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sábado, 3 de outubro de 2026

Dormindo Entre Nomeações

Chegou Outubro. Último trimestre do ano e mês do AMADORA BD. Faltam menos de 15 dias para o maior festival nacional de banda desenhada acontecer, por isso, entre notas de lançamentos, vão aparecer aqui várias abordagens ao evento. E começo já, porque entretanto foram divulgados os nomeados aos Prémios de Banda Desenhada da Amadora (PBDA), e o resultado não dignifica nem os prémios, nem o festival, nem a BD nacional. E apetece-me escrever sobre isso.

Começo pelo que já tinha criticado por aqui: a nomeação, para MELHOR OBRA DE BANDA DESENHADA DE AUTOR PORTUGUÊS (a categoria mais importante dos prémios), de obras editadas originalmente no estrangeiro. Já aconteceu no passado, voltou a acontecer no Prémio Nacional de Banda Desenhada da DGLAB e agora repete-se. Sabemos que o novo regulamento não acautelou o óbvio, mas contava-se com o bom senso do júri para destacar o que melhor se faz e edita em Portugal. Uma coisa à moda da campanha "100% PORTUGUÊS". Mas temos um  júri que preferiu aquela máxima "se já se fez mal, faz-se mal outra vez", e ainda com agravante: não nomeou uma, mas duas obras de origem estrangeira. Uma saiu primeiro no mercado brasileiro (Dormindo entre Cadáveres), outra no americano (Rare Flavours, que até manteve o título em inglês). O ponto em comum? Ambas contam com a participação de um autor português. O caricato é que - pode acontecer mas não vai acontecer - se a obra brasileira vencer (e para a DGLAB é a Obra do Ano), no próximo Amadora BD podíamos muito bem ter a imagem do maior festival nacional assinada por um artista brasileiro!!!! É tudo o que se pretendia com os PBDA, certo?

Convém ainda realçar que Rare Flavours tem dupla nomeação: MELHOR OBRA DE BANDA DESENHADA DE AUTOR PORTUGUÊS e MELHOR EDIÇÃO PORTUGUESA DE BD. O aceitável seria concorrer a MELHOR OBRA ESTRANGEIRA DE BD EDITADA EM PORTUGAL. Mas isso seria pedir demasiado.

Depois vem a questão da representatividade, ou melhor, a falta dela. As obras de origem asiática rondam os 35% da oferta no mercado nacional. Não se pode, nem se deve, ignorar este peso. E, no entanto, olhamos para as nomeações e não há uma única a merecer lugar em MELHOR OBRA ESTRANGEIRA ou sequer em MELHOR EDIÇÃO. Lembro que, no período elegível, saíram títulos de qualidade como Showa – História do Japão, Monster, Akira ou As linhas que traçam o meu corpo, que mereciam, no mínimo, outra atenção.

E por fim, a cereja no topo do bolo: o PRÉMIO REVELAÇÃO. O júri foi incapaz de distinguir um livro ilustrado de um livro de banda desenhada e nomeou Wandson Lisboa pelo seu primeiro livro, O Cão Invisível, uma obra dirigida ao público infanto-juvenil. Desconheço os critérios, mas aqui entramos no domínio do incompreensível. No livro ilustrado, a narrativa assenta sobretudo no texto e a ilustração acompanha, o que é o caso; na banda desenhada, a narrativa assenta na sequência gráfica e o texto acompanha. Parece simples, mas há quem continue a fazer confusão. E, para mal dos PBDA, esse alguém é o júri! Confesso que gostaria fosse tornada pública a acta das reunião das nomeações!

Em resumo, teremos aqui mais uma edição de prémios que não ficará para a história pelos melhores motivos. Mas também é verdade que estes prémios perderam a sua credibilidade há algum tempo e, a continuar assim, dificilmente voltarão a servir de referência para o melhor que se faz e edita em Portugal. 

Para memória futura, fica o trabalho do júri:

NOMEADO - MELHOR OBRA ESTRANGEIRA DE BD EDITADA EM PORTUGAL

● Soli Deo Gloria, de Jean-Christophe Deveney e Edouard Cour, editado pela Ala dos Livros
● Ulysse & Cyrano, de S. Servain e Xavier Dorisson, editado pela Asa/Leya
● Blast - Tomo 1/2, de Manu Larcenet, editado pela Ala dos Livros
● A Fera vol. 2, de Zidrou e Frank Pé, editado pel’A Seita
● Os Trabalhadores do Mar, de Michel Durand, editado pel’A Seita

NOMEADO - PRÉMIO REVELAÇÃO

● A Cada Sete Ondas, de Beatriz Brajal, editado pela Chilli com Carne
● Canalha Borrada, de Zé Lázaro Lourenço, editado pel’A Seita
● Manda msg quando chegares, de R.G.B, editado pela Iguana/Penguin Random House
● A Solidão do Ser, de Helena Sá, editado pel’A Seita
● O cão invisível, de Wandson Lisboa, editado pela Iguana/Penguin Random House

NOMEADO - MELHOR FANZINE OU PUBLICAÇÃO INDEPENDENTE

● Palácio #5, de Francisco Sousa Lobo, edição de autor.
● Alzine #3, de Filomena Fidalgo, Guido Barsi, Nicolas Viñolo, Fil, Hugo Teixeira, Joana Mariano, Luís Sousa, Vasco Lopes, Pedro N, Miguel Santos, Rodrigo Leme, André Vieira, Rita Torres, Marta Vicente, Marcelo Degrazia, João Gordinho, Samir Karimo, José Bandeira, Lança Guerreiro, Graziela Nascimento, Marco Fraga da Silva, Sérgio Santos, Manuel Monteiro, Sandro Leonardo, Keven Rocha, Amanda Bezerra, R Lourenço, Bruna Rodrigues, Mário André, João Gil, Sofia Santos, Sara Pires, Filipe Duarte, Sofia Bernardes, Beny-Draws, Phermad, Luciano Ferreira, José Mendes, Miguel Sánchez, Ana Mota, Rafael Sanzio, Henry Diaz, Hugo Maciel, editado pela Associação Tentáculo
● Augusto Trigo: “O menino que rabiscava paredes” e “Na pista de um Sonho”, de José Baptista, Augusto Trigo e Jorge Magalhães, editado pela Câmara Municipal de Moura
● Fanzine Poesia BD nº14 – A avó Florinda e o avô que bebia cachaça, de António Tavares e Paulo Diogo, Edição de Autor

NOMEADO - MELHOR OBRA DE BANDA DESENHADA DE AUTOR PORTUGUÊS

● Caderno de Memórias Coloniais, de Isabela Figueiredo e Júlia Barata, editado pela Leya/Caminho
● Rare Flavours, de Filipe Andrade e Ram V, editado pela Kingpin Books
● Dormindo Entre Cadáveres, de Luís Moreira Gonçalves e Felipe Parucci, editado pela Zigurate
● O progresso da humanidade, de João Sequeira e Rui Cardoso Martins editado pela Polvo
● Atrahasis, de David Soares e Sónia Oliveira, editado pela Kingpin Books

NOMEADO - MELHOR EDIÇÃO PORTUGUESA DE BD

● A Fera vol. 2, de Zidrou e Frank Pé, editado pel’A Seita
● O grande poder do Chninkel, de Van Hamme e Rosinsky, editado pela Arte de Autor
● Os Trabalhadores do Mar, de Michel Durand, editado pel’A Seita
● Rare Flavours, de Filipe Andrade e Ram V, editado pela Kingpin Books
● Shi - Livro 2, de Zidrou e Joseph Homs, editado pela Ala dos Livros


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