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segunda-feira, 5 de outubro de 2026

Quando o batom faz a diferença…

 Mar de Rosas

 

As fotonovelas fizeram a alegria de milhares de leitoras portuguesas nos anos que correram entre 1960 e 1980. Eram romances fotográficos que pareciam colocar a linguagem do cinema e da televisão em revistas de leitura fácil e envolvente, desempenhando o papel que as telenovelas tiveram de seguida. Supostamente de contornos realistas, pecavam pelo estatismo das fotografias, ao contrário da Banda Desenhada que, com os seus códigos gráficos, permite ao leitor compreender rapidamente a arte sequencial.


Agora, imaginem que um autor de BD resolve retomar alguns dos códigos narrativos das fotonovelas e criar um álbum de quase duzentas páginas (extras incluídos), ressuscitando o espírito nostálgico daquelas edições. Esse autor é Tomás Sousa e o livro é Mar de Rosas, recentemente publicado pela Penguin.


Vamos à história!


Era uma vez uma serviçal…


Celeste estava perdidamente apaixonada por Sebastião, o filho do patrão. Embora mantivesse em segredo o seu amor, a mera presença do rapaz era suficiente para alimentar de alegria os dias monótonos da jovem criada. Mas com o passar do tempo, Sebastião tornara-se desprendido e algo alheio do mundo que o rodeava, o que incluía Celeste.


Até que um dia surgiu a malfadada notícia que fez desmoronar todas as esperanças e ilusões da jovem. Sebastião anunciara o noivado com uma mulher misteriosa vinda de nenhures, a enigmática Rosalinda. Antes que fosse tarde demais, Celeste resolveu confessar o seu amor a Sebastião, mas, na verdade, parecia ser tarde demais.


Será que Celeste consegue seguir em frente e refazer a sua vida? E Sebastião, tomará o lugar do pai no império empresarial e conseguirá viver em harmonia com Rosalinda? E esta, que planos diabólicos teceu em volta de Sebastião e das suas irmãs?


Tomás Sousa é um jovem autor que tem em Mar de Rosas o seu primeiro álbum de Banda Desenhada. E começa com um projecto ambicioso já que reúne em si o papel de argumentista, de desenhador e de colorista. Deve dizer-se, no entanto, que não esteve sozinho, pois Mar de Rosas foi criado no âmbito do seu mestrado, orientado pela reconhecida e talentosa Joana Afonso.


Como o próprio autor disse no lançamento oficial da obra, esta parte da premissa da nostalgia. E embora as fotonovelas tenham terminado muito antes do nascimento do autor em 1998, Tomás Sousa viu nelas um meio de expressar a sua narrativa nostálgica. E este é, precisamente, o primeiro ponto a salientar da obra. A narrativa é muito bem construída e o texto cuidadosamente escrito, lançando no leitor um misto de nostalgia e de imersão num tempo que não se descortina imediatamente ser o do passado ou do nosso presente. Por algumas construções frásicas, hesitamos entre concluir que a trama decorre num Portugal pré-revolucionário ou num ambiente em que o formalismo de antigamente ainda dá cartas.


Seja como for, o dinamismo dos diálogos e o avanço rápido da intriga facilmente passam questões temporais para segundo plano. E este é o segundo elemento a salientar. A trama está muito bem urdida (ainda que de algum modo previsível) e os diálogos são credíveis, mesmo naqueles momentos em que parecem ser projectados pelas vozes mais clássicas do Teatro Nacional. E quando o são, é porque assim faz mais sentido para a narrativa. A escrita de Tomás Sousa é adequada a cada momento e não defrauda a expectativa do leitor. Também a utilização de múltiplos narradores não só contribui para o dinamismo já referido como também ajuda o leitor a acompanhar e melhor perceber o que move cada narrador/personagem (mais uma jogada inteligente do autor que assim melhor nos prende à leitura).


O terceiro elemento a destacar é o cuidado na construção dos personagens, sobretudo dos protagonistas. Cada um deles um verdadeiro e propositado estereótipo novelesco. Assim, temos Celeste, a serviçal apaixonada, a quem falta sofisticação e aprumo no penteado, e que é movida pelos melhores sentimentos. A sua alma é pura e a sua índole boa. Já Rosalinda é a personificação do mal, maquiavélica, de aspecto sofisticado, e para quem o fatalismo não existe ou não fosse ela própria o exemplo acabado da “femme fatale”. Sedutora, consegue ou acha que consegue trazer para si as situações mais propícias à custa do charme e da credulidade dos outros. E por fim há Sebastião, o menino rico, mas pouco ambicioso ou assertivo, a quem custa resolver até as situações mais fáceis. Um joguete nas mãos até daqueles que não gostam de jogar.


Assim, entre um maniqueísmo propositadamente assumido, a trama vai evoluindo para um desfecho que, curiosamente, acaba por ser proporcionado pelas personagens secundárias – opção interessante e original.


A entremear os vários capítulos, o autor criou momentos de respiração da narrativa nos quais nos apresenta rebuscados anúncios de época, supostos recortes de imprensa que esclarecem o passado de alguns personagens ou artigos ao estilo da conhecida revista Crónica Feminina, acrescentando um toque de humor ligeiro ao drama que se desenrola no corpo central da obra.


O certo é que tudo isto concorre para que Mar de Rosas seja um projecto bem conseguido no qual os elementos criadores de uma fotonovela se apropriam dos códigos da Banda Desenhada para darem origem a algo novo no panorama da Nona Arte portuguesa.


Mas devo dizer-vos, caros leitores, que o que mais me chamou a atenção foi a novidade do traço, pelo menos no que diz respeito à criação de BD nacional. Aparentemente simples e dinâmico, parece ir beber muito da sua inspiração às mais inspiradas criações de Bruce Timm, o autor americano de estilo minimalista e angular, grande responsável pelo magnífico Batman: The Animated Series e pela criação da famosa Harley Quinn em colaboração com Paul Dini.


O minimalismo de Tomás Sousa é bem visível nos cenários e até nos personagens. Estes representam bem a fusão do minimalismo de Timm com a linha clara de Hergé e, claro está, com o estilo próprio do autor. Mas este minimalismo não prejudica em nada a sua capacidade de carregar os seus personagens com as mais credíveis expressões faciais, elemento essencial para criar uma certa empatia com o leitor que gosta de perceber, no imediato, o que os protagonistas querem transmitir.


Também a planificação das pranchas é muito dinâmica, oscilando entre as 6 vinhetas e a imagem única, a chamada “splash page”. De igual modo contribui para uma leitura mais dinâmica a utilização de variados planos em picado e contrapicado, muitas vezes subtis. Aliás, o plano contrapicado utilizado na capa é bem prova disso.


Mostrando grande habilidade na colorização, Tomás Sousa opta pelas cores planas, fazendo delas um uso inteligente com uma progressão gradiente. Nesse sentido, particularmente bem conseguida é a cena nocturna em plena tempestade que decorre entre as páginas 122 e 129 nas quais o uso dos azuis impera quase em exclusivo.



Mar de Rosas é uma excelente estreia de Tomás Sousa nas longas de BD. E para isto contribuem tanto os seus inspirados dotes narrativos como o seu grafismo e o seu uso da cor tal como acima se explicou. A isto há que juntar a sua inventividade com os “textos de apoio” que introduz entre capítulos e um caderno generoso de extras com os bastidores da obra.


Por último, e embora todos os fios da trama sejam resolvidos, o fim parece ficar em aberto, o que deixa antever uma continuação. Talvez pegando naquilo que parece animar a perversidade de Rosalinda e que poderá torná-la ainda mais perversa – um simples batom!


Quanto a si, Tomás Sousa, espero continuar a vê-lo e a lê-lo nas próximas décadas.



Por Francisco Lyon.

 

 

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