31/08/2025

A Oeste tudo de novo

 Wild West, volume 3


Os grandes frescos não são para qualquer um! E as pequenas histórias, muito menos. Para o escritor “normal” fica aquele espaço entre o grandioso e o liliputiano; entre o macro e o micro.

 

Mas quando se resolve pintar o quadro da conquista do Oeste Selvagem através da história das suas figuras lendárias, desconstruindo ao mesmo tempo esse seu estatuto de lendas criado pelos penny papers e pelas dime novels, coloca-se a fasquia perigosamente alta. É que, muito além do colorido dos personagens, aqui pretende-se mostrá-las de carne e osso, sujeitas às agruras da época e da região e às vicissitudes do momento histórico em que vivem.

 

Se no primeiro díptico de Wild West, composto por Calamity Jane e por Wild Bill, Thierry Gloris (argumento) e Jacques Lamontagne (arte) vão-nos contando a história dura da conquista do Oeste seguindo os passos daquelas duas figuras lendárias do Faroeste, agora, neste terceiro volume, intitulado Escalpes em Série, os autores acrescentam à narrativa poderosa mais duas lendas: Charlie Utter e Bass Reeves.

 

Em boa hora a editora Ala dos Livros trouxe esta série para Portugal. E nos mesmos 60 minutos continuou a apostar nela. E de modo a que a ansiedade não ultrapasse os limites do desejável, espera-se que os volumes 4 e 5 sejam publicados rapidamente.

 

Entretanto…

 

Vamos à história!

 

No Nebrasca, nas planícies cobertas de neve, uma caravana avança a grande custo. Os irmãos Utter enganaram-se no caminho e o novo percurso vai obrigá-los a progredir lentamente durante milhas pelo manto branco e gelado.

 

Mas no meio da imensidão alva, Charlie Utter apercebe-se da figura de uma mulher vinda do nada. É Martha Cannary, Jane ou a futura Calamity Jane. Mas disso, os irmãos Utter não sabem nada. Para eles, como a figura enverga vestes índias, não passa de uma squaw. E Charlie não pode negar ajuda a uma mulher ferida. À distância, dois índios Lakota observam tudo discretamente e regozijam-se por “Linda Calamidade” ter encontrado brancos que a ajudem.

 

Um tempo depois, chegam à cidade e Charlie faz tudo para ajudar Jane. O médico informa-o que ela estava grávida de nove meses e que, devido à enorme perda de sangue, o bebé morreu. Aguentar-se durante a noite será crucial.

 

 

A alguns passos dali, no estaleiro das linhas de ferro, Graham, o magnata dos comboios, debate-se com a falta de mão de obra. Os trabalhos não avançam e os subsídios do Governo chegaram ao fim. Thomson, o responsável da obra, propõe a Graham aumentar os bordéis, os bares e as mesas de jogo, de modo a que os operários gastem aí o seu salário, contraiam dívidas e fiquem assim presos à obra.

 

Wild Bill Hickok é o responsável pela segurança no estaleiro e faltam-lhe auxiliares. Para além disso, construir mais bordéis e mesas de jogo vai atrair todos os fora-da-lei da região. Mas Graham está irredutível, o plano é para avançar e o aviso de Hickok é ignorado.

 

 

Mas antes esse fosse o maior problema de Wild Bill. Jane recupera finalmente os sentidos e, embora seja acarinhada por Charlie Utter, o seu pensamento centra-se num só propósito – vingar-se de Bill por lhe ter morto o marido, ainda que em legitima defesa.

 

Contudo, os problemas de Hickok não acabam por aqui. Um assassino em série começou a actuar nas imediações do estaleiro, mais precisamente, no bosque próximo. Os corpos são sentados, encostados a uma árvore, mutilados, sempre sem escalpe e com uma flecha espetada num olho. Homens e mulheres. Por enquanto, Bill decide guardar segredo de modo a evitar uma revolta dos trabalhadores contra os possíveis assassinos índios.

 

Para piorar a situação já explosiva, estalam vários conflitos entre os trabalhadores brancos e negros. Bill vai encontrar no jovem Bass Reeves um aliado indispensável…

 


Com Escalpes em Série inicia-se o novo díptico da magnífica série Wild West. E se o título deixa antever a violência da história, fá-lo só em parte. É que à dureza e crueldade da narrativa realista de Thierry Gloris, acrescenta-se agora um elemento macabro de contorno policial.

 

Esqueçam, por isso, a imagem romântica que Hollywood nos transmitiu acerca da era dos cowboys, com duelos ao sol, comboios a apitarem três vezes, bons, maus e vilões, quadrilhas selvagens, cowboys solitários, caravanas a estenderem-se para o infinito e as eternas guerras com os malvados dos índios. Com Gloris, mergulhamos de facto no Oeste Selvagem e no quotidiano daqueles que o resolveram desbravar.

 

Mais uma vez, a história tem como protagonistas Wild Bill Hickok e Calamity Jane. As suas vidas vão-nos sendo contadas em paralelo até que, finalmente, acabam por se fundir. E cada um deles passa a ser coadjuvado por mais duas figuras históricas. A Jane junta-se Charlie Utter, o homem que seria o companheiro inseparável de Jane e, mais tarde, de Hickok, até à morte deste em Deadwood com apenas 39 anos. E a Wild Bill acrescenta-se Bass Reeves, aquele que foi o primeiro negro a ser U. S. Marshall.

 

Em certa medida, estes dois novos personagens servem como alívio da tensão permanente dos protagonistas, pois tanto um como o outro são mais ponderados e menos impetuosos.

 


Mais uma vez, não se espere heróis/anti-heróis mergulhados em clichés do Velho Oeste. A narrativa complexa parte das feridas físicas e psicológicas de Jane e da sua sede de vingança sobre Hickok. A sua descida aos infernos prolonga-se por grande parte da história, durante a qual o álcool e o sexo da “mulher de vida fácil” são os catalisadores da degradação da personagem. Isso e o tormento que é viver para a vingança. Apazigua-a Charlie Utter, o amigo desinteressado que passa a ter Jane como missão de vida.

 


Em paralelo, Hickok também não tem a vida facilitada. Para além de ser o responsável pela manutenção da ordem no estaleiro dos caminhos de ferro – gerindo as expectativas inglórias de centenas de homens que estão mais interessados em fazer dinheiro rápido e partirem para o garimpo de ouro –, tem também de manter o equilíbrio precário entre brancos e negros e fazer prevalecer as regras da segregação racial. Paradoxalmente, é em Bass Reeves, um negro, que vai encontrar a ajuda indispensável.

 

A acrescentar a tudo, é lançado numa investigação que envolve uma série de crimes muito violentos e macabros que apontam para um assassino índio. Tal facto cria um ambiente tenso, pesado e prestes a explodir. Mas nada é assim tão simples nas narrativas de Gloris. E Hickok acaba por juntar-se a Jane e Utter em busca do assassino em série, um psicopata que os persegue agora a eles. O certo é que, quanto aos assassinatos em si, Gloris e Lamontagne não omitem qualquer pormenor, cristalizando assim, mais uma vez, a violência que grassava naquelas paragens, naqueles tempos.

 


O que pode ser a perdição de uma boa história – linhas narrativas paralelas com múltiplos personagens e várias linhas temporais – é aqui o elemento de força de Thierry Gloris. O leitor não se perde nas transições entre narrativas ou nas viagens entre presente e passado. As intrigas são múltiplas e o Oeste é selvagem na verdadeira acepção do termo.

 

E, mais uma vez, o autor, a pretexto de nos contar a história de Jane e de Hickok, pinta-nos um fresco monumental de como era a vida nos territórios de fronteira do Oeste Longínquo ou Far West. Esses territórios pouco explorados ou mesmo desconhecidos, onde o branco era o elemento humano invasor e o índio o protector a céu aberto desses espaços sobre os quais a natureza comandava e ditava as regras.

 

A leitura atenta revela inúmeros pormenores. Desde o acto de colonização através das viagens em caravana, até à urgência destas como fornecedoras de bens essenciais, como pode ser um simples prego. Da necessidade dos bares e bordéis para fixarem populações de trabalhadores itinerantes que, no fundo, são o único modo de manter o progresso em movimento. A segregação racial entre trabalhadores. O alcoolismo. A prostituição. A miscigenação. O jornalismo e as dime novels, principais responsáveis pelos mitos do Oeste Americano. A expropriação de terras aos índios…

 

Com Gloris, temos o pequeno Oeste e o grande Oeste. Temos o desumano e o humano que, neste último ponto, é bem personificado na figura de Charlie Utter.

 

 

Quanto à arte de Jacques Lamontagne, ela não desilude os apreciadores da série e de certeza encantará os novos leitores.

 

Senhor de um estilo realista, Lamontagne é também conhecido pela atenção dada ao detalhe. São raras as vezes que utiliza o subterfúgio do chapão de cor em último plano para se poupar a desenhar cenários. Pelo contrário, cada vinheta é um hino ao pormenor, como se pode constatar tanto nas cenas de exteriores como de interiores. No primeiro plano conta a história e no segundo compõe o ambiente ou cria narrativas paralelas que só se desenvolvem no seu espírito. Bom exemplo disso são as acções que se passam para lá das janelas da carruagem especial do Sr. Graham na segunda imagem que se segue.

 

 


O estilo realista de Lamontagne é também cinematográfico. Desde a composição e dinâmica de cada prancha ao movimento dos personagens, tudo respira 7.ª Arte. São verdadeiros frames, acções congeladas no tempo que colocam o leitor como espectador privilegiado de actos não detectáveis a olho nu. Ou, sendo detectáveis, exploram o ângulo mais inspirado, capaz de se gravar para sempre na mente do leitor. De uma coisa e de outra são exemplo as duas imagens que se seguem.

 


 

No primeiro álbum, a paleta cromática reflectia o tom maioritariamente opressivo da narrativa dentro de portas fechadas, centrando-se nas cores frias e no preto das sombras. Já no segundo álbum, a paleta abre-se para a luz, para cores mais claras e quentes.

 

Agora, Lamontagne, porque também é dele a cor, joga equilibradamente com cores frias e quentes. E a única constância são os tons utilizados nas cenas onde surge o assassino em série a actuar. Aqui, a predominância é dos cinzentos, pretos e castanhos acinzentados. Mas no acto da morte, como que mostrando o negrume da alma do assassino, o fundo é sempre preto. Curiosamente, à volta de cada crime vão sempre correndo cenas paralelas como que nos dizendo que a vida continua e que a miséria de uns é o quotidiano de outros.

 


Este álbum de abertura do segundo díptico de Wild West tem tanto de inteligente como de coerente. Os personagens vão evoluindo numa sucessão de impasses até à resolução provisória da trama. Esta, contudo, com a introdução do assassino psicopata, mantém-se em aberto, talvez para atingir o desfecho no próximo álbum de título A Lama e o Sangue.

 

O Oeste Selvagem é tratado em detalhe e com credibilidade. Os personagens são tudo menos inocentes, todos têm as mãos sujas, talvez com a excepção de Charlie Utter.

 

A palavra de Gloris e a arte de Lamontagne casam na perfeição e têm a rara capacidade de fazer o leitor esquecer onde está a ler, daquilo que o rodeia, dos sons da modernidade na qual vive. Como é comum dizer-se agora, a experiência imersiva do leitor é total.

 

Por um lado, o grande fresco. Por outro lado, o retrato intimista. O que é certo é que com Wild West, A Oeste Tudo de Novo.

 

Por Francisco Lyon de Castro


EXTRAS

 

Os retratos reais dos protagonistas de Wild West:

 

Calamity Jane e Wild Bill Hickok

  

 

Charlie Utter (em pé) com Hickok e Bass Reeves

 



Sem comentários: