A Adopção 3 – O Rei dos Mares
Há muitos anos que mantenho uma rotina diária de leitura. Comics+franco-belga+ficção/não-ficção (não BD). No final de cada semana, tenho cerca de 20 a 30 livros devorados. Destes, no que respeita à BD, escolho 1 para vos dar aqui conta através destes meus textos.
E enquanto escrevo um texto, vou lendo mais 20 livros. Conclusão: são muitos mais os livros lidos do que aqueles sobre os quais escrevo. Mas uma coisa é certa! Quando começo a escrever, é sobre um livro (ou conjunto deles) que incide o meu foco. E nada me faz parar!
Ora, o que era certo, deixou de o ser! Estava eu deliciado a escrever sobre uma BD que me é cara e surge-me (mais uma vez) o desestabilizador do Zidrou com mais uma incursão na sua série A Adopção. Resultado: tive de parar o que estava a escrever para, de imediato, poder partilhar convosco as minhas impressões acerca de mais uma “zidrouanice” brilhante.
Depois de dois dípticos, publicados em Portugal em dois volumes integrais, Zidrou e Arno Monin (desenho) oferecem-nos agora o terceiro volume de A Adopção, com o subtítulo O Rei dos Mares, editado pela Arte de Autor.
E não! Não é mais do mesmo! E sim! O Zidrou continua com aquele seu toque transformador do quotidiano em algo mágico, do banal em sublime.
Vamos à história!
Como se fazem os bebés?
As três irmãs, com as folhas de papel e os lápis de cor espalhados pelo chão, vão dando a resposta à pergunta através de uma série de desenhos. Nenhuma delas terá mais de 9 anos.
“Primeiro a mãe diz ao pai: “Quero miminhos!!” “Ela beija-o na boca e em todo o lado!” “E o pai até se esquece de ir passear o cão!” “A mãe leva o pai para a cama grande.” “Aí, fazem amor. Como nos filmes. Mas de verdade.”
E as três irmãs continuam, desenho a desenho, a contar a sua própria história. A história de como foram adoptadas. A Sethe, a Doucha e a Clarissa.
Durante uma trovoada…
Muitos anos depois, Clarissa recebe um telefonema. Engole em seco com a notícia. Tenta esconder o que sente e vê-se obrigada a sair do emprego. Lá fora, enche o peito de ar e telefona à Doucha. Interrompe-lhe o jogo de polo aquático para dar a notícia. Depois, telefona à Sethe, professora de música a meio de uma aula barulhenta.
O pai morreu! Repentinamente, o olhar das três jovens irmãs torna-se vazio. A piscina fica vazia. A sala de música mergulha no silêncio. E o escritório de Clarisse deixa de existir…
Cada qual com o seu luto, cada qual com a sua alegria.
Muitos anos antes… Muitos anos depois… As três irmãs encontram-se na casa dos pais, a casa da sua infância. Abraçam-se. Choram. Sorriem. E relembram com felicidade a sorte que tiveram na vida…
Mesmo quando esperamos mais do mesmo – o que no caso de Zidrou é sempre bom -, este autor consegue voltar a surpreender o leitor. Se nos dois primeiros dípticos de A Adopção acompanhamos a integração de duas criancinhas em famílias desconhecidas (para simplificar), neste terceiro volume o maior interesse está na vida que os pais proporcionaram às três filhas e as memórias que elas guardam deles.
Para os leitores mais pessimistas, esta será uma história triste acerca da morte de um pai gentil e generoso. Mas para o leitor mais atento, esta continua a ser uma história triste acerca da inevitabilidade da vida, mas sempre com um terno sorriso nos lábios.
O casal Edu e Nathi não conseguem ter filhos. Há anos que tentam. Ele, de origem espanhola, inicia um processo de adopção no seu país. Ela, de origem francesa, faz o mesmo, mas em França. Quando a resposta chega, vem a dobrar. Para mais, Nathi está grávida! O casal tem agora três filhas e esta também é a sua história, mas é, sobretudo, a do seu pai. Talvez a lembrança comum mais forte que têm dele seja a dos longos trajectos de carro feitos pelo pai para as levar às aulas e às actividades extracurriculares. Isso e tudo o que ele faz em casa por elas, desde a refeição às brincadeiras, passando pelas inúmeras histórias que lhes vai contando. Aliás, é ele que faz tudo em casa. Um papá diferente dos outros. Já a mãe, que também lhes é querida, sai todos os dias para trabalhar, e em casa perde-se em leituras de grandes romances.
Com a morte do pai, as três irmãs reencontram-se na casa de família e revivem a sua vida, partilhando memórias, dramas e alegrias e, sobretudo, momentos inesquecíveis.
E é aqui que entra aquilo que já chamei em outro texto de “o toque Zidrou”. O argumentista de Banda Desenhada que consegue transformar uma história simples em algo maravilhoso. E, faça-se-lhe justiça, “Monin consegue, com a sua arte, imergir-nos nessa narrativa maravilhosa, conferindo-lhe um toque mágico que passa muito pela expressividade dos seus personagens.”
Zidrou é um mágico dos sentimentos, mas sem os denunciar. A sua escrita é de tal modo envolvente que, quando damos por nós, já nos deixámos levar irremediavelmente. As suas histórias só na aparência são simples, mas na sua simplicidade conseguem sempre ter momentos inesquecíveis.
Atentem na frase de abertura das memórias das três irmãs após saberem da morte do pai:
“É engraçado: quando penso no pai, a primeira coisa de que me lembro é… do rabo dele!”
E não pensem que Zidrou logo explica esta afirmação. São precisas 6 páginas para ficarmos a perceber o verdadeiro significado de afirmação tão desconcertante. Seis páginas que nos vão enchendo de informação acerca daquela família que, nesse momento da leitura, já começa a ser nossa.
O Fabuloso Destino de Amélie é o melhor paralelismo que vos posso oferecer. Muitos pormenores que parecem enriquecer a narrativa, mas que aparentemente carecem de sentido ou, pelo menos, não serão importantes para o desenrolar da trama. Coisas ínfimas, acessórias, mas que no todo ganham a máxima importância.
Escolhi mais dois exemplos para vos demonstrar o que quero dizer. Num deles, até uma verdade de La Palice ganha contornos surpreendentes com o remate de Clarissa. Ora leiam as vinhetas:
No outro, Doucha acaba de perder uma final de natação. Vendo a filha desolada, o pai resolve ir comemorar a derrota. Por si só, a situação parece inédita, mas o mais importante é a lição que ele dá às filhas:
Zidrou é isto! A sua narrativa está sempre repleta de pormenores que enriquecem a história. Grande parte das vezes parecem não passar de pequenos episódios, sendo que, a pouco e pouco, criam personagens profundos, tramas bem urdidas e, como já disse, o leitor vê-se irremediavelmente enredado naquele princípio que Flaubert tão bem desenvolveu na sua novela Uma Alma Simples – os pequenos nadas podem ser tudo!
A Adopção 3 está carregada de cenas emocionantes, tratadas por Zidrou com delicadeza, naturalidade e (está aqui o segredo) com o pathos suficiente para que nenhum leitor consiga ficar indiferente à história, à narrativa e aos personagens. Qualquer experiência humana tratada por Zidrou gera sentimentos profundos e coloca cada uma das suas obras em lugar de destaque.
Todos os personagens estão muito bem conseguidos. E embora cada um tenha personalidade própria, todos concorrem para que o personagem do pai seja o mais profundo, tanto pelos seus actos como pelo tipo de recordações que as filhas guardam dele. Para além disso, um conjunto de personagens secundários não só ajuda a enriquecer o ambiente da família protagonista, como por si só são dignos de, também eles, se resguardarem na nossa memória. É Shanti, o velho cão da família que se recusa a ser abatido devido às suas convicções religiosas; é Gauguin, o pintor homónimo do outro que pinta paisagens de praia, as vende no areal e sonha fazer dinheiro para ir viver para a Polinésia; é a Lisette, perita em mudar pneus; a gata Pandora, com alguns dos tiques do Garfield; e até a Pipi das Meias Altas. Uma bela galeria de personagens que gostaríamos que povoasse as nossas vidas.
Como o grande contador de histórias que é, Zidrou consegue escrever os diálogos mais extraordinários com a maior das simplicidades, o que confere às suas histórias, e a esta em particular, uma espécie de realismo mágico (tão caro na América Latina), no qual a magia não passa por cenas esotéricas, mas pela qualidade das relações pessoais. O certo é que Zidrou continua com a rara capacidade de tocar o nervo da emoção do leitor, independentemente do género ou da idade.
Por seu lado, Arno Monin é o “parceiro do crime” ideal para colocar em imagens mais esta história de Zidrou.
De traço semi-realista e sempre inspirado, Monin é exímio em representar a inúmera panóplia de expressões faciais que é essencial para que uma história deste género seja de tal modo credível que o leitor não hesite em interpretar a mensagem escrita em cada rosto. Reparem bem no olhar das três irmãs, já adultas e a terem de enfrentar a morte do pai. A tristeza está lá, tal como a felicidade das memórias. Nunca estão completamente tristes ou felizes, mas conseguem emanar serenidade e um estranho bem-estar.
Mas as expressões faciais são apenas um dos seus fortes. Também os planos que cria são inteligentemente construídos, tal como a encenação. Atentem na mudança da cena de praia, feliz, com todos os protagonistas, de cores predominantemente quentes, para a cena seguinte na casa de família já sem o pai, com cores frias e árvores despidas.
A paleta de cores de Monin também conta a história, complementando-a de maneira essencial. Não só consegue criar ambientes como sentimentos e, mais difícil, baralhar o valor da mensagem cor quente=alegria/cor fria=tristeza. Assim, se na praia ensolarada predominam os amarelos e nos contratempos, os azuis e pretos, em momentos de grande alegria também podem imperar as cores frias envolvidas na chuva. Ou seja, a doçura também pode ser pintada com as cores da tristeza.
A Adopção 3 – O Rei dos Mares é uma pequena pérola da literatura gráfica. Pela maneira desempoeirada como aborda o tema central – a morte de um pai. Pelo modo como trata um tema complexo, como é o da adopção, mas descomplexificando-o. Pela qualidade narrativa a que Zidrou já nos habituou quando trata de temas do quotidiano. Pela beleza da trama que nos consegue encher a alma de episódios que formam, de modo singelo, uma vida. Pelo humanismo que preside a todas as cenas da história. Pela delicadeza, requinte e elegância da arte de Monin. Pelos estados de alma que consegue recriar através das expressões faciais que desenha.
Uma história que parte de uma premissa triste, mas que nos sorri tal como as três protagonistas femininas. Um sorriso que traduz a admiração delas por esse pai que, em parte, as criou sozinho. Por elas sofremos; por elas regozijamos. Simples e tocante. Emocionante e reflexivo.
Por fim, não me recordo de alguma vez ter visto o tema da morte ser tratado de maneira tão inteligente… tão inteligente que nos esquecemos dela. Tão inteligente que a enfrentamos de sorriso nos lábios, sabendo que ela pode ser vencida pela capacidade daqueles que já partiram em criar memórias duradoras que nos enchem a vida.
“Ah, este Zidrou encanta-nos!” Lê-lo é acordarmos no dia seguinte a sentirmos que algo de bom foi acrescentado à nossa vida.
Por Francisco Lyon de Castro















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