Coração de Papel
Até o mais prolífico dos criadores é, por vezes, abandonado pela musa. São momentos, mesmo que breves, que parecem abraçar a eternidade e lançar o criador numa sucessão de infindáveis domingos de descanso – o divino sétimo dia bíblico.
Ora, foi exactamente isso que se passou com Luís Louro há um pouco mais de 30 anos. Após o sucesso retumbante que alcançou com a publicação do álbum Alice (1995), o criador, pela primeira vez na vida desde que começou a enriquecer os anais da Nona Arte, esteve um ano sem desenhar e dois sem publicar um trabalho novo. À mente ocorria-lhe a ideia de fazer algo em tons completamente opostos aos que utilizara em Alice. Onde então imperavam os azuis frios, Louro queria agora inundar as páginas de castanhos e laranjas quentes, algo que remetesse para o Outono e para as suas folhas caídas. Mas, à parte isso, nada mais! Nem história, nem esboços ou estudos de personagens… nada! A Musa continuava a vaguear por parte incerta.
Contudo, como em tantas outras vezes na vida do criador, a ideia da história surgiu-lhe do nada, como um “big bang”, sendo escrita rapidamente e iniciando-se o desenho ainda em 1996. No ano seguinte, há quase trinta anos, era publicado o álbum Coração de Papel. Esgotou rapidamente e, por razões várias que não interessam para aqui, acabou por nunca ser reeditado. Até agora!
A Seita e a Arte de Autor acabam de publicar (ou reeditar) Coração de Papel, uma das obras preferidas de Luís Louro. E embora a história não tenha sofrido alterações, a edição é agora bem mais cuidada que a original, com capa dura, novas cortinas entre capítulos, um prefácio de Luísa Santos Louro e um muito rico e interessante caderno de extras de 18 páginas no qual o leitor é convidado a entrar nos segredos da criação desta obra e onde está incluída uma entrevista ao autor conduzida por João Miguel Lameiras. Como brinde adicional, Luís Louro oferece ainda ao leitor um desdobrável de quatro páginas com a capa original de 1997 e ainda duas capas novas, com o seu traço actual, e que compõem a edição corrente e a criada em exclusivo para a Wook.
Coração de Papel, na sua versão de 2026, é assim uma absoluta novidade para os leitores Geração Z e Geração Alfa e para todos os que andavam distraídos nos idos de 1997. Mas é também um “upgrade”, ou melhor dizendo, uma subida de nível, para todos os que têm a edição original.
É então chegado o momento.
Vamos à história!
Era para aquele farol isolado, mesmo à beira de uma falésia, que ele as levava. Enquanto as ondas inclementes fustigavam as escarpas rochosas e as gaivotas faziam ouvir o seu grasnar acima da fúria do mar, ele aliciava-as a segui-lo até ao seu refúgio. Lá chegadas, ele advertia-as: “Devo avisar-te que não tenho coração.” Invariavelmente, elas decidiam ignorar o aviso. Talvez pela roupa divertida e espalhafatosa de arlequim que trajava; talvez pelos bonecos de peluche e marionetas, todos com a cabeça em forma de coração, que habitavam o refúgio; talvez pelas folhas de Outono, mágicas e misteriosas, que esvoaçavam por ali, embora não houvesse uma única árvore à vista. O certo é que todas as mulheres acabavam por despir-se e entregar-se por completo àquele homem estranho e cativante. E nesse momento, era tarde demais.
As duas amigas caminhavam calmamente pelo típico bairro lisboeta a caminho do ginásio. A meio do percurso, lá estava ele, o arlequim, a fazer malabarismos. Não percebendo exactamente porquê, Rebeca, uma das amigas, fica impressionada com o homem. E o mesmo acontece com ele, parando o que estava a fazer para a cumprimentar e oferecer-lhe uma rosa feita de folhas de outono. Apanhada de surpresa pela gentileza, ela gagueja um “obrigada” e segue com a amiga para o ginásio. Contudo, ao chegar a casa percebe que a flor feita de folhas tinha-se transformado numa bela rosa branca, como que por magia. Rebeca acabava assim de ser seduzida por Lucas, o homem sem coração…
Coração de Papel foi apenas o terceiro álbum a solo de Luís Louro. E, no entanto, já nele demonstrava o domínio das artes narrativas. É que não é fácil contar uma história completa em 48 pranchas, mantendo um ritmo rápido e, ao mesmo tempo, não abdicando de uma certa profundidade, sobretudo no que ao personagem principal diz respeito.
Situando-se entre o thriller sobrenatural e o romance de amor, Coração de Papel tem como protagonista, e não há outra maneira de o classificar, um homem abjecto, ignóbil e verdadeiramente sem coração – tanto no sentido literal como no figurado. Para o leitor que o encontra pela primeira vez, ele não passa de um ser desprezível que faz tudo por breves instantes de prazer carnal, matando de seguida os seus objectos de luxúria. Mas Lucas (pois é este o seu nome) esconde há séculos um terrível segredo, algo que traz consigo bem oculto no fundo da sua alma; algo que não lhe permite ser mais do que aquilo que é, algo que determina a sua natureza e contra o qual é absolutamente impotente.
Luís Louro cria assim um personagem preso a um destino amaldiçoado, incapaz de superar os seus desígnios mais vis e divertindo-se a abreviar a vida das mulheres mais incautas que caem nas malhas da sua rede de sedução. E, no entanto, o autor consegue polvilhar a história de Lucas, aqui e ali, com condimentos que tornam impossível ao leitor não sentir uma certa empatia por este ser maléfico e sombrio. Até o seu olhar mefistofélico, raiado de sangue, é bem o testemunho da sua maldade. Mas nem isso permite ao leitor afastar-se do personagem.
E depois, como contraponto narrativo, há Rebeca, uma jovem mulher emancipada, moderna, independente, mas a viver um tempo ainda longe do actual e, por isso, tendo de enfrentar um tipo de assédio que hoje já não será tão comum. É esta Rebeca que se vai apaixonar perdidamente pelo nosso arlequim sem coração e operar uma transformação drástica no personagem que ao longo da história irá sofrer até modificações físicas.
Por fim, há o padre, personagem que serve de antagonista e que, aparentemente, estará no espectro oposto de Lucas. E é curioso como o autor consegue transformar este homem da igreja, que só quer o “bem” e terminar com a maldição de Lucas, no personagem mais odiado pelo leitor. Mantendo um maniqueísmo evidente, Luís Louro consegue a proeza de transformar o mau em bom e o bom em mau.
Não sei exactamente se a escolha de um arlequim foi propositada. Mas este conhecido personagem da Commedia del’arte encaixa na perfeição na narrativa de Louro. Conhecido por participar num triângulo amoroso e por ter roubado a Colombina ao Pierrot, o Arlequim simboliza a comédia humana, alguém que procura transgredir as regras comummente aceites e transcender as limitações do ser terreno. Ora, é precisamente isso que vai fazendo Lucas, tanto pela sua condição sobrenatural como pelo seu alheamento pelos mandamentos divinos.
E em termos de estrutura narrativa e da continuidade da obra do autor, o arlequim Lucas serve como elo de contacto com Alice, a obra anterior de Luís Louro. É através deste personagem que o criador mantém a sua “fase onírica”. Se em Alice temos uma protagonista que vive as agruras do seu quotidiano de uma forma dolorosamente real e que, para escapar, mergulha num mundo de sonhos no qual a fantasia e a irrealidade são o garante da sua sanidade, em Coração de Papel o mundo onírico invade a realidade que ganha contornos surrealistas e quiméricos. Afinal, um homem que, fisicamente, não tem coração, parece ter vindo directamente de um universo de pesadelo. Por outro lado, o mesmo homem conseguir dialogar com uma série de bonecos vivos com as cabeças em forma de coração parece algo vindo desse mesmo universo. E, por fim, a presença constante das misteriosas folhas de Outono cria uma forma de realismo mágico – que no presente caso, é igualmente trágico – que remete o leitor para essa dimensão onírica da narrativa.
Deixo aqui uma nota para os leitores mais recentes de Luís Louro. É a partir da publicação original de Coração de Papel em 1997 que o autor nunca mais abandonará o uso das folhas de Outono em todas as suas obras ou até mesmo em autógrafos desenhados. Não importa qual a estação do ano em que se passe uma história ou o espaço físico em que se desenrole. O facto é que as folhas de Outono passaram a estar presentes em todos os seus livros. E assim, mesmo nas suas obras mais realistas, essa componente onírica acaba por estar sempre presente, como se a “Terra do Nunca” persistisse em não abandonar a mente de um “Menino Perdido”.
Mas, independentemente do que se diga ou escreva, Coração de Papel é, acima de tudo, uma história trágica de amor da qual cada leitor poderá tentar adivinhar o fim. É que, quando se viaja ao fundo da alma, o desfecho é sempre incerto.
Quanto à arte, para os nostálgicos das duas primeiras décadas de carreira de Luís Louro, este é um álbum a não perder. Esta é ainda a sua fase mais pura de “linha clara” e da trabalhosa e igualmente penosa colorização a aerógrafo, ainda bem longe do acesso aos recursos digitais que se lhe oferecem hoje em dia.
O traço “linha clara”, que o tornou famoso com a criação do personagem Jim Del Monaco, já aqui tinha sofrido alguma evolução, sobretudo na tomada de decisões estéticas relacionadas com os cenários urbanos e que tinham começado a ser visíveis nos primeiros volumes de O Corvo (outro dos personagens criados por Louro). Por exemplo, os edifícios não são desenhados a régua e esquadro, sendo compostos por linhas irregulares e, muitas vezes, por perspectivas distorcidas, o que adiciona à composição das vinhetas um dinamismo quase subconsciente.
Ligando a arte à narrativa, na tal questão onírica referida anteriormente, temos a inventividade do autor na criação de um inspirado conjunto de bonecos com a cabeça em forma de coração e que mantêm diálogos com Lucas, sempre que este está sozinho com eles. Em termos narrativos, servem para criar profundidade psicológica no arlequim, fornecendo-nos elementos que, de outro modo, só poderiam chegar ao conhecimento do leitor através de uma voz-off. Já em termos artísticos, os bonecos criam diversidade, vida e até vontade do leitor de descobrir a origem de cada um.
Sem querer ser exaustivo, devo referir ainda a bem-sucedida utilização de uma paleta de cores que privilegia os castanhos, encarnados e laranjas, compondo a ambiência outonal mesmo em cenas urbanas ou de interiores. Tal acontece também quando há uma predominância de mar ou de céu nas vinhetas, alcançando-se resultados esteticamente belos, muitas vezes marcados pela presença de uma lua cheia.
Por fim, devo destacar o muito rico dossier de extras a que o autor resolveu chamar, apropriadamente, de “Segredos…”. Temos aqui uma verdadeira cápsula temporal que nos leva ao momento da génese da obra em 1997. Depois de sermos brindados com algumas fotos de então do autor e com uma ilustração de Lucas composta por cores vibrantes e criada em 2020, passamos para o núcleo que mais gerará entusiasmo nos amantes da Nona Arte. Desde estudos de chapéus (que fazem parte da imagem do Arlequim) e de fatos, a estudos de personagens, passando por curiosos cronogramas de trabalho e manuscritos com as primeiras ideias do argumento e diálogos, cada página é um manancial de curiosidades que nos permitem verdadeiramente entrar nos bastidores da obra. Para mais, temos ainda esboços de pranchas, de capas, e muito mais, culminando numa entrevista ao autor realizada por João Miguel Lameiras e a reprodução da capa original num desdobrável de quatro páginas.
Coração de Papel é uma obra que estava esgotada há cerca de 30 anos e que faz parte incontornável do corpo criativo de Luís Louro. Para os seus leitores habituais, surge agora como algo de novo, com valor acrescentado e indispensável.
Mas para os novos leitores, é uma história que tem a capacidade de os levar para onde os transportam as suas preferências. Para uns, será uma história de terror. Para outros, uma história de amor. Mas, para todos, uma viagem ao fundo da alma…
Por Francisco Pedro Lyon de Castro












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