Blacksad Stories – Weekly
O prazer de apenas folhear um livro que se quer muito ler. O aroma inebriante das páginas que ainda não sentiram as pontas de dedos. O olhar fugaz pelos desenhos que preenchem vinhetas vistas ao acaso. E depois, depois fecha-se o livro e espera-se que surja o momento apropriado que não só dignifique a leitura como a torne memorável.
É este o ritual que guardo para uma ou outra série de BD, para um ou outro autor ou herói. E resulta quase sempre, este ritual que reservo também para Blacksad.
Como disse noutro lado, já todos sabemos que as histórias têm a atmosfera do policial noir e decorrem na década de 1950 nos Estados Unidos. Que o protagonista é John Blacksad, um detective privado que sabe vestir bem, que é sarcástico, sedutor e implacável. Que todos os personagens têm um tratamento antropomórfico. Que todos os álbuns abordam uma problemática contemporânea e têm uma mensagem social. Que a narrativa é intrincada e inteligente. E que o desenho é absolutamente deslumbrante.
Tudo graças aos argumentos de Juan Díaz Canales e à arte de Juanjo Guarnido.
Agora, tirem o Guarnido da equação, façam desaparecer o Blacksad, ignorem a ambiência noir e imaginem uma nova série intitulada Blacksad Stories. No mínimo, vão achar que se passa algo de estranho.
Mas depois, mantenham a acção na década de 1950 nos EUA, o tratamento antropomórfico dos personagens, a abordagem de questões sociais e uma narrativa que se mantém intrincada e inteligente. E de não somenos importância, Juan Díaz Canales é o denominador comum das duas equações.
O resultado é Weekly, o álbum que inaugura a série Blacksad Stories, com arte e cor de Giovanni Rigano, e que a Ala dos Livros acaba de publicar.
A aposta é muito arriscada, até porque está sujeita a inúmeras comparações com a excelência da série-mãe. Por essa razão, nada como fazer um exercício mental, ignorar a existência de Blacksad e ler Weekly como algo que vale ou não por si só.
Vamos à história!
Chana acorda do pesadelo com o coração apertado. Os sonhos dela costumam ser premonitórios e isso significa que o cossaco está de volta para a matar. O tempo correu imparável desde os acontecimentos na aldeia russa que a obrigaram a fugir da sua terra bem-amada. Agora, vive sozinha com o neto num exíguo apartamento nova-iorquino de uma só assoalhada. Mas Dustin Kalisnowszczyzna não é dado a acreditar nas memórias da avó. Para ele, a velha senhora confunde os seus sonhos com a realidade e nem sequer alguma vez teve uma irmã.
Dustin não tem tempo para os achaques da avó. Para ela, ele estuda e trabalha. Contudo, Dustin foi expulso do liceu por tirar fotos ousadas às colegas. Agora, exerce a sua paixão pela fotografia no comissariado da polícia onde fotografa criminosos. Mas o novo emprego não dura mais de uma semana já que a sua postura de coscuvilheiro incompatibiliza-o com o próprio comissário. Ironicamente, é esse espírito coscuvilheiro que o faz travar conhecimento com o repórter de investigação do The News, o senhor Citizen. Mas a colaboração entre os dois tem um fim inesperado e Dustin vê-se agora obrigado a trabalhar numa agência funerária. Sendo um espírito inquieto, Dustin vai acumular este novo emprego com as funções de foto-novelista na Proper Comics. Este sim, é o seu sonho concretizado. O pior é quando o mundo da banda desenhada e o dos mortos se juntam…
Foi há 25 anos que surgiu pela primeira vez Blacksad, a criação inspirada de Juan Díaz Canales e de Juanjo Guarnido. No segundo volume da série, Artic-Nation, travamos conhecimento com Weekly, o fuinha que se tornará personagem recorrente das aventuras do gato-detective e seu amigo.
Pois, neste ano em que se comemora um quarto de século do aparecimento do personagem, e na impossibilidade de termos nova aventura de Blacksad, nada melhor do que a criação de uma série derivada ou spin-off com o título Blacksad Stories. Dita a lógica (que às vezes é uma batata) que uma série com este título augura continuidade e que poderemos esperar novas “estórias de Blacksad” nos tempos vindouros. Cabe a Weekly ser o protagonista deste primeiro volume.
Juan Díaz Canales, sem medo, inicia aqui a nova série com a absoluta ausência de Blacksad, e cria uma espécie de “história de origem” de Weekly, ainda com o nome farfalhudo de Dustin Kalisnowszczyzna. São os primeiros passos do jovem fotógrafo nova-iorquino, bem como as suas origens familiares, que o argumentista nos narra.
Em entrevista que fiz a Canales em 2024, à pergunta “Blacksad, embora seja um policial noir, aborda sempre questões sociais como o racismo, a corrupção nos cargos públicos, pedofilia, o flagelo das drogas, entre outros. Foi uma ideia que tiveram desde o início? E vão continuar a abordar temas mais complexos?”, ele responde “A resposta às duas perguntas é sim! Para mim, o policial noir é um género muito especial que me permite abordar todas essas questões sociais. Desde logo, as histórias são passadas durante um período muito rico da história dos EUA – as décadas de 40 e 50 do século XX. Este período do pós-guerra é uma altura de grandes mudanças na sociedade que deixam antever as mudanças ainda maiores que se vão operar durante a década de 60 – por exemplo, a questão da segregação racial. E depois, o género noir permite que, em voz-off, o protagonista narre e comente estas questões, aumentando não apenas a densidade dramática como a crítica “filosófica” a esses temas sociais.”
E, no entanto, muitas das características do policial noir plasmadas em Blacksad estão ausentes em Weekly. Mas tal facto mostra, mais uma vez, a segurança do argumentista na sua nova criação. À medida que avançamos na leitura, Canales complexifica a história e torna-a num sólido policial de contornos intrincados. Tudo gira à volta de Dustin, desde o seu trabalho com o cangalheiro Lubansky até à ligação com a mulher deste que é pastora evangélica e que trava uma batalha com o editor da Proper Comics a favor dos bons-costumes. Editor que dará a Dustin a oportunidade de ser fotógrafo profissional. Pelo meio, Dustin descobre que há algo mais por detrás do trabalho de Lubansky, que os serviços secretos estão envolvidos e que a senhora Lubansky, líder do Movimento Cruzada Moral, pretende, de algum modo, proibir as bandas desenhadas.
Com este enredo, a história de Juan Díaz Canales ganha contornos multidimensionais. Desde logo, a aproximação ao policial noir e ao harboiled, embora ignorando alguns artifícios narrativos próprios do género, como é o caso da voz-off. No entanto, Canales tem o mérito de fazer com que não sintamos a falta dos “reparos” de Blacksad, que nem seriam muito próprios na voz de um adolescente como Weekly. Já a ausência de um detective de serviço é bem ultrapassada pelas façanhas de Weekly e pela própria dinâmica da narrativa.
Também Vitor Venables, o dono da Proper Comics tem a sua contextualização histórica, pois é baseado na figura de William Ganes, o patrão da EC Comics que fazia frente a editoras como a DC Comics. Entre outras, Ganes foi o criador da famosa Mad Magazine.
Mas Canales acrescenta ainda uma outra dimensão a esta obra que, porventura, agradará mais aos fãs de Blacksad. Uma dimensão reveladora do passado de Weekly, do seu percurso, da sua família, do que o levará a exercer a profissão de jornalista no What’s News e até da razão porque mudou de nome. E esta é uma dimensão importante pois prolonga o universo inicial de Blacksad, desenvolve-o e adensa a profundidade psicológica dos personagens.
Como curiosidade, o personagem Weekly baseia-se em Weegee, famoso fotojornalista dos anos 20 a 50 do século passado, conhecido por chegar aos locais dos crimes antes da polícia.
Por fim, a narrativa apresenta-nos personagens que, invariavelmente, ultrapassam as aparências, várias reviravoltas no enredo e aquele delicioso princípio de associar estereótipos a diferentes animais nesta obra antropomórfica. Para além disso, tanto a intriga como a investigação conseguem manter o interesse do leitor até ao fim.
Uma última nota inevitável para mencionar o jornalista Citizen, que me parece uma homenagem de Canales a Citizen Kane, filme de Orson Welles de 1941 e que em Portugal passou com o título “O Mundo a Seus Pés”.
Quanto à arte, o trabalho de Giovanni Rigano é notável. Tanto ao nível do desenho como das cores. Consegue não apenas manter o estilo habitual da série-mãe como também apresenta personagens muito expressivos e cenários cuidadosa desenvolvidos.
O autor italiano que substitui aqui a mestria de Juanjo Guarnido, tem o seu próprio estilo que tem tanto de eficaz como de elegante. O antropomorfismo dos personagens é plenamente conseguido e confere à obra grande credibilidade gráfica. Claro que somos sempre levados à comparação com a arte de Guarnido e é só aí, nessa comparação, que Rigano fica uns pontos abaixo. Contudo, o resultado final é muito bom, tanto ao nível dos personagens como dos cenários detalhados e dos enquadramentos.
De Rigano só conhecia a série de sucesso Tête de Pioche, dirigida a um público infantil e da qual acaba de ser publicado o quarto volume. Para mim serve como uma “série de conforto” e proporciona-me viagens até à infância. Aliás, permitam-me o aparte, não percebo como é que os editores portugueses não infestem neste segmento de mercado e esperam depois que os jovens leitores mergulhem tardiamente no mundo da Banda Desenhada. Para que não passe de um pequeno nicho no nosso País, a Nona Arte tem de ser e deve ser cultivada desde tenra idade.
Aparte de lado, constatar a capacidade de Rigano de saltar de um mundo mágico da Tête de Pioche para o mundo “real” de Blacksad Stories é extraordinário. Sobretudo no que diz respeito à ambiência dada à cidade de Nova Iorque. Andamos pelos mercados, entramos na esquadra, num estúdio de rádio, numa gráfica, deambulamos por ruelas, becos escuros e ruas movimentadas, tudo apresentado com grande rigor e credibilidade que se estende, nomeadamente, ao guarda-roupa e às viaturas.
Dois últimos reparos em relação à arte. O primeiro diz respeito à capa. Esta consegue captar facilmente a atenção do leitor, mesmo que contendo várias mensagens não perceptíveis de imediato. Weekly, de mãos nos bolsos e algo apático surge exactamente no meio da multidão, iluminado por um raio de sol que consegue furar as sombras que os arranha-céus projectam na rua. A luz que o ilumina desliza também para o ombro de uma figura que se apresenta de costas, mas que se percebe bem ser John Blacksad. O grande ausente do livro não deixa, mesmo assim, de fazer uma discreta aparição na capa. Weekly, alheio a quem o rodeia, está acompanhado de vários personagens – inclusive, os principais – que viverão com ele esta aventura. Uma capa muito bem conseguida.
Por fim, uma menção às guardas do livro, também elas criadas com inteligência. Na de abertura, vemos Weekly em frente de um típico quiosque nova-iorquino dos anos de 1950. Na mão segura uma revista de banda desenhada de “terror sangrento”. Passada toda a aventura, a guarda final apresenta-nos o mesmo quiosque, com o mesmo vendedor e até com as mesmas revistas. Mas Weekly cresceu com a aventura, apresenta já a indumentária pela qual é conhecido, a sacola com o seu material fotográfico e, sobretudo, já não tem um comic entre mãos, mas antes um exemplar do jornal onde trabalha, o What’s News. De resto, a sua leitura passa da fantasia sangrenta para o quotidiano sangrento da grande cidade.
Em suma, Weekly é mais uma aposta ganha de Díaz Canales, agora tendo como parceiro do crime o italiano Giovanni Rigano.
Narrativa bem ritmada, inteligente, por vezes subtil, que nos faz mergulhar nos tempos do maccartismo e de uma Nova Iorque que pretende ser exemplo para o mundo, mesmo pelas piores razões. Um policial noir com dois fios condutores paralelos que acabam por convergir numa reviravolta inesperada. Tudo ilustrado por uma arte elegante, detalhada e credível e uma paleta de cores bem conseguida.
Talvez haja tempo para uma Blacksad Stories de Alma ou do comissário Smirnov antes da publicação do novo Blacksad lá para 2027. Esperemos! Pois quero manter o tal ritual de que vos falei ao princípio…
Por Francisco Lyon de Castro.













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