17 dezembro, 2008

Leitura: As Aventuras de Lucky Luke segundo Morris

Lucky Luke no Quebeque

Começou aqui o ressuscitar do “cowboy que dispara mais rápido do que a sua própria sombra” depois da morte do seu autor. Nesta nova era pós–Morris, a dupla Achdé-Gerra começa muito bem com este Lucky Luke no Quebeque e recupera, com grande qualidade, esta personagem, não só ao nível do desenho, que mantêm a qualidade e onde a introdução de diversidade e detalhe dos elementos não só não desvirtua a matriz do desenho original como o enriquece, mas também ao nível do argumento, com uma narrativa bastante movimentada e bem-humorada com o uso e abuso de anacronismos e palavras de duplo sentido, tão ao gosto de Goscinny e a introdução de um rol de novas personagens. Indubitavelmente, faz-se sentir a diferença e a marca pessoal desta dupla neste novo ciclo.

Na história deste primeiro álbum, o nosso herói viaja até ao Canadá, inicialmente atrás de um perigoso fora-da-lei e depois por causa da paixão de Jolly Jumper por uma linda égua de seu nome Província. Os trocadilhos começam logo aqui, porque o título original do álbum “La Belle Province” revela logo um duplo sentido, porque tanto se refere à bela égua como ao território francófono Quebeque onde toda a acção se desenrola. E desde logo ficam abertas as portas para uma sucessão de deliciosas referências “francesas” e divertidos anacronismos, donde destaco as personagens miss Céline, famosa cantora canadiana, em formato “bardo”, que depois desaparecerá num naufrágio de um conhecido transatlântico em 1912, ou Joshua Bové, um agricultor quebequense que se manifesta furiosamente contra a instalação da cadeia de pronto-a-comer(!) MacHabann ou ainda o caixeiro viajante Bernard Henry Levi Strauss, que se dedica á venda de roupa.

Se a esta injecção de humor inteligente, disser que a aventura encontra-se recheada dos tradicionais duelos e lutas de saloon, posso afirmar que se está perante uma excelente história e um óptimo (re)começo de uma série, que a avaliar por este primeiro álbum, julgo estar muito boas mãos.

Edição ASA, 1ª edição de Outubro de 2004

A minha nota:



O Nó ou a Forca

O segundo álbum da colecção “As Aventuras de Lucky Luke segundo Morris”, revela logo no título um excelente jogo de palavras que faz uma analogia entre o nó da forca e a instituição “casamento”. E o que aparentemente parece ser de escolha óbvia – opção entre casar ou morrer enforcado – vêm-se a revelar, de uma forma bastante bem humorada como a pior das decisões. É desta forma que o álbum O Nó ou a Forca recupera, de forma inteligente, os irmãos Dalton – que cumpriam uma pena de 387 anos de cadeia - dando-lhes o papel central numa original e bem divertida aventura.

Para fazer face ao excesso de lotação das prisões, a pena de prisão dos irmãos Dalton foi comutada em pena de morte por enforcamento. Mas uma quase desconhecida lei datada de 1858, permite que esta sentença seja comutada em casamento para toda a vida e começa assim o "inferno" para três dos irmãos Dalton, porque as únicas mulheres que aceitaram casar foram as filhas do grande chefe índio dos “cabeças chatas”. E os costumes índios são para se respeitar, incluindo mesmo a celebração do grande banquete (uma tradição em todas as tribos irredutíveis) numa clara homenagem dos autores a Goscinny. Com o desenvolvimento da história, percebemos que afinal por detrás destes casamentos havia segunda intenções.

Uma história encontra-se bem estruturada, com uma excelente dinâmica e momentos de humor muito bem conseguidos, não só no dia-a-dia da nova vida “índia" dos Dalton como também na execução do plano de ataque índio ao deus todo-poderoso do homem branco: o dólar que tem como consequência a primeira greve(!) da história. O desenho de Achdé mostra-se irrepreensível e está tudo dito!

Pela originalidade da história e a pela sucessão de gags protagonizados pelos Dalton, que me deram tanto prazer a ler, dou nota máxima a esta aventura!

Edição ASA, 1ª edição de Junho de 2007

A minha nota:



O Homem de Washington

No terceiro e mais recente álbum de Lucky Luke, O Homem de Washington, as ultimas eleições presidências norte-americanas revelaram uma fonte de inspiração para a dupla Achdé-Gerra, que aproveitaram para nos dar uma visão bastante satírica do mundo da política.

A história deste álbum centra-se em torno do candidato presidencial republicano Rutherford Birchard Hayes (sendo verídico que foi o 19º presidente americano) que decide fazer campanha eleitoral no Oeste selvagem, sendo confiada a Lucky Luke a responsabilidade pela sua protecção. Assim, acompanhamos o nosso herói na sua complicada missão, ao mesmo tempo que tenta revelar quem está por detrás de uma conspiração que visa atentar contra a vida do candidato, numa bastante atribulada viagem pela América selvagem.

Ao longo da aventura, somos brindados com inúmeras referências, cujas algumas semelhanças com a nossa actualidade, são certamente felizes e divertidas coincidências. Sem esquecer de personagens do passado como o hilariante Billy the Kid, o universo de personagens secundários de Gerra continua a aumentar, a começar por Perry Camby, um autoproclamado candidato republicano, cujo pai fez fortuna com o petróleo e curiosamente se mostra bastante parecido com um tal de George W. Bush, ou Sam Palin, o presidente da “Nacional Rifle Associaton” que defende o direito de cada americano possuir um colt, cujo nome traz algumas semelhanças com uma ex-candidata presidencial a vice-presidente ou ainda miss Britney Schpires, uma cantora de can-can. Ainda assistimos à queda do muro de Berlim (de um forma literal fruto de um excelente trocadilho) e à consagração da cidade de Memphis com a cidade da música, onde não falta o Elvis, e onde o candidato tem uma afirmação profética, ao prever “que um dia haverá um candidato negro às eleições presidenciais americanas”.

Ainda que tenha gostado mais dos álbuns que o antecederam, este “O Homem de Washington” revela assim uma visão actual e critica bem-humorada de leitura bastante agradável.

Edição ASA, 1ª edição de Dezembro de 2008

A minha nota:

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