06 janeiro, 2022

O ESTADO DA ARTE EM 2021

 
Continuo por aqui em modo de Balanço do Ano, e agora para perceber se 2021 foi um bom ou mau ano bedéfilo? A pandemia condicionou? Estiveram os lançamentos e as editoras à altura das expectativas dos leitores portugueses? Vamos à procura das respostas.
 
A verdade é que tudo depende da perspectiva que adoptarmos. Vínhamos de um ano difícil e esperávamos um regresso à normalidade.  Não aconteceu. O lado positivo disto foi que as restrições, desta vez, não fecharam as livrarias e permitiram o regresso dos festivais de BD com público. De máscara postas e conseguimos ter Beja, Amadora e a Comic Con. E mais, contamos com as presenças estrangeiras de nomes como Juanjo Guarnido, Ralph Meyer, Achdé, Miguelanxo Prado, George Bess ou Peter Van Dongen, entre outros, o que atendendo às circunstâncias foi óptimo.
 
Quanto às novidades e lançamentos, registo aqui os números: tivemos um total de 219 lançamentos/novidades de livros de banda desenhada (em português de Portugal e com registo de ISBN), de 42 editoras nacionais + 1 editora europeia. É um valor que fica abaixo do registado nos últimos anos (238), com uma quebra a rondar os 8%, para o qual encontramos as causas (ver mais adiante).  Os interessados podem consultar a listagem completa dos títulos AQUI

2021 foi o ano da DEVIR. Esta editora aumentou e bem o seu já generoso catálogo de mangás, destacando-se com a edição de mais de três dezenas de livros (32), o que a coloca na posição cimeira das editoras de banda desenhada mais prolíficas do ano. Este reforço na literatura mangá deu-lhe o melhor ano dos últimos quatro. Tínhamos que recuar até 2017 para observar um melhor desempenho editorial. Em termos de títulos, a aposta na série Demon Slayer com os 5 primeiros volumes publicados durante o ano, revelou-se certeira, uma vez que este título ocupa o primeiro lugar no top de vendas da editora.
 
Na posição seguinte, surge a cooperativa A SEITA, com um total de 19 lançamentos sob a sua chancela e mais 3 novidades em co-edição (com a Arte de Autor). Regista-se o forte crescimento desta editora, que triplicou (e alargou) a sua oferta (com banda desenhada de origem portuguesa, italiana e franco-belga) quando comparado com o ano anterior.
 
E para fechar o pódio encontramos a ASA, com um total de 19 novidades, um número que fica aquém da média dos últimos anos (25). Colecções mais curtas e com uma periodicidade quinzenal ajudam a explicar. Não obstante, foi dentro desta parceria com o jornal Público que publicou dos suas melhores séries dos últimos anos (Rio, Peter Pan e Long John Silver).
 
Top 5 de 2021:
1. DEVIR (32 lançamentos)
2. A SEITA (19+3)
3. ASA (19)
4. ARTE DE AUTOR (15+3)
5. ALA DOS LIVROS (14)
 
Não podia deixar de dar uma palavra para as duas editoras que fecham este top, ARTE DE AUTOR e ALA DOS LIVROS. Ambas fazem as delícias dos leitores portugueses de banda desenhada de origem franco-belga. Apresentam dois soberbos catálogos, de excelentes séries, que nos são servidas em magnificas edições. Ambas aumentaram a oferta este ano, e em conjunto, foram responsáveis pela maioria das minhas melhores leituras de 2021. A certeza que daqui vamos sempre bem servidos!
 
E depois de conhecermos as “mais” é altura de falar da “menos”. Cito a rainha, para dizer que 2021 foi um annus horribilis para a LEVOIR. Em finais de 2020, já dava alguns sinais que algo não ia bem. Uma das mais activas editoras nacionais nos últimos anos, conhecida pelas suas novelas gráfica, e detentora dos direitos da americana DC Comics, não totalizou  uma dezena de lançamentos (9), e tudo volumes da colecção «Clássicos da Literatura», que por sinal foi muito fraquinha. Recordo que nos últimos anos, apresentou sempre números a rondar as quatro dezenas de novidades, reservando para si os primeiros lugares entre as editoras. Com a sua actividade reduzida a serviços mínimos, a LEVOIR é a principal responsável pela quebra que se registou no número total de lançamentos deste ano. Continuam a pairar algumas nuvens sobre a continuidade da sua actividade editorial alimentadas sobretudo pela falta de informação. Espera-se e deseja-se que em 2021 tenha terminado o seu ano sabático. Faz falta a LEVOIR.
 
Mas 2021, manteve algumas das (boas) tendências que já se observavam em anos anteriores. O crescimento da oferta da banda desenhada de origem franco-belga foi uma delas. Continuamos com excelentes apostas de qualidade, fruto de termos cinco editoras nacionais (Asa, A Seita, Ala dos Livros, Arte de Autor e Gradiva) a negociarem os direitos sobre as principais novidades. Do resultado desta concorrência só se pode esperar bons frutos para 2022. 
 
Outra das tendências foi o elevado número de autores portugueses a serem publicados. Foram cerca de três dezenas de obras. Um número bastante bom e que revela um crescimento face ao ano anterior, e que reflecte uma aposta cada vez maior das editoras, nomeadamente da Escorpião Azul e d'A Seita, nos talentos nacionais.
 
Também se verifica o crescente aumento do n.º de editoras que abrem o seu catálogo à banda desenhada. Muitas são editoras com actividade e que vêm no género da banda desenhada uma oportunidade de alargar o seu leque de oferta e chegar a diferentes públicos. A aposta passou sobretudo pela edição de novelas gráficas. Editoras como Cavalo de Ferro, Elsinore, Fábula ou Relógio d'Água são bons exemplos.
 
2021 foi também um ano Orwelliano. Os direitos sobre das obras do escritor George Orwell entraram naquilo que se designa por domínio público, e logicamente, multiplicaram-se em Portugal as edições dos seus títulos, em nova edições e traduções, e claro, a banda desenhada também apanhou esta ‘onda’. A Ala dos Livros abriu logo o ano com o lançamento da biografia gráfica do autor, e depois seguiram-se as esperadas novelas gráficas de adaptação do distópico «1984», por cá com três diferentes versões, e também a conhecida fábula política de sátira «O Triunfo dos Porcos».
 
Em termos de divulgação, posso dizer que foi um excelente ano. Por aqui, as visitas pulverizaram as minhas melhores expectativas com um incremento exponencial (+200.000). Desconfio que foi um efeito colateral da pandemia. Complementarmente o grupo de discussão BD Portugal regista igualmente uma boa taxa de crescimento, com uma excelente dinâmica diária e um nível de participação por parte dos membros bastante elevado. Registado com agrado.

Por tudo isto, posso afirmar que não temos muitas razões de queixa de 2021. A pandemia assustou mas não estragou.
 
Para 2022?
 
O ano não começou bem, ainda com a pandemia a pairar, e lá por fora o festival de Angoulême previsto para finais deste mês, foi adiado depois da edição do ano passado ter sido cancelado. Por cá ainda é cedo para se falar de festivais, mas temos já algumas editoras a preparar as primeiras novidades para Janeiro. A Gradiva já anunciou o terceiro volume  da série O Guardião e a Asa tem o novo Asterix em mirandês para sair.

Para o primeiro semestre de 2022, a única editora a anunciar publicamente, para já, o seu plano editorial foi a G.FLOY (ver imagem). 

Relativamente às restantes, algum secretismo ainda, mas é certo que podemos contar com as continuações de séries do nosso agrado. Apostas na continuação de séries como Corto Maltese, Spaghetti Bros e Armazém Central (Arte de Autor), O Mercenário, Wild West e Undertaker (Ala dos Livros) e Tango (Gradiva) são quase certas.  A Seita já tinha anunciado o regresso de Thorgal a partir do volume 37. O Luís Louro encontra-se a trabalhar num novo álbum (fora do universo do Corvo) e finalmente o Daniel Maia fará a sua estreia por cá com «CoBrA – Operação Goa» (ambos previstos pela Ala dos Livros).
 
Por tudo isto, e apesar da pandemia que teima em ficar, a edição de banda desenhada em Portugal continua de boa saúde, bem entregue e recomenda-se, e no mínimo terá números semelhantes aos de 2021.


4 comentários:

Anónimo disse...

Quem acabou com a Levoir sabemos bem quem foi e não foi por falta de aviso que a Silvia caiu na esparrela. Já há um ano o papagaio disléxico se vangloriava nos seus vídeos do YouTube que a Levoir o tinha tentado despedir e que se ia vingar. O objetivo era claro e os seus números não mentem, deitar abaixo a maior editora de banda desenhada do país e assaltar o seu lugar. Como diz o Batman na Crise de Identidade, “Quem beneficia?”. Nuno, não tome os leitores por parvos e olhe para os seus próprios dados: quem ganhou mais com a extinção da Levoir? E a golpada final vem aí… vai ser anunciada brevemente…

Nuno Neves disse...

Caro Anónimo, eu não imponho verdades a ninguém, apenas apresento dados e cada um tira as conclusões que quiser. Sobre a situação da Levoir, lamento que a editora se esteja a perder. Ouvi falar em problemas de saúde da parte da Sílvia, mas não consigo confirmar quais as verdadeiras causas deste desaparecimento. Agora duas ou três coisas posso dizer. A primeira é que as últimas edições da Levoir do universo da DC eram reedições de material que já tinha editado anteriormente. Sinceramente nunca percebi esse caminho da repetição. Depois obviamente que menos um player a operar no mercado beneficia os restantes, ainda que aqui considere que o catálogo americano da Levoir complementava a oferta e não a canibalizava. Penso que um total de 250 lançamentos/ano de obras de BD é um valor razoável e aceitável numa sã concorrência para um mercado como o português. Estamos nas 220-230, logo penso ainda existir espaço para todos.

O Estranho disse...

Quem, o editor (publicador) betinho???

Optimus Primal disse...

E nao esquecer que tanto a levoir como a Devir a nivel de comics editaram 0.uma é só Manga e ai im out e a outra era péssima a nível de hcs como 2 comics por edição e preço inflacionadissimo,ou a quebrar gn no geral.