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sábado, 27 de dezembro de 2025

As Melhores Leituras de BD de 2025

Abro hoje aqui a época de balanços. Já faço disto uma tradição. E começo pela divulgação do meu TOP-9 das melhores leituras de 2025. Obviamente que não li tudo o que foi por cá publicado, mas dentro do muito que li, devo dizer, mais uma vez, que tivemos mais um belíssimo ano. E se é verdade que há uma mão-cheia de obras com entrada directa (alguns já aqui fui dando nota) não é menos verdade dizer que houve depois uma meia-dúzia de álbuns com muita qualidade a lutar por entrar. Não foi fácil, mas está decidido. Prevaleceram gostos pessoais, prazer da leitura e qualidade da edição. O importante a realçar aqui é que continuamos a ser privilegiados com magnificas obras, que se tornam quase obrigatórias. E a lista que divulgo de seguida (a arrumação é aleatória) assim o confirma. 

TOP-9 de 2025:

  • A Fera – volume 2 (A Seita)

  • O Meu Irmão (Ala dos Livros)

  • Peças (Ala dos Livros)

  • Undertaker – O Mundo de Oz (Ala dos Livros)

  • Islander – Exílio  (Arte de Autor) 

  • Hoka Hey (Asa)

  • Os Filhos de Baba Yaga (A Seita/Arte de Autor)

  • Corpo de Cristo (Iguana)

  • O Castelo dos Animais – O Sangue do Rei (Arte de Autor) 



Breves notas sobre as escolhas:
 
A FERA
A segunda parte de uma bela história de amizade e compaixão. Da sua leitura, diria que quase que dispensava os balões das falas e deixava-me levar só pela beleza do desenho de Frank Pê, autor que nos deixou este ano. Graficamente tem uma intensidade rara. Mais que uma aventura do marsupilami, A FERA é uma comovente fábula dos tempos modernos, onde Zidrou demonstra que personagens icónicas da BD podem ser revisitadas e reinterpretadas com inteligência e profundidade. 

 
O MEU IRMÃO
Tripp oferece-nos nesta obra feita de coração aberto: na sua juventude, perdeu o irmão mais novo durante umas férias de Verão. Ser narrador de uma tragédia pessoal desta dimensão revela bem a sua necessidade de partilha e apaziguamento. Fá-lo de uma forma sóbria, com uma narrativa bem construída, num relato na primeira pessoa, assente em factos, emoções e sentimentos. O MEU IRMÃO é uma obra dura, de leitura difícil que nos toca. Justa vencedora do prémio de melhor álbum estrangeiro no festival Amadora BD. A critica completa pode ser lida aqui.

 
PEÇAS
PEÇAS é uma história que nos fala de relações humanas. Uma obra que aborda o amor nas suas várias formas. De casais em ruptura a paixões fugazes, de encontros fortuitos a amores estagnados, de encontros e desencontros a segundas oportunidades, de relações que definem uma vida. A critica completa pode ser lida aqui.

 
UNDERTAKER – O MUNDO DE OZ
A dupla Dorison e Meyer confirma mais uma vez o seu estatuto de referência: UNDERTAKER é, indiscutivelmente, dos melhores westerns da actualidade. A caracterização do Velho Oeste é feita através de ambientes hostis e personagens intensas e moralmente ambíguas. Neste oitavo volume, que encerra o díptico dominado pela Liga para a Supressão do Vício, temos o retrato do fanatismo religioso, nascido do pós-guerra - um confronto entre a fé e a liberdade individual de escolha, que coloca o cinismo de Jonas Crow como o eixo moral da narrativa.  
 
ISLANDER – EXÍLIO
ISLANDER é uma trilogia que nos antecipa um futuro distópico, de Europa palco de crises sociais e climáticas, de fronteiras fechadas e à beira do colapso civilizacional. E se os europeus fossem obrigados a emigrar? Uma narrativa com uma grande actualidade, de leitura cativante e visualmente impactante. A critica completa pode ser lida aqui.

 
HOKA HEY!
Trata-se de um belíssimo western, numa história de vingança, de leitura intensa até ao seu final. A acção de HOKA HEY! decorre em finais do século XIX. O Oeste americano encontra-se conquistado, e o que resta são cicatrizes profundas. O autor, Neyef apresenta-nos uma obra equilibrada, onde a dureza dos factos históricos, que recordam a responsabilidade do opressor, se misturam com a beleza implacável da paisagem, e onde personagens feridas encontram - ou perdem para sempre - a sua redenção. A critica completa pode ser lida aqui.

 
OS FILHOS DE BABA YAGA
Um Louro no melhor dos seus 40 anos de carreira. Um autor que se renova constantemente em termos narrativos e gráficos. Nesta obra, visualmente brilhante, a narrativa conduz-nos numa história negra de sobrevivência de um grupo de orfãos nas estepes geladas da frente russa durante a segunda grande guerra. A doce inocência da infância capitula cruelmente perante um estômago vazio. OS FILHOS DE BABA YAGA foi justamente vencedor do prémio de melhor álbum nacional no festival Amadora BD. A critica completa pode ser lida aqui.

 
CORPO DE CRISTO
É aqui um peixe fora de água. Primeiro estranha-se, depois entranha-se, porque a linguagem da banda desenhada não tem de seguir sempre as mesmas linhas e o mesmo padrão. CORPO DE CRISTO é uma obra ficcionada, que parte das memórias e da experiência real da autora em lidar com a doença mental da sua mãe. Destaco pela ousadia na abordagem gráfica feita de desenhos toscos e páginas bordadas, onde a arte de costureira (da mãe) é aqui transformada numa ferramenta narrativa de denúncia e critica para lidar com as cicatrizes deixadas pela falta de empatia médica, pelo estigma religioso e pela ignorância popular na abordagem da doença mental.

 
 O CASTELO DOS ANIMAIS - O SANGUE DO REI
Os animais da quinta perceberam que todos os animais são iguais, mas alguns são mais iguais do que os outros, e o movimento de libertação tem aqui o culminar de uma luta desigual. Mas a verdade é que por muito pacifica que possa querer fazer uma revolução, sabemos que no jogo da democracia se escondem jogos de regimes autoritários: propaganda, manipulação e fraude. Dorison explora com mestria os limites e riscos das revoluções não violentas. E Delep é exemplar no registo da expressividade animal. Fecha aqui uma bela aposta da editora.

 
 

domingo, 5 de janeiro de 2025

As Melhores Leituras de 2024 - Autores estrangeiros

 TOP-9 de 2024:

  • Na Cabeça de Sherlock Holmes (Ed. A Seita)

  • Bairro Distante (Ed. Devir)

  • O abismo do esquecimento (Ed. Ala dos Livros)

  • Erva (Ed. Iguana)

  • A Estrada (Ed. Ala dos Livros)

  • As Guerras de Lucas (Ed. Ala dos Livros)

  • Jonas Fink - O Livreiro de Praga (Ed. Arte de Autor)

  • Dias de Areia (Ed. Asa)

  • O Combate de Henry Fleming (Ed. Ala dos Livros)


Breves notas sobre as escolhas:

Devo dizer que existiram álbuns, quer pela intensidade narrativa, quer pelo desenho, não me deixaram indiferente, da primeira à ultima página, e por causa disso tiveram desde logo entrada direta no meu TOP-9 de 2024.

O primeiro, logo em Abril, foi A ESTRADA, de Manu Larcenet, edição Ala dos Livros. A minha critica pode ser lida aqui. Seguido de outro álbum que me deixou rendido, O COMBATE DE HENRY FLEMING, de Steve Cuzor, também numa edição magnifica da Ala dos Livros. Também escrevi aqui.

Depois tivemos obras que são voz e memória de períodos negros da História universal. Narrativas que também não foram de leitura fácil, e que retratam dolorosas realidades. Falo de ERVA, a novela gráfica da coreana Keum Suk Gendry-Kim, numa edição da Iguana. A autora, uma das sensações do ano e convidada do Amadora BD, com uma enorme sensibilidade narrativa, apoiada no seu traço simples, a preto e branco, de linhas soltas e pouco dado a pormenores, deu voz às mulheres coreanas que foram vitimas de escravidão sexual, as chamadas “mulheres de conforto” dos soldados japoneses, durante a Segunda Guerra Mundial. Uma história brutalmente honesta, centrada no relato de uma das sobreviventes, o que confere uma autenticidade visceral à obra.

E de O ABISMO DO ESQUECIMENTO, de Pablo Roca, edição Ala dos Livros. É uma viagem ao passado recente de Espanha, onde o autor explora uma ferida aberta pela Guerra Civil Espanhola e os seus ecos no presente. Uma obra que aborda essa necessidade tão humana de querer despedir-nos de forma digna daqueles que nos são queridos, numa vontade que não só reforça a importância de preservar a memória dos que partem mas que também serve como um acto de resistência para que as lições da História nunca sejam esquecidas. 

E numa altura em que a palavra Liberdade, e tudo que ela representa, é tão falada, ler uma obra que aborda a falta dela é um exercício que se recomenda. E a edição integral de JONAS FINK, de Vittorio Giardino em dois volumes, numa edição da Arte de Autor, é um belo exercício narrativo gráfico, numa obra que transcende o tempo e o espaço e que oferece uma janela para a luta de resistência humana contra a opressão.

E dos que se seguem não houve como escapar. Foram leituras prazerosas de universos que são paixão, e que tão bem foram tratados em banda desenhada. AS GUERRAS DE LUCAS, edição da Ala dos Livros, tem entrada directa nesta categoria. É um magnifico conto de bastidores. Todas aquelas histórias soltas, rumores e amores, que ouvimos falar sobre a rodagem do primeiro filme da saga Star Wars  encontram aqui o seu tempo e espaço com o devido enquadramento. Sentimos que o poder da força acompanhou George Lucas. Uma narrativa biográfica obrigatória para fans da saga.

E NA CABEÇA DE SHERLOCK HOLMES, numa edição de A Seita. Retomar ao universo de Conan Doyle, num dos álbuns mais originais do ano, seguindo o desfiar do fio do raciocínio lógico do melhor detective do mundo, num estética sumptuosa e elegante e enquadramentos desafiantes, foi puro deleite. 

A holandesa Aimeé de Jongh chegou-nos em dose dupla. É uma belíssima autora, e foi o seu trabalho original em DIAS DE AREIA, edição da Asa, que me cativou. Uma história de resiliência humana num contexto histórico marcado pela dureza da paisagem e pelo desespero da sobrevivência, que nos transporta para o Dust Bowl, um desastre ambiental e social na década de 1930, e um dos períodos mais difíceis da história americana.

Fecho com manga. Jiro Taniguchi é dos melhores contadores de histórias em banda desenhada. Um autor com uma sensibilidade artística maravilhosa. E tem em BAIRRO DISTANTE, edição da Devir, uma bela história sobre a vida, que nos faz reflectir sobre o passado, o peso das escolhas feitas e os laços que definem a nossa existência. Mais uma narrativa profundamente humana, desenhada pelo seu traço detalhado e delicado, e uma das melhores obras que li deste autor.

  

segunda-feira, 30 de dezembro de 2024

As Melhores Leituras de 2024 - Autores portugueses

Os dias, por aqui, tem sido aproveitados para muitas leituras, até porque o ano fica marcado, entre outras, por um número recorde de lançamentos, incluindo de autores nacionais. A produção nacional de banda desenhada foi verdadeiramente incomum, face aos últimos anos, e correspondeu, em 2024, a cerca de 16% da oferta total (os números finais ficam para o habitual Estado da Arte, o balanço que irei aqui publicar nos próximos dias).

E perante tão farta colheita, achei que este ano se justificava a elaboração de duas listas de melhores leituras de 2024: uma referente a autores nacionais e outra de autores estrangeiros. A ideia, como sempre, não é de eleger tudo e todos, mas apenas aquelas que se destacaram pela sua qualidade narrativa e gráfica.

Assim, começo pelos nacionais, e aqui fica o meu top 5 de BD portuguesa de 2024: 

  1. Corvo VII – O Despertar dos Esquecidos (ed. Ala dos Livros)
  2. Fojo (ed. Kingpin Books / A Seita) 
  3. Lusíadas – Parte I (ed. Levoir)
  4. Sol (ed. A Seita)
  5. Atendimento Geral (ed. Escorpião Azul)
 
1. Começo pelo sétimo do Corvo. Um dos grandes injustiçados nos prémios do último Amadora BD, volta aqui a atingir o nível da excelência. Se sobre o desenho já sabemos que é absurdamente bom, ao nível do argumento a coisa atinge o pináculo da criação. Quando poderíamos pensar que após 30 anos de histórias de bairro do Corvo já não haveria muito mais para contar, Luís Louro consegue descobrir num idoso perdido o mote para a maior e a mais humana de todas as aventuras. A realidade da terceira idade, de idosos abandonados em lares é aqui aproveitada pelo nosso herói para, entre quatro paredes,  riscar a palavra triste e troca-la por uma bem disposta aventura, carregada de humor refinado (atente-se aos os deliciosos diálogos em bom português com os “esquecidos” do R.I.P.) que fica como uma das suas mais tocantes missões, naquela onde se irá revelar realmente super. E ver uma temática social que é tão cara a todos nós ser aqui abordada com sensibilidade, a que se junta uma cereja no topo do bolo que é aquele final de história, atira este DESPERTAR directamente para o topo dos melhores álbuns do Corvo. 

Avaliação: 



2. Em FOJO, Osvaldo Medina regressa ao papel de autor completo que tão bem vestiu no seu universo Kong. Assume agora a responsabilidade por uma história de tragédia. No cenário de uma aldeia esquecida nos confins da montanha, marcada pelo isolamento, que entra em sobressalto à medida que se descobre que a morte, na figura de um assassino, anda à solta. O autor recria com mestria um ambiente rural português, triste e sombrio, com as suas crenças e segredos. As personagens de Fojo que dão força à narrativa, são figuras humanas marcadas por traumas e escolhas difíceis. Visualmente, Medina entrega mais um excelente trabalho com um traço detalhado e expressivo. Os seus enquadramentos transmitem tensão psicológica, e são complementados por uma paleta de cores minimalista que reforça a atmosfera densa de uma história envolvente, bem conseguida, que nos conduz a uma leitura ávida, página após página. E depois da leitura da última página ficamos com a certeza de que Fojo é, sem dúvida, um dos melhores exemplos do potencial narrativo e artístico do Osvaldo Medina.

Avaliação:


 

3. Se a obra maior de Luiz Vaz de Camões não é de leitura fácil, não podemos esperar que que a sua literal adaptação para banda desenhada o seja. Vamos ser sinceros, não é. Mas desfrutar de OS LUSÍADAS nesta experiência visual a três mãos é absolutamente fantástico. A obra que nos chegou este ano, incluída na colecção de Clássicos Portugueses da Levoir, é um projeto tripartido entre os artistas Daniel Silvestre, Miguel Rocha e João Lemos com a coordenação de Pedro Vieira de Moura, e ainda que correndo o risco de avaliar um todo pela parte, posso dizer que ficou muito bem entregue. De início Camões, o narrador onisciente, que nos dá a visão divina e humana dos eventos, surge-nos pelo traço e cores suaves de Daniel Silvestre, uma das boas revelações do ano. Ilustrar toda a atribulada viagem de Vasco da Gama pela costa oriental da África, desde do episódio do velho do Restelo até ao encontro com o Adamastor, entremeada pelo concílio dos deuses, ousou Miguel Rocha. E aqui o desenho explode em belas composições e cores. Enche as páginas com um estilo visualmente delirante que combina com uma paleta cromática arrojada. De uma absoluta beleza. Entre Cantos ficam os feitos dos reis portugueses narrados em episódios da História de Portugal, por conta do traço elegante e fluído de João Lemos, que em boa hora regressou à bd portuguesa. Esta primeira parte reúne os Cantos I a V da epopeia camoniana, e é, sem dúvida, umas das melhores narrativas gráficas do ano, que merecia uma melhor uma edição, no mínimo em generosas medidas 235x320 franco-belga. A segunda parte da viagem está marcada para 2025. 

Avaliação:


 

4. Com SOL, o Diogo Carvalho apresenta-nos o seu trabalho de maior fôlego. Arrisca numa obra de ficção-científica, um género cada vez mais pouco frequente na banda desenhada portuguesa. Serve-se habilmente de múltiplas referências cinematográficas, e usa os códigos do Oeste Selvagem para construir aqui um western futurista, numa realidade longínqua onde cada planeta vale em função dos seus recursos naturais. A história segue Sol, uma força solitária da natureza de resiliência e determinação, que atravessa um planeta mineiro desolado e esquecido, numa jornada pela sobrevivência em busca de uma planta com propriedades medicinais únicas. A chegada de um estranho à cidade que é sempre olhado com uma ameaça à ordem instalada poderá parecer um cliché, mas é o gatilho para uma aventura recheada de acção, até porque o autor não poupa a sua personagem principal a inúmeras situações de perseguições e explosões. Uma história com várias leituras, onde o Diogo não deixa de reflectir as suas preocupações numa espécie de antevisão, como o presente, com a degradação ambiental, com a exploração intensiva de recursos naturais e a subjugação de populações a interesses superiores poderá bem vir ser um futuro. SOL é uma bela surpresa.

Avaliação:


 

5. Pelas suas anteriores obras, já poderíamos dizer Paulo J. Mendes é o digno sucessor do humor nonsense que encontrávamos nos trabalhos de José Carlos Fernandes. E neste seu novo livro, ATENDIMENTO GERAL, confirma. Mostra-nos essa continuidade com mais um dos seus retratos, onde entrelaça o nosso quotidiano com um humor satírico e um toque de critica social. Sob o pretexto da abertura de uma sucursal de um balcão de serviços de “percentuais e coeficientes” numa tradicional vila do interior rendida ao “cuntemporâneo” onde amores e desamores perdidos voltam à tona, o Sr. Lombinhos é a figura principal de rol de novos personagens, numa narrativa que segue com o autor a jogar entre o surreal e o absurdo, levando situações do dia a dia a extremos desconcertantes. Abusando dos jogos de palavras e diálogos improváveis, o autor consegue equilibrar o exagero humorístico com um olhar atento aos comportamentos sociais, resultando numa comédia que diria ser ao mesmo tempo despretensiosa e reflexiva. E apesar da história pecar um final algo excessivo, nesta obra, Paulo J. Mendes confirma o seu talento para transformar o banal em hilariante e o previsível em surpreendente, criando um universo onde o humor caustico é uma poderosa ferramenta de crítica e entretenimento. 

Avaliação:


 

 

quinta-feira, 7 de março de 2024

As Melhores Leituras de 2023

Serve este para reparar a falta comigo mesmo. Para fechar o Balanço de 2023 faltava-me deixar aqui as minhas melhores leituras do ano. A ideia é destacar apenas as “melhores das melhores” leituras que fiz dentro do que se publicou no mercado nacional durante o ano passado, fugindo daquele facilitismo de nomear tudo e todos. Posto isto, digo que foi um mais ano generoso o que dificultou alguma escolha entre os quase trezentos e cinquenta novos lançamentos contabilizados.

É verdade que mais de metade do que foi editado, quer seja pelo desenho, quer seja pelo argumento, não me despertou qualquer interesse ou entusiasmo, possivelmente porque ou não me enquadro no público-alvo daquelas edições ou então simplesmente porque as edições não o merecem. Por outro lado, outras obras há que me encheram as medidas, pelo cuidado na edição, pela qualidade do argumento, pela excelência do desenho. E foram estas as que nos ficam na retina, e que me facilitou depois esta tarefa de escolha. O mais difícil do exercício é o de completar o TOP 9 com a selecção de mais dois ou três álbuns entre uma oferta que se mostrou de grande qualidade. Mas cheguei lá.

São estas as melhores bandas desenhadas de 2023, um tributo à sublime arte de contar histórias em narrativa gráfica, cuja leitura recomendo fortemente:

(mosaico com disposição aleatória)

 

(apresentação das obras por ordem alfabética)

1629 - O Boticário do Diabo… ou a história apavorante dos náufragos do Jakarta

Sente-se permanentemente a tensão a bordo nesta obra! Na primeira parte de um díptico embarcamos num navio da Companhia Holandesa das Índias Orientais do século XVII, para uma viagem que já sabemos que não vai acabar bem. Baseado numa história verídica, o argumentista Xavier Dorison proporciona um excelente momento de leitura, trazendo-nos com mestria a atmosfera de conflito latente reinante entre uma trágica tripulação, resultante de um jogo psicológico de interesses e de desequilibro de poderes entre os vários protagonistas, ao qual o traço realista de Thimothée Montaigne confere uma dimensão ainda mais negra. Grande expectativa para o segundo volume. A edição é da Arte de Autor. 

Avaliação:


 

Blacksad - Então, tudo cai - Segunda Parte

Começo pelo óbvio: é tudo muito bom no universo antropomórfico de Blacksad! Neste álbum recuperamos a leitura para a segunda e conclusiva parte da mais longa das aventuras. Juan Díaz Canalès embalou-nos para mais um policial bem conseguido numa Nova Iorque onde os fios da construção e da corrupção tecem uma teia que aprisiona a cidade. A riqueza da narrativa centra-se no retrato social perfeito das suas personagens. Um microcosmo de complexidades e contradições. E Juanjo Guarnido brinda-nos (mais uma vez) com o seu traço exuberante e esplendoroso, preenchendo o desenho com múltiplas e deliciosas referências. A história, tal como uma investigação, vai-se descobrindo entre desenvolvimentos e reviravoltas, com o cair das máscaras até desenlace final tão inesperado quanto o destino que aguarda cada personagem. Maravilhosa leitura. A edição é da Ala dos Livros. 

Avaliação:


 

Em Busca do Tintin perdido

Em páginas que são janelas para a alma, Em Busca do Tintin perdido, obra de cariz biográfico do brasileiro Ricardo Leite, é uma ode apaixonada à nona arte! Cada bela ilustração é um sussurro de admiração e cada palavra um tributo. Ao longo de mais de duzentas páginas, seguimos com o autor na sua demanda pelo "bichinho" da banda desenhada. Numa viagem ao interior da sua prolífica imaginação, somos convidados a ser mais do que leitores - somos exploradores de um território onde as múltiplas referências e metáforas são estrelas a seguir e as conversas com os autores do panteão bedéfilo são luzes que iluminam o caminho. Com jogos gráficos que subvertem os habituais cânones da narrativa sequencial, estes são verdadeiras e inspiradas homenagens que o autor presta aos mestres que moldaram o seu sonho. Esta edição de A Seita não é apenas um livro; é um portal para um mundo onde a banda desenhada é a linguagem universal. 

Avaliação:


 

Frankenstein de Mary Shelley

Depois do seu magnifico trabalho com Drácula de Bram Stocker, só podíamos esperar que Georges Bess espalhasse o seu talento em mais uma bela e fiel adaptação de um conto gótico. E aconteceu com este clássico Frankstein de May Shelley. Um resultado cinco estrelas. Um registo num traço a preto e branco, de recorte fino e repleto de detalhes consegue que acentuar a dramatologia de uma trágica história de ambição desmedida e incompreensão humana. A capacidade narrativa do autor permite aqui replicar a empatia do leitor em relação à infeliz criatura. Trabalho fantástico. A edição é A Seita.

Avaliação:


 

Mattéo - Sexta Época (2 de Setembro de 1939 – 3 de Junho de 1940)

Estamos perante o desenlace de uma bela saga que em seis épocas revisitou um quarto da nossa História, numa história de paixão e perda, sacrifício e infortúnio, condicionada pelas emoções de encontros felizes e infelizes. Temos uma narrativa que navega pelos turbulentos conflitos militares do século XX, desde as trincheiras da Primeira Guerra Mundial, passando pelos ecos da Revolução Russa, até aos clamores da Guerra Civil Espanhola para chegar à segunda Grande Guerra. É neste palco, que o autor Jean-Pierre Gibrat traz-nos a metamorfose de um herói da grande guerra em desertor condenado, na personagem de Mattéo, filho de um anarquista espanhol, um belo estereótipo de todos os sonhadores utópicos que acreditam na bondade e na beleza dos ideais revolucionários. A arte que acompanha é simplesmente extraordinária, uma sinfonia visual pintada com mestria a aguarela, e donde sobressai, mais uma vez, a grande sensualidade das personagens femininas de Gibrat, com grandes semelhança de outras histórias, mas sempre belas de admirar. Magnifica colecção, composta por seis álbuns, selada com distinção pela Ala dos Livros. 

Avaliação:


 

Monster – volume 1

De leitura voraz, estamos temos uma história sinistra e complexa, mas simultaneamente cativante. Aborda questões morais (todas as vidas terão o mesmo valor?) da responsabilidade e das consequências de nossas escolhas. São estas as premissas para a viagem entre as sombras da personagem principal, o médico Kenzo Tenma, aos limites da natureza humana, numa narrativa habilmente explorada por Naoki Urasawa, com um rol de personagens bem estruturados, que evolui freneticamente através de sucessivos desenvolvimentos e ramificações da perseguição a um assassino em série numa Alemanha pós-muro. O desenho num registo clássico é preciso, detalhado e realista servindo muito bem um mangá da categoria seinen. Este é o primeiro tomo de uma colecção composta por volumes duplos, numa excelente aposta da editora Devir. 

Avaliação:


 

Sou o Seu Silêncio – Um Policial em Barcelona

O autor espanhol Jordi Lafebre, que já nos tinha cativado anteriormente com a comédia romântica Apesar de Tudo, regressou agora com um enredo policial. Assume mais uma vez a escrita e o desenho. A história desenrola-se a partir de uma consulta de terapia da extrovertida Eva Rojas, uma jovem psiquiatra com problemas de personalidade. A misteriosa morte de um herdeiro durante uma reunião familiar, naquilo que quase parece ser um clássico para as aventuras do detective Hercule Poirot, é o ponto de partida para uma divertida narrativa, muito por culpa da Eva. É a força desta personagem, com a sua atitude desafiante e ao mesmo tempo sedutora, que nos toma toda a atenção ao longo da história. Pode-se dizer que começa a existir uma imagem de marca de Lafebre: as suas personagens cativantes. De leitura deliciosa. A edição é da Arte de Autor.

Avaliação:


 

Spirou - A Esperança Nunca Morre... (terceira parte)

O terceiro volume de quatro de uma magnifica obra que destaca por uma história impactante, eco da gravidade dos eventos que a moldaram. Em A Esperança nunca morre… o autor Émile Bravo revisita um dos capítulos mais marcantes da história da Bélgica, com a invasão do território pelas tropas alemãs no decurso da Segunda Guerra Mundial. Servindo-se da ingenuidade da personagem do Spirou - aqui fora do registo aventureiro a que estávamos habituados - transforma-o em símbolo de consciência humanista perante o horror da guerra e das suas consequências. É através de Spirou e de um ambíguo Fantásio, que somos apresentados a uma gama de personagens humanos e complexos, cada um lutando com suas próprias batalhas internas e externas. É o drama da ocupação contado com uma sensibilidade e toques de humor que transcendem as páginas. Bravo de uma forma tão emocionante quanto educativa, retrata a esperança em tempos de desespero, a coragem face do medo e a resiliência contra todas as probabilidades. Uma bela e bem conseguida história numa excelente aposta da editora ASA.

Avaliação:


 

Uma Estrela de Algodão Preto

No palco da História, onde o drama da Segunda Guerra Mundial se desenrola, Yves Sente, numa narrativa poderosa, tece uma tapeçaria de emoções humanas - injustiça, orgulho, coragem – numa colagem que transcende o tempo, num conseguido equilíbrio entre diferentes épocas. No ano de 1944, três soldados negros americanos, marginalizados por uma política de segregação vigente no exército dos EUA, mas determinados em honra, oferecem-se como voluntários para uma difícil missão que desafia a morte, de recuperar a primeira bandeira que foi feita para representar os Estados Unidos, e cujas estrelas escondem um segredo que remonta a 1776. É o começo de uma nova frente na história de luta pela igualdade e respeito, onde o horror da guerra é graficamente realista graças ao magnífico desenho de Steve Cuzor (um autor a reter), onde cada traço é uma homenagem à bravura, cada sombra uma meditação sobre a tragédia. Uma história densa e emotiva, que tem tanto de enriquecedora como de envolvente, termina mostrando a trágica banalidade das pequenas conquistas. Soberbo. Uma obra que envolve o leitor. Se tivesse de escolher apenas um álbum, sem hesitação, esta seria a minha escolha de 2023. Primorosa edição com a chancela da Ala dos Livros. 

Avaliação:


 

sexta-feira, 30 de dezembro de 2022

As Melhores Leituras de 2022

Como já vem sendo hábito publico aqui o meu Top 9 do ano relativamente aos melhores álbuns que li durante o ano que agora termina. Apesar os tempos incertos em que vivemos, tivemos um 2022 rico em novidades numa quantidade tal que prevejo que dificilmente se repetirá nos próximos tempos. Editou-se por cá coisas muito boas numa oferta bastante diversificada de grande qualidade narrativa e gráfica e em belas e cuidadas edições. Dito isto, nas leituras que tenho vindo a fazer, posso afirmar que há álbuns incontornáveis, outros quase obrigatórios e alguns que foram verdadeiras surpresas.
 
Para quem acompanha este blogue, estas minhas escolhas já não devem constituir qualquer surpresa porque encontram-se incluídas nas sugestões que fiz para o Natal. Devo dizer que não foi um processo de escolha  fácil - nenhuma o é - e podia referir mais uma mão-cheia de obras que mereciam uma menção honrosa, mas a ideia aqui é mesmo destacar os melhores entre os melhores.
 
O franco-belga domina indiscutivelmente os meus gostos, e quanto a isso não há remédio. Uma palavra adicional para mais uma nomeação de Luís Louro, indiscutivelmente o mais completo dos autores nacionais, e como tal um excelente representante do melhor que se faz na BD nacional. A presença de uma obra mangá justifica-se porque este género teve este ano a sua explosão no nosso mercado, não só pelo numero de novidades (+60) mas igualmente pelo número de editoras que este ano incluíram este género no seu catalogo, e este One-Piece traz lá de fora números verdadeiramente demolidores.
 
Assim, sem qualquer critério na disposição ou arrumação, e a formar o quadrado perfeito, são este os obrigatórios e as minhas Melhores Leituras de 2022:


De cima para baixo, da esquerda para a direita, são estes os títulos e editoras: 

  • A ADOPÇÃO  -  Ed. Ala dos Livros
  • NOIR BURLESCO  -  Ed. A Seita / Arte de Autor
  • DANTE  -  Ed. Ala dos Livros
  • A VINGANÇA DO CONDE SKARBEK  -  Ed. Arte de Autor
  • LITTLE TULIP  -  Ed. Ala dos Livros
  • SPIROU - DIÁRIO DE UM INGÉNUO  -  Ed. Asa
  • MONSTROS  -  Ed. G.Floy
  • UNDERTAKER, vol. 3 - O MONSTRO DE SUTTER CAMP  -  Ed. Ala dos Livros
  • ONE PIECE, vol. 1 - A ALVORADA DA AVENTURA  -  Ed. Devir
 

quarta-feira, 30 de dezembro de 2020

As Melhores Leituras de 2020

O caminhar rapidamente para o fim de mais um ano, é sempre um bom pretexto para se fazer balanços, escolhas, listas. Apesar do malfadado 2020 não deixar grande saudades, a verdade é que em termos de lançamentos e novidades por cá, nós leitores de banda desenhada, não temos muito capital de queixa. É verdade que poderia ter sido excelente ano mas a pandemia não deixou acontecer. Mas também não é menos verdade que houve muita qualidade. E por causa disso não foi uma escolha fácil. Escolhi aquelas edições que deram um genuíno prazer de leitura desde da primeira até à ultima página. E como achei redutor destacar aqui apenas três ou cinco títulos como excelentes e recomendadas leituras, roubo o quadrado perfeito do #topnine do Instagram, para as minhas nove escolhas nas «Melhores Leituras de 2020» em banda desenhada publicada em Portugal. Assim, sem qualquer critério na disposição no quadrado, as minhas recomendações arrumam-se assim:
 
 


De cima para baixo, da esquerda para a direita, são estes os títulos e editoras: 

Os votos de Boas leituras!