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domingo, 1 de novembro de 2026

Viagem pelo magnificentíssimo

 Terra ou Lua, volume 1

 


A experiência da leitura proporciona-nos momentos completamente diversos. Há livros que não nos dizem nada e depressa são postos de parte (o tempo é finito e os livros parecem não o ser). Há outros que ganham o nosso favor à medida que os vamos lendo. E há outros ainda que nos encantam por completo desde o início.


Mas bem mais rara é aquela emoção descontrolada de desejarmos ter um livro entre mãos do qual nem o cheiro das páginas ainda sentimos. É uma capa que vimos ao longe e que nos sugere analogias com obras e meios diferentes que nos enchem sempre as medidas. São zunzuns que nos chegam e nos deixam expectantes. Ou é o próprio livro que, já estando nas nossas mãos, optamos primeiro por não ler, namorando-o ao longo de vários dias – é folheado, admirado, cheirado e observado em toda a sua beleza.


A propósito de beleza, tenho para mim a seguinte hierarquia de valorização estética pela positiva: bonito, muito bonito, lindo, lindíssimo, belo, muito belo e belíssimo. Uma valorização como outra qualquer, mas que servirá ao leitor para melhor compreender uma ou outra análise mais superlativa.


Sendo assim, a Edições Asa acaba de publicar em Portugal o primeiro volume de Terra ou Lua de Jade Khoo, autora até agora desconhecida no nosso País.

  

Já com o livro entre mãos, cheirei-o, folhei-o, namorei-o, observei-o em toda a sua beleza e achei por bem esquecer a tal hierarquia de valorização estética para o rotular acima de “belíssimo”, pois trata-se de obra magnificentíssima.


Vamos à história!

 

Aquele ano das suas sete primaveras foi o momento em que a sua vida mudou. Enquanto passeia na orla do bosque, o pequeno Othello descobre no chão à sua frente uma pena negra de ponta branca. Nasce então nele uma vontade imensa de construir algo que lhe permitisse voar como os pássaros. Para isso, recolhe todas as penas que consegue encontrar e cola-as em dois triângulos de cartão, imitando asas. Mas o resultado é miserável e suscita-lhe uma miríade de perguntas. Como se organizam as penas numa asa? Que pássaro poderia fornecer-lhe penas suficientemente grandes de modo a sustentarem o seu peso? Como identificar as diferentes espécies de aves? As perguntas sucediam-se a uma velocidade vertiginosa e, pouco a pouco, Othello acabou por esquecer o seu objectivo inicial e deixou-se apoderar por um fascínio pelos pássaros, pela sua observação e identificação.


Nesse mesmo ano, tão especial, Ange entra na sua vida. Rapidamente, a amizade entre os rapazes torna-se sólida, daquelas que permanecem para todo o sempre. Ainda para mais, Ange acompanha Othello no seu gosto por pássaros.



Poucos anos depois, os rapazes consideram ter chegado o dia D, o momento em que têm de tentar entrar no clube de ornitologia. Estão nervosos, apreensivos, mas preparados para responder à bateria de questões difíceis disparadas pelos membros do clube. Othello passa o teste com brilhantismo e é admitido. O mesmo não acontece com Ange. Mas para Othello está fora de questão integrar o clube sem o seu amigo e consegue negociar a entrada dos dois.

Mais tarde nesse dia, Othello atrasa o seu regresso a casa na tentativa de evitar a sua mãe. Deambula pela planície e refugia-se na orla do bosque, tirando notas, observando e pensando na triste realidade que vive em casa. Mas desta vez, a mãe está à sua espera. Pede-lhe que vá almoçar sozinho com o pai no dia seguinte. A ideia é recuperar um caderno encarnado e as joias de casamento que ficaram com o pai que vive há um ano num anexo no fundo do jardim. E para o conseguir fazer sem interferências, Othello deverá administrar-lhe uma substância fornecida pela mãe de modo a adormecê-lo. O que Othello não sabe é que vai adormecer o pai para sempre. O que Othello não sabe é que vai ser separado da mãe e dos amigos. O que Othello não sabe é que vai para um orfanato. Acabaram-se os passeios pelas planícies verdejantes e pelos bosques frondosos da Lua, acabou-se a amizade com Ange e a observação de pássaros. Tudo parece ter terminado, até ao dia em que…



É difícil acreditar que Terra ou Lua é apena a segunda Banda Desenhada de Jade Khoo, jovem autora francesa de 28 anos. Mais parece algo produzido por um artista com larga experiência nas artes da narração, do desenho e da pintura a aguarela. Mas se pensarmos que a sua grande influência é a artista chinesa Zao Dao e que o seu estilo é próximo de Hayao Miyazaki e das extraordinárias produções do Estúdio Ghibli, parte do enigma está explicado.


Terra ou Lua é uma história ambiciosa que mistura romance iniciático, ecologia, antecipação científica e fantástico. Meticulosamente organizado e disparando em várias direcções, o argumento não permite qualquer pausa tanto aPos personagens como aos leitores. Khoo narra inteligentemente a história do jovem Othello, não se permitindo revelar mais que o estritamente necessário e alimentado em contínuo a sua história com informações e revelações que vão enriquecendo este universo e promovendo constantemente a acção. O resultado é uma leitura fluída, absolutamente cativante e de uma nitidez assombrosa.


A ambição narrativa de Jade Khoo é tal que a aposta raia a desmesura. O seu objectivo é colossal e variado, opondo desafios globais à vida do quotidiano, a tecnologia e a política dos grandes jogadores à simplicidade aparente dos protagonistas, tudo envolto numa narrativa plena de truques de psicologia avançada. E, no entanto, tudo parece tão simples… simples para que a tal fluidez de leitura nunca abandone o leitor. Cada elemento narrativo é autónomo e vai-se desenvolvendo à sua própria velocidade e todos, a pouco e pouco, vão-se integrando num quadro mais vasto. E é assim que vamos vendo os lugares a formarem-se, as explicações a inverterem o sentido da trama ou a enriquecê-la e novas perspectivas a surgirem na mente do leitor.


Para que seja um pouco mais inteligível o que acabo de escrever, digo-vos que a história decorre num ambiente bucólico até à página 67. Só então somos assombrados pela evolução tecnológica desta sociedade que é o palco da vida de Othello. E mesmo assim, o futuro é expresso apenas pelo design avançado de um mero comboio. Tudo o resto neste futuro é semelhante às mais belas paisagens campestres em que poucos de nós têm a sorte de viver. A pouco e pouco, a autora vai-nos espicaçando a curiosidade, alimentando a nossa curiosidade. E quando revela um pouco mais, fá-lo obrigando-nos a questionar a trama. Mas… afinal a acção decorre na Lua? Porquê? E como é que foi possível o homem transformar uma paisagem lunar estéril nos campos de cereais ou nos mais verdejantes alguma vez vistos?


 

Ao longo de quase 300 páginas, Jade Khoo traça o retrato de uma civilização inteira instalada na Lua, num tempo futuro doce, elegante e depurado, bem longe das representações habituais das narrativas de antecipação ou de ficção científica. E este é precisamente um dos “segredos” de Khoo – apresentar o futuro como se de um passado idílico se tratasse. Um futuro envolto em poesia e calma aparentes, como nos filmes de animação dos estúdios Ghibli. Aliás, Terra ou Lua retoma os temas do ambientalismo, do pacifismo, do naturalismo e até da aviação, tão caros a Hayao Miyazaki e que, de uma maneira ou de outra, podem ser vistos em filmes como O Castelo no Céu, A Princesa Mononoke ou O Castelo Andante. Tanto nestes como em Terra ou Lua, a natureza está sempre presente nas suas mais belas representações. E omnipresente até nas cenas de interiores que parecem dela adquirir os tons mais doces. Afinal, para lá da claraboia de um sótão ou da janela de um quarto, sabemos sempre que podemos contar com uma paisagem magnífica e uma natureza reconfortante.


Outro dos segredos de Khoo é a forma realista como apresenta a narrativa. O realismo com o qual ela envolve o quotidiano inibe esta de ser uma história do fantástico ou de ficção científica. Pelo contrário, passa a ser uma história dos tempos contemporâneos na qual, por mero acaso (ou talvez não), são introduzidos elementos de antecipação científica. O foco central está em Othello que vai enfrentando as agruras da vida e, depois, as alegrias com as quais é bafejado. Pelo meio, procura as respostas a segredos obscuros da sua família e, neste processo, tenta reconstruir-se através de uma espécie de viagem iniciática e de crescimento.



Sem revelar demais, sempre posso dizer que Terra ou Lua oscila entre dois territórios e duas épocas com uma fluidez extraordinária. A narrativa avança contida e com pudor, fazendo-nos sentir todas as emoções dos personagens sem nunca entrar em esforço; tudo nos parece natural. E assim, somos imergidos numa viagem que nos ultrapassa e nos transcende pela sua pureza e pela sua beleza, mas na qual nos sentimos em harmonia e segurança.


Até a escolha dos nomes próprios dos dois protagonistas, Othello e Ange, contribui para a dimensão simbólica desta obra, enriquecendo a leitura. Othello evoca um personagem atormentado, atravessado por emoções fortes e fragilizado por um conflito interior. Uma referência shakespeariana que reforça a dimensão humana do personagem e o coloca no centro da tragédia, do lado da Terra, dos vencidos e das emoções concretas. Por seu lado, Ange é a exaltação da pureza e da espiritualidade e ganha uma dimensão quase para lá do mundo, ou seja, lunar.


Jade Khoo vence este desafio arrojado de fazer embarcar o leitor numa experiência poética e onírica, e nem por isso deixa de lhe tirar o fôlego levando-o de surpresa em surpresa. Terra ou Lua leva-nos para um momento suspenso, como se o tempo desacelerasse. E cada página virada faz perdurar esta atmosfera que desejamos interminável, infinita. A autora parece sussurrar-nos com doçura para levarmos o nosso tempo, para contemplarmos e escutarmos as nossas emoções. Leitor que consiga este feito, embarca inesperadamente numa viagem magnificentíssima.


Nesta primeira parte do díptico, Jade Khoo instala as bases deste mundo futurístico e vai desvendando paulatinamente o passado de Othello e dos seus pais e, ao mesmo tempo, da Terra e da Lua. E se ela deixa voluntariamente zonas de penumbra e questões por responder – o que deixa antever um segundo volume rico em revelações –, nem por isso este álbum deixa de ser incrivelmente bem conseguido, despertando uma enorme curiosidade pela segunda parte, prevista para 2027.



Desde as primeiras páginas, ou melhor, desde a capa, torna-se claro que Terra ou Lua é uma obra única no que à arte diz respeito. Cada imagem, cada ângulo, cada encenação, cada cor convida-nos a entrarmos numa aventura completamente imersiva.


Visualmente, o estilo aproxima-se do mangá, conseguindo ir bem mais longe. A autora, segura de si, impõe o seu cunho e distancia-se da linguagem e dos códigos manganescos. E se nem tudo está ainda matrizado (não esquecer que esta é apenas a segunda obra da autora), o resultado global é, em cada prancha, admirável. Ao invés de contrapormos a BD europeia à do extremo oriente, Joe Khoo mostra-nos como é possível beber das inspirações asiáticas e fundi-las com a mais inspirada das tradições franco-belgas. Uma fusão que alcança o sublime e que pode encantar até o mais insensível dos leitores.


 

As paisagens campestres, tal como as urbanas, tanto podem surgir-nos envoltas em grande detalhe como podem parecer-nos, por vezes, próximas de um certo impressionismo (se vistas de muito perto). E tudo é embelezado por uma colorização agridoce que acompanha na perfeição o espírito da obra, que aborda temas duros, trágicos e emocionantes.


É impossível ficarmos alheios aos pôr-do-sol majestosos, às cenas nocturnas envolventes, aos deslizares aéreos por infindáveis campos de cereais ou à misteriosa Reserva, onde a Lua mantém a sua natureza original e o Gigante aguarda em paz a chegada de um efémero visitante.


Por trás das cores vibrantes e luminosas impressas em papel couché, desenha-se um mundo mais sombrio do que nos parece à primeira vista. Mas as cores servem aqui como um ardil para que o leitor se deixe envolver pela sua doçura, sendo assim mais facilmente atingido pelas reviravoltas sofridas pela trama. São estas cores que parecem deslizar e evoluir de página a página, criando assim a impressão de um mundo em pena mutação.



Jade Khoo entrega a sua alma aos detalhes e desenha, com igual minúcia, a pena de um pássaro ou a folha de uma árvore. O seu desenho parece possuído pelo espírito da deusa Artémis, dando à natureza deslumbrante o estatuto de protagonista acima dos protagonistas. De tudo o que é magnificentíssimo nestas paisagens sublimes, o leitor até pode sentir-se tentado (mas não o deve fazer) a ignorar recitativos e balões e limitar-se a ver, apenas a ver, e a deixar-se levar pelo superlativo artístico. O facto é que o desenho manual de Khoo e a sua colorização a aguarela, o seu domínio da luz e dos efeitos de transparência, resulta num álbum de graça intensa, tão poderoso quanto frágil. E ao leitor só resta uma vontade, a de demorar o tempo que for preciso para admirar cada um dos quadradinhos, como se fossem os quadros dos grandes mestres.


Diz o adágio que não se deve julgar um livro pela capa. Esta lança uma promessa ao leitor, atiça a sua curiosidade e agita o seu imaginário. Instala uma certa atmosfera e lança as primeiras pedras de uma narrativa que só pede para ser descoberta. Mas quantas vezes uma capa é uma ilusão! Ora, Jade Khoo ataca forte com a capa de Terra ou Lua, na qual um jovem faz face a um gigante de pedra deitado, de olhos de um azul profundo. E é este olhar intenso que agarra o leitor desde o primeiro segundo, oferecendo-lhe uma garantia: a de ir fazer uma viagem magnificentíssima.



Terra ou Lua é daquelas surpresas raras. As temáticas, tanto as grandes como as pequenas, são incrivelmente ricas, consubstanciadas por uma narrativa cuidada, inteligente e cativante. O casamento entre o lirismo e a sensibilidade da história e o mundo futurista na qual se integra confere-lhe uma singularidade da qual nos é difícil apartar. E ansiamos já por reencontrar os personagens que tão profundamente nos seduziram. Jade Khoo mergulha-nos numa miríade de emoções que viciam e tornam a leitura de quase 300 páginas num mero relampejar, pois a satisfação plena virá apenas com o derradeiro relâmpago da tempestade.

 

E se a história e a narrativa são soberbas, o que dizer da arte?! Envolta nas mais belas aguarelas, Khoo pega num estilo mangá e transforma-o à medida do estilo franco-belga, produzindo uma fusão magnífica.


O resultado é uma obra-prima, algo que se pode já considerar um clássico actual que nos transporta, surpreende, agita e abala profundamente. A sensação que perdura após a leitura é também rara – aquela de termos vivido um parêntesis na nossa vida, um parêntesis encantado que não conseguiremos esquecer e que perdurará mesmo após arrumarmos o livro numa qualquer prateleira.


Para o leitor, esta é uma viagem pelo magnificentíssimo, a prostração perante o império narrativo e gráfico dos sentidos. Afinal, não é fruto do acaso que este primeiro volume tanha vendido mais de 50.000 exemplares no espaço de seis meses. Mas, para que tudo seja perfeito, falta-lhe apenas a banda sonora composta por Joe Hisaishi.


A propósito, atrevo-me a lançar dois reptos ao editor português de Terra ou Lua. Caro Senhor Luís Saraiva, porque não trazer Jade Khoo a Portugal? E até pode vir duas vezes: uma para acompanhar este lançamento e a outra para o segundo volume.


O segundo repto é, no entanto, mais desafiador, mas nem por isso impossível. Que tal contactar o editor francês e sugerir-lhe que envie o livro a Hayao Miyazaki? Talvez ainda venhamos a ver Terra ou Lua numa animação do Estúdio Ghibli…

 

 

Por Francisco Lyon.

 

 

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