No Rasto de Blueberry
Dominique Bertail
Tive a sorte de crescer numa casa repleta de livros. E o mesmo se passava na casa dos meus avós ou na empresa da família (uma editora). Ou seja, para onde me virasse, os livros perseguiam-me e traçavam o meu destino.
Mas também tive a sorte da minha família tratar com igual apreço os livros ditos de texto corrente e aqueles outros que se animavam de arte sequencial e a que chamamos Banda Desenhada.
Comecei a dar os primeiros passos na leitura e na escrita aos três anos de idade e lembro-me bem de me passarem pelas mãos os álbuns Astérix o Gaulês, Spirou e os Herdeiros, Tintin no Congo, Fúria Rebelde (da série Comanche), O Órgão do Diabo (da série Yoko Tsuno), Alix, o Intrépido, O Segredo do Espadão ou um Lucky Luke. O certo é que todos eles me apareciam com balões suavemente sublinhados a lápis pelo meu Avô e pelo meu Pai. A ideia era treinar os meus supostos dotes de leitor para além das frases curtas que apareciam nos livros infantis. Podem imaginar como me era difícil enfrentar os longos recitativos de Jacques Martin (Alix) ou de Edgar P. Jacobs (Blake e Mortimer).
Por esta altura, um dos livros que me ajudou a tornar num leitor compulsivo foi Forte Navajo, publicado em Portugal pela Editorial Íbis. Nele se contava a primeira aventura de um tal Blueberry que logo prendeu a minha atenção pela diferença evidente que tinha dos “cowboys” que passavam na televisão – ainda que eu, de tenra idade, não conseguisse identificar essa diferença.
Ora, é de Blueberry que vos quero falar. Mais propriamente, do álbum No Rasto de Blueberry que a Edições Asa acaba de lançar no mercado nacional. Criado em 1963 por Jean Michel Charlier (argumento) e Jean Giraud (desenho) para a revista Pilote, teve o seu primeiro álbum – precisamente, Fort Navajo – publicado em 1965 pela Dargaud. Sessenta anos passados, este editor histórico resolve assinalar a efeméride com a publicação de um álbum colectivo, uma antologia que reúne um verdadeiro elenco de 5 estrelas entre argumentistas e desenhadores que prestam aqui a devida homenagem ao anti-herói de Charlier e Giraud, dando-o assim a conhecer a novas gerações.
Vamos ao que interessa!
No Rasto de Blueberry é um álbum de homenagem que reúne 29 autores, entre argumentistas, desenhadores, ilustradores e coloristas. É composto por 14 histórias curtas e uma secção final com o trabalho de vários ilustradores, tendo como título No Fim do Rasto.
Devo dizer-vos que álbuns colectivos raramente me satisfazem. As histórias e os desenhos são sempre muito desiguais e o meu próprio gosto pessoal interfere, inevitavelmente, com uma apreciação mais global. Por outro lado, as poucas páginas atribuídas a cada autor impedem que as histórias se desenvolvam com alguma profundidade ou relevância. Contudo, não é isso que me acontece com este álbum.
É nítido o cuidado que o editor teve com a selecção de autores, muitos deles já habituados com o género western. E um deles até tendo desenhado 9 álbuns para a série A Juventude de Blueberry. Falo do virtuoso Michel Blanc-Dumont. Também é evidente a ligação emocional dos autores a Blueberry e que pode ser comprovada pelos depoimentos curtos que antecedem cada história. De igual modo, o editor preocupou-se em apresentar todas as histórias cronologicamente – ou quase todas –, dando ao leitor precisamente a sensação de ir no rasto de Blueberry e da sua vida, desde a infância até para lá do crepúsculo da “era dos cowboys”, com a última aventura a passar-se em 1910.
Cada história curta situa-se entre álbuns da série original e a cronologia e a coerência da longa trama criada por Charlier e Giraud é, na sua maioria, respeitada. Da sua infância privilegiada à sua retirada tranquila do mundo intranquilo do Velho Oeste, Mike Steve Donovan, aliás Blueberry, vive 14 aventuras inéditas nas quais reencontra os seus amigos Red, o velho McClure, a bela e sedutora Chihuahua Pearl, índios de várias tribos, bandidos, mexicanos, jogadores de poker, muito whisky e as grandes planícies.
Michel Blanc-Dumont
Como nos recorda o interessante prefácio, Blueberry atravessou mais de seis décadas encantando e seduzindo várias gerações de leitores com os seus álbuns e séries derivadas. O militar que dá ares de Jean-Paul Belmondo, temerário e com defeitos assumidos, foi um percursor do que mais tarde se chamaria de anti-herói, e seduziu rapidamente inúmeros leitores graças aos argumentos profundos de Charlier (aos quais não faltava também ironia) e ao desenho cada vez mais inovador do então muito jovem Giraud (mais tarde, também Moebius).
O impacto da série sobre gerações de leitores é inegável e encontra-se bem visível nos pequenos depoimentos que antecedem cada capítulo e onde são evocadas as paixões suscitadas por Blueberry aos respectivos autores desta antologia. Uma boa ideia do editor original que assim permite ao leitor sentir-se cúmplice dos argumentistas e desenhadores, partilhando com eles algumas memórias emotivas.
Enrico Marini
Embora importantes, obviamente que não são os pequenos depoimentos ou o prefácio que constituem o coração desta obra, mas o elenco de 5 estrelas que o editor conseguiu reunir. Curiosamente, um elenco que não é composto apenas pela “velha guarda” e que tem uma das suas mais valias no facto de ser transgeracional, demonstrando assim a influente longevidade de Blueberry. De igual modo, temos os “batidões” como Blanc-Dumont, Dominique Bertail ou Olivier TaDuc, os jovens ascendentes como Anlor, Paul Gastine ou Brugeas e Toulhoat e as estrelas rock da BD como Marini, Corentin Rouge ou Ralph Meyer, entre muitos outros. A lista é longa e os nomes dos 29 criadores do álbum podem ser encontrados no final deste texto como um extra.
Como já se disse, as histórias curtas estão mais ou menos organizadas de forma cronológica o que permite uma caminhada do leitor a par com a do protagonista. Passo editorial inteligente pois faz-se assim de No Rasto de Blueberry mais do que uma mera sucessão de histórias independentes.
Deste modo, o álbum abre com um episódio da infância de Mike. Aqui ficamos a saber que, mesmo tendo ele escolhido o seu “apelido” de Blueberry (Mirtilo em inglês) no final da Guerra da Secessão, como nos é contado no primeiro volume de A Juventude de Blueberry, o pequeno fruto escuro já tinha sido anteriormente acrescentado ao seu nome. Por seu lado, a história de fecho do álbum leva-nos até um Mike envelhecido, de rosto curtido por muitos anos ao sol, e retirado do mundo, na história mais emotiva do conjunto e que faz lembrar o conceito do álbum Rever Comanche de Romain Renard, igualmente publicado pela Asa este ano.
Corentin Rouge
Entre estas duas histórias, encontramos Blueberry em episódios quer completamente isolados, quer fazendo referências a álbuns da série através de alusões escondidas ou das consequências das suas acções. A grande variedade das histórias, dos tons e, claro está, dos estilos gráficos, permite ao leitor esquecer uma ou outra repetição dos grandes temas da série. Pode sentir-se facilmente o prazer dos argumentistas a evocar o personagem que lhes é tão caro, prazer esse que se transmite facilmente ao leitor. Também os desenhadores demonstram um prazer evidente a colocarem Blueberry em cena e até a ressuscitarem alguns cenários ou detalhes da série de Charlier e Giraud.
É impossível falar em pormenor de todos os artistas neste texto que se quer não testamentário. Mas, mesmo assim, entre os de estilo mais clássico e os de traço mais singular, vou destacar aqueles que reúnem a minha preferência, algo que me serve como catarse e que, obviamente, variará de leitor para leitor.
Assim, e por ordem de publicação no álbum, aprecio particularmente os seguintes desenhadores:
• Michel Blanc-Dumont: fez os meus encantos na série Jonathan Cartland, publicada em Portugal nos anos de 1980. Autor clássico, com muita atenção aos detalhes e rigor histórico, fez mais tarde os últimos nove álbuns da série A Juventude de Blueberry. Pena que a sua participação se resuma a 3 pranchas. Ainda assim, que belo encontro!
• Enrico Marini: este autor suíço cativou-me desde o seu início com Os Dossiers de Olivier Varése ou a série Gipsy. E continua a encantar-me com O Escorpião, Batman, Águias de Roma ou Noir Burlesco, para citar apenas alguns dos seus trabalhos publicados em Portugal.
• Dominique Bertail: senhor de um estilo inimitável, realista e detalhado, a sua arte pode ser vista em português na colectânea Go West Young Man.
• Paul Gastine: também com um estilo realista e detalhado, os seus personagens são muito expressivos. Em Portugal, está editado na colectânea Go West Young Man e no magnífico álbum O Último Homem…
• Corentin Rouge: coube-lhe a emotiva história de fecho de No Rasto de Blueberry, trazendo o personagem para o começo do século XX. De estilo realista, está publicado no nosso País na série Rio, em Thorgal Saga: Wendigo, Islander, Sangoma e na colectânea Go West Young Man.
Paul Gastine
Sejam clássicos ou não, o certo é que todos os argumentistas e desenhadores escolhidos encontram por direito próprio o seu lugar neste álbum que termina com uma boa galeria de ilustrações, também estas de reconhecidos autores.
Em suma, No Rasto de Blueberry é uma bela e vibrante homenagem a um personagem que influenciou inúmeros autores e ilustradores de Banda Desenhada. Mas também de inúmeros jovens leitores que o tiveram como modelo pelo seu carisma, os seus valores, a sua coragem e as suas imperfeições assumidas. No mundo do “politicamente correcto”, mas em prol do realismo, Blueberry fuma, bebe, joga e pulula por um ou outro bordel. Mas nem por isso deixa de ter valores que o tornam um anti-herói maior que ele próprio. E todas estas suas características são perfeitamente desenvolvidas pelos autores desta antologia de forma cativante, por vezes divertida, emotiva, mas sempre consubstanciada pela série original.
Por último, chamo a vossa atenção para a magnifica capa da autoria de Mathieu Lauffray, exímio ilustrador, capista de renome internacional e também autor de BD. Na capa vemos um Blueberry em contraluz, num ambiente crepuscular que evoca nostalgia. Num segundo plano são visíveis uma série de formações rochosas dignas de Monument Valley, mas que podem ser vistas como a linha do horizonte de uma moderna urbe, acentuando o tal sentimento nostálgico. Um anacronismo possível num álbum de homenagem.
Enfim! No Rasto de Blueberry é um álbum que fará, inevitavelmente, as delícias dos fãs do anti-herói. Mas é também um livro que sabe cativar todos os leitores de BD que desconheçam as aventuras do Tenente Mirtilo… perdão, Blueberry!
Milo Manara
EXTRA:
Seguem-se os nomes de todos os criadores que participaram No Rasto de Blueberry, por ordem de publicação.
Argumentistas: Olivier Bocquet; Jean-François Vivier; Vincent Brugeas; Enrico Marini; Dominique Bertail; Fred Duval; Matz; Philippe Xavier; Olivier Taduc; Jérôme Félix; Thierry Martin; Félix Meynet; Mathieu Mariolle; Vincent Perriot; Corentin Rouge.
Desenhadores: Anlor; Michel Blanc-Dumont; Ronan Toulhoat; Enrico Marini; Dominique Bertail; Alberto Belmonte; Philippe Xavier; Olivier Taduc; Paul Gastine; Thierry Martin; Félix Meynet; Alexandre Coutelis; Vincent Perriot; Corentin Rouge.
Coloristas: Anlor; Jocelyne Charrance; Raphaël Baudin; Anaïs Blanchard; Enrico Marini; Dominique Bertail; Alberto Belmonte; Jérôme Maffre; Olivier Taduc; Paul Gastine; Thierry Martin; Félix Meynet; Alexandre Coutelis; Vincent Perriot; Corentin Rouge; Yohan Glémarec.
Ilustradores: Blutch; Milo Manara; Stefano Carloni; Daniel Goossens; Lu Ming; Jean Mallard; Ralph Meyer.
Capista: Mathieu Lauffray
Lu Ming
Por Francisco Lyon.








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