Uma das primeiras belas leituras de 2026 é também um dos primeiros lançamentos do ano pela editora ASA. Temos uma história de um quadro real que sobreviveu ao regime nazi durante a Segunda Guerra Mundial. Dito simplesmente assim é talvez demasiado redutor, porque estamos aqui perante uma obra que é, na verdade, muito mais do que isso e não é menos que magnifica.
Neste álbum, o francês Luz dá vida à trajetória de uma pintura que, por força das circunstâncias,
se torna uma testemunha silenciosa de um dos períodos mais sombrios da
história europeia do século XX. Oferece-nos um exercício narrativo e, sobretudo, visual absolutamente singular. O olhar do autor coloca-nos, a nós leitores, dentro do quadro, e torna-nos cúmplices de um jogo de olhares: observamos e somos observados. Involuntariamente assumimo-nos como a figura central desta história feita de pequenos episódios, ricos em detalhes, fragmentos de memória que atravessam o tempo.
Acompanhamos o percurso daquela que começou apenas como uma expressão artística de Otto Mueller e que, com o desenrolar dos acontecimentos, passa por diversas mãos e destinos. Durante os “anos negros”, a arte revela-se impotente perante a espoliação, a violência e a destruição - as imagens como as colunas de fumo que saem das torres são sintomáticas. Mas Luz não se resigna: mostra também a arte como peça de resistência, sobrevivência e, acima de tudo, de memória viva. O quadro retratado, Zwei weibliche Halbakte, encontra hoje um lugar seguro no Museu Ludwig, em Colónia, e a sua presença ali ecoa esse percurso de resistência.
O registo gráfico de Luz é marcado por um traço nervoso e expressivo, com caricaturas subtis que acentuam gestos e posturas, e que conferem dinamismo e emoção à leitura. A narrativa visual prende-nos pela curiosidade desde as primeiras pinceladas na primeira página, e avança num belo equilíbrio entre intensidade e elegância.
Esta edição portuguesa de Duas Raparigas Nuas vem ainda enriquecida com um notável dossier documental: inclui um posfácio assinado pela diretora-adjunta do Museu Ludwig, biografias das figuras reais envolvidas, uma cronologia detalhada e uma lista das obras consideradas “degeneradas” que se cruzam com o destino do quadro. Um excelente complemento que reforça o diálogo entre a arte, história e a memória que atravessa todo o álbum.
É uma obra que merece ser lida. E uma entrada directa para a minha lista de melhores leituras do ano.
A minha nota: EXCELENTE ÁLBUM

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