sábado, 4 de abril de 2026

No prazer, está a verdade!

Ulysse & Cyrano

 

A culinária, a arte de cozinhar, ultrapassa muitas vezes o seu propósito mais primário – o dar de comer.


Quantos de nós não temos doces memórias associadas à cozinha?! Todos aqueles rituais de preparação, como um bom bife a ser desancado por um martelo; o estalido de uma vagem a abrir antes de saltarem de lá as ervilhas; ou a mesa da cozinha repleta de condimentos misteriosos prestes a serem meticulosamente misturados numa panela. E depois, o acto de cozinhar propriamente dito; aquele momento mágico em que os aromas hipnotizam o cérebro e o ser humano – associando-os ao paladar – acaba por perder a cabeça e resolve comer aquilo que foi o momento criativo e cultural de alguém.


Lembro-me bem da cozinha de minha Avó e de minha Mãe. Nela, podíamos passar, deter-nos por brevíssimos instantes, mas era um território que nos era proibido. Era impossível o roubo de uma mera batatinha frita ou um dedo a deslizar pela cobertura de um bolo. Para nós, homens e crianças da casa, o resultado daquele acto de amor só nos era dado à mesa das refeições. Era o tempo em que até uma fatia de pão saloio barrada com manteiga da região sabia ao céu e nos desgovernava os sentidos.


O tempo correu e, entretanto, dei tantas vezes por mim a repetir aqueles gestos meticulosos das mulheres da minha família “à volta dos tachos”, agora para dar ternura e carinho a meus filhos através dos meus cozinhados.


Tudo isto a propósito da obra Ulysse & Cyrano que a Asa acaba de publicar. Escrita por Antoine Cristau e Xavier Dorison (1629, O Castelo dos Animais e Undertaker, entre outros) e desenhada por Stéphane Servain, foi vencedora do Grande Prémio RTL da BD 2024, do prémio Landerneau BD e do prémio das Livrarias Canal BD 2025, entre muitos outros.

 

História iniciática e de homenagem à culinária, mistura a amizade, o drama e o crescimento com as mais belas paisagens da Borgonha que constituem o pano de fundo para uma odisseia gastronómica na qual o principal ingrediente é o humanismo.
 

Vamos à história!

 

O momento é de tensão. Vestidos a rigor, os membros do Clube dos Cem preparam-se para eleger, entre os dois finalistas, o melhor dos “albergues bons e bem franceses”. O prato para desempate é frango com lagostins. Um confecionado por Cyrano, um chefe experiente e mentor de Gédéon Lecoq, o outro concorrente. Cyrano tem o prémio como garantido; Gédéon, no entanto, mantém a expectativa. Para surpresa deste e espanto do outro, é Gédéon que vence.

 

A derrota de Cyrano sabe-lhe a traição e a amizade por Gédéon termina ali. Regressa a Les Maranges desvairado, enfrentando a escuridão da noite que parece sufocá-lo. Entra de rompante nos Três Loureiros, o seu restaurante que está repleto de clientes para o jantar. Num acesso de fúria, põe a clientela na rua, bem como todos os seus colaboradores, e lança fogo ao estabelecimento. Cansado e desalentado, Cyrano vai agora viver longe da profissão para a qual tinha entregue toda a sua paixão e deixar que a vida o engula algures na Borgonha.

 

Quinze anos mais tarde, em Paris, numa manhã de Abril de 1952, Ulysse, um jovem rapaz apaixonado pela pintura, é despertado pelo seu valete que o veste e penteia enquanto vai debitando a sua agenda diária carregada. O ponto mais importante é o pedido do pai que o quer ver ao pequeno-almoço, antes de sair para a sua cimenteira, a maior da Europa. Ele está extremamente desagradado com as notas escolares do filho que, assim, nunca será o melhor entre os melhores. E para que isso aconteça, o pai decide terminar com as aulas de desenho que Ulysse tem no Louvre. O objectivo é torná-lo apto a suceder ao pai no mundo da indústria.

 

Mas a vida dá muitas voltas e a multimilionária família Ducerf está prestes a receber um duro golpe. Charles Ducerf, o pai de Ulysse é acusado de colaboracionismo com os nazis durante a Segunda Guerra Mundial. Parece que as suas fábricas continuaram a laborar durante a ocupação alemã. O pior é quando a notícia sai nos jornais, o que leva de imediato ao desabamento da vida social dos Ducerf.


É então que Charles decide enfrentar sozinho o processo legal que se adivinha e resolve mandar Ulysse e a mãe para uma casa na Borgonha, sob um nome falso, de modo a mantê-los afastados do tumulto.

 

Já em Les Maranges, Ulysse deixa-se encantar pelo local e pelo Cerrado das Lucernas, a grande casa onde vai viver com a mãe nos tempos mais próximos. Mas a Sr.ª Rémance, a governanta, rapidamente se encarrega de o trazer à realidade. O explicador que o pai lhe arranjou já está à espera e virá todos os dias. Entretanto, já sozinho, Ulysse vê pela janela uma bela jovem a dirigir-se para a cozinha. Confunde-a com a cozinheira e depois com uma criada. Na verdade, Marie é a filha da dona do albergue local, ajuda a mãe nos tempos livres e é estudante, tal como Ulysse, que parece ter nela a sua primeira paixão. Combinam ir tomar banho à ponte do Mellot no domingo, com os amigos de Marie. Mas as malditas explicações atrasam Ulysse que, desesperado, corre debaixo de uma chuva copiosa ao encontro de Marie. O terreno enlameado fá-lo escorregar por uma ravina, fazendo-o mergulhar inanimado no rio. É salvo por um homem corpulento que se encontrava na margem a pescar. Quando recupera os sentidos, Ulysse está num sítio acolhedor e um desconhecido estende-lhe uma fatia de pão com patê de coelho e um copo de Mercurey “Premier cru” para ajudar a descer.


Ulysse ainda não sabe, mas aquele encontro com Cyrano vai mudar a sua vida radicalmente…

 

Para o leitor português, o nome de Xavier Dorison não é desconhecido. Criador das séries Undertaker, O Castelo dos Animais, 1629 ou Long John Silver (também da Asa), é-lhe reconhecida uma extraordinária capacidade de contar histórias envolventes com personagens densos e tramas plenas de acção. Não deixa, por isso, de causar uma certa surpresa vê-lo ao leme deste Ulysse e Cyrano que parece não se enquadrar nos géneros em que habitualmente trabalha.


Mas esta surpresa dissipa-se rapidamente e prova ao leitor que um bom escritor tem sempre a capacidade de narrar histórias nos mais variados géneros. Para além disso, Dorison é aqui coadjuvado por Antoine Cristau que, entre muitas outras coisas, é um grande conhecedor da gastronomia e da sua história. Ora, esta paixão nutrida por Cristau é fundamental para que Ulysse e Cyrano ofereça um sabor único ao leitor.


A acção central desenrola-se nos anos cinquenta do século XX, numa França há pouco saída da Segunda Guerra Mundial e que, ainda não apaziguada com os fantasmas do passado, vai retomando paulatinamente os seus hábitos e costumes.


Neste cenário, um jovem de “boas famílias” vê-se obrigado a deixar Paris e a ir viver para o campo borgonhês com a sua mãe, enquanto o pai enfrenta na capital um processo jurídico muito mediático. Destinado a seguir o negócio da família, Ulysse acaba por descobrir que a sua verdadeira paixão é a culinária. E essa descoberta deve-a a Cyrano, um chefe afastado das cozinhas dos restaurantes e a viver uma semi-reclusão nos lugares mais idílicos da Borgonha.

 

A narrativa de Dorison e Cristau demonstra bem como a gestão do tempo na banda desenhada é algo essencial para a credibilidade de uma história. No caso concreto, temos de conseguir sentir o lento correr do tempo no campo, quase ao ritmo das estações do ano, ao mesmo tempo que nos apressamos de acção em acção, não conseguindo sentir enfado alguma vez. Objectivo difícil de alcançar quando a narrativa anda à volta de uma aprendizagem e de um crescimento, todo ele circunstanciado na arte culinária. Objectivo difícil, mas plenamente conseguido. Ainda com a dificuldade acrescida das múltiplas tramas que circundam a acção principal: à relação de amizade entre Ulysse e Cyrano temos de juntar a primeira paixão amorosa (por Marie), as desavenças com o pai, a preocupação com a mãe que come cada vez menos, e o processo nos tribunais de Paris.


A aprendizagem e crescimento de Ulysse, a partir do momento que conhece Cyrano, ligam-se por completo à arte culinária. Por isso, não serão raras as cenas que ao longo da obra nos colocam na cozinha de Cyrano ou do albergue, sempre envoltas em conversas sobre receitas e cozinhados dos quais quase sentimos os aromas perfumados. Mas é a arte de cozinhar que, de forma transcendente, leva ao verdadeiro propósito da trama – a ligação à família, aos laços de amizade e do convívio. De certa forma, a amizade de Ulysse e Cyrano lembra a de Totó e Alfredo, os personagens protagonistas do filme de Giuseppe Tornatore, Cinema Paraíso. Como no filme, também aqui se espera que Ulysse ultrapasse o seu mestre. E também como no filme, somos invadidos por um enorme sentimento de nostalgia relativo às nossas avós, mães e, em alguns casos, pais.


Mas Ulysse e Cyrano é, sobretudo, um hino à vida, ao saber viver e à partilha. Quase anacrónico em relação aos tempos que correm, é um instilador de esperança e uma leitura provocadora de um profundo bem-estar.

 


A tudo isto não são alheios os muitos personagens criados por Dorison e Cristau, corporizados pelo traço de Stéphane Servain que lhes insufla vida e os torna próximos do leitor.

Bem caracterizados, profundos, tanto os protagonistas como os seus secundários estão plenos de desafios que desejamos serem ultrapassados. No todo, funcionam como uma orquestra, em sintonia, afinados e virtuosos, cumprindo exemplarmente o seu papel na execução da sinfonia. Entre a contemplação e ataques de nervos, entre os gracejos de Cyrano e a vontade de Ulysse de tomar entre mãos um novo destino, o encontro improvável destes dois personagens vai influenciar e afectar todos os outros personagens, enriquecendo assim a narrativa. Narrativa com diálogos milimetricamente burilados, nos quais o humor surge amiúde, que confere também aos personagens secundários o papel de actores principais.


Por entre a amizade, o amor, a inveja, o perdão, o desespero e a alegria, Ulysse e Cyrano é um banquete de emoções e reviravoltas que estimulam o cérebro, encantam a visão e nos enchem de água o palato.

 


Quanto ao desenho, Stéphane Servain tem aqui a oportunidade de exibir o melhor da sua arte. Também responsável pela cor, é logo na capa que percebemos o que nos espera em termos de ambiente; embora aqui sejamos remetidos para uma certa aproximação ao impressionismo.


Tão eficiente a criar interiores de ricas mansões e luxuosos restaurantes como cozinhas acolhedoras e repletas de ingredientes, Servain é também exímio a levar-nos em viagem pelo campo da Borgonha, onde visitamos prados, bosques e rios que, invariavelmente, nos criam a sensação de “querermos lá estar”. E o mesmo acontece com as noites de tertúlia promovidas por Cyrano no quintal da sua casa onde recebe os poucos eleitos que povoam ainda a sua vida.


E se, caro leitor, quiser ficar com a percepção imediata do que é a arte de Servain, agarre no livro numa qualquer livraria e vá directamente às páginas 34, 35 e 36, o momento mágico em que Ulysse, ainda atordoado, desperta na cozinha de Cyrano. Entre as expressões de espanto do rapaz (muito bem conseguidas), os detalhes que preenchem o espaço e a força que pode ter uma simples fatia de pão com uma não tão simples fatia generosa de terrine, está lá tudo o que deixa antever uma bela amizade.

 

 

Com uma aparente simplicidade, sem nunca cair em excessos realistas-fotográficos, Servain domina as expressões faciais dos seus personagens, permitindo ao leitor a apreensão do tom certo de leitura em cada vinheta. E a isso podemos acrescentar o cuidado que dedica a cada prancha, os detalhes, a encenação e, como já se disse, a colorização.


O resultado final é uma narrativa gráfica em perfeita sintonia com a narrativa literária que desemboca em ambiências ricas de sentidos e sentimentos.

 

 

Ulysse e Cyrano é um belo álbum que tem o seu enfoque na cozinha e na arte culinária. Nesse sentido, leva-nos numa viagem na qual conseguimos experimentar plenamente o prazer de cozinhar e de provar, vivendo com os personagens o gosto de emprestar a vida às mais acolhedoras cozinhas.


Mas o prazer que sentimos na sua leitura é resultado do próprio fito da obra – uma ode ao prazer que só pode deixar Epicuro radiante. Como no epicurismo, o propósito de Ulysse e Cyrano é o de atingir a felicidade, sem dor, com uma alma imperturbável e em paz.


Como vai dizendo Cyrano ao longo do livro, in voluptate veritas, que é o mesmo que dizer “no prazer está a verdade”. O prazer de partilhar, o prazer da amizade, do amor, das escolhas. O prazer de viver!

 


 Por Francisco Lyon de Castro.

 

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