Esta 21ª edição do Beja BD apresentava, aparentemente, o cartaz menos apelativo dos últimos anos. Nomes como Thomas Ott, Benjamin Bachelier, Philippe Girard ou Lucas Iohanathan acredito que pouco digam a uma grande maioria dos leitores, e isso acabou por se reflectir também na afluência. Mas como em tudo, só perde quem não vai.
E quem ficou em casa perdeu Thomas Ott. E isso foi uma perda genuína. O autor de O Número 73304-23-4153-6-96-8 e, mais recentemente, de A Floresta, foi a grande figura desta edição. Um artista de talento singular, que desafia a arte com um x-ato num cartão preto. O que sai dali tem uma precisão de um relojoeiro e o resultado é só magnífico. Pensar que os livros dele são feitos assim é qualquer coisa de extraordinário. E perdeu também a editora portuguesa que não enviou os livros do autor para venda.
Gostei de conhecer Diniz Conefrey, um autor de uma grande sensibilidade. Tive o prazer de apresentar uma conversa com ele, e de assinar o texto para a revista Splaft! Trouxe o seu último livro, A Estância do Sino Coberto, ao qual foi dedicada uma bela exposição. E por falar em exposições, os originais expostos de Benjamin Bachelier eram magníficos, os pequenos quadros de Ott extraordinários, e o trabalho muito interessante de Beatriz Brajal, vencedora do prémio Geraldes Lino. Foi pena a editora portuguesa não ter enviado os livros da autora para venda. Faltou conhecer as meninas do colectivo espanhol Aventureras Gráficas, que infelizmente cancelaram a sua vinda.
Nos concertos desenhados, uma imagem de marca do Beja BD, o cartaz deste contou com um nível artístico elevado. Para além do Ott, participaram os autores Nuno Saraiva e o Vasco Colombo, este último, que também não tinha lá livros, a ilustrar o som dos Club Makumba, o projecto artístico de Tó Tripps. Foi assim a edição deste ano.
Feita de pequenos mas saborosos apontamentos.
Agora há uma questão que fica no ar depois desta edição, e que não é fácil de ignorar.
O festival encontra-se agora numa posição ingrata no calendário. De um lado, o Maia BD veio dar às gentes do Norte o seu próprio evento, e do outro lado a Feira do Livro de Lisboa, que a cada ano apresenta mais banda desenhada no seu programa. Para quem está ali no meio, em pleno Alentejo profundo, o cenário não se mostra propriamente favorável. Senti esse esvaziamento. Não de forma dramática, mas sente-se. Percebe-se que não haverá muito mais espaço para crescer. A geografia não ajuda e o calendário conspira. O novo museu de banda desenhada pode trazer uma nova dinâmica, um novo argumento, uma razão adicional válida para a visita. Não sei se há a pressão dos números, a ansiedade de crescer, mas confesso o meu egoísmo. Beja é um pequeno grande festival. Erguido com paixão, ano após ano. Espero genuinamente que nunca perca a sua essência. Que se mantenha assim, como um pequeno grande, feito de encontros e descobertas. Aquele lugar onde sempre voltamos todos os anos para um fim-de-semana com amigos e para comer, beber e respirar banda desenhada. Por favor.
PS A primeira imagem foi de um saboroso arroz de cabidela no restaurante Tem Avondo.










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