Blast
A vida é feita de pequenas explosões, daqueles momentos que nos enchem, para o bem e para o mal, e que acabam por fazer sentido ou tirá-lo do nosso percurso neste mundo.
Pode ser o novo sabor de um prato desconhecido, o cheiro doce de uma nova parceira, uma brisa morna a afagar-nos o rosto numa tarde de Outono.
Mas a vida também é feita de grandes explosões, daqueles momentos que nos ultrapassam e que nos levam à beira da loucura. O nascimento de um filho, a morte de um ente querido ou um orgasmo ditado mais pela mente do que pelo físico.
E depois temos aquelas explosões que não são pequenas nem grandes; que são raras, inexplicáveis, humanamente selectivas e, por isso, desconhecidas da maior parte de nós.
E é dessas que vos falarei aqui, a pretexto de vos apresentar o primeiro volume de Blast, de Manu Larcenet, que a Ala dos Livros teve a coragem de publicar em Portugal.
Originalmente, Blast foi lançado em França em quatro volumes. A Ala dos Livros resolveu, e muito bem, agrupá-los em dois volumes, sendo que o segundo sairá mais para o fim do ano. Este engloba o tomo Carcaça Gorda e O Apocalipse Segundo São Jacky.
Ler as adaptações de Larcenet de obras como O Relatório de Brodeck e A Estrada foi para mim uma explosão dupla de surpresa, admiração e regozijo.
E Blast? Será?
Como disse para as duas obras anteriores do autor, e repito agora: “Preparem-se, então, para vários murros no estômago.”
Vamos à história!
Perdido algures numa grande cidade, em um dos seus múltiplos edifícios, num qualquer departamento de investigação criminal, um homem ocupa uma cela sem janelas. Impávido, olha à sua volta, sentindo-se protegido pelo gigantesco moai que a sua mente trouxe para dentro do cubículo. É observado por dois inspectores da polícia que o analisam por detrás do anonimato que lhes confere o óculo centrado na porta da cela.
Repugnados com a massa disforme que têm pela frente, os inspectores interrogam-se se ele não terá mamas. Mas vão ter de interrogá-lo, a mando do comissário que quer que ele confesse tudo, sem pressas, sem pressão ou ele fechar-se-á em copas. Afinal, Carole Oudinot está em coma artificial com respiração assistida, entre a vida e a morte. E o culpado é o gordo!
Do outro lado da janela espelhada, um grupo observa o início do interrogatório. Os dois inspectores identificam-no. É Polza Mancini, de 38 anos, escritor, motorista… criminoso assassino? Sim, é quase certo que aquele obeso nojento é capaz disso. Os inspectores vão depressa demais; vão directos à questão da pobre Carole. Polza desvia o olhar e alheia-se. É preciso conquistá-lo, fazê-lo crer que os dois polícias são os únicos que se interessam pela sua história. De semblante sereno, Polza inicia o seu relato, muito à sua maneira especial. Conversador, companheiro inseparável de um bom monólogo, Polza conta como, após visitar o pai moribundo na cama de um hospital, foi exposto pela primeira vez ao “Blast”. “’Tás a gozar connosco, é isso?”, questiona um dos polícias. A expressão no rosto de Polza torna-se pesada…
“Se quiserem perceber…” diz Polza, “…terão de passar pelo que eu passei…”.
Ver o pai naquele estado, uma carcaça amorfa, reduzida à inércia pela morfina, tinha sido insuportável para ele. Fustigado pela chuva, instala-se num beco sórdido e dispõe à sua frente, de forma quase ritual, sete barras de chocolate, uma dezena de comprimidos e duas garrafas de álcool. Delirante, dá início a uma orgia de vícios. O suor que lhe escorre da cabeça suplanta as gotas de chuva que lhe afogam o rosto. É então que sente um estalido na cabeça, seguido da sensação de um buraco a abrir-se no cimo do crânio, uma fadiga que parece pesar-lhe sem vezes o seu peso e a percepção de um mundo magnífico. Era o Blast!
Pacientes, os polícias continuam a ouvi-lo, na expectativa de chegarem à verdade…
Manu Larcenet! Aqui está um autor que, a cada álbum e perante a expectativa crescente dos seus leitores, coloca sempre a fasquia mais alta. Quer pela sua arte quer pelos seus argumentos, adaptados ou não. E este Blast não é excepção. Aliás, o anglicismo do título evoca bem a sensação que o leitor terá com esta leitura – uma explosão, uma onda de choque que nos abala, capaz de mexer as nossas vísceras e estremecer-nos o cérebro.
A trama deste primeiro volume duplo parece simples. Um homem paquidérmico, obeso à quinta essência, está detido para interrogatório, acusado de ter feito algo de horrendo a Carole Oudinot. Do acto, o leitor só sabe isto: o nome da vítima e que está em coma, entre a vida e a morte. Cabe a dois inspectores da polícia interrogar Polza e descobrir o porquê. A história corre ao longo de um pouco mais de 400 páginas e é-nos apresentada em vários flashbacks, interrompidos apenas pelas esparsas reacções dos polícias.
Simples… não fosse o facto de os flashbacks serem narrados por Polza, um homem tão complexo que consegue provocar nos seus interrogadores tanta repulsa quanto admiração pela sua hipersensibilidade. Na mente de Polza, explicar à bófia o seu acto aterrador é fazê-los passar por toda a experiência que o levou ali. Ou seja, estamos perante uma história de crescimento… para o mal! Mas um mal que, como leitores, não conseguimos percepcionar, nem sequer de forma longínqua.
Somos antes levados numa longa introspecção, resultado de um mal-estar visceral crescente, e nas suas reflexões sobre o sentido da sua vida.
A viagem que Polza enceta após a morte do pai é tanto de descoberta como de mergulho profundo num canto recôndito e sombrio da alma humana. O homem decide viver à margem da sociedade, deambulando por campos e bosques cada vez mais profundos – os abismos negros do ser. Procura “uma alternativa à norma”, mas rapidamente percebe que a demanda é vazia de sentido, excepto pela sensação violenta e reconfortante do “Blast”.
Não o julguemos pelo seu aspecto. Afinal, “o cabrão do gordo”, escritor de profissão, é um homem do espírito e do estilo. A sua narrativa é poética, lúcida, tocante até, e leva-nos a sentir por ele uma estranha empatia. Não fossem os inspectores que, amiúde, nos trazem para a realidade, esqueceríamos facilmente a bestialidade do homúnculo. De qualquer modo, voltamos sempre a mergulhar, por nossa própria vontade, em cada novo testemunho de Polza, ávidos por explorar os negrumes da alma humana. Isso e porque, como leitores curiosos, tal como os polícias, queremos compreender o que realmente se passou.
Manu Larcenet usa a errância de Polza pela floresta ou casebres desocupados como elementos de protecção, sítios de segurança para o protagonista, enredado nas suas reflexões, apimentadas por pequenos roubos e banquetes de álcool e medicamentos de que vão resultando pequenos blasts cada vez menos transcendentes. É neste ponto que o autor vai aumentar a parada e agitar a história de forma perturbadora. Polza deixa de fazer o seu percurso solitário a partir do momento em que conhece Jacky, um “traficante” que o apresenta à heroína – o anjo branco que o levará a blasts apocalípticos.
E se, até aqui, a narrativa era tensa, agora essa tensão é esmagadora para o leitor. E a narrativa, infinitamente brilhante, é caracterizada pelo peso e importância de cada palavra que nos leva a emoções desmedidas que, quase de modo inexplicável, nos fazem deambular pela empatia e pela percepção de humanidade nos ambientes e vivências mais sórdidas.
A narrativa estende-se também, com igual importância, aos vários momentos de interacção de Polza com os seus interrogadores ou quando estes, fora da sala de interrogatórios, reflectem acerca do que ouvem. Estes são os momentos da realidade absoluta, os únicos de que podemos ter a certeza. Pois os outros, os dos flashbacks, têm de ser peneirados de modo a separar o verdadeiro do falso. Para isso, os inspectores têm de escutá-lo, regressar à origem do drama e descobrir as falhas daquela massa disforme de 150 kg que, sobre o efeito do blast, desafia as leis da gravidade e diz que consegue voar. O certo é que estão perante um homem inteligente, talvez um psicótico delirante, um manipulador nato, um inventor exímio ou um mero sujeito a quem surgem revelações metafísicas. E, para mais, um escritor! Um desses seres que modela a realidade e que a falsifica.
A dupla narrativa resulta então numa viagem pela introspecção, pela alma humana, enquanto estamos nos flashbacks. E numa espécie de thriller psicológico que nos traz à realidade quando estamos nas cenas entre quatro paredes com os polícias.
Tal como Polza Mancini, Manu Larcenet, para além de desenhador, também é escritor. E como tal, com a sua arte narrativa superior, vai manipular-nos enquanto leitores, levar-nos para outras realidades e fazer-nos pensar que estas, aqui e ali, também são as nossas. Afinal, todos vivemos no mesmo universo… o universo dos humanos. Ainda que nem todos experimentemos o mesmo humanismo.
A história que Larcenet nos oferece é, aparentemente, a narrativa de uma errância de um vagabundo com desejos de ermita, de um sem-abrigo por opção que se abriga debaixo do céu que é a sua mente. E que se pauta pelas simples necessidades do quotidiano: dormir, lavar-se, emborcar barras de chocolate, medicamentos e álcool, ressacar e aproveitar as paisagens que se lhe vão apresentando na sua plenitude, como uma janela aberta para o mundo. Mas além dessas simples necessidades de Polza, existe a sua necessidade de espiritualidade que acaba por nos desconcertar. O delírio de um alienado? A crise de uma obesidade mórbida andante que foi confrontada com a morte do seu progenitor? Ou alguém com uma lucidez superior a toda a humanidade?
A história de Polza Mancini é envolvente e funciona em dois planos: o da realidade, que nos leva para a história policial e para as nossas próprias vivências; e o plano interior, o do espírito, que no caso do protagonista parece transportar-nos para um desejo do nada, para o espaço do vazio e que, no entanto, é aquele que nos levanta as grandes questões relativas ao sentido da vida. Nesse sentido, Polza é uma espécie de peregrino em busca do Santo Sepulcro, talvez o sítio onde encontre redenção e consiga apaziguar todos os seus demónios.
Mas Blast é também a oportunidade de o leitor voltar a poder apreciar a arte de Manu Larcenet. Ou fazê-lo pela primeira vez.
E se este é o seu caso, caro leitor, o desenho até poderá parecer-lhe estranho, desconcertante e, em alguns momentos, surrealista. E noutros, dramaticamente realista. Mas à medida que a narrativa se lhe vai entranhando, vai ver que a arte de Larcenet não só parece a única apropriada a ilustrar tal história, como é sempre senhora de uma beleza que impera mesmo durante os momentos mais sórdidos e nauseantes.
Para isso contribui, e muito, a irrepreensível capacidade de encenação ou mise em scène do autor, capaz de belas sequências de narrativa gráfica nas quais, por vezes, a palavra quase é acessória. Essa capacidade, aqui tão bem representada, atingiu já o seu zénite em A Estrada (outra obra de Larcenet).
Um exemplo simples, mas bem demonstrativo, é o que se segue nas seis vinhetas seguintes. Polza Mancini não vê o pai há quatro ou cinco anos. Telefonava-lhe de vez em quando, por nostalgia e educação. Recebe um telefonema do hospital a informá-lo que o progenitor está hospitalizado, a morrer. Diante do quarto 331, Polza pára, hesita perante a porta fechada, transpira e hiperventila. A maçaneta da porta parece-lhe inalcançável. Gira-a e entra num universo sombrio, rumo ao desconhecido…
E depois há as aguarelas a preto e branco, com uns quantos golpes de lápis e uma envolvência de manchas cinzentas que nos fazem mergulhar na negrura da narrativa; numa escuridão melancólica e triste a que várias vezes se vai juntar a perversidade.
As paisagens de Larcenet têm uma cuidada e soberba iluminação, capaz de nos fazer remontar aos primórdios, ao humano primitivo que vivia isolado ou em pequenos grupos. É a obscuridade mais preta e a claridade mais branca, aquela que me impressiona no olhar da coruja. Apreciem como o branco quase limpo contrasta com tudo o resto e dá uma enorme profundidade ao olhar.
O protagonista, o “nosso” Polza Mancini, podia até ser um homem gordo num mundo de magros. Mas, fisicamente, ele é muito mais que isso. As suas enormes dimensões, a sua carcaça esmagadora, comprime todos os outros personagens, fadados a serem secundários, reduzidos a um papel quase insignificante.
Larcenet joga assim com os contrastes e com os grandes planos. O seu desenho é visceral, emocional, constantemente à flor da pele. Parece ser feito no tempo de um relampejo e, no entanto, percebe-se que foi burilado, testado e tornado eficaz pela mestria inteligente do autor.
Tal como na sequência da entrada de Polza no quarto de hospital onde está o pai, a narrativa artística de Larcenet joga invariavelmente com o não-dito, com as omissões propositadas que obrigam tanto o autor como o leitor, em momentos distintos, a pensar.
E à medida que Polza vai revelando, lentamente, a sua história, Larcenet vai tornando o seu grafismo mais cinematográfico, muito perto do naturalismo e do realismo. Multiplicam-se os silêncios, os brancos engolem os pretos e os pretos abafam os brancos. Por vezes, um ou outro sobressaem, e os golpes de pincel acercam a arte de Larcenet do mais puro impressionismo.
Há que dizê-lo sem hesitar! Com Blast, Manu Larcenet oferece ao mundo da Nona Arte mais uma obra-prima. Sombria, poética, reflexiva, de uma violência emocional que subjuga por completo o leitor, consegue abordar temas como o da morte, da angústia, da depressão, do vício, da solidão e do sofrimento sem, no entanto, levar-nos a um estado de espírito deprimido. Para isso contribui em muito a narrativa inteligente e até reveladora que nos faz atribuir a Polza atributos que só estão na mente de cada um de nós.
Uma obra que faz a apologia da diferença e que nos leva, como já se disse, aos recantos sombrios da alma humana. Como na obra de Victor Hugo, todos são miseráveis, os bons, os maus e os neutros. Ninguém escapa – nem o leitor – neste thriller psicológico de que ansiamos ver a conclusão.
Polza Mancini tem nos lábios, quase sempre, um ténue sorriso que nos precipita para a empatia. Mas por detrás dos seus olhos encovados, é o desconhecido que nos aguarda, num suspense avassalador. À margem de Baudelaire (ou talvez não), Manu Larcenet oferece-nos aqui a sua flor do mal e, sobretudo, entrega-nos ao prazer do derradeiro blast que é a nossa capacidade de reflectirmos.
Bravo! A Larcenet e à Ala dos Livros.
Que venha o último volume!
Por Francisco Lyon de Castro












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