quarta-feira, 31 de dezembro de 2025

O ESTADO DA ARTE EM 2025

Análise do Mercado Editorial Nacional de Banda Desenhada

Introdução

Prestes a fechar 2025, é impossível não olhar para trás e reconhecer que foi um ano marcante para o mercado editorial português de banda desenhada. O grande acontecimento, sem margem para qualquer dúvida, foi o lançamento, em Outubro último, da 41º aventura de Asterix e Obelix, que trouxe finalmente os irredutíveis gauleses até terras lusitanas, e os próprios autores, Jean-Yves Ferri e Didier Conrad, a Lisboa. A editora ASA preparou uma tiragem inicial impressionante de 80.000 exemplares que não chegou para as encomendas. Em quatro dias vendeu mais de 30.000, e dois meses depois, Asterix na Lusitânia vai na sua quarta edição, com mais de 150.000 álbuns vendidos. É um dos maiores, senão mesmo o maior, sucesso editorial de sempre no campo da BD, e indiscutivelmente o livro mais vendido do ano em Portugal.

Outra nota que vale a penas destacar foi o forte crescimento da edição de manga, que pela primeira vez superou a BD franco-belga em número de edições. Por uma questão de simplificação, junto manga, manhwa e manhua sob a designação genérica “manga” para identificar as obras oriundas de mercados asiáticos. A diferença foi pequena (+1%), mas simbolicamente importante. Com efeito a edição de manga representou 39% da oferta total registada, muito alavancada no excelente desempenho da editora Devir, que teve em 2025 um ano verdadeiramente histórico, acompanhada pelo forte crescimento da oferta por parte das editoras Distrito Manga e Editorial Presença. Mas já volto a este assunto. 

Agora vamos aos números!

O MERCADO

Para 2025, a expectativa era saber como reagiria o nosso mercado editorial depois de um 2024 considerado como o melhor de sempre. O resultado? Surpreendentemente estável. Foram contabilizados 382 lançamentos de livros/obras de BD (ver Anuário), no formato físico (e contagem pelo ISBN). É verdade que representa uma pequena quebra de 1% face ao ano anterior, e interrompe assim um ciclo de quatro anos consecutivos de crescimento, mas mesmo assim faz de 2025, o segundo melhor ano de sempre.


Da análise que podemos dizer que temos um mercado que se mantém concorrencial, onde encontramos um top-10 de editoras que garante 73% da oferta total, que se encontra dividido de forma equilibrada entre editoras independentes, que representaram 44% da oferta, as chancelas dos grupos editoriais, como a Penguin, Leya, Porto Editora e Presença, responsáveis por cerca de 29%. A restante oferta foi assegurada  por pequenas editoras ou chancelas com 10 ou menos livros editados. 

Por mercados de origem, foi a confirmação da tendência dos últimos anos, com a edição de manga (39%) a superar os números da bd europeia (38%), excluindo aqui Portugal. Assim, em 2025 o mercado nacional surge bipartido, com o manga e a BD franco-belga, juntos a somarem 77% dos lançamentos, e a confirmarem estas duas “línguas gráficas” como eixo central da oferta

A BD portuguesa surge na terceira posição, com 49 lançamentos (13% da oferta), com uma concentração de novos títulos sobretudo a partir de Abril, e com picos nos meses ligados à realização dos festivais nacionais de banda desenhada. Um número em linha com o referencial dado pela média dos três últimos anos (50 títulos). Relativamente à BD norte-americana, apesar dos números relativamente baixos, mantém a sua regularidade com uma oferta próxima dos 10%.

No que toca a categorias, de destacar a publicação de banda desenhada destinada ao público infanto-juvenil, que continua como uma das apostas mais fortes no nosso mercado, com 15% da oferta concentrada sobretudo nas chancelas dos grupos editoriais. Pela negativa, géneros como western (1%), super-heróis (2%) ou ficção-cientifica (7%) continuam a não merecer uma grande atenção por parte das nossas editoras. 

No calendário editorial, observa-se um forte alinhamento dos lançamentos com os meses de realização dos festivais nacionais de BD. O ano iniciou-se de uma forma moderada, e concentrou-se sobretudo a partir de Abril e foi em crescendo até ao pico verificado em Junho (45 lançamentos), beneficiando da realização dos festivais de Coimbra BD (Abril), Maia BD (Maio) e Beja BD (Junho). Segue-se uma quebra normal típica dos meses do Verão, e depois novo pico em Outubro (49), desta coincidente com a realização do Amadora BD. Dezembro voltou a fixar-se como o mês mais fraco (11) justificado pelo elevado numero de lançamentos que se verificam nos dois períodos que antecedem, e que concentraram quase 25% da oferta anual. 


Em 2025, o cabaz completo, composto por todos os 382 lançamentos de BD, apresentou um custo total de € 6.640,71 com o preço médio de um livro de BD a fixar-se em € 17,38. Valores em linha com os verificados no ano anterior, o que pressupõe uma estabilização de preços. Em termos de preço de capa, o livro mais barato contabilizado foi uma edição da livraria/editora Sétima Dimensão (Madeira) por € 5,00 e no extremo oposto, encontramos como a edição mais cara, o segundo volume do integral Fábulas das Terras Perdidas da editora Arte de Autor com o preço de € 49,00. Assinala-se que o valor de venda mais praticado, mais uma vez, foi de € 9,99, novamente ditado pela editora Devir e pelas suas edições de manga.


AS EDITORAS

Em 2025, tivemos cinco dezenas de editora/chancelas activas no mercado português. Contabilizam-se aqui todas aquelas que editaram pelo menos uma obra de banda desenhada, com ISBN atribuído. Conforme já referido no top-10 observa-se uma distribuição equilibrada entre editoras independentes e chancelas integrantes de grupos editoriais. Volto a referir que não existe informação disponível acerca de tiragens e valores de vendas, pelo que o “peso” da cada editoras é aqui definido em função do número de novos lançamentos de cada uma face ao total do mercado. 

Sem surpresa, no topo das editoras nacionais, e pelo quinto ano consecutivo, encontramos a DEVIR. A novidade é dada pelo forte crescimento da sua oferta (+42%), que totalizou 91 novos títulos (dos quais 83 de manga). Um número que constitui um marco histórico para a editora, num ano em que reforçou o seu catálogo com BD de origem franco-belga e novos títulos americanos. Nos seus títulos mais vendidos encontramos as séries One Piece e Dragon Ball. Sozinha, a editora representa 24% da oferta total. 

Na segunda posição, encontra-se a editora ASA, pertencente ao grupo Leya. Também sem surpresas, uma vez que repete o lugar do ano passado. Cabe-lhe uma quota, em termos de lançamentos, de 10%. Apesar da quebra no número de lançamentos em relação a 2024, fica como a editora que mais vendeu em 2025, graças ao seu Asterix na Lusitânia

A fechar o pódio de 2025, temos duas editoras em ex-aequo: a DISTRITO MANGA (grupo Penguin) e a LEVOIR com 25 lançamentos cada. A primeira apresentou a maior taxa de crescimento entre todas, com um aumento de 67% da oferta. Com um catálogo assente na edição de manga, encontramos os títulos Blue Lock e o primeiro volume de Sailor Moon como os seus mais vendidos do ano. Segue-se a Levoir, que apesar da sua forte quebra (-40%), manteve uma aposta regular em novelas gráficas que lhe garantem a terceira posição neste pódio. 

O top-10 completo é dado pelo quadro seguinte: 

De mencionar a queda das editoras Gradiva e G.Floy. A primeira foi integrada no catálogo da editora Guerra e Paz, sendo por enquanto uma incógnita o futuro do seu catálogo de BD. A segunda vai mantendo, por enquanto, uma presença residual em Portugal. 

Observando numa óptica de grupos editoriais, temos a Penguin Livros a dominar com 53 lançamentos, resultado da actividade das suas sete chancelas que editaram banda desenhada; na segunda posição, encontramos a Leya, com cinco chancelas e 47 lançamentos; e na terceira posição a Porto Editora, com três chancelas e 27 lançamentos, e a fechar este top, a Editorial Presença, com três chancelas e 25 lançamentos. 

 

OS CANAIS DE DISTRIBUIÇÃO

Sem valores torna-se difícil estabelecer com rigor qual o principal canal de distribuição da banda desenhada em Portugal, mas atendendo aos hábitos de consumos dos portugueses, pode-se adivinhar que as livrarias físicas, tanto das grandes cadeias de distribuição ou independentes, continuam a ser o principal ponto de venda de BD em Portugal. No entanto, cresce o peso das vendas diretas online e das vendas em eventos, um modelo que apresenta a grande vantagem financeira de eliminar os intermediários na cadeia editor-leitor. 

OS FESTIVAIS DE BD

Todos os principais festivais nacionais de BD realizaram-se em 2025, à exceção da Comic Con, que foi adiada para 2026. Uma oferta complementada com outros pequenos eventos, mostras e mercados, que foram acontecendo pouco por todo o pais, incluindo os Açores (Ponta Delgada). Continuamos, no entanto, com uma grande concentração de festivais no segundo trimestre do ano (Coimbra, Maia e Beja), e depois um hiato até finais de Outubro quando acontece o Amadora BD. A sobreposição de datas prevista para 2026 (Coimbra BD e Comic Con no mesmo fim de semana), a realização do Maia BD praticamente colado ao Beja BD e as vantagens do mês de Setembro para o Amadora BD, mostra que talvez seja tempo de repensar o calendário nacional para uma melhor promoção da banda desenhada em Portugal.

OS CANAIS DE DIVULGAÇÃO

As redes sociais continuam a ser o canal privilegiados de divulgação das novidades por uma grande parte das editoras, quer seja através das contas próprias e/ou por intermédio de divulgadores com quem uma grande maioria destas mantém uma colaboração activa. Uma das formas de medir o alcance ou eficácia da divulgação será pelo número de visitantes. Socorro-me outra vez de números.

Tomando este espaço de divulgação como exemplo, porque tenho os dados, posso afirmar que no que toca à procura por informação sobre BD, o ano que agora termina foi verdadeiramente extraordinário. A verdade é que, sem grande espalhafato nem fogo-de-artificio, o blogue NOTAS BEDÉFILAS quebrou a barreira dos 2 milhões de visitantes algures em Julho, e, desde então, já acrescentou mais 244.000 e fecha o ano de 2025 com mais de 400.000 visitas (uma taxa de crescimento de quase 58% face ao ano anterior), o que dá uma média superior a 33.000 visitantes por mês. O melhor resultado de sempre. Confesso que não é o que me move, mas fico naturalmente satisfeito com estes números, e sobretudo agradecido pelo interesse no trabalho de divulgação aqui feito. 

E porque está tudo ligado, o grupo BANDA DESENHADA PORTUGAL (facebook), de partilha de toda a informação relacionada com o universo de banda desenhada alcançou os 10.000 membros, sendo um dos maiores espaços portugueses virtuais dedicados à BD. Assim, uma das conclusões que podemos retirar destes números, é que reflectem bem a vitalidade do nosso mercado: mais oferta, mais informação, mais leitores.

O DIA NACIONAL DA BD PORTUGUESA 

Quanto ao celebrado Dia da Banda Desenhada Portuguesa, passou, mais uma vez, completamente despercebido, sem quaisquer iniciativas de destaque por parte das editoras, e um silêncio absoluto na comunicação social. A própria Sociedade das Belas-Artes, cuja data de reconhecimento da BD como uma das artes superiores, que tanto entusiasmo histérico despoletou por essas redes sociais fora, nem uma referência teve, um pouco à semelhança do que (nada) faz pela divulgação da Banda Desenhada em Portugal ao longo do ano. Talvez a partir de 2026, a data ganhe alguma relevância dado que o governo criou o Prémio Nacional de Banda Desenhada com um valor monetário de 30 mil euros, e a Ministra da Cultura prometeu que a divulgação anual dos nomes dos premiados será feita precisamente no dia 18 de Outubro. Pronto, na falta de melhor temos o anúncio. 


Conclusão

Fechamos assim 2025 com o retrato de um mercado de BD equilibrado, que se mostra estável, com uma oferta diversificada, dos 7 aos 77 anos, e para o qual se observa que existe um público interessado que procura manter-se informado e que acompanha e alimenta a dinâmica editorial. E a certeza de que a BD continua como um sector vivo. Agora há espaço para os vários agentes intervenientes pensarem melhor acerca da sua promoção e visibilidade. Para 2026, pode-se dizer que logo em Janeiro vamos começar em grande. Talvez seja o prenúncio de mais um excelente ano. Boas leituras!

 

terça-feira, 30 de dezembro de 2025

A nova Comic Con Portugal!

Após o interregno em 2025, a COMIC CON Portugal regressa em 2026 cheia de novidades. Para além da mudança física de local, com o Europarque de Santa Maria da Feira a acolher agora o evento, o festival passa a ter uma periodicidade bianual, e alterou a sua identidade visual, apresentando agora um novo logótipo, feito de traços geométricos e com uma paleta de cores assente no preto, vermelho e amarelo, reforçado com a nova mensagem #Be Yourself que é acompanhada das frases "Be Bold" e "Be Brave".

E para aqueles que dizem que a Comic Con pouco tem de BD, uma daquelas “verdades” que é contrariada anualmente pela lista de autores convidados, a organização para 2026 já avançou com as presenças de:

  • Frank Miller (Sin City, 300, Batman: Ano Um, O Cavaleiro das Trevas, entre outras obras publicadas por cá) 
  • Jason Aaron (Southern Bastards, Os Malditos, Star Wars, entre outras obras)
  • Scott Snyder (O Regresso do Joker, Batman: O Último Cavaleiro da Terra, entre outras obras)
  • o português Daniel Henriques (não tenho conhecimento de qualquer obra publicada por cá)

Relativamente ao calendário, o evento decorrerá entre 23 e 26 de Abril, em datas que colidem com a realização do Coimbra BD. Portanto está marcado para 2026 um "confronto de irmãos", com a Comic Con de Paulo Cardoso contra o Coimbra BD de Pedro Cardoso. Não me parece que a BD saia a ganhar!


Amanhã: Estado da Arte - Análise do Mercado Editorial Nacional de Banda Desenhada em 2025


sábado, 27 de dezembro de 2025

As Melhores Leituras de BD de 2025

Abro hoje aqui a época de balanços. Já faço disto uma tradição. E começo pela divulgação do meu TOP-9 das melhores leituras de 2025. Obviamente que não li tudo o que foi por cá publicado, mas dentro do muito que li, devo dizer, mais uma vez, que tivemos mais um belíssimo ano. E se é verdade que há uma mão-cheia de obras com entrada directa (alguns já aqui fui dando nota) não é menos verdade dizer que houve depois uma meia-dúzia de álbuns com muita qualidade a lutar por entrar. Não foi fácil, mas está decidido. Prevaleceram gostos pessoais, prazer da leitura e qualidade da edição. O importante a realçar aqui é que continuamos a ser privilegiados com magnificas obras, que se tornam quase obrigatórias. E a lista que divulgo de seguida (a arrumação é aleatória) assim o confirma. 

TOP-9 de 2025:

  • A Fera – volume 2 (A Seita)

  • O Meu Irmão (Ala dos Livros)

  • Peças (Ala dos Livros)

  • Undertaker – O Mundo de Oz (Ala dos Livros)

  • Islander – Exílio  (Arte de Autor) 

  • Hoka Hey (Asa)

  • Os Filhos de Baba Yaga (A Seita/Arte de Autor)

  • Corpo de Cristo (Iguana)

  • O Castelo dos Animais – O Sangue do Rei (Arte de Autor) 



Breves notas sobre as escolhas:
 
A FERA
A segunda parte de uma bela história de amizade e compaixão. Da sua leitura, diria que quase que dispensava os balões das falas e deixava-me levar só pela beleza do desenho de Frank Pê, autor que nos deixou este ano. Graficamente tem uma intensidade rara. Mais que uma aventura do marsupilami, A FERA é uma comovente fábula dos tempos modernos, onde Zidrou demonstra que personagens icónicas da BD podem ser revisitadas e reinterpretadas com inteligência e profundidade. 

 
O MEU IRMÃO
Tripp oferece-nos nesta obra feita de coração aberto: na sua juventude, perdeu o irmão mais novo durante umas férias de Verão. Ser narrador de uma tragédia pessoal desta dimensão revela bem a sua necessidade de partilha e apaziguamento. Fá-lo de uma forma sóbria, com uma narrativa bem construída, num relato na primeira pessoa, assente em factos, emoções e sentimentos. O MEU IRMÃO é uma obra dura, de leitura difícil que nos toca. Justa vencedora do prémio de melhor álbum estrangeiro no festival Amadora BD. A critica completa pode ser lida aqui.

 
PEÇAS
PEÇAS é uma história que nos fala de relações humanas. Uma obra que aborda o amor nas suas várias formas. De casais em ruptura a paixões fugazes, de encontros fortuitos a amores estagnados, de encontros e desencontros a segundas oportunidades, de relações que definem uma vida. A critica completa pode ser lida aqui.

 
UNDERTAKER – O MUNDO DE OZ
A dupla Dorison e Meyer confirma mais uma vez o seu estatuto de referência: UNDERTAKER é, indiscutivelmente, dos melhores westerns da actualidade. A caracterização do Velho Oeste é feita através de ambientes hostis e personagens intensas e moralmente ambíguas. Neste oitavo volume, que encerra o díptico dominado pela Liga para a Supressão do Vício, temos o retrato do fanatismo religioso, nascido do pós-guerra - um confronto entre a fé e a liberdade individual de escolha, que coloca o cinismo de Jonas Crow como o eixo moral da narrativa.  
 
ISLANDER – EXÍLIO
ISLANDER é uma trilogia que nos antecipa um futuro distópico, de Europa palco de crises sociais e climáticas, de fronteiras fechadas e à beira do colapso civilizacional. E se os europeus fossem obrigados a emigrar? Uma narrativa com uma grande actualidade, de leitura cativante e visualmente impactante. A critica completa pode ser lida aqui.

 
HOKA HEY!
Trata-se de um belíssimo western, numa história de vingança, de leitura intensa até ao seu final. A acção de HOKA HEY! decorre em finais do século XIX. O Oeste americano encontra-se conquistado, e o que resta são cicatrizes profundas. O autor, Neyef apresenta-nos uma obra equilibrada, onde a dureza dos factos históricos, que recordam a responsabilidade do opressor, se misturam com a beleza implacável da paisagem, e onde personagens feridas encontram - ou perdem para sempre - a sua redenção. A critica completa pode ser lida aqui.

 
OS FILHOS DE BABA YAGA
Um Louro no melhor dos seus 40 anos de carreira. Um autor que se renova constantemente em termos narrativos e gráficos. Nesta obra, visualmente brilhante, a narrativa conduz-nos numa história negra de sobrevivência de um grupo de orfãos nas estepes geladas da frente russa durante a segunda grande guerra. A doce inocência da infância capitula cruelmente perante um estômago vazio. OS FILHOS DE BABA YAGA foi justamente vencedor do prémio de melhor álbum nacional no festival Amadora BD. A critica completa pode ser lida aqui.

 
CORPO DE CRISTO
É aqui um peixe fora de água. Primeiro estranha-se, depois entranha-se, porque a linguagem da banda desenhada não tem de seguir sempre as mesmas linhas e o mesmo padrão. CORPO DE CRISTO é uma obra ficcionada, que parte das memórias e da experiência real da autora em lidar com a doença mental da sua mãe. Destaco pela ousadia na abordagem gráfica feita de desenhos toscos e páginas bordadas, onde a arte de costureira (da mãe) é aqui transformada numa ferramenta narrativa de denúncia e critica para lidar com as cicatrizes deixadas pela falta de empatia médica, pelo estigma religioso e pela ignorância popular na abordagem da doença mental.

 
 O CASTELO DOS ANIMAIS - O SANGUE DO REI
Os animais da quinta perceberam que todos os animais são iguais, mas alguns são mais iguais do que os outros, e o movimento de libertação tem aqui o culminar de uma luta desigual. Mas a verdade é que por muito pacifica que possa querer fazer uma revolução, sabemos que no jogo da democracia se escondem jogos de regimes autoritários: propaganda, manipulação e fraude. Dorison explora com mestria os limites e riscos das revoluções não violentas. E Delep é exemplar no registo da expressividade animal. Fecha aqui uma bela aposta da editora.

 
 

sexta-feira, 19 de dezembro de 2025

E que sejamos todos encolhidos para um retrofuturo!

 
A Dupla Exposição

 

Os heróis que nos acompanham toda a vida (e de que gostamos) são os melhores! E essa é uma verdade quase insofismável. Na memória, guardamos aquela aventura que lemos no Natal de infância; outra que foi devorada quando ainda estávamos sobre o efeito do primeiro beijo dado à primeira namorada; a que lemos aos nossos filhos, abrindo-lhes o mundo da Nona Arte; ou ainda aquela lida num dia de Inverno calmo, doce e solarengo.


Para mim, Blake e Mortimer têm esse dom, o de estarem entre os melhores. Não só me antecedem como me ultrapassarão.


Criados por Edgar P. Jacobs em 1946 – comemorando para o ano 80 anos de vida –, o britânico do MI5 e o cientista escocês transcenderam a existência do seu criador e continuam (e ainda bem!) a viver as aventuras mais empolgantes.


Mas a comemoração de longevidade parece ter começado já neste final de 2025 com dose dupla dos heróis. Por um lado, com o 31.º volume da série-mãe, A Ameaça Atlante, de que se falará oportunamente. Por outro, com este A Dupla Exposição, escrito por James Huth e Sonja Shillito, e magnificamente ilustrado por Laurent Durieux. A Edições Asa acompanhou, mais uma vez, a publicação original em França das duas obras, permitindo ao leitor português a leitura em primeira mão na sua própria língua.


Sobre A Dupla Exposição, há que dizer que não é uma Banda Desenhada, mas antes um livro ilustrado publicado no formato italiano e que se insere numa colecção paralela designada por O Novo Capítulo, na qual escritor e ilustrador desenvolvem novas aventuras à volta de Blake e Mortimer.


A Dupla Exposição foi lido numa esplanada, aquecida por um suave sol de Inverno e acompanhado por todas as vitualhas a que tive direito. Só me levantei após ter terminado…


Vamos à história!


Primeiro de Maio de 1964. O voo da T.W.A., de Londres para Nova Iorque acaba de aterrar no aeroporto John F. Kennedy. Nele vieram Francis Blake e Philip Mortimer, convidados para a New York World’s Fair. Depois de recolherem as malas, apanham um yellow cab, para o centro de Manhattan, onde ficarão hospedados no elegante hotel The Pierre. Mas a sua presença não passa despercebida a um estranho personagem que confirma, por walkie-talkie a chegada dos dois amigos.


Mas o destino prepara-se para lhes pregar uma partida, assim que cada um se instala na sua suite. O professor Mortimer, após tragar dois golos de bourbon, cai no chão do quarto, inconsciente. Já o Capitão Blake lê a missiva que foi enfiada por debaixo da sua porta na qual Mortimer o informa ter ido explorar as redondezas, marcando encontro no “Futurama” na exposição universal.


Enquanto Blake se dirige para a World’s Fair, Mortimer recupera a consciência e percebe que está amarrado à sua cama. Conseguindo libertar-se, corre para a suite do amigo e descobre a missiva com a sua letra falsificada. Mortimer percebe de imediato que o amigo corre perigo e apressa-se a ir para o “Futurama”. Aí, encontra Blake sentado numa instalação imponente designada por Teletransportador no preciso momento em que os seis canhões de neutrões disparam a sua carga. Mortimer lança-se em socorro do amigo e ambos desaparecem perante o olhar atónito da multidão…

 

Se desconhecia por completo os nomes do casal James Huth e Sonja Shillito, o mesmo não posso dizer de Laurent Durieux, cujo taleto como artista gráfico há muito me encanta. Sobretudo na sua série de cartazes onde reinterpreta filmes conhecidos como Blade Runner, Jaws, Apocalypse Now, Chinatown, Titanic e tantos outros. O belga voltou a encantar-me com O Último Faraó, a sua primeira incursão no universo de Blake e Mortimer.

 

Esta é uma união feliz, a do casal Huth e Shillito (vindos do cinema) com Durieux. E isso está evidente na narrativa que acompanha na perfeição a estrutura do livro. Como já se disse, o formato é ao estilo italiano, na horizontal. As ilustrações são sempre de página inteira, sendo que na página oposta encontra-se o texto (que segue, por vezes, ao longo de duas páginas consecutivas). O resultado final são 68 páginas das quais 29 são com ilustrações e as restantes com texto (para além de duas ilustrações extra, uma na folha de rosto e a outra na contracapa).


A narrativa é clássica, descritiva, mas com diálogos que conferem uma certa dinâmica à leitura. Ao mesmo tempo, a trama tem um interesse reforçado pelo jogo que se faz com aventuras passadas de Blake e Mortimer, não impedindo isso a leitura d’A Dupla Exposição pelo leitor que desconheça os trinta e um volumes da série principal.


Os cavalheiros britânicos nossos conhecidos mantêm a fleuma e a elegância habituais, numa aventura onde a acção principal decorre numa cidade futurista-retro que cria no leitor admiração, resultado do apuramento estético de Laurent Durieux.


É sabido que o vilão de serviço em Blake e Mortimer é Olrik, desde 1946. E aqui não se abre uma excepção. No entanto, o leitor é brindado com todos os vilões que cruzaram o caminho dos dois heróis ao longo dos seus quase oitenta anos de existência. A saber: Olrik, Miloch, Septimus e Voronov. Ou seja, Huth e Shillito oferecem-nos um festival de vilania que, ainda para mais, tem origem 25 anos antes da presente aventura, remontando a 1939, na alvorada do Espadão. Espadão que tem também uma aparição neste livro.


O facto é que, o leitor embrenhado na leitura, envolvido pela narrativa eficaz de Huth e Shillito, lá vai dando com as ilustrações de Durieux. É sabido que os bons romances, novelas ou contos conseguem gerar no cérebro do leitor imagens muito fortes. Digamos que quem lê desenha mentalmente ilustrações ou bandas desenhadas. É o “filme do cérebro” como lhe chama o Professor António Damásio. Ora, quando Durieux ilustra duas ou três linhas de uma página, e a narrativa que as antecede e sucede se mantém empolgante, o nosso cérebro compensa a ausência de mais ilustrações desenhando a nossa própria BD ou ilustração ou filme.


E é precisamente neste ponto que percebemos o bom casamento realizado entre a palavra e a ilustração destes três autores. É impossível não estarmos empolgados com a leitura, deslumbrados com a arte ilustrativa e, ao mesmo tempo, sermos nós próprios os criadores mentais das imagens em falta. Atente no exemplo, caro leitor, que é antecedido por três parágrafos e sucedido por mais quatro linhas. Mas a ilustração, embora bela, só ilustra duas linhas.


- Saint Joseph de Cupertino, santo padroeiro dos aviadores, este não é o momento para me dececionares - brinca ele, à inglesa, antes de se lançar no vazio…

 

É preciso que se diga que James Huth é um apaixonado de Blake e Mortimer desde a infância. Por volta de 2000, desenvolveu até um projecto de adaptação de A Marca Amarela para o cinema em imagem real; faltou-lhe o financiamento. E agora, 25 anos passados, o editor e Laurent Durieux propuseram-lhe escrever este álbum com Soja Shillito. Huth e Durieux partilham uma paixão pelo retrofuturismo e chegaram a falar da exposição universal de Nova Iorque de 1964. E Huth chegou a oferecer-lhe um pin original do evento. Foi com surpresa que Huth viu no livro já publicado a reprodução desse pin na contracapa. A Dupla Exposição é uma verdadeira história de amizade, entre Blake e Mortimer e Huth e Durieux.

 

Influenciados pelo filme Viagem Fantástica (que seria depois novelizado por Isaac Asimov), mas também pela famosa série de BD franco-belga Les Petits Hommes, de Pierre Seron, Huth e Shillito acharam vantajoso encolherem Blake e Mortimer para esta aventura. Primeiro porque permitiria na perfeição a Durieux criar imagens inesquecíveis e depois, porque dar-lhes-ia mais liberdade para escrever fora da cronologia das aventuras dos dois heróis. Mas embora o álbum seja um hors-série, não deixa de observar todos os cânones criados por Edgar P. Jacobs para Blake e Mortimer.


E é essa uma das razões que torna este álbum uma verdadeira prenda de Natal para os admiradores dos dois personagens. Temos algo de novo, de original, com os comportamentos, atitudes e estética a que nos habituámos.

 

A outra razão é a arte magnífica de Laurent Durieux. Os leitores já lhe conhecem a paleta de cores do álbum O Último Faraó (Edições Asa), também ambientado no universo de Blake e Mortimer. Mas agora surge este trabalho de amor, onde o ilustrador e designer gráfico belga, particularmente apreciado por Coppola e Spielberg, mergulha verdadeiramente no universo Jacobiano.


O seu retrato do Capitão e do Professor é fiel ao original, mas com um toque próprio. E o mesmo se passa com os vilões. Em todos, “bons e maus”, Durieux respeita as posturas corporais desenvolvidas por Jacobs, bem como as indumentárias que se tornaram “imagem de marca”.


E, no entanto (sendo que o “no entanto” aqui é sinónimo de bom), a frescura da abordagem gráfica ao texto de Huth e Shillito é inovadora, sobretudo pelo desenvolvimento de um “micro” universo retrofuturista que dá a esta aventura de ficção científica um apelo único. Mas também pela capacidade de Durieux de condensar um texto numa ilustração, depurando-o até à sua essência.


Nada como folhearem o álbum numa livraria para logo ficarem apaixonados pela arte de Durieux.


Este é um álbum que se lê e vê com muito prazer, quase com reverência. E até a lombada em tecido ajuda à missa.


Um argumento bem urdido, com muitas piscadelas de olho à série principal, mas que, nem por isso, impede a leitura fluida. Simultaneamente, capaz de inovar e de observar os cânones criados por Edgar P. Jacobs para a série original. Repleto de reviravoltas, o final parece ficar em aberto… talvez a pensar numa continuação para 2026, ano da comemoração do 80.º aniversário de Blake e Mortimer. E que seja com a arte de Laurent Durieux. E que sejamos todos encolhidos para um retrofuturo!

Por Francisco Lyon de Castro.  

 

quinta-feira, 18 de dezembro de 2025

A leitura de PEÇAS

 

PEÇAS, o singelo título em português de um álbum, editado em Agosto último, pela Ala dos Livros, é um novo olhar sobre relações humanas da parte de Victor Pinel, autor da escola espanhola, que também assinou O mergulho (Ala dos Livros, 2022). A sinopse fala sobre "uma história de protagonistas com relações pessoais falhadas", e o titulo original, Échecs, joga com o duplo sentido da palavra: xadrez e fracasso.

Confesso que na altura me passou despercebido. E estava ali na pilha de livros a aguardar vez para ser lido. Ontem dei-lhe uma oportunidade. E em bom momento o fiz. Que leitura magnifica. Logo a abrir, um encontro fugaz. É o ponto de partida para um mosaico de vidas cruzadas em torno de “amores” desencontrados. Uma história de histórias humanas, que bem podiam ser reais, vividas por personagens complexas, todas diferentes entre si, e que aparentemente nada tem em comum. 

Encontramos uma velhota que no quarto do seu lar prefere ter a solidão como companhia, um famoso actor de televisão que não se identifica com a imagem pública de galã que tem, uma artista de rua que foge a qualquer compromisso sério, um estudante habituado a ser reconhecido como o melhor, uma jovem que se questiona sobre o seu relacionamento, uma mulher divorciada que casou com o seu trabalho, um casal gay que tenta manter viva uma relação à distância. Parece caótico. Não é. 

Mas voltamos à velhota, a senhora Dubois. É nela que o autor deposita a narração dos acontecimentos. Apaixonada pelo xadrez, aceita a contragosto a companhia de Samir, um jovem voluntário no lar. A relação não tem um início fácil, mas é quando ela lhe explica as regras do jogo, que o autor estabelece um paralelismo entre as peças e as suas características e as vidas e as relações das personagens que fomos conhecendo. E do desenrolar de vários jogos, temos o desfiar da história. 

Ao longo da narrativa, assistimos ao evoluir de cada relação, como se a cada decisão correspondesse uma jogada, ora de avanço, ora de recuo, ora de ataque ou de sacrifício. E é da sucessão dessas escolhas que nascem novos caminhos, encontros inesperados e viragens que nos prendem a atenção. E o que poderia ser uma verdadeira confusão, pela profusão de diferentes personagens e diferentes ritmos, dá uma excelente leitura, pela forma como as histórias acabam por se ligar e as personagens por encaixar de forma quase natural no muito harmonioso jogo da vida. Pinel ilustra tudo isto com um desenho limpo, de traço realista, e com uma palete de cores claras e suaves, muito agradáveis à vista. Tanto a nível narrativo como gráfico, fez-me lembrar Jordi Lafebre e o seu magnifico Apesar de Tudo.

Peças é, pois, uma obra que aborda o amor nas suas várias formas. De casais em ruptura a paixões fugazes, de encontros fortuitos a amores estagnados, de encontros e desencontros a segundas oportunidades, de relações que definem uma vida. Terminada a leitura, deixo a sugestão de um novo olhar para a capa do álbum, para nos fazer  lembrar aquela máxima “de que está tudo ligado”. Temos aqui uma belíssima obra, uma pérola escondida, que entrou diretamente para a minha lista das melhores leituras do ano.

A minha nota:  EXCELENTE ÁLBUM