquecida por referências históricas, folclóricas e esotéricas. No fim, como nos é mostrado, um recontar da fábula do sapo e do escorpião.


Uma arte que nos enche as medidas pelo traço, pela encenação, pelas cores e pela criatividade.


Não resisto sem rematar dizendo que o todo é diabolicamente eficaz.

 

Por Francisco Lyon.