sábado, 17 de janeiro de 2026

Profundamente humano…

 

Dakota 1880

 

Para os que amam a Nona Arte, Lucky Luke é um daqueles personagens incontornáveis. O cowboy solitário, mais rápido que a própria sombra, sempre acompanhado por Jolly Jumper, o seu fiel e opinativo cavalo, e a quem se junta, por vezes, Rantanplan, o cão mais estúpido do Oeste.


Lucky Luke, criado em 1946 por Morris, comemora em 2026 oitenta anos de existência. Oitenta anos de histórias bem-humoradas, com um pé entre a ficção e a realidade, e onde se revisitam figuras históricas e as realidades do Faroeste oitocentista. Sempre lúdico e pedagógico (para quem quer!). Mas, sobretudo, com muito humor.


A Seita tem vindo a publicar em Portugal a série spin-off de Lucky Luke na qual vários autores são convidados a fazerem a sua interpretação do herói. Desta feita, cabe a Appollo (argumento) e a Brüno (desenho) a árdua tarefa. E digo árdua porque estes autores, embora grandemente desconhecidos em Portugal, têm créditos bem firmados no mercado franco-belga e não se podem dar ao luxo de criar algo que não passe de mera manutenção de colecção. Dakota 1880 nunca poderia ficar atrás de obras como Commando Colonial, Junk, Nemo ou Tyler Cross, entre outras dos autores.

 

Então porque fazer esta homenagem a Lucky Luke sem o humor que caracteriza as suas aventuras? E porque colocar o herói num momento da sua vida em que a juventude não comporta ainda os traços que o tornaram uma figura mítica do Velho Oeste? E porque razão os autores resolveram fazer sete histórias curtas ao invés de uma só aventura?


É isso que vamos ver, num álbum que nos oferece um Lucky Luke realista, numa edição com duas capas (versão regular e versão Wook) e que termina com um interessante dossier de que se falará adiante.

 

Vamos à história!


A diligência avança a custo, fustigada pela tempestade de neve que assola aquela parte do Dakota no Inverno de 1880. Hank conduz com mãos férreas os quatro cavalos que vão desbravando o território inóspito. A seu lado, um jovem cowboy de carabina alerta serve de escolta. O seu nome é Luke.

 

 

Numa das pistas nevadas do Dakota, no meio do nada, apanham um passageiro que diz ser Louis Riel, professor primário, que quer ir para o Norte, para o Canadá.


Mais à frente, um tronco atravessado na via interrompe-lhes o percurso e cabe a Luke descer da diligência e desimpedir o caminho. Mas assim que começa a tarefa, é agredido violentamente por duas figuras misteriosas e atirado do alto da ravina. Perde a consciência enquanto a neve persiste em cair, e os dois homens levam a diligência e com ela o cocheiro e o mestre-escola.


Quando recupera a consciência, Luke segue os traços que a diligência deixara na neve e acaba por cruzar-se com dois índios. Estes procuram o mestre-escola. Luke faz-se de desentendido e pede-lhes um cavalo.


Rapidamente, alcança os seus agressores no preciso momento em que se preparam para enforcar Louis Riel, já montado num cavalo, de mãos atadas atrás das costas e com a corda à volta do pescoço. Ao lado, ajoelhado na neve, também manietado e completamente impotente perante a situação está Hank, o cocheiro. Luke confronta os bandidos e pede-lhes para largarem as armas; estes, estando em superioridade numérica, tentam abatê-lo. Mas com quatro tiros bem colocados, Luke desarma-os e põe-nos em fuga.


Entretanto, veem-se cercados por um grupo de índios e em breve saberão a verdadeira identidade de Louis Riel…

 


Como já se disse, Lucky Luke foi criado por Morris em 1946. Desde então, teve uma primeira série que conta 31 álbuns; uma segunda série com 41 álbuns e uma terceira com 11 álbuns, esta última já sem Morris entre os vivos. Para além disso, corre ainda uma série spin-off “Lucky Luke visto por…” e que conta já com 7 álbuns. Ou seja, ao todo o cowboy solitário tem 83 álbuns publicados. E ainda tem de se lhes juntar a série Kid Lucky (5 álbuns) e Rantanplan (20 álbuns).


Na origem de tudo isto está uma pequena história criada em 1946 na qual Lucky Luke está irreconhecível e longe do traço e das características que hoje de imediato lhe reconhecemos. Mais tarde inserida no álbum Arizona, tem por título “Arizona 1880”.


Ora, chegados ao princípio, chegamos ao fim, ou melhor, ao presente. Em homenagem a Morris e ao seu personagem central, Appollo e Brüno lançam o álbum Dakota 1880, referência clara à primeira aventura do herói.

 

Mas afastam-se do original ao eliminarem a ligeireza e a indiferença que caracterizam Lucky Luke e o western humorístico de Morris e dos seus sucessores. Aqui temos Luke mais sério, em começo de “carreira” e a quem ainda não foi atribuída a alcunha de Lucky.


Por outro lado, aproximam-se de Morris quando criam um álbum com histórias curtas e (aparentemente) independentes; curtas que eram, inicialmente, tão caras ao autor belga. São sete histórias e um epílogo que seguem o percurso de uma diligência pelos extensos territórios do Midwest e onde encontramos Luke como gatilho contratado para proteger passageiros e cocheiro.


E é no decorrer desta longa viagem que Appollo lança os alicerces do herói, desde o surgimento da sua alcunha “Lucky”, passando pela maneira como dispara o seu revólver, até à habitual partida solitária em direcção ao pôr-do-sol. Nada de zaragatas em saloons, ataques por estranhas tribos índias ou Daltons a falhar mais um assalto a um banco. Este é um álbum crepuscular cuja narração apresenta uma profunda melancolia.

 

 

Narração que é feita em voz-off por Baldwin Chenier, um jovem crioulo americano que mais tarde publicará as suas memórias e escreverá várias novelas para as famosas dime novels, onde um dos personagens principais será Lucky Luke. Baldwin acompanha a diligência e assiste por isso ao nascimento do mito.

 

Nesta envolvência de pseudo-realidade histórica, Appollo escreve diálogos sóbrios, extremamente depurados e quase telegráficos, conseguindo conferir-lhes uma enorme eficácia. A leitura é por isso rápida, mas muito envolvente. E o leitor é levado, com a ajuda do artigo final que surge após o epílogo, a confrontar-se com algo de que nunca suspeitou: Mas o Lucky Luke existiu mesmo?

 

A história de Appollo é extremamente inteligente. Construída como um road-movie, confronta o leitor não com os arquétipos habituais do western, mas, sobretudo, com uma humanidade cansada onde se encontram índios privados das suas terras, um mestre-escola rebelde, antigos escravos na penúria, poetas desesperados e mulheres vítimas de abusos.


Mulheres que, de certo modo, são essenciais no fio desta história de homens. Todas elas de origens e idades diferentes, tendo em comum características fora do comum. A avó de Baldwin, a Grandma Gumbo, escrava liberta, sempre de charuto na boca e exímia com a sua carabina; a jovem Annie Oakley, que viria a ser considerada a melhor atiradora dos EUA e que actuaria no famoso espectáculo de Buffalo Bill; a jovem mulher que atravessa sozinha as grandes planícies para ir ter com o noivo, soldado no 20.º de Cavalaria; e Lucy, uma jovem prostituta que quer abandonar a profissão e que só aparentemente parece indefesa.

 


Todas estas figuras, históricas ou não, vão cruzando o caminho de Lucky Luke à medida que a diligência avança pelos territórios de fronteira dos Estados Unidos. E passam à posteridade pela pena de Baldwin e pelas histórias que conta à volta da fogueira.


Do primeiro ao último conto assiste-se não apenas à longa viagem da diligência como às alterações implacáveis que se vão sucedendo no Oeste Selvagem. As últimas revoltas índias e as reservas, assunto tratado no conto que envolve Louis Riel e a tribo dos Madeira-Queimada; a abolição da escravatura e os problemas que subsistiram com os negros americanos; os pseudo-tribunais nos quais os juízes adequam as leis aos seus juízos; o caminho-de-ferro que corta a pradaria e reduz a distância entre a costa leste e a oeste; as cercas e o arame farpado que diminuem a percepção dos grandes espaços a céu aberto; e, por fim, a chegada do futuro com aquela geringonça que captura as almas dos incautos, a máquina fotográfica – curiosamente, a máquina do futuro que capta o passado para a posteridade.


É verdade que são sete histórias independentes, mas todas elas têm o mesmo fio condutor – o crepúsculo de uma época já então pleno de nostalgia.

 


A contribuir para esta sensação de nostalgia está o nosso Lucky Luke, parco nas palavras, muitas vezes desprovido de boca ou lábios, que prefere em geral observar sem nada dizer, deixando a voz para a narração feita pelo jovem Baldwin. Luke parece conformado com o avanço da civilização para o Oeste, mas nem por isso deixa de opinar sobre os direitos dos índios, dos escravos (trabalhadores) e das mulheres. Como se virasse a página de um livro, a realidade passa a lenda e a neve começa a cobrir os últimos fragmentos do Velho Oeste.

 


Appollo e Brüno conseguem com Dakota 1880 não só homenagear os 80 anos da criação de Morris, mas reinventar o herói “que dispara mais rápido que a própria sombra”.


Para isso contribui também em muito a arte de Brüno, talvez o mais purista dos actuais seguidores da “linha clara” criada por Hergé e Jacobs. Resumindo o traço ao essencial, embora usando por vezes jogos de sombras, Brüno oferece-nos panoramas magníficos do Faroeste e variadas situações de western que só lhe conhecíamos nos dois volumes de Junk.


O seu despojamento gráfico, quase como recusando egos, impõe-se silencioso, como que acompanhando o herói que agora retrata.

 


O seu traço dá a cada silhueta uma certa rigidez de estátua, como que cristalizando uma época. E os chapões de encarnados e ocres lembram os pôr-do-sol que antecedem o crepúsculo de uma era.

A composição das pranchas é rigorosa e alterna grande planos silenciosos com planos apertados onde o olhar, invariavelmente, diz mais do que as palavras. É o domínio absoluto do espaço e do tempo.

 


Em suma, Dakota 1880 é uma obra essencial a todos os admiradores de Lucky Luke, mas muito mais que isso, é um apelo à leitura por parte daqueles leitores exigentes que nunca recusam uma boa narrativa, seja em que género literário for. A lembrança longínqua de Arizona 1880 alimenta este Dakota 1880, e afasta-se dele pelo tom narrativo e realista.

 

Enquanto o leitor assiste às bases da criação de um mito que bem conhece, é levado a embrenhar-se num realismo que até agora desconhecia no personagem. Lucky Luke é testemunha e actor de um momento crucial da história americana, vivendo-a sem ser nem protagonista nem figurante, submetendo-se ao silêncio do cowboy solitário e guardando para si as opiniões que tem acerca de tudo. Opiniões que acabam por ganhar voz nos papeis desempenhados pelas minorias na época: as mulheres, os negros e os índios.


Appollo e Brüno tecem um verdadeiro trabalho narrativo e gráfico digno dos melhores ourives. Uma variação magnífica sobre o mito do cowboy solitário, poética e profundamente humana.

 

Por Francisco Lyon de Castro

 


 

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