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domingo, 1 de março de 2026

A leitura de Duas Raprigas Nuas

DUAS RAPARIGAS NUAS
 
Uma das primeiras belas leituras de 2026 é também um dos primeiros lançamentos do ano pela editora ASA. Temos uma história de um quadro real que sobreviveu ao regime nazi durante a Segunda Guerra Mundial. Dito simplesmente assim é talvez demasiado redutor, porque estamos aqui perante uma obra que é, na verdade, muito mais do que isso e não é menos que magnifica. 
 
Neste álbum, o francês Luz dá vida à trajetória de uma pintura que, por força das circunstâncias, se torna uma testemunha silenciosa de um dos períodos mais sombrios da história europeia do século XX. Oferece-nos um exercício narrativo e, sobretudo, visual absolutamente singular. O olhar do autor coloca-nos, a nós leitores, dentro do quadro, e torna-nos cúmplices de um jogo de olhares: observamos e somos observados. Involuntariamente assumimo-nos como a figura central desta história feita de pequenos episódios, ricos em detalhes, fragmentos de memória que atravessam o tempo. 
 
Acompanhamos o percurso daquela que começou apenas como uma expressão artística de Otto Mueller e que, com o desenrolar dos acontecimentos, passa por diversas mãos e destinos. Durante os “anos negros”, a arte revela-se impotente perante a espoliação, a violência e a destruição - as imagens como as colunas de fumo que saem das torres são sintomáticas. Mas Luz não se resigna: mostra também a arte como peça de resistência, sobrevivência e, acima de tudo, de memória viva. O quadro retratado, Zwei weibliche Halbakte, encontra hoje um lugar seguro no Museu Ludwig, em Colónia, e a sua presença ali ecoa esse percurso de resistência. 
 
O registo gráfico de Luz é marcado por um traço nervoso e expressivo, com caricaturas subtis que acentuam gestos e posturas, e que conferem dinamismo e emoção à leitura. A narrativa visual prende-nos pela curiosidade desde as primeiras pinceladas na primeira página, e avança num belo equilíbrio entre intensidade e elegância. 
 
Esta edição portuguesa de Duas Raparigas Nuas vem ainda enriquecida com um notável dossier documental: inclui um posfácio assinado pela diretora-adjunta do Museu Ludwig, biografias das figuras reais envolvidas, uma cronologia detalhada e uma lista das obras consideradas “degeneradas” que se cruzam com o destino do quadro. Um excelente complemento que reforça o diálogo entre a arte, história e a memória que atravessa todo o álbum. 
 
É uma obra que merece ser lida. E uma entrada directa para a minha lista de melhores leituras do ano.
 
A minha nota: EXCELENTE ÁLBUM

 
 

quinta-feira, 18 de dezembro de 2025

A leitura de PEÇAS

 

PEÇAS, o singelo título em português de um álbum, editado em Agosto último, pela Ala dos Livros, é um novo olhar sobre relações humanas da parte de Victor Pinel, autor da escola espanhola, que também assinou O mergulho (Ala dos Livros, 2022). A sinopse fala sobre "uma história de protagonistas com relações pessoais falhadas", e o titulo original, Échecs, joga com o duplo sentido da palavra: xadrez e fracasso.

Confesso que na altura me passou despercebido. E estava ali na pilha de livros a aguardar vez para ser lido. Ontem dei-lhe uma oportunidade. E em bom momento o fiz. Que leitura magnifica. Logo a abrir, um encontro fugaz. É o ponto de partida para um mosaico de vidas cruzadas em torno de “amores” desencontrados. Uma história de histórias humanas, que bem podiam ser reais, vividas por personagens complexas, todas diferentes entre si, e que aparentemente nada tem em comum. 

Encontramos uma velhota que no quarto do seu lar prefere ter a solidão como companhia, um famoso actor de televisão que não se identifica com a imagem pública de galã que tem, uma artista de rua que foge a qualquer compromisso sério, um estudante habituado a ser reconhecido como o melhor, uma jovem que se questiona sobre o seu relacionamento, uma mulher divorciada que casou com o seu trabalho, um casal gay que tenta manter viva uma relação à distância. Parece caótico. Não é. 

Mas voltamos à velhota, a senhora Dubois. É nela que o autor deposita a narração dos acontecimentos. Apaixonada pelo xadrez, aceita a contragosto a companhia de Samir, um jovem voluntário no lar. A relação não tem um início fácil, mas é quando ela lhe explica as regras do jogo, que o autor estabelece um paralelismo entre as peças e as suas características e as vidas e as relações das personagens que fomos conhecendo. E do desenrolar de vários jogos, temos o desfiar da história. 

Ao longo da narrativa, assistimos ao evoluir de cada relação, como se a cada decisão correspondesse uma jogada, ora de avanço, ora de recuo, ora de ataque ou de sacrifício. E é da sucessão dessas escolhas que nascem novos caminhos, encontros inesperados e viragens que nos prendem a atenção. E o que poderia ser uma verdadeira confusão, pela profusão de diferentes personagens e diferentes ritmos, dá uma excelente leitura, pela forma como as histórias acabam por se ligar e as personagens por encaixar de forma quase natural no muito harmonioso jogo da vida. Pinel ilustra tudo isto com um desenho limpo, de traço realista, e com uma palete de cores claras e suaves, muito agradáveis à vista. Tanto a nível narrativo como gráfico, fez-me lembrar Jordi Lafebre e o seu magnifico Apesar de Tudo.

Peças é, pois, uma obra que aborda o amor nas suas várias formas. De casais em ruptura a paixões fugazes, de encontros fortuitos a amores estagnados, de encontros e desencontros a segundas oportunidades, de relações que definem uma vida. Terminada a leitura, deixo a sugestão de um novo olhar para a capa do álbum, para nos fazer  lembrar aquela máxima “de que está tudo ligado”. Temos aqui uma belíssima obra, uma pérola escondida, que entrou diretamente para a minha lista das melhores leituras do ano.

A minha nota:  EXCELENTE ÁLBUM


 

quinta-feira, 4 de dezembro de 2025

A leitura de ISLANDER - O EXÍLIO

Sei que não se deve julgar o todo pela parte, mas quando a primeira parte se apresenta com um ritmo narrativo intenso e desenho magnifico, o risco torna-se mais que aceitável. É o que sucede com este primeiro volume (de uma trilogia) de ISLANDER, edição de Outubro da Arte de Autor, que se revelou, desde já, uma excelente leitura. Começamos logo por ficar cativados pela magnifica capa, com um belíssimo desenho e cores com a assinatura de Corentin Rouge. Esta primeira parte, intitulada O Exilio, antecipa-nos um futuro distópico, numa Europa palco de crises sociais e climáticas, de fronteiras fechadas e à beira do colapso civilizacional. A Islândia, com as suas paisagens geladas, surge aqui como o cenário frio e hostil para o desenrolar da acção. Um país dividido, consequência de um fluxo imigratório descontrolado e de políticas secessionistas levadas ao limite. O autor Caryl Ferey prende-nos a atenção com um argumento inteligente e envolvente. A narrativa corre com uma frieza e realismo marcante. Entramos na história em plena crise, no porto de La Havre, em França, onde uma multidão desesperada aglomera-se na esperança da chegada de um barco que as transporte para a Escócia, vista como o último refúgio seguro. Nada é explicado à partida, mas as condições mínimas deste centro de embarque dizem tudo e remete-nos para o pior dos cenários: os controlos de documentos, os guardas armados e prontos a disparar e muito arame farpado. É aqui que conhecemos o pequeno grupo de protagonistas, entre os quais se encontra um importante cientista que aparentemente é uma peça importante nesta crise. Por força da confusão instalada na partida, junta-se Liam, um perfeito desconhecido de poucas palavras, sem rumo e sem nada a perder. É na violenta mudança de rumo do barco em pleno mar-alto, que a leitura se torna vertiginosa e compulsiva, quer pela jornada de sobrevivência onde cada personagem evolui e se vai revelando ao longo das páginas, como pela forma como a história cresce reflectindo as tensões sociais e políticas de segurança que já observamos em muita na nossa realidade actual. Agora tudo isto é amplificado pelo traço realista e dinâmico, na melhor tradição da linha clara franco-belga, de Corentin Rouge, que dá a todo o enredo uma atmosfera cinematográfica. É a cada página, onde tanto alterna grandes planos com situações de tensão e acção, que o seu desenho vivo o define como um dos melhores da actualidade.

Em suma, ISLANDER – O EXÍLIO é um álbum com uma temática actual, de leitura cativante e visualmente impactante, servido numa edição cuidada e de formato generoso, pelo que não tenho dúvidas em afirmar que se destaca como um dos melhores do ano! 

A minha nota: EXCELENTE ÁLBUM


 

 

segunda-feira, 11 de agosto de 2025

A leitura de HOKA HEY!

Entre as obras que até agora se destacam no nosso mercado, HOKA HEY! - na magnifica edição portuguesa da ASA - impõe-se como uma daquelas leituras de leitura obrigatória. Logo à primeira vista, salta o grande formato de edição, de generosas medidas, papel de qualidade, porque o traço e a cor do desenho assim o merecem. A imagem na capa, de um índio a cavalo de arma na mão, pode sugerir um western clássico, mas na verdade a obra remete-nos mais para um pós-western.

Estamos em finais do século XIX e o Oeste americano encontra-se conquistado, e o que resta são cicatrizes profundas. As derradeiras tribos nativas, vencidas, encontram-se confinadas às reservas e submetidas a políticas de aculturação. As crianças nativas, separadas à força das suas famílias, são reeducadas segundo os padrões euro-americanos. É nesse cenário de perda, mas também de resistência que o francês Neyef conta-nos uma história de vingança, que é, ao mesmo tempo, de descoberta e de libertação.

No seu estilo gráfico, o autor combina um traço que cruza realismo com uma certa estilização, no qual acrescenta um belíssimo trabalho de cor, criando assim um álbum com uma identidade visual própria. 

A narrativa acompanha um pequeno grupo de índios renegados e um irlandês com um passado doloroso. Pelo caminho resgatam Georges, um jovem Lakota arrancado à sua tribo e reeducado como branco, que se vê dividido entre a sua condição e a vontade de se descobrir ao lado dos seus novos companheiros. É este improvável quarteto, composto por personagens fortes que nos cativam, com quem cavalgamos em frente numa viagem sem retorno e com um final inevitável. São as conversas entre estas personagens, nas quais se cruzam memórias, confissões e silêncios, que servem de fio condutor, enquanto avançamos pelos cenários melancólicos das belas paisagens das pradarias e florestas americanas. O ritmo é pausado até a narrativa explodir com vários momentos de violência crua, onde cada gesto tem uma consequência.

HOKA HEY! é de leitura bela e intensa até ao seu final. Neyef entrega-nos uma obra equilibrada, onde a dureza dos factos históricos que nos recorda a responsabilidade do opressor, se mistura com a beleza implacável da paisagem, e onde personagens feridas encontram - ou perdem para sempre - a sua redenção.

Sem dúvida que o autor, até agora inédito por cá, tem aqui um excelente cartão de visita para conhecer o seu trabalho. Cinco estrelas. Sem hesitar. 

A minha nota: EXCELENTE ÁLBUM


 

segunda-feira, 4 de agosto de 2025

A leitura de O MEU IRMÃO

Num ano marcado (novamente) pelo lançamento de belas obras, a leitura de O MEU IRMÃO de JeanLouis Tripp, edição da ALA DOS LIVROS, faz inteiramente justiça a isso. E começava por aqui, talvez pelo mais fácil, pela magnifica edição. Irrepreensível!
 
Não é a primeira vez que esta editora faz isto. O resultado de tanta atenção no pormenor resulta numa declaração de amor do editor à obra. O livro, que vale mais que o somatório das páginas que comporta, torna-se um objecto de admiração e exibição. Ao folhear sentimos uma reverência à obra e ao leitor: lombada em tecido, papel denso e generoso, um caderno de extras onde o autor abre a porta da sua dor e memória e o pormenor de um marcador em fita de cetim roxa - cor da dor perda e que também simboliza a tristeza profunda. Não são todas as obras que merecem este luxo, mas esta merece. Não estamos perante apenas um livro.
 
Com o desenho da capa, história ganha desde logo uma envolvência com contornos solenes antes da sua leitura. Não é fácil ler esta obra; muito menos terá sido fácil escrevê-la. Tripp oferece-nos um relato de coração aberto: na sua juventude, perdeu o irmão mais novo numas férias de Verão. Ser narrador de uma tragédia desta dimensão revela bem a sua necessidade de partilha e apaziguamento. Fá-lo de uma forma sóbria, com uma narrativa bem construída, num relato na primeira pessoa, assente em factos, emoções e sentimentos. Leio aqui um sincero e comovente exercício de exorcização de fantasmas e culpas.
 
Temos a violência do acidente, num desenho realista graficamente brutal, mas ainda mais violento é o que segue - das horas intermináveis à espera de ajuda, dos rostos de revolta, da procura das palavras, do esgotamento das lágrimas, da consternação e tristeza. E da vida que se seguiu. Do tempo para sempre marcado por um “depois”.
 
O autor expressa muitas vezes a dor, página após página, apenas pelo desenho porque sabemos que nestes momentos não há palavras certas.
“Não se morre a meio de umas férias de Verão quando se tem onze anos”. Mas o Gilles morreu. 
 
O MEU IRMÃO é uma homenagem indelével à fragilidade da existência e à força da memória.
É um dos mais belos exercícios de narrativa gráfica que já li. Cinco Estrelas! 
 
A minha nota: EXCELENTE ÁLBUM

 
 

segunda-feira, 30 de dezembro de 2024

As Melhores Leituras de 2024 - Autores portugueses

Os dias, por aqui, tem sido aproveitados para muitas leituras, até porque o ano fica marcado, entre outras, por um número recorde de lançamentos, incluindo de autores nacionais. A produção nacional de banda desenhada foi verdadeiramente incomum, face aos últimos anos, e correspondeu, em 2024, a cerca de 16% da oferta total (os números finais ficam para o habitual Estado da Arte, o balanço que irei aqui publicar nos próximos dias).

E perante tão farta colheita, achei que este ano se justificava a elaboração de duas listas de melhores leituras de 2024: uma referente a autores nacionais e outra de autores estrangeiros. A ideia, como sempre, não é de eleger tudo e todos, mas apenas aquelas que se destacaram pela sua qualidade narrativa e gráfica.

Assim, começo pelos nacionais, e aqui fica o meu top 5 de BD portuguesa de 2024: 

  1. Corvo VII – O Despertar dos Esquecidos (ed. Ala dos Livros)
  2. Fojo (ed. Kingpin Books / A Seita) 
  3. Lusíadas – Parte I (ed. Levoir)
  4. Sol (ed. A Seita)
  5. Atendimento Geral (ed. Escorpião Azul)
 
1. Começo pelo sétimo do Corvo. Um dos grandes injustiçados nos prémios do último Amadora BD, volta aqui a atingir o nível da excelência. Se sobre o desenho já sabemos que é absurdamente bom, ao nível do argumento a coisa atinge o pináculo da criação. Quando poderíamos pensar que após 30 anos de histórias de bairro do Corvo já não haveria muito mais para contar, Luís Louro consegue descobrir num idoso perdido o mote para a maior e a mais humana de todas as aventuras. A realidade da terceira idade, de idosos abandonados em lares é aqui aproveitada pelo nosso herói para, entre quatro paredes,  riscar a palavra triste e troca-la por uma bem disposta aventura, carregada de humor refinado (atente-se aos os deliciosos diálogos em bom português com os “esquecidos” do R.I.P.) que fica como uma das suas mais tocantes missões, naquela onde se irá revelar realmente super. E ver uma temática social que é tão cara a todos nós ser aqui abordada com sensibilidade, a que se junta uma cereja no topo do bolo que é aquele final de história, atira este DESPERTAR directamente para o topo dos melhores álbuns do Corvo. 

Avaliação: 



2. Em FOJO, Osvaldo Medina regressa ao papel de autor completo que tão bem vestiu no seu universo Kong. Assume agora a responsabilidade por uma história de tragédia. No cenário de uma aldeia esquecida nos confins da montanha, marcada pelo isolamento, que entra em sobressalto à medida que se descobre que a morte, na figura de um assassino, anda à solta. O autor recria com mestria um ambiente rural português, triste e sombrio, com as suas crenças e segredos. As personagens de Fojo que dão força à narrativa, são figuras humanas marcadas por traumas e escolhas difíceis. Visualmente, Medina entrega mais um excelente trabalho com um traço detalhado e expressivo. Os seus enquadramentos transmitem tensão psicológica, e são complementados por uma paleta de cores minimalista que reforça a atmosfera densa de uma história envolvente, bem conseguida, que nos conduz a uma leitura ávida, página após página. E depois da leitura da última página ficamos com a certeza de que Fojo é, sem dúvida, um dos melhores exemplos do potencial narrativo e artístico do Osvaldo Medina.

Avaliação:


 

3. Se a obra maior de Luiz Vaz de Camões não é de leitura fácil, não podemos esperar que que a sua literal adaptação para banda desenhada o seja. Vamos ser sinceros, não é. Mas desfrutar de OS LUSÍADAS nesta experiência visual a três mãos é absolutamente fantástico. A obra que nos chegou este ano, incluída na colecção de Clássicos Portugueses da Levoir, é um projeto tripartido entre os artistas Daniel Silvestre, Miguel Rocha e João Lemos com a coordenação de Pedro Vieira de Moura, e ainda que correndo o risco de avaliar um todo pela parte, posso dizer que ficou muito bem entregue. De início Camões, o narrador onisciente, que nos dá a visão divina e humana dos eventos, surge-nos pelo traço e cores suaves de Daniel Silvestre, uma das boas revelações do ano. Ilustrar toda a atribulada viagem de Vasco da Gama pela costa oriental da África, desde do episódio do velho do Restelo até ao encontro com o Adamastor, entremeada pelo concílio dos deuses, ousou Miguel Rocha. E aqui o desenho explode em belas composições e cores. Enche as páginas com um estilo visualmente delirante que combina com uma paleta cromática arrojada. De uma absoluta beleza. Entre Cantos ficam os feitos dos reis portugueses narrados em episódios da História de Portugal, por conta do traço elegante e fluído de João Lemos, que em boa hora regressou à bd portuguesa. Esta primeira parte reúne os Cantos I a V da epopeia camoniana, e é, sem dúvida, umas das melhores narrativas gráficas do ano, que merecia uma melhor uma edição, no mínimo em generosas medidas 235x320 franco-belga. A segunda parte da viagem está marcada para 2025. 

Avaliação:


 

4. Com SOL, o Diogo Carvalho apresenta-nos o seu trabalho de maior fôlego. Arrisca numa obra de ficção-científica, um género cada vez mais pouco frequente na banda desenhada portuguesa. Serve-se habilmente de múltiplas referências cinematográficas, e usa os códigos do Oeste Selvagem para construir aqui um western futurista, numa realidade longínqua onde cada planeta vale em função dos seus recursos naturais. A história segue Sol, uma força solitária da natureza de resiliência e determinação, que atravessa um planeta mineiro desolado e esquecido, numa jornada pela sobrevivência em busca de uma planta com propriedades medicinais únicas. A chegada de um estranho à cidade que é sempre olhado com uma ameaça à ordem instalada poderá parecer um cliché, mas é o gatilho para uma aventura recheada de acção, até porque o autor não poupa a sua personagem principal a inúmeras situações de perseguições e explosões. Uma história com várias leituras, onde o Diogo não deixa de reflectir as suas preocupações numa espécie de antevisão, como o presente, com a degradação ambiental, com a exploração intensiva de recursos naturais e a subjugação de populações a interesses superiores poderá bem vir ser um futuro. SOL é uma bela surpresa.

Avaliação:


 

5. Pelas suas anteriores obras, já poderíamos dizer Paulo J. Mendes é o digno sucessor do humor nonsense que encontrávamos nos trabalhos de José Carlos Fernandes. E neste seu novo livro, ATENDIMENTO GERAL, confirma. Mostra-nos essa continuidade com mais um dos seus retratos, onde entrelaça o nosso quotidiano com um humor satírico e um toque de critica social. Sob o pretexto da abertura de uma sucursal de um balcão de serviços de “percentuais e coeficientes” numa tradicional vila do interior rendida ao “cuntemporâneo” onde amores e desamores perdidos voltam à tona, o Sr. Lombinhos é a figura principal de rol de novos personagens, numa narrativa que segue com o autor a jogar entre o surreal e o absurdo, levando situações do dia a dia a extremos desconcertantes. Abusando dos jogos de palavras e diálogos improváveis, o autor consegue equilibrar o exagero humorístico com um olhar atento aos comportamentos sociais, resultando numa comédia que diria ser ao mesmo tempo despretensiosa e reflexiva. E apesar da história pecar um final algo excessivo, nesta obra, Paulo J. Mendes confirma o seu talento para transformar o banal em hilariante e o previsível em surpreendente, criando um universo onde o humor caustico é uma poderosa ferramenta de crítica e entretenimento. 

Avaliação:


 

 

domingo, 29 de setembro de 2024

O combate de Steve Cuzor

Posso parecer ser suspeito para falar desta obra, pois envolve Steve Cuzor, mas a verdade é que este O combate de Henry Fleming é mais um tratado em termos de argumento e desenho. O autor adapta para banda desenhada o romance The Red Badge of Courage, de Stephen Crane, cuja narrativa decorre durante a brutal Batalha de Chancellorsville no decurso da Guerra Civil Americana.

Depois da leitura do magnifico Uma estrela de algodão preto (Ala dos Livros, 2023), mudamos de cenário, mas continuamos num teatro de guerra. Nas margens do rio Rappahannock, Henry Fleming é o jovem protagonista que nos conduz até a linha da frente do seu primeiro combate. Enquanto leitores somos colocados no campo visual de um simples soldado de infantaria. E a partir daqui tudo se desenrola. As conversas e as angústias antes e durante a batalha. A loucura do compromisso de quem marcha para a morte. É esta a força da narrativa. 

Mas mais que o horror da guerra, a obra aborda a irracionalidade da mesma. O regimento de Henry é tratado como “carne para canhão”. Meros campónios, labregos ao dispor de ordens estúpidas. Mas Henry questiona-se. Vagueia entre sentimentos e arrependimentos. A vontade de fugir e a vergonha de ter fugido.  Cuzor alcança o equilíbrio entre a complexa luta interna de Henry e a brutalidade e intensidade das cenas de batalha retratadas de forma realista. A ilustração perfeita do desejo de combater e o medo de morrer. Sentimos o tormento e compreendemos as acções, porque se trata aqui de (mais) uma reflexão sobre o absurdo da guerra, e neste sentido o desfecho da história não desilude.

O autor desenha ambientes, cenários, momentos, cenas, como quem tira belas fotografias, e o resultado é sumptuoso ao longo de 150 páginas. Os tons monocromáticos que acompanham toda a narrativa gráfica conferem-lhe um forte impacto visual. Tudo junto e repito que toda a arte de Cuzor é sublime.

Ao nível da edição, o álbum todo é mais um excelente trabalho da Ala dos Livros.
Tudo muito bom nesta obra!
 
A minha nota: EXCELENTE ÁLBUM

 
 

quarta-feira, 24 de abril de 2024

Leitura de A Estrada, de Manu Larcenet

Não escrevo sobre as minhas leituras tantas vezes quanto o poderia desejar, mas por vezes há obras cujo prazer de leitura é tão grande, que não temos como evitar fazer. Esta é uma delas.

Do mesmo autor, Manu Larcenet, que nos brindou anteriormente com o magnifico Relatório de Brodeck, já editado em português pela Ala dos Livros, temos agora, pela mesma editora, A Estrada, a adaptação gráfica do aclamado romance de Cormac McCarthy. 

Uma história que se pode resumir em poucas palavras: a jornada de um pai e filho ao longo de uma estrada de destino incerto, atravessando um mundo devastado onde a luta pela sobrevivência é diária e feita de desconfianças. Enganadoramente simples, a premissa convida à reflexão profunda sobre a essência do ser humano.

Mantendo-se fiel ao romance original, a mais-valia de Larcenet é apresentar-nos mais uma obra absolutamente irrepreensível, com a sua extraordinária capacidade de capturar graficamente a essência humana com um toque dramático de realismo. A atmosfera da história é intensa e sombria, e é na relação familiar que une os dois protagonistas que reside o coração emocional da obra. Enquanto leitores absorvemos as angústias de um pai que, rodeado de morte, nada mais tem para oferecer ao filho senão a sua determinação em cumprir  a promessa de garantir a sobrevivência de ambos. Na criança vemos uma inocência e uma esperança que desafiam as circunstâncias brutais que os cercam. 

À semelhança do sucedido no citado anteriormente O Relatório de Brodeck, Larcenet transporta-nos aqui, mais uma vez, numa viagem emocional onde o instinto da sobrevivência ameaça a humanidade do homem. Agora num cenário devastador pós-apocalíptico, somos testemunhas do difícil equilíbrio entre a resiliência do adulto e a bondade da criança, que o autor habilmente gere pintando silêncios visuais ao longo de quase toda a narrativa.

O desenho, em linhas ásperas, não é apenas um complemento à narrativa. Recria um ambiente de desolação, onde as cinzas predominam, e a combinação de uma paleta de cores funestas que variam em função dos desenvolvimentos, com utilização de tons mais fortes para retratar momentos de angústia e horror e mais claros para momentos de alívio, é uma parte integral da experiência de imersão na história. O resultado é um retrato gráfico perfeito de desolação e da morte da esperança numa civilização que colapsou, e uma estrada que nos convida a uma introspeção.

Um bem-haja por ter sido a Ala dos Livros a pegar esta obra, pela garantia de qualidade de edição do objecto físico que é o livro. Nota máxima para um álbum que, não obstante ainda estarmos em Abril, é praticamente certo que se encontrará entre as minhas escolhas para as melhores leituras do ano. 

A minha nota: EXCELENTE ÁLBUM


 

quinta-feira, 7 de março de 2024

As Melhores Leituras de 2023

Serve este para reparar a falta comigo mesmo. Para fechar o Balanço de 2023 faltava-me deixar aqui as minhas melhores leituras do ano. A ideia é destacar apenas as “melhores das melhores” leituras que fiz dentro do que se publicou no mercado nacional durante o ano passado, fugindo daquele facilitismo de nomear tudo e todos. Posto isto, digo que foi um mais ano generoso o que dificultou alguma escolha entre os quase trezentos e cinquenta novos lançamentos contabilizados.

É verdade que mais de metade do que foi editado, quer seja pelo desenho, quer seja pelo argumento, não me despertou qualquer interesse ou entusiasmo, possivelmente porque ou não me enquadro no público-alvo daquelas edições ou então simplesmente porque as edições não o merecem. Por outro lado, outras obras há que me encheram as medidas, pelo cuidado na edição, pela qualidade do argumento, pela excelência do desenho. E foram estas as que nos ficam na retina, e que me facilitou depois esta tarefa de escolha. O mais difícil do exercício é o de completar o TOP 9 com a selecção de mais dois ou três álbuns entre uma oferta que se mostrou de grande qualidade. Mas cheguei lá.

São estas as melhores bandas desenhadas de 2023, um tributo à sublime arte de contar histórias em narrativa gráfica, cuja leitura recomendo fortemente:

(mosaico com disposição aleatória)

 

(apresentação das obras por ordem alfabética)

1629 - O Boticário do Diabo… ou a história apavorante dos náufragos do Jakarta

Sente-se permanentemente a tensão a bordo nesta obra! Na primeira parte de um díptico embarcamos num navio da Companhia Holandesa das Índias Orientais do século XVII, para uma viagem que já sabemos que não vai acabar bem. Baseado numa história verídica, o argumentista Xavier Dorison proporciona um excelente momento de leitura, trazendo-nos com mestria a atmosfera de conflito latente reinante entre uma trágica tripulação, resultante de um jogo psicológico de interesses e de desequilibro de poderes entre os vários protagonistas, ao qual o traço realista de Thimothée Montaigne confere uma dimensão ainda mais negra. Grande expectativa para o segundo volume. A edição é da Arte de Autor. 

Avaliação:


 

Blacksad - Então, tudo cai - Segunda Parte

Começo pelo óbvio: é tudo muito bom no universo antropomórfico de Blacksad! Neste álbum recuperamos a leitura para a segunda e conclusiva parte da mais longa das aventuras. Juan Díaz Canalès embalou-nos para mais um policial bem conseguido numa Nova Iorque onde os fios da construção e da corrupção tecem uma teia que aprisiona a cidade. A riqueza da narrativa centra-se no retrato social perfeito das suas personagens. Um microcosmo de complexidades e contradições. E Juanjo Guarnido brinda-nos (mais uma vez) com o seu traço exuberante e esplendoroso, preenchendo o desenho com múltiplas e deliciosas referências. A história, tal como uma investigação, vai-se descobrindo entre desenvolvimentos e reviravoltas, com o cair das máscaras até desenlace final tão inesperado quanto o destino que aguarda cada personagem. Maravilhosa leitura. A edição é da Ala dos Livros. 

Avaliação:


 

Em Busca do Tintin perdido

Em páginas que são janelas para a alma, Em Busca do Tintin perdido, obra de cariz biográfico do brasileiro Ricardo Leite, é uma ode apaixonada à nona arte! Cada bela ilustração é um sussurro de admiração e cada palavra um tributo. Ao longo de mais de duzentas páginas, seguimos com o autor na sua demanda pelo "bichinho" da banda desenhada. Numa viagem ao interior da sua prolífica imaginação, somos convidados a ser mais do que leitores - somos exploradores de um território onde as múltiplas referências e metáforas são estrelas a seguir e as conversas com os autores do panteão bedéfilo são luzes que iluminam o caminho. Com jogos gráficos que subvertem os habituais cânones da narrativa sequencial, estes são verdadeiras e inspiradas homenagens que o autor presta aos mestres que moldaram o seu sonho. Esta edição de A Seita não é apenas um livro; é um portal para um mundo onde a banda desenhada é a linguagem universal. 

Avaliação:


 

Frankenstein de Mary Shelley

Depois do seu magnifico trabalho com Drácula de Bram Stocker, só podíamos esperar que Georges Bess espalhasse o seu talento em mais uma bela e fiel adaptação de um conto gótico. E aconteceu com este clássico Frankstein de May Shelley. Um resultado cinco estrelas. Um registo num traço a preto e branco, de recorte fino e repleto de detalhes consegue que acentuar a dramatologia de uma trágica história de ambição desmedida e incompreensão humana. A capacidade narrativa do autor permite aqui replicar a empatia do leitor em relação à infeliz criatura. Trabalho fantástico. A edição é A Seita.

Avaliação:


 

Mattéo - Sexta Época (2 de Setembro de 1939 – 3 de Junho de 1940)

Estamos perante o desenlace de uma bela saga que em seis épocas revisitou um quarto da nossa História, numa história de paixão e perda, sacrifício e infortúnio, condicionada pelas emoções de encontros felizes e infelizes. Temos uma narrativa que navega pelos turbulentos conflitos militares do século XX, desde as trincheiras da Primeira Guerra Mundial, passando pelos ecos da Revolução Russa, até aos clamores da Guerra Civil Espanhola para chegar à segunda Grande Guerra. É neste palco, que o autor Jean-Pierre Gibrat traz-nos a metamorfose de um herói da grande guerra em desertor condenado, na personagem de Mattéo, filho de um anarquista espanhol, um belo estereótipo de todos os sonhadores utópicos que acreditam na bondade e na beleza dos ideais revolucionários. A arte que acompanha é simplesmente extraordinária, uma sinfonia visual pintada com mestria a aguarela, e donde sobressai, mais uma vez, a grande sensualidade das personagens femininas de Gibrat, com grandes semelhança de outras histórias, mas sempre belas de admirar. Magnifica colecção, composta por seis álbuns, selada com distinção pela Ala dos Livros. 

Avaliação:


 

Monster – volume 1

De leitura voraz, estamos temos uma história sinistra e complexa, mas simultaneamente cativante. Aborda questões morais (todas as vidas terão o mesmo valor?) da responsabilidade e das consequências de nossas escolhas. São estas as premissas para a viagem entre as sombras da personagem principal, o médico Kenzo Tenma, aos limites da natureza humana, numa narrativa habilmente explorada por Naoki Urasawa, com um rol de personagens bem estruturados, que evolui freneticamente através de sucessivos desenvolvimentos e ramificações da perseguição a um assassino em série numa Alemanha pós-muro. O desenho num registo clássico é preciso, detalhado e realista servindo muito bem um mangá da categoria seinen. Este é o primeiro tomo de uma colecção composta por volumes duplos, numa excelente aposta da editora Devir. 

Avaliação:


 

Sou o Seu Silêncio – Um Policial em Barcelona

O autor espanhol Jordi Lafebre, que já nos tinha cativado anteriormente com a comédia romântica Apesar de Tudo, regressou agora com um enredo policial. Assume mais uma vez a escrita e o desenho. A história desenrola-se a partir de uma consulta de terapia da extrovertida Eva Rojas, uma jovem psiquiatra com problemas de personalidade. A misteriosa morte de um herdeiro durante uma reunião familiar, naquilo que quase parece ser um clássico para as aventuras do detective Hercule Poirot, é o ponto de partida para uma divertida narrativa, muito por culpa da Eva. É a força desta personagem, com a sua atitude desafiante e ao mesmo tempo sedutora, que nos toma toda a atenção ao longo da história. Pode-se dizer que começa a existir uma imagem de marca de Lafebre: as suas personagens cativantes. De leitura deliciosa. A edição é da Arte de Autor.

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Spirou - A Esperança Nunca Morre... (terceira parte)

O terceiro volume de quatro de uma magnifica obra que destaca por uma história impactante, eco da gravidade dos eventos que a moldaram. Em A Esperança nunca morre… o autor Émile Bravo revisita um dos capítulos mais marcantes da história da Bélgica, com a invasão do território pelas tropas alemãs no decurso da Segunda Guerra Mundial. Servindo-se da ingenuidade da personagem do Spirou - aqui fora do registo aventureiro a que estávamos habituados - transforma-o em símbolo de consciência humanista perante o horror da guerra e das suas consequências. É através de Spirou e de um ambíguo Fantásio, que somos apresentados a uma gama de personagens humanos e complexos, cada um lutando com suas próprias batalhas internas e externas. É o drama da ocupação contado com uma sensibilidade e toques de humor que transcendem as páginas. Bravo de uma forma tão emocionante quanto educativa, retrata a esperança em tempos de desespero, a coragem face do medo e a resiliência contra todas as probabilidades. Uma bela e bem conseguida história numa excelente aposta da editora ASA.

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Uma Estrela de Algodão Preto

No palco da História, onde o drama da Segunda Guerra Mundial se desenrola, Yves Sente, numa narrativa poderosa, tece uma tapeçaria de emoções humanas - injustiça, orgulho, coragem – numa colagem que transcende o tempo, num conseguido equilíbrio entre diferentes épocas. No ano de 1944, três soldados negros americanos, marginalizados por uma política de segregação vigente no exército dos EUA, mas determinados em honra, oferecem-se como voluntários para uma difícil missão que desafia a morte, de recuperar a primeira bandeira que foi feita para representar os Estados Unidos, e cujas estrelas escondem um segredo que remonta a 1776. É o começo de uma nova frente na história de luta pela igualdade e respeito, onde o horror da guerra é graficamente realista graças ao magnífico desenho de Steve Cuzor (um autor a reter), onde cada traço é uma homenagem à bravura, cada sombra uma meditação sobre a tragédia. Uma história densa e emotiva, que tem tanto de enriquecedora como de envolvente, termina mostrando a trágica banalidade das pequenas conquistas. Soberbo. Uma obra que envolve o leitor. Se tivesse de escolher apenas um álbum, sem hesitação, esta seria a minha escolha de 2023. Primorosa edição com a chancela da Ala dos Livros. 

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quarta-feira, 11 de outubro de 2023

Leituras: Uma estrela de algodão negro

Não tenho conseguido ler muita banda desenhada nos últimos tempos, mas que tenho lido, felizmente, têm-me enchido as medidas. E hoje trago uma dessas leituras. Trata-se de álbum que confronta o leitor com uma dura realidade histórica, a questão da segregação racial que sempre dividiu a sociedade americana, e que aqui é representada sob um pano de fundo histórico bem conseguido.
 
UMA ESTRELA DE ALGODÃO PRETO, uma recente edição da editora  ALA DOS LIVROS, é um álbum poderoso. Quando qualquer história mexe com o leitor, então o objectivo do livro realiza-se. Foi este o caso.
 
O nosso já conhecido Yves Sente (ainda no ano passado tivemos deste autor o magnifico A Vingança do Conde Skarbek) tem aqui mais uma narrativa bem construida, combinando elementos reais com ficcionais, e com um tratamento bastante interessante de questões históricas, sociais e culturais. Apresenta ao leitor uma história de guerra, onde sentimentos de injustiça, orgulho e coragem são impulsionados por personagens cativantes.
 
Transporta-nos para o cenário europeu da Segunda Guerra Mundial, onde acompanhamos a difícil missão de três soldados afro-americanos na recuperação da primeira bandeira da União, cujo simbolismo associado se revelava de elevada importância na História do Estados Unidos. Estabelece-se aqui um paralelismo com os chamados Monument Men, uma secção das forças aliadas que teve um papel vital na recuperação e preservação de obras de arte e tesouros culturais durante a Segunda Guerra Mundial, crucial para preservar a herança cultural e histórica da Europa. Sente não se esquiva em dar o papel principal a estas três personagens, em especial o soldado Lincoln por quem sentimos uma natural empatia, para abordar uma dura realidade: a segregação racial vigorava em 1944 no exército dos EUA. 
 
E depois temos a arte de Steve Cuzor. Para quem o conhece já sabe ao que vai; para quem como eu não conhecia (teve uma pequena participação a meias no álbum Go West Young Man, que não deu para avaliar bem) acreditem que é uma bela surpresa. Dono de um traço limpo, elegante extremamente  realista, trabalha muito bem todos os diferentes cenários (brutal o desembarque na Normandia) e intervenientes da narrativa, é aqui muito muito bem secundado pela colorista Meephe Versaevel que com as suas cores monocromáticas particularmente cuidadas e contratantes definem ambientes, proporcionando um deleite visual ao longo de todo o álbum.

Em resumo, uma história densa e emotiva, que tem tanto de enriquecedora como de envolvente. E há toda uma atmosfera visual que dá um verdadeiro sabor à narrativa. O desfecho trágico é inesperado e acabo a leitura com um murro no estômago. Sem dúvidas, temos aqui um dos álbuns do ano!
 
A edição da Ala dos Livros é primorosa como aliás é apanágio desta editora. Álbum duplo que reúne os dois volumes que compõem a história, que é servida no formato de capa dura e nas generosas dimensões de 31x23 que dificilmente não deixam de agradar ao leitor de bd franco-belga.
 
A minha nota: EXCELENTE ÁLBUM

quarta-feira, 12 de outubro de 2022

Leitura de UNDERTAKER - volumes 3 e 4

Já algum tempo que não escrevia aqui sobre as minhas leituras. Mea culpa porque não me tem faltado excelentes oportunidades. Mas é aproveitando esse balanço, com a leitura de UNDERTAKER que senti-me tentado a regressar a este exercício de critica. E nada melhor do que retomar com um dos géneros que mais aprecio. É indiscutível que se trata de um dos westerns do momento na banda desenhada franco-belga. A inusitada história de um cangalheiro itinerante, Jonas Crow, através de um oeste pós-guerra civil americana é o ponto de partida para histórias de ganância, vingança e claro, mortos.

Em França,  a colecção já conta com seis álbuns editados, por cá, a Ala dos Livros, acabou de lançar o quarto tomo. A série funciona por dípticos, ou seja, a cada dois volumes temos uma história completa. E se os dois primeiros volumes, tendo a ganância como pano de fundo, marcaram um padrão alto, estes terceiro e quarto volumes, O Monstro de Sutter Camp e A Sombra de Hipócrates (ver notas de lançamento aqui e aqui), sob a égide da vingança, elevaram a fasquia.

É verdade que temos aqui uma história clássica de perseguição no velho oeste, e como em qualquer boa perseguição, a narrativa não apresenta tempos mortos. Os desenvolvimentos são rápidos e a leitura é ávida, e ao leitor vai sendo servida pausadamente, e em doses generosas, aspectos da terrível e hipnotizante personalidade do Monstro, personagem que dá o título ao terceiro álbum. É ele que centraliza todas as nossas atenções nesta aventura.

Jeronimus Quint, um antigo médico do exército, bem-falante, que por fora se apresenta como um vendedor de elixires, com conhecimentos, muito acima da média, sobre anatomia humana, no seu interior revela-se maquiavélico e sádico, que tem na inteligência e na capacidade de manipulação as suas melhores armas. Um lobo que veste a pele de cordeiro, é a figura que emerge do passado sombrio e até agora pouco conhecido de Jonas, e que revela contas antigas por acertar. Mostra-se um adversário à altura e um perfeito vilão. Mas a verdade é que as mesmas necessidades que impediram Jonas do tal ajuste no passado revelam-se de igual forma no presente. E a eterna questão sobre o “mal necessário” coloca-se: mata-se um homem que tem o poder de salvar vidas?

A resposta é depende. Depende do valor que se dá a cada vida humana, mas da mesa forma que Quint se lixa para o juramento de Hipócrates, também Jonas Crow não hesita agora nas escolhas ou sacrifícios que tem de fazer. Confesso que esperava que o confronto final entre os principais protagonistas da história fosse mais intenso, mas o resultado também não desiludiu.

Tem uma certa ironia ser a figura de um cangalheiro a mostrar que o western em banda desenhada está aqui bem vivo e recomenda-se! 

Todo o argumento escrito por Xavier Dorison é bem estruturado, dotado de personagens fortes e vibrantes que facilmente nos cativa e puxa pelo leitor. O traço de Ralph Meyer detalhado e expressivo é irrepreensível, mas isso já nós sabíamos. A edição dos álbuns no generoso formato franco-belga de 24 por 31 em capa dura é primorosa, como aliás é apanágio da editora.

Avaliação:


 


domingo, 13 de setembro de 2020

Leituras: Balada para Sophie

Dos mesmos autores da trilogia «Dog Mendonça e Pizzaboy», estava anunciado como um dos lançamentos deste ano. E não desiludiu. Em «Balada para Sophie» (Tinta-da-China) descobrimos uma pérola. Daquelas raras na banda desenhada portuguesa. Há livros que nos entranham. Cativam pela profundidade da narrativa, geram empatia pelo inesperado do desenrolar dos acontecimentos. Esta é uma dessas histórias.

Servida numa edição cuidada, num papel de boa gramagem, agradável ao tacto, que faz respeitar o desenho, o Filipe assume o controlo e conduz-nos, com o mesmo virtuosismo de um grande maestro perante a sua orquestra. Assim, ao longo de mais de 300 páginas, transporta-nos numa viagem única e singela, pela vida amargurada de um pianista, de seu nome Julien Dubois, a quem faltou o toque da genialidade. São as recordações dos momentos, desde do seu nascimento em berço de ouro, passando pela solidão nas ruas de Sainte-Claire até à loucura dos palcos de Las Vegas, profundamente humanos, de paixão e desilusão, de obsessão e ciume, de vingança e arrependimento e finalmente de redenção, que nos tocam. É desta matéria que são feitas as grandes histórias. Ficamos extasiados quando chegamos à página final. O Filipe Melo acabou de escrever uma obra-prima. Na arte, o Juan cativa-nos com o seu traço, simples e expressivo. Materializa no desenho os sentimentos, o encantamento. Acrescenta-lhe uma palete de cores que nos transporta entre os vários ambientes. Absorvemos tudo. Ao seu tempo, no seu ritmo, como se de uma melodia se tratasse ditada por uma partitura musical. Somos embalados pelo lado gráfico. Às palavras o Juan Cavia deu-lhes corpo.

Nesta harmonia, há muito que estes dois autores funcionam bem como um todo. Para nós, os leitores, fica-nos reservado o papel mais fácil desta história, o de deixarmo-nos ir encantados pelo ritmo desta «Balada». Dos melhores livros portugueses que li!

BALADA PARA SOPHIE
Argumento de Filipe Melo e desenho de Juan Cavia
Editora TINTA-DA-CHINA, Edição de Setembro de 2020
 
A minha nota: EXCELENTE ÁLBUM





O livro que esgotou na Feira do Livro de Lisboa, tem hoje o seu lançamento oficial e chegará às livrarias no próximo dia 18.


sábado, 4 de julho de 2020

Leitura: O CASTELO DOS ANIMAIS

É sempre bom sermos surpreendidos enquanto leitores. E é essa uma das artes da editora Arte de Autor, com propostas de leitura que se encaixam perfeitamente na definição de bela surpresa. Foi o que aconteceu com este primeiro volume de «O Castelo dos Animais» recentemente editado.

A premissa “Todos os animais são iguais, mas alguns são mais iguais do que os outros”, a conhecida máxima do regime do Animalismo que vingou no romance «O Triunfo dos Porcos» de George Orwell, encontra em «O Castelo dos Animais» a sua expressão gráfica. Libertados do jugo dos humanos, num castelo abandonado os animais de quinta governam-se a si próprios. Se o explorador era o Homem, agora sem a sua presença, estão reunidas as condições para todos os animais viverem em perfeita harmonia. Só que não.

Xavier Dorison, o mesmo que assina a série «Undertaker», apresenta-nos sem contemplações, e com sangue, o fim da utopia. O sonho de uma república animal esconde um regime opressivo, onde os que governam fazem-no pela força, e os que são governados submetem-se pelo medo. Logo no inicio da história, despistam-se quaisquer dúvidas, ao testemunhar-nos a execução da galinha Adelaide, cujo crime capital foi roubar um ovo. Centramo-nos na história de Miss Bengalore, uma gata viúva mãe de duas crias, que se vê obrigada a trabalhar para sobreviver. Vale-lhe as suas relações de amizade e o sentido de entreajuda entre presente entre aqueles mais desfavorecidos, mas é seu “despertar” face ao desenrolar dos acontecimentos que nos aprisiona na narrativa.

Félix Delep é o artista que nos cativa pela parte gráfica da história. Dono de um expressivo traço de linha clara que se mostra bastante competente em todos os cenários e que faz funcionar de forma eficiente a utilização do antropomorfismo como caracterização da dicotomia forte/fraco subjacente à história. Pois se, do lado dos mais fortes, é fácil associarmos a força ao touro ou a agressividade aos cães; do lado dos mais fracos, era fundamental a expressividade animal para reconhecermos a coragem na pata Margarida, a audácia no coelho César ou a determinação da gata Bengalore.

Aprisionados e cativados pelo talento deste dois autores, assistimos em puro deleite, página a página, ao lento nascimento de uma esperança, numa luta desigual, num movimento de libertação iniciado justamente por daqueles que sempre pensaram (e pensávamos nós) que não podiam fazer a diferença.

«O Castelo dos Animais» apresenta-se numa excelência da edição, que apela aos sentidos não só da visão mas também do tacto dos leitores (descubram por vocês), naquela que é sem dúvida um das mais belas surpresas deste ano. Nota máxima! A contar os dias para ler o volume dois…


O Castelo dos Animais - 1. Miss Bengalore
Argumento de Xavier Dorison e desenho de Félix Delep
Editora ARTE DE AUTOR

A minha nota: EXCELENTE ÁLBUM


domingo, 17 de maio de 2020

Leitura: O Corvo - Inconsciência Tranquila

A vantagem do confinamento é o tempo para leituras. E dia de hoje foi do CORVO. Mais de uma década depois do último álbum, «Laços de Família», o regresso do nosso herói fez-se com «Inconsciência Tranquila», conscientemente o mesmo título já referido num desenho publicado como extra no 3º álbum.

E o que dizer desta nova leitura? Começo pelo fim para dizer que esta nova aventura está SUPER! Nos telhados de Lisboa, temos agora um mascarado mais maduro, na arte e no humor, que estão absolutamente fantásticos. É um Corvo em grande forma, que veste aqui definitivamente a pele de super-herói(?) (seja lá o que isso significa) e com tudo que este novo estatuto confere: poses cinematográficas, piadas, e até uma néme..quê???. É necessário para equilibrar a contenda. É sabido que não há herói sem vilão (e o contrário também é verdade), e assim temos o Combustão, também num explosivo regresso. E quase que arrisco dizer que os momentos de combustão instantânea quase que “roubam a cena” ao nosso protagonista. São humor puro. E claro que uma boa história só o é com uma pitada de sexo e se meter religião pelo meio melhor ainda. A sequência e os pormenores (e as personagens) no Convento são sexualm… religiosamente deliciosos.

O Luís Louro pode ficar de consciência tranquila, porque brinda-nos com uma heroica narrativa, de dinâmica quase cinematográfica, que não esquece os elementos das anteriores aventuras, nem as habituais múltiplas referências escondidas, que já se tornaram quase uma assinatura de autor. Tudo isto é servido numa generosa e cuidada edição da Ala dos Livros. Uma excelente leitura numa excelente edição. Não se pode pedir mais. Temos aqui um super-candidato ao prémio de Melhor Álbum do ano.
 
O CORVO - INCONSCIÊNCIA TRANQUILA
Argumento e desenho de Luís Louro
Editora ALA DOS LIVROS
 
A minha nota: EXCELENTE ÁLBUM