Os Cabelos de Édith
Autor dos romances 1984 e O Triunfo dos Porcos (ou A Quinta dos Animais), entre outros, é a George Orwell que se atribui a frase “A história é escrita pelos vencedores.” E, de facto, se nos determos no final da Segunda Guerra Mundial, são muito mais abundantes os registos dos vitoriosos do que dos que capitulam.
Ao leitor interessado por este período não lhe é desconhecida a famosa fotografia do marinheiro a beijar uma jovem em plena Times Square, no meio da multidão que comemora o final da guerra de 39-45. Nem aquela que mostra os soldados soviéticos a tomarem o Reichstag, o parlamento alemão, hasteando a bandeira soviética. Ou ainda a de Winston Churchill a fazer o sinal de vitória que popularizou, após discursar para uma multidão no dia 8 de Maio de 1945 (o dia oficial do fim da guerra).
E como “a história é escrita pelos vencedores”, interessa não deixar cair no esquecimento certas atrocidades praticadas pelos vencidos. E é assim que, após o fim da Segunda Guerra Mundial se começam a divulgar imagens dos campos de concentração nazis e dos horrores que por lá se praticavam e que chocaram um mundo incrédulo.
Mas a história, caro leitor, não se detém naquilo que se fez ou nas comemorações mais ou menos triunfais da vitória. Na verdade, após a euforia, o comum dos cidadãos tem de voltar para casa e descascar batatas ou nem sequer tem casa para onde voltar ou batatas para descascar. O comum dos cidadãos, vencedor ou vencido, tem de prosseguir a sua vida com um défice material e um excedente traumático que não experimentara antes do conflito. E é aqui que a história escrita pelos vencedores tem tendência a saltar e a passar para o período seguinte mais interessante.
Mas, afinal o que aconteceu aos sobreviventes do “holocausto”? Como conseguiram prosseguir com as suas vidas? E como foram percepcionados pelos “vencedores”?
Vamos à história!
Paris, 22 de Maio de 1945.
À saída do liceu, Louis despede-se dos seus amigos, monta a bicicleta e pedala pelas ruas de Paris. Passa pela leitaria que não tem leite há uma semana. Passa pela mercearia do Senhor Dubois onde uma fila de parisienses aguardam a sua vez na tentativa de comprar bens racionados. Passa pela sapataria que só tem um par de sapatos. E chega por fim ao Pax, o cinema no qual trabalha na bilheteira para ganhar mais uns cobres e ajudar a família. Afinal, a guerra acabou, mas as dificuldades continuam. Só depois de se cruzar com um autocarro cheio de pessoas que se dirige ao Hotel Lutetia, Louis assume o seu posto na bilheteira do Pax. Em cartaz está “As Crianças do Paraíso”.
Já a noite vai alta quando Louis regressa a casa. Enquanto pedala ligeiro, a cidade parece ignorá-lo e esquecer-se que há poucas semanas o conflito mundial ainda tinha fim incerto. As pessoas divertem-se no Les Deux Magots e Louis pedala; no Tabou e Louis pedala; na Brasserie Lipp e Louis pedala. Chega por fim a casa. O pai lê o jornal, a mãe já se deitou, mas deixou comida na panela para o Louis aquecer. Pai e filho trocam algumas palavras e o dia termina.
Na manhã seguinte recomeçam as rotinas. A mãe acorda Louis que tem de levar a irmã à escola antes de ir para o liceu. Por sua vez, ela vai à mercearia na esperança de arranjar farinha que deve chegar nesse dia. Já no liceu, Louis estuda Camus na aula de francês e no intervalo reencontra o seu antigo professor da disciplina – este voltou depois da guerra, perdeu um braço, mas será reintegrado. Enquanto pedala de regresso a casa, Louis vê de novo o autocarro que se dirige ao Lutetia, cheio, como sempre. Num impulso, segue-o.
Os corpos esqueléticos dos deportados mergulham na multidão que os espera. As pessoas procuram os seus parentes desaparecidos entre os recém-chegados. Dentro do hotel, escuteiros e voluntários tentam manter alguma organização e dar assistência aos sobreviventes do horror nazi. Mas muitas mãos são poucas para acolher tantos. Tudo aquilo é demais para o Louis que acaba por se oferecer como voluntário.
Nas 24 horas seguintes, a vida de Louis mudará para sempre. No meio dos seus novos afazeres, conhece Sylvette e Édith, duas jovens deportadas de cabelos rapados que ocupam o mesmo quarto. Mas enquanto Sylvette conseguiu manter um certo espírito, Édith não fala e parece ter deixado o seu ser no campo de concentração de Birkenau. Sylvette partirá em breve e pede a Louis para tomar conta de Édith. Ele aceita, mas…
A deportação de milhões de judeus e outros “indesejados”, bem como o seu extermínio, são temas essenciais da história mundial, sendo amiúde abordados pela banda desenhada. Bem recente em Portugal temos, por exemplo a magnífica série de Émile Bravo, A Esperança Nunca Morre, também publicada pelas Edições Asa.
Já o período de regresso dos poucos sobreviventes é, regra geral, menosprezado ou resumindo-se na BD a breves vinhetas. Ora, esta lacuna é agora colmatada pelas premiadas romancistas francesas Fabienne Blanchut e Catherine Locandro que, a quatro mãos, escrevem Os Cabelos de Édith e conseguem vencer o Prémio Goscinny 2026.
Curiosamente, dar voz a uma sobrevivente de Birkenau é respeitar o seu silêncio. Édith está por demais traumatizada para que possa interagir com outros sobreviventes ou com os seus benfeitores. A mudez é apenas quebrada maioritariamente fora do foco do leitor, quando ela se expressa com Sylvette, a sua companheira de infortúnio. E é este o segredo da narrativa e o que lhe dá força. No seu silêncio ouvem-se as palavras, tudo o que não diz e que se reflecte nos actos de Louis, um dos protagonistas.
Amiúde, Édith viaja ao passado pela alameda da memória e tudo o que recorda é o terror por que passou às mãos dos nazis. Mais ainda, pequenos nadas do presente transportam-na constantemente a esse passado e fazem-na cada vez mais ausentar-se da realidade do quotidiano.
É a Louis que caberá a tentativa de trazer Édith para o presente. Mas ele próprio, e a sua família, estão ainda enredados nos tentáculos que a Segunda Guerra Mundial lançou para o futuro.
A história estende-se apenas por doze dias, tempo mais que suficiente para que Sylvette se agarre ao futuro de modo a melhor esquecer o passado de horror. O mutismo de Édith é assombrado pelo tempo de terror passado no campo de concentração e qualquer coisa é suficiente para reavivar o pesadelo vivido. Já Louis vê-se a repensar a vida e a tomar consciência de realidades dolorosas, atrozes e até, no caso da sua família, vergonhosas. É que o seu pai esconde um segredo.
Se a narrativa, de certa forma, está concentrada em Édith, é em Louis que ela encontra o seu motor. O rapaz alimenta-se da relação silenciosa com Édith e do que vai tomando consciência através dos jornais para que não seja tomado pela insensibilidade ou choque. Para além disso, percebe-se ao longo da leitura, que a ajuda dada às “deportadas” é também um desafio à autoridade paternal – ganha, também ela, pelo silêncio. Mas é naquele elo subtil que vai criando com Édith que a narrativa ganha em emoção e sensibilidade.
Quanto ao desenho, está a cargo de Dawid, de quem o leitor português já conhece o álbum Senhor Apothéoz, também publicado pela Asa. E a escolha não podia ser mais acertada, pois o traço subtil e delicado do artista consegue representar de forma quase transcendente a fragilidade dos personagens. Quer seja a Édith ou a Sylvette, o Louis ou o seu pai, todos eles parecem frágeis, prestes a desmoronarem-se, “vítimas” do traço de contornos delicados de Dawid. O próprio traço parece ser evocativo dos momentos graves retratados.
Por outro lado, a paleta de cores do autor, em tons pastel, tem a particularidade de transmitir serenidade e acalmar os ânimos, quase numa contradição chocante com os horrores por que passaram as duas protagonistas.
E para afirmar de certo modo que o pior já passou, o traço de Dawid altera-se radicalmente quando representa as cenas passadas por Édith no campo de concentração. Um traço nervoso que irrompe rude, bruto e de maior grossura, sempre em cenas inesperadas e reveladoras de que a violência continua bem viva na memória de Édith.
A composição das pranchas (entre 1 e 8 vinhetas) e os enquadramentos variados permitem ao leitor uma leitura dinâmica. E os cenários parisienses estão muito bem conseguidos e remetem na perfeição para o ambiente do pós-guerra.
Com uma grande delicadeza e cuidado, Blanchut, Locandro e Dawid contam-nos a história dos deportados dos campos de concentração, não só do que passaram durante a guerra como do que estão a passar após o conflito mundial. De certo modo é uma história dos vencidos, mesmo quando são vencedores. Por um lado, temos a população de Paris que quer esquecer a guerra e concentrar-se no dia a dia. Por outro lado, os sobreviventes do holocausto traumatizados. E depois, temos ainda aqueles que, como o Louis, querendo melhor enfrentar este período da História, tentam ser úteis aos outros.
No caso de Louis, é o encontro com Édith que o vai mudar profundamente. Um encontro pautado pelo silêncio dela. Um silêncio que, para quem quer ver, grita mais alto que qualquer dor.
Por fim, perguntar-se-á o leitor, qual a importância dos cabelos de Édith? E a resposta é a óbvia: há que ler a obra.
Por Francisco Lyon de Castro









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